A Cabana do Pai Toms
Harriet Beecher Stowe
 
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Resumo da contraCapa:
O Senhor Shelby viu-se forado a vender Tom - o melhor 
dos seus escravos. O Pai Toms, casado e pai de trs filhos, 
dirigia a propriedade do patro. 
 o relato comovente da sua cruel separao da famlia e 
da vida repleta de sofrimento que teve de enfrentar que faz 
desta obra um verdadeiro manifesto contra a escravatura. 

A Cabana Do Pai Toms
Verso portuguesa de
Ricardo Alberty
VERBO
Clssicos Juvenis
 Editorial Verbo
Capa e ilustraes: Augusto Trigo 
Composio: C. A. Artes Grficas
Impresso: Tilgrfica - Sociedade Grfica, Lda. em Janeiro de 
2000
Depsito Legal no 14598/00
N de. Ed. :1928
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http://www. editorialverbo. pt

NDICE
Cap. I	Onde o leitor trava Conhecimento com
um homem. . . . 	5
Cap. II	A me	. . . . I 2
Cap. III	Marido e pai. . 	. . . 14
Cap. IV	Um sero na cabana do pai Toms. . . 	. 18
Cap. V	Onde se vem os sentimentos da mercadoria
humana quando muda de proprietrio	. 23
Cap. VI	Descoberta. . . . . 	. . . 30
Cap. VII	Angstias de me. . . . 	. . . 36
Cap. VIII	Onde se v que um senador no passa	
de um homem	45
Cap. IX	Entrega da mercadoria	. . . 55
Cap. X	Em Casa dos Quakers	. . . 61
Cap. XI	Evangelina. . . . 	. 60
Cap. XII	0novo senhor de Tom	. . . 75
Cap. XIII	A senhora de Tom e as suas opinies	. . . 
84
Cap. XIV	Como se defende um homem livre. . . 	. . . 
94
Cap. XV	Experincias e opinies da Menina Oflia. . . 
. . . 	106
Cap. XVI	Topsy. 	. . . 116
Cap. XVII	O Kentucky. . . 	. . . 127
Cap. XVIII	0ramo pende, a flor murcha	. . . 131
Cap. XIX	Henrique. . . . . . . . 	. . . 135
Cap. XX	Sinistros pressgios. . . 	. . . 140
Cap. XXI	A morte	. . . 144
Cap. XXII	Tudo acaba. . . . 	. . . 153
Cap. XXIII	Reunio	. . 156
Cap. XXIV	Os abandonados. . . . . . . . . 	. 164
Cap. XXV	O mercado de escravos. . . . . . . . . 	. 168
Cap. XXVI	A travessia. . . . . . 	. . 172
Cap. XXVII	Lugares sombrios. . . . . . . 	. . 
175
Cap. XXVIII	Cassy. . 	. . 179
Cap. XXIX	Penhores da ternura. . . . 	. . 184
Cap. XXX	Liberdade. . . . . 	. . 189
Cap. XXXI	Vitria	. . 193
Cap. XXXII	O mrtir. . . . . . . . . 	. . 196
Cap. XXXIII	Ojovem senhor. . . . . . . . 	. . 200
Cap. XXXIV	Resultados. . . . 	. . 206
Cap. XXXV	O libertador. . . . 	. . 208

 
Captulo I
ONDE O LEITOR TRAVA CONHECIMENTO COM UM HOMEM
Ao cair da tarde de um fresco dia de Fevereiro, dois senhores 
estavam sentados em frente de uma bebida, numa casa de jantar 
bem mobilada, na cidade de P. , no Kentucky. No havia 
ningum em volta, e os dois senhores muito perto um do outro, 
pareciam discutir qualquer assunto com grande interesse. 
Por delicadeza, empregmos at aqui a palavra senhores. 
Mas um deles quando observado com ateno, no parecia 
merecer este ttulo. Era baixo e gordo, tinha feies 
grosseiras e vulgares, e o seu ar ao mesmo tempo pretencioso 
e insolente revelava o homem de condio inferior que quer 
vencer na vida e abrir caminho  custa de empurres. Vestia 
com exagero: colete de cetim brilhante e colorido, gravata 
azul salpicada de pintas amarelas, com o n empolado, 
absolutamente de acordo com o aspecto do dono. Tinha as mos 
curtas e grossas cobertas de anis e usava uma corrente de 
relgio de ouro, com um molho de berloques gigantescos que, 
no entusiasmo da conversa, fazia tilintar com evidente 
satisfao. A sua maneira de falar era um constante e 
audacioso desafio  gramtica de Murray, ornamentada de vez 
em quando com termos bastante profanos, que o nosso interesse 
em sermos exactos no nos permite contudo transcrever. 
O seu companheiro, o Senhor Shelby, tinha, pelo 
contrrio, todo o aspecto de um cavalheiro, e a disposio e 
os arranjos da casa indicavam uma vida desafogada e at 
opulenta. Conforme j dissemos, os dois homens travavam uma 
animada discusso. 
-  assim que tenciono resolver - dizia o Senhor Shelby. 
- Dessa maneira, no posso, Senhor Shelby, no 
posso!respondeu o outro, levantando o copo para ver o lquido 
atravs da luz. 
5
- Mas, Haley, o facto  que o Toms no  um homem 
vulgar; vale esse dinheiro em qualquer parte:  fiel, 
competente, e dirige a minha propriedade como um relgio. 
- Honesto! Quer dizer, at onde um negro pode ser 
honesto - continuou Haley, servindo-se de mais brande. 
- No! Quero dizer verdadeiramente honesto, organizado, 
inteligente e religioso. Converteu-se h quatro anos, quando 
passou por aqui uma misso itinerante. E eu acredito que a 
sua f seja sincera. A partir desse dia, confiei-lhe tudo 
quanto possuo: dinheiro, casa, cavalos, e dixo-o andar  
vontade pela regio. Sempre me deu provas de que  seguro e 
fiel. Tenho pena de me separar de Tom, confesso. . . Vamos, 
Haley, ficam saldadas as nossas contas. . . Ser assim. . se 
o senhor tiver um pouco de conscincia. 
- Tenho tanta conscincia como qualquer outro homem de 
negcios. A suficiente para poder jurar sobre ela - disse o 
mercador em ar de graa -, e por isso estou pronto a fazer 
tudo o que seja razovel para agradar aos amigos. . . mas os 
tempos esto difceis, muito difceis. 
O negociante suspirou com ar compungido, e serviu-se 
novamente de brande. 
- Ento, Haley, quais so as suas ltimas condies? - 
perguntou o Senhor Shelby, aps uns instantes de silncio 
embaraoso. 
- No tem qualquer coisa, um rapaz ou uma rapariga, que 
pudesse fazer um lote com o Tom?
- Hum! Em todo o caso, ningum que eu possa dispensar. 
Para ser
franco, s uma grande necessidade me obriga a vender. 
No gosto de me separar dos meus ajudantes, esta  a verdade. 
Nesse momento a porta abriu-se, e um rapazinho mestio, 
de quatro ou cinco anos de idade, entrou na sala. Era 
extraordinariamente bonito e simptico. O cabelo preto, fino 
como seda, caa em caracis reluzentes em volta do rosto 
redondo, com covinhas nas faces; dois grandes olhos negros, 
cheios de ternura e brilho, miravam atravs das pestanas 
fartas e longas. Olhou com curiosidade em redor da sala. 
Vestia uma tnica de xadrez amarelo e vermelho, cortada com 
esmero e justa ao
corpo, de maneira a pr em relevo todos os pormenores da 
sua beleza de mulato; junte-se a isto um certo ar de 
segurana cmica, misturada
de timidez, que revelava bem ser ele o favorito mimado 
do seu senhor. 
- Anda c, mestre Corvo - chamou o Senhor Shelby, dando 
um assobio e atirando-lhe um cacho de uvas. . . - V! Apanha!
O rapaz saltou com toda a fora dos pequenos membros, e 
agarrou a presa, enquanto o senhor ria. 
- Agora, Jim Corvo, mostra a este senhor como sabes 
cantar e danar.
P[6)
 A criana comeou uma daquelas canes grotescas e 
selvagens, bastante comuns entre os negros. Tinha a voz clara 
e timbrada, e acompanhava o canto com movimentos muito 
cmicos, das mos, dos ps, e de todo o corpo, ao ritmo 
exacto da msica. 
- Bravo! - exclamou Haley, atirando-lhe um quarto de 
laranja. 
- Agora, Jim, imita o andar do velho Cudjox quando 
est com reumatismo. 
No mesmo instante, os membros flexveis do garoto 
contorceram-se e deformaram-se, ao mesmo tempo que lhe 
aparecia entre os ombros uma corcunda, e, pegando na bengala 
do seu senhor, coxeou pela sala, mimando no rosto infantil a 
velhice dolorida, cambaleando da esquerda para a direita como 
um octogenrio. 
Os dois homens riam  gargalhada. 
- Agora, Jim - disse o senhor -, mostra como canta 
o velho Eldec Bobbens na igreja. 
A criana alongou desmedidamente a cara redonda, e com uma 
gravidade imperturbvel, comeou uma ladainha fanhosa. 
- Viva! Bravo! Que rapaz to engraado! - disse 
Haley. - Est resolvido- E pondo a mo no ombro do Senhor 
Shelby, acrescentou:
- Levo este rapaz, e fica o assunto arrumado... No sou 
uma pessoa condescendente, h?
Naquele momento a porta abriu-se devagar, e uma 
jovem escrava mestia, com cerca de vinte e cinco anos, 
entrou na sala. Bastava uma rpida comparao entre ela e a 
criana, para se ficar com a certeza de que eram me e filho. 
Tinha os mesmos olhos pretos e brilhantes, com as mesmas 
pestanas compridas; os mesmos cabelos negros e sedosos. . O 
traje, de um asseio impecvel, fazia realar toda a beleza da 
sua elegante figura. As mos delicadas, os ps pequenos e os 
tornozelos finos no podiam escapar aos olhos sagazes do 
negociante. 
- O que h, Elisa? - perguntou o senhor, quando ela 
parou e ficou a olhar com hesitao. . . 
- Desculpe, senhor, vinha  procura do Harry. . . 
A criana correu para ela, mostrando o prmio que 
juntara no regao da sua tnica. 
- Ento leva-o - disse o Senhor Shelby. Ela saiu 
rapidamente, levando o filho nos braos. 
- Por Jpiter! - exclamou o mercador -, isto  o 
que se chama um bom artigo! Com esta rapariga pode fazer uma 
fortuna em Orlees quando lhe apetecer! J vi contar notas de 
mil por raparigas que no davam pelos calcanhares desta. 
- No preciso de fazer fortuna  custa dela - respondeu 
secamente o Senhor Shelby. E, para mudar de conversa, abriu 
outra garrafa de brande e perguntou ao companheiro que tal 
achava a qualidade. 
- Excelente! De primeira ordem! - disse o negociante. 
Depois, voltando-se e batendo familiarmente no ombro do 
Senhor Shelby, acrescentou: - Vamos, quanto quer pela 
rapariga? Prefere que eu oferea, ou prefere pedir?
- Senhor Haley, a rapariga no  para vender. A minha 
mulher no a dispensava nem pelo seu peso em ouro. 
- Eh Eh As mulheres dizem sempre isso porque no sabem 
fazer contas. Mas mostrem-lhes quantos relgios, plumas e 
berloques podero comprar com o peso em ouro de uma pessoa, e 
mudam logo de opinio, aposto. 
- Repito, Haley: no vale a pena falar do assunto. Digo 
que no, e est dito! - respondeu Shelby com firmeza. 
- Ento ceda-me o rapaz - disse o mercador. - Concorde 
que bem o mereo. . . 
- Mas, para que quer o garoto? - perguntou-lhe Shelby. 
- Tenho um amigo que se dedica a esse ramo de negcio. 
Precisa de rapazinhos engraados para os tornar a vender. So 
artigos de fantasia: as pessoas ricas pagam-nos bem. Nas 
grandes casas, gostam de ter um rapazinho bonito para abrir a 
porta, servir  mesa, para os recados. E este diabrete, com 
as suas msicas e imitaes, serve  maravilha. 
- Preferia no o vender - respondeu o Senhor Shelby, 
pensativo. 
- O facto  que sou um homem de sentimentos: no gosto de 
tirar um filho  me, sabe?
- Ah,  isso? Histrias! Chamam-lhe a voz do sangue... 
Compreendo: h ocasies em que  muito aborrecido lidar com 
as mulheres. Sempre embirrei com aqueles gritos e lamentos. . 
. So muito incmodos. Procuro sempre evitar essas situaes. 
Se fizer desaparecer a rapariga um dia. . . ou uma semana, j 
facilita as coisas. Quando ela voltar, no h mais problemas. 
. . A sua mulher pode oferecer-lhe uns brincos, um vestido 
novo, ou qualquer outra bugiganga como compensao. 
- Receio que no d resultado!
- Bem sabe que estas criaturas no so como os brancos. 
Fazem o que a gente quer se forem bem dirigidos. Dizem para 
a - continuou Haley, tomando um ar inocente, e em tom 
confidencial - que este gnero de negcio endurece o corao; 
mas eu no acho. A verdade  que eu no faria como fazem 
certas pessoas. Vi alguns que arrancavam  fora um filho dos 
braos da me para o venderem. E a pobre mulher gritava como 
uma doida. . .  mau sistema. . . D cabo do artigo, e s
vezes deixa-o imprprio para consumo. Mais vale fazer as 
coisas com humanidade, senhor. Foi a experincia que me 
ensinou. 
O mercador inclinou-se para trs no cadeiro e cruzou os 
braos, dando todos os sinais de uma virtude irrepreensvel. 
Havia qualquer coisa de to curioso e original nestas 
demonstraes de humanidade, que o prprio Senhor Shelby no 
pde conter o riso. 
O riso do Senhor Shelby encorajou o negociante a 
continuar. 
-  na verdade estranho mas no consegui meter isto na 
cabea das pessoas. Tom Liker, sabe, o meu antigo scio, na 
regio dos Natchez: era um rapaz esperto, l isso era, mas um 
verdadeiro carrasco para os pretos. Devia ser uma questo de 
princpios, porque nunca vi melhor corao entre os filhos de 
Deus. Eu costumava dizer-lhe: Ento Tom, quando estas 
raparigas esto tristes e choram, que ideia  essa de lhes 
bateres e dares murros na cabea?  ridculo, e nunca 
resulta. Deixa-as gritar!  a natureza! E se a natureza no 
se satisfaz de uma maneira, satisfaz-se de outra. Alm disso, 
Tom", dizia-lhe eu outra vez, estragas-me as pequenas; 
adoecem, e s vezes ficam horrveis, principalmente as 
mulatas; e depois  o diabo para as fazer voltar ao que eram. 
No podes convenc-las de outra maneira? Falar-lhes com mais 
suavidade? Pensa nisso, Tom. Um pouco de humanidade rende 
mais do que todos os teus murros e socos. Vale bem a pena. 
Pensa nisso, Tom!" Mas o Tom no tinha emenda. Estragou-me 
tanta mercadoria que eu tive de correr com ele, apesar de ter 
um bom corao e dedo para o negcio. 
- E acha que o seu sistema  prefervel ao dele? - 
perguntou o Senhor Shelby. 
- Acho, sim senhor. Posso prov-lo. Sempre que posso, 
evito os aborrecimentos. Se tenciono vender uma criana, 
afasto-a da me, e sabe: longe da vista, longe do corao. E 
quando est feito e no h mais remdio, elas acabam por se 
conformar. No  como os brancos, que so educados na ideia 
de conservarem os filhos, as mulheres e tudo o mais. Um preto 
que foi domesticado como deve ser, no conta com isso, e 
torna-se tudo mais fcil. 
- Nesse caso, creio que os meus no foram domesticados 
conve nientemente. 
- Acredito. Vocs, os de Kentucky, estragam os vossos 
pretos. Tratam- nos bem de mais. Afinal, isso no  ser bom. 
Pegue num preto. Foi feito para girar de mo em mo, para ser 
vendido a Pedro, a Paulo, sabe-se l a quem! No  
conveniente meter-lhe ideias na cabea, dar-lhes esperanas, 
para ele depois sofrer misrias e maus tratos que lhe custam 
mais a suportar. Acho que mais valia os vossos pretos serem 
tratados como os das outras plantaes. Sabe, Senhor Shelby, 
toda a
gente pensa sempre que est dentro da razo, e eu penso que 
trato os pretos da nica maneira que eles devem ser tratados. 
- Deve sentir-se muito satisfeito com isso - respondeu o 
Senhor Shelby, encolhendo os ombros, sem poder esconder uma 
desagradvel impresso. 
- Ento - perguntou Haley aps al guns segundos de 
silncio, que responde?
- Vou pensar no assunto e falar com a minha mulher - 
respondeu Shelby. 
Entretanto Haley, se quer que este negcio seja
feito com a discrio de que falou, no deixe transpirar 
nem uma palavra na vizinhana; espalha-se a notcia entre a 
minha gente, e garanto-lhe que depois no ser fcil acalm-
los. 
- Oh, certamente! Nem uma palavra, claro! Mas por outro 
lado, juro-lhe que tenho uma pressa dos diabos, e que preciso 
saber o mais cedo possvel com o que posso contar - disse ele 
levantando-se e vestindo o capote. 
- Procure-me esta tarde, entre as seis e as sete - disse 
o Senhor Shelby -, e dou-lhe uma resposta. 
O mercador fez uma vnia e saiu. 
- No poder eu atir-lo pela escada abaixo! - pensou o 
Senhor Shelby quando viu a porta fechar-se completamente. - 
Que grande patife! Sabe os trunfos que tem na mo. Ah, se 
algum me tivesse dito
que um dia eu era obrigado a vender o Tom a um destes 
amaldioados mercadores, eu teria respondido: Um criado  
algum co para o tratarmos assim?" E agora vou faz-lo, no 
h mais remdio. E o filho
da Elisa! Vou ter de ouvir a minha mulher por causa 
disso e tambm por causa de Tom. Para pagar as dvidas! O 
patife sabe as suas vantagens e aproveita-se. 
O Senhor Shelby era um homem de carcter, uma natureza 
condescendente e terna, indulgente para com todos os que o 
rodeavam. No esquecia nada que pudesse contribuir para a 
sade e bem-estar dos negros dentro da sua propriedade. Mas 
lanara-se em especulaes
audaciosas; comprometera-se em somas considerveis. O 
seu dinheiro estava nas mos de Haley.  esta a explicao do 
dilogo que relatmos antes. 
Elisa, ao aproximar-se da porta, ouviu o suficiente 
para compreender que o mercador estava a fazer ofertas por um 
escravo qualquer. Tinha querido ficar atrs da porta a ouvir, 
mas nesse instante a senhora chamou-a e teve de se ir embora. 
Pareceu-lhe porm que se tratava do filho. Estaria 
enganada? Sentiu o corao bater-lhe com mais fora. Apertou 
involuntariamente a criana contra o peito com tanta fora 
que o pequeno olhou para ela muito espantado. 
P[10]
 - Elisa, que tens tu hoje, minha filha? - perguntou a 
senhora ao v-la trocar um objecto por outro, fazer tombar a 
mesa de costura, e dar-lhe uma camisa de noite em vez do 
vestido de seda que ela pedia. Elisa parou de repente. 
- Oh, minha senhora - disse ela, levantando os olhos ao 
cu. Depois numa crise de choro, deixou-se cair numa cadeira, 
soluando. 
- Ento, Elisa, minha filha! Vamos, que tens tu?
- Oh, minha senhora, minha senhora! Esteve c um 
negociante a falar na sala com o senhor. Eu ouvi.
- E depois, minha tonta? Que tem que estivesse?
- Ah, minha senhora, acredita que o senhor era capaz de 
vender o meu Harry?
E a pobre mulher atirou-se de novo sobre a cadeira, 
soluando convulsivamente. 
- Vend-lo? No, minha tonta! Sabes perfeitamente que o 
senhor no faz negcios com os mercadores do Sul, nem costuma 
vender os seus escravos enquanto eles se portarem bem. E 
depois, minha tonta, quem podia querer comprar o teu Harry, e 
para qu? Julgas que ele vale para toda a gente o mesmo que 
para ti? Vamos, enxuga as lgrimas e abotoa-me o vestido. 
Agora penteia-me o cabelo para cima, como te ensinei o outro 
dia, e no tornes a escutar s portas. 
- Prometo, mas, minha senhora, a senhora no consentia 
que. . . que. . . 
- Que disparate! Claro que no! Para qu falar mais no 
assunto? Era o mesmo que vender um dos meus filhos. Mas na 
verdade, Elisa, comeas a sentir demasiado orgulho nesse 
pequeno. No pode entrar ningum pela porta dentro, que no 
penses logo que  para o comprar. 
Acalmada pelo tom confiante da sua senhora, Elisa acabou 
de a vestir rapidamente, e riu-se dos seus prprios receios. 
A Senhora Shelby era uma mulher superior, tanto pelos 
sentimentos como pela inteligncia. A esta grandeza de alma 
natural, a esta elevao de esprito, que  muitas vezes a 
caracterstica que distingue as mulheres de Kentucky, aliava 
princpios altamente morais e sentimentos religiosos pelos 
quais se conduzia com grande firmeza e tctica, em todas as 
circunstncias da vida. O marido, que no professava nenhuma 
religio em especial, tinha contudo o maior respeito pela 
religio da mulher, e deixava-a dar livre curso  sua 
benevolncia em tudo o que se referia ao aperfeioamento, 
instruo e bem-estar dos escravos, embora nunca interferisse 
directamente no assunto. No acreditando muito na doutrina da 
eficincia das obras dos santos, dava a entender de uma 
maneira ou de outra que a mulher tinha virtude pelos dois, e 
que esperava ganhar o cu com o excesso das virtudes dela, 
dispensando assim qualquer atitude pessoal!
P[11]
 O que o preocupava agora, depois da conversa com o mercador, 
era a necessidade de pr a mulher ao corrente do acordo 
feito, e ter de enfrentar todas as razes que ela no 
deixaria de apresentar. 
A Senhora Shelby ignorava completamente as dificuldades 
do marido, e sabendo que ele era bom, no acreditou 
sinceramente nos receios de Elisa. 
Nem sequer pensou mais no caso; estava a arranjar-se 
para fazer uma visita nessa noite, e tudo o resto lhe passou 
inteiramente da memria.

Captulo II
A ME
Educada desde a infncia pela sua senhora, Elisa fora 
sempre a preferida a quem se d demasiado mimo. 
Quem tenha viajado pelo Sul pde notar a elegncia 
requintada, a suavidade da voz e das maneiras, que parecem 
ser o dom particular de certas mulatas. Essas graas naturais 
das mestias esto muitas vezes ligadas a uma beleza 
verdadeiramente fascinante, e quase sempre realada por 
encantos pessoais. Casara com um homem da sua condio, 
inteligente e hbil, que vivia numa propriedade vizinha. 
Chamava-se Jorge Harris. 
Este jovem fora alugado pelo seu senhor para trabalhar 
numa fbrica de sacos, onde o seu talento e modstia lhe 
haviam merecido um lugar de destaque. Tinha inventado uma 
mquina de limpar cnhamo que, dados os conhecimentos e a 
posio social do invento, revelara tanto engenho como 
Whitney ao inventar a sua descaroadora de algodo. 
Jorge era amvel e simptico, e estimado por toda a 
gente da fbrica. Todavia, como este escravo, segundo a lei, 
no era um homem, mas uma coisa, todas essas qualidades 
superiores estavam sujeitas ao controle tirnico de um senhor 
vulgar, de ideias estreitas. Informado da inveno, dirigiu-
se  fbrica para ver os resultados daquela engenhosa 
mquina. Foi recebido com entusiasmo pelo director, que o 
felicitou por possuir um escravo com tanto mrito. 
Jorge fez as honras da casa, mostrou-lhe a sua mquina 
e, um pouco excitado pelos elogios que recebeu, falou to 
bem, revelou-se to superior, pareceu to seguro de si, que o 
senhor comeou a sofrer uma desagradvel sensao de 
inferioridade. Porque havia o seu escravo de andar pela 
regio a inventar mquinas, de cabea levantada entre os 
senhores? Era preciso pr termo quilo e lev-lo outra vez 
para casa, obrig-lo a cavar e a sachar a terra. . . A ver se 
nessa altura se mostrava
P[12]
 to soberbo! Por isso, o fabricante e todos os operrios 
ficaram muito espantados ao ouvir aquele homem pedir a conta 
de Jorge, que, segundo disse, queria levar consigo. 
- Mas, senhor - disse o fabricante -, no acha que  uma 
deciso muito repentina?
- E que interessa? Ele pertence-me ou no?
- Estamos dispostos a aumentar o que lhe pagamos. 
- No  razo para que ele fique. No preciso de alugar 
os meus trabalhadores, se no me apetecer. 
- Mas ele parece ter nascido para este trabalho. 
- Acredito. Em contrapartida, nnca se adaptou aos 
trabalhos que lhe entreguei. 
- E depois - disse por acaso um dos operrios -, pense 
na mquina que ele inventou. 
- Ah, sim Uma mquina para lhes tirar o trabalho das 
costas, no ? Foi o que ele inventou, aposto. S um preto 
podia inventar uma coisa dessas. Eles prprios no passam de 
mquinas, todos eles. Est decidido: ele vem comigo. 
Jorge ficou como petrificado ao ouvir esta sentena da 
boca de um homem que ele sabia inexorvel. Cruzou os braos e 
apertou os lbios com fora, mas sentiu arder-lhe no peito um 
vulco de amargos sentimentos, e uma corrente de fogo nas 
veias. Respirou ofegante e os
seus grandes olhos pretos brilharam como carves em brasa. 
Teria talvez explodido se o dono da fbrica no lhe tocasse 
no ombro amigavelmente, dizendo-lhe em voz baixa:
- Calma, Jorge; vai com ele. Eu tentarei ajudar-te. 
O tirano reparou nesta conversa, e depreendeu o sentido, 
embora no conseguisse ouvir o que diziam, e mais decidido 
ficou a exercer o poder que tinha sobre a sua vtima. 
Jorge foi levado para casa e entregue aos trabalhos mais 
rudes da propriedade. Evitava qualquer palavra desagradvel, 
mas os olhos cheios de brilho, o rosto sombrio e fechado, no 
so tambm uma
linguagem, uma linguagem  qual no se pode impor silncio? 
Sinais demasiado evidentes, que provam que no se pode 
transformar um homem numa coisa!
Foi durante o tempo feliz do seu trabalho na fbrica que 
Jorge conheceu Elisa e casou com ela: durante esse perodo, 
gozando da confiana e amizade do seu chefe, tinha plena 
liberdade de entrar e sair
quando lhe apetecia. Este casamento recebeu a aprovao 
da Senhora Shelby que, como todas as mulheres, gostava muito 
de fazer casamentos: sentia-se feliz por casar a escrava 
favorita com um homem da sua
classe, que alis condizia com ela em todos os aspectos. 
Casaram portanto no grande salo da Senhora Shelby, que quis 
ser ela prpria a
P[13)
 enfeitar com flores de laranjeira os cabelos da noiva e a 
pr-lhe o vu nupcial. Nunca nenhum outro vu cobriu decerto 
cabea mais encantadora. Nada faltou, nem as luvas brancas, 
nem os doces, nem o vinho. 
Acorreu toda a gente para louvar a beleza da rapariga e 
a graa e liberalidade da sua senhora. 
Durante um ou dois anos, Elisa viu o marido com 
frequncia. Nada interrompeu a sua felicidade, a no ser a 
perda de dois filhos de tenra
idade, a quem ela tinha muito amor. Deu tais largas ao 
seu desgosto que a senhora se viu obrigada a censur-la com 
benevolncia, levando-a com solicitude verdadeiramente 
maternal a conter os seus legtimos
sentimentos dentro dos limites da razo e da religio. 
Todavia, aps o nascimento do pequeno Harry, ela conformara-
se e acalmara-se a pouco e pouco: todos os laos de sangue se 
concentraram naquele pequeno ser e retomaram toda a sua 
fora. Elisa foi ento
uma mulher feliz at ao dia em que o marido, arrancado 
violentamente  fbrica, ficou sob o jugo frreo do seu 
possuidor legal. 
O fabricante, fiel  sua palavra, foi visitar Harris, uma ou 
duas semanas depois da partida de Jorge. Esperava que o 
mpeto de clera tivesse passado. Fez todos os esforos para 
conseguir que lhe dessem novamente o escravo. 
- No perca mais tempo a falar no assunto - respondeu 
Harris em tom brusco e irritado. - Sei muito bem o que fao, 
senhor. 
- No pretendo influenci-lo; julguei simplesmente que 
achasse do seu interesse entregar-me este homem com a 
condio de. . . 
- Compreendo. . Surpreendi no outro dia as suas atitudes 
e segredos; mas no me deixo convencer com tanta facilidade. 
. . Estamos num pas livre, no se esquea. O homem pertence-
me, fao dele
o que quiser. Acabou-se. 
E assim se desvaneceu a ltima esperana de Jorge. . 
Agora s tinha na sua frente uma vida de trabalho e de 
misria, mais amargurada ainda com todas as partidas 
mesquinhas, todos os vexames e ferroadas de uma tirania 
frtil em invenes. 
Certo jurisconsulto bondoso disse uma vez: No se pode 
fazer coisa pior a um homem do que enforc-lo. " Enganava-se: 
pode fazer-se ainda pior!
Captulo III
MARIDO E PAI
A Senhora Shelby foi-se embora. Elisa ficou  varanda, 
seguindo com os olhos tristes a carruagem que se afastava. 
Sentiu a mo de
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 algum no ombro. Voltou-se, e um alegre sorriso iluminou-lhe 
o rosto:
- Jorge! Assustaste-me! Oh, estou to contente por 
te ver! A senhora volta tarde. Vem ao meu quarto; temos muito 
tempo  nossa frente. 
Dizendo estas palavras arrastou-o para um lindo 
quartinho que dava para o vestibulo, onde ficava normalmente, 
ocupada a coser, e ao alcance da voz da senhora. 
- Oh, sinto-me to feliz. Mas, porque no dizes nada? 
Olha para o Harry, como est crescido!. . . - A criana 
deitava ao pai olhares furtivos atravs dos caracis dos 
cabelos fartos, agarrado s saias da me. 
- No  lindo? - perguntou Elisa, afastando-lhe os 
pesados caracis e beijando-o. 
- Mais valia que nunca tivesse nascido - disse Jorge 
amargamente. - Eu prprio nunca devia ter nascido. 
Surpreendida e assustada, Elisa sentou-se, apoiando a 
cabea no ombro do marido, e comeou a chorar. 
E ele disse-lhe com ternura:
- Fui mau em fazer-te sofrer assim, Elisa. Oh, muito 
mau. Porque me conheceste? Podias ter sido feliz!
- Jorge! Jorge! Como podes falar dessa maneira? Que 
coisa horrvel te aconteceu? Que se passa? Temos sido felizes 
at aqui. 
- Sim, querida, temos sido felizes - respondeu Jorge. 
Ento, sentando a criana nosjoelhos, fitou demoradamente os 
seus olhos pretos e brilhantes, e passou-lhe a mo sobre os 
caracis soltos. 
-  a tua cara, Lizzy E tu s a mulher mais bonita que 
eu vi na minha vida e a melhor que eu podia desejar ter. . . 
e mesmo assim, eu preferia que nunca nos tivssemos 
conhecido!
- Oh agora, meu caro Jorge,  que no devias dizer isso. 
. . Sei como te afligiu perder o teu lugar na fbrica. . . 
Sei que tens um senhor muito cruel. . . Mas peo-te que 
tenhas pacincia. . . Talvez que. . . 
- Pacincia! - exclamou ele, interrompendo-a. - No tive 
j bastante pacincia? Disse uma s palavra quando ele me foi 
tirar, sem razo nenhuma, daquela casa onde todos eram bons 
para mim? O lucro do meu trabalho pertencia-lhe, e todos 
diziam que eu trabalhava bem. 
-  Jorge Jorge Assustas-me. Nunca te ouvi falar assim. 
Receio que faas alguma coisa horrvel. . . Compreendo o que 
sentes; mas tem cuidado, Jorge por mim e pelo Harry.
- Tenho sido prudente e suportado com pacincia, mas de 
dia para dia as coisas pioram: a carne e o sanguej no 
aguentam mais. Ele no perde a ocasio de me insultar e 
atormentar. Julguei que podia fazer o meu trabalho, viver em 
paz, e estudar nas horas livres. . . Mas no! Quanto mais 
fao, mais ele carrega!. . . Afirma que, apesar de eu no
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 dizer nada, percebe que eu tenho o diabo no corpo, e que  
preciso faz- lo sair c para fora. . . Pois bem, um dia 
destes o diabo sai, mas, ou me engano muito, ou ser de uma 
forma que no lhe vai agradar. . . 
- Oh, querido! Que vamos fazer? - perguntou Elisa, 
banhada em lgrimas. 
- Ainda ontem - continuou Jorge -, estava a carregar 
pedras para um carro. O senhor novo, o Senhor Tom, estava ali 
a fazer estalar o chicote to perto do cavalo, que assustava 
o pobre animal. Eu pedi-lhe o mais delicadamente possvel que 
parasse, mas ele no fez caso. Tornei a pedir, e ele voltou-
se para mim e comeou a bater-me. Eu segurei-lhe a mo, e ele 
gritou e deu-me pontaps, e correu para o pai, a dizer que eu 
lhe tinha batido. Ele ficou furioso, e disse que me ia 
ensinar quem era o meu senhor. Depois prendeu-me a uma 
rvore, cortou umas poucas de varas, e disse ao filho que 
podia bater-me at se cansar. E ele assim fez. . . Um dia, 
ele h-de lembrar-se disso!
O rosto do escravo transtornou- se. Passou-lhe um claro 
nos olhos. A mulher estremeceu. . . 
- Quem fez deste homem o meu dono? - murmurou ele ainda, 
isso  que eu gostava de saber!
- Mas - tornou Elisa -, eu sempre acreditei que para ser 
boa crist, devia obedecer ao meu senhor e  minha senhora. 
- No teu caso, talvez esteja certo: eles educaram-te 
como a uma filha, sustentaram-te, vestiram-te, trataram-te 
bem, instruram-te. Isso d-lhes direitos. Mas eu s tenho 
recebido socos e pontaps, insulttos e palavres. E na melhor 
das hipteses, esqueceram-se de mim.  tudo quanto lhes devo! 
Paguei o meu sustento cem vezes. . . Mas acabou-se! No, no 
quero sofrer mais. . . No quero! - E fechou o punho, 
franzindo as sobrancelhas, com ar terrvel. 
Elisa estremeceu novamente e calou-se. Nunca tinha visto 
o marido naquele estado, e todo o seu poder de persuaso caiu 
por terra como um frgil junco sob a tempestade daquela 
paixo. 
- Sabes - continuou Jorge -, aquele co que me deste, o 
Carlo? Era a minha alegria:  noite, dormia comigo; de dia 
acompanhava-me para toda a parte: olhava-me com ternura, como 
se compreendesse o meu sofrimento. . Outro dia, eu estava a 
dar-lhe uns restos que apanhei  porta da coznha. O senhor 
viu e disse que eu sustentava o co  custa dele. . . que no 
estava para gastar dinheiro com os ces dos negros, e mandou-
me atar-lhe uma pedra ao pescoo e atir-lo para o tanque. 
-  Jorge, tu no eras capaz de fazer uma coisa dessas!
- Eu no! Mas ele fez! Chamou o filho, e ambos atiraram 
pedras ao pobre animal que se afogava. . . O Carlo olhava-me 
com tristeza, como se perguntasse porque  que eu no ia 
salv-lo. . . Ainda apanhei
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 chicotadas por no lhes ter obedecido. No importa! O senhor 
vai ficar a saber que eu no sou daqueles que se deixam 
dominar pelo chicote. . . H-de chegar a minha vez. . . Ele 
que tenha cuidado!
- Que vais fazer, Jorge? No faas algum disparate. 
Se acreditas em Deus e procederes bem, ele h-de salvar-te. 
- Eu no sou cristo como tu, Elisa. Tenho o peito cheio 
de amargura e no posso confiar em Deus. . . Eu queria ser 
bom. . . mas o meu corao arde em dio, e no h nada que 
apague este fogo. Tu prpria no conseguirias. . . e no 
conseguirs agora mesmo, quando souberes toda a verdade.
- Que mais pode haver ainda?
- Escuta. Ultimamente o senhor tem dito que fez mal em 
me deixar casar fora da propriedade dele; que odeia o Senhor 
Shelby e a famlia porque so orgulhosos e o olham com 
desprezo. Diz que tu me pegas o orgulho e que me vai proibir 
de c vir, mas que eu terei de arranjar outra mulher e viver 
com ela nos seus domnios. Ao princpio contentou-se em 
insinuar estas coisas em voz baixa; mas ontem disse-me 
claramente que eu tinha de levar a Mina para a minha cabana, 
seno que me vendia para o outro lado do rio. 
- Mas tu ests casado comigo pelo sacerdote;  como se 
fosses branco - disse Elisa ingenuamente. 
- E no sabes que um escravo no pode casar? No h 
nenhuma lei sobre o assunto neste pas. Eu no posso 
continuar casado contigo se ele nos quiser separar. . . E  
por isso que eu preferia nunca te ter conhecido; e  por isso 
que mais valia no nascer. Era melhor para ambos e melhor 
para esta pobre criana, a quem espera uma sorte semelhante. 
- Oh, mas o nosso senhor  to bom!
- Sim, mas quem sabe? Pode morrer e a criana pode ser 
vendida sabe-se l a quem. De que lhe serve ser to bonito, 
to vivo, to esperto? Digo- te, Elisa, deves sentir a alma 
trespassada cada vez que descobrires uma graa ou uma 
qualidade no teu filho. . . Ser mais um motivo para o 
perderes um dia. 
Estas palavras eram como punhaladas no corao de Elisa. 
A sombra do mercador de escravos passou-lhe diante dos olhos. 
. . Empalideceu e ficou quase sem flego. Lanou vista para o 
vestbulu onde a criana brincava. 
Alegre como um vencedor, o menino andava a cavalo na 
bengala do Senhor Shelby. Elisa desejou confiar os seus 
receios ao marido, mas no se atreveu. 
- No - pensou ela - j tem um pesado fardo. . pobre 
homem! No, no lhe digo nada. . . e depois, no  possvel. 
. . a minha senhora nunca me enganou.
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 - Vamos, Elisa, filha - disse o marido com tristeza -, 
coragem, 	e adeus! Vou-me embora. . . 
 	- Embora! Embora! E para onde vais tu, Jorge?
 	- Para o Canad - disse ele, dominando a sua 
emoo. - E quando l estiver, compro-te. . .  a ltima 
esperana que nos resta. Tens um bom senhor que no se 
recusar a vender-te. . . Eu compro-te, a ti e
 criana. . . Sim, se Deus me ajudar, juro que o 
farei. 
 	- Horror! E se te apanham?
 	- No me deixarei apanhar, Elisa. Antes morrer. ou 
livre ou morto. 
- No sers capaz de te matar!?
 	- No  preciso. . . eles encarregam-se disso. Mas 
no me entregaro vivo aos mercadores do Sul. 
 	- Jorge, pelo amor que me tens, s prudente! No 
faas nada de mal. . . No atentes contra a tua vida, nem 
contra a de ningum! s impulsivo. . . demasiado impulsivo! 
Mas resiste. . . tem cautela. . . e pede
a Deus que te ajude. . . 
- Sim, sim, Elisa. Mas escuta o meu plano. O meu senhor 
lembrou-se de me mandar para estes lados com uma carta para o 
Senhor Symmer, que mora a uma milha daqui. Espera que eu 
tenha vindo aqui contar as minhas mgoas. Fica satisfeito em 
saber que os Shelby vo
 	ficar aborrecidos por minha causa. Mas eu tenciono 
voltar com um ar resignado, como se no houvesse nada a 
fazer. Tenho de preparar umas
 	coisas. Vo ajudar-me, e dentro de oito dias falto 
 chamada. Reza por mim, Elisa. Talvez a ti Deus te oua!
 	- Oh, reza tu tambm, Jorge, e confia-te a Ele. 
Assim, no fars nada de mal. 
 	- E agora, adeus - disse Jorge, pegando nas mos de 
Elisa, com os olhos fixos nos dajovem. . . 
 	Ficaram um momento em silncio, depois seguiram-se 
as despedidas, os soluos e as lgrimas amargas. Despedida 
daqueles cuja
 	esperana de se tornarem a ver fica suspensa por um 
fio mais leve do que a teia de aranha. . . 
E marido e mulher, separaram-se.

Captulo IV
UM SERO NA CABANA DO PAI TOMS
A cabana do pai Toms era uma pequena construo feita com 
troncos de rvore, junto  casa, como um negro chama 
geralmente  morada do seu senhor. Em frente da cabana havia 
um pedao de pomar, onde todos os Veres, framboesas, 
morangos e outros frutos, de
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 mistura com legumes, cresciam devido aos cuidados de uma 
cultura meticulosa. Toda a fachada estava coberta por uma 
enorme begnia escarlate e por uma roseira brava com os ramos 
entrelaados e confundidos de tal forma, que mal deixavam ver 
aqui e acol alguns restos do material grosseiro de que era 
feita a pequena construo. A familia colorida e variada das 
plantas anuais, crisntemos e petnias, tinha ali tambm um 
pequeno lugar para exibir os seus esplendores, que fazia as 
delcias e o orgulho da me Clo. 
Mas entremos na cabana. 
Ojantar dos senhores tinha acabado e a me Clo, 
cozinheira-chefe da casa, depois de o preparar, deixando ao 
pessoal menor o trabalho de lavar os pratos, foi para os seus 
domnios preparar a ceia do seu velho marido. Era portanto 
ela que podamos ver junto do lume, seguindo com olhos 
atentos os fritos que cantam na frigideira, ou levantando com 
mo leve a tampa das caarolas, de onde se escapava um 
fumozinho anunciador de qualquer coisa de bom. Tinha a cara 
negra, redonda e brilhante; parecia esfregada com clara de 
ovo, como a sua chaleira reluzente. As faces gordas 
irradiavam segurana e alegria sob o turbante atrevido 
revelando a satisfao ntima de se saber a primeira 
cozinheira das redondezas. Tal era a reputaojustamente 
merecida da me Clo. 
E l boa cozinheira era ela. at ao fundo da alma! No 
havia frango, pato ou peru que no ficasse apreensivo ao v-
la aproximar-se, porque adivinhava o seu triste fim. Ela 
prpria pensava permanentemente na maneira de os assar, 
rechear ou cozer; no admira portanto que inspirasse um certo 
terror  pobre criao. Os seus doces, de uma variedade 
infinita, eram um mistrio impenetrvel para quem no fosse 
versado como ela nos segredos da culinria; e no seu honesto 
orgulho, ria a bom rir quando contava os esforos inteis das 
suas rivais para atingirem o seu nvel. 
A chegada de um grande grupo, a organizao de umjantar 
ou uma ceia de cerimnia, excitavam as faculdades do seu 
esprito. Nada era mais agradvel para ela do que ver uma 
fila de malas no vestibulo, com a chegada das visitas, previa 
a ocasio para novos esforos e novas vitrias. 
Nesta altura da nossa narrativa, a me Clo 
inspeccionava uma torteira. Deixemo-la nesse interessante 
trabalho, e acabemos a descrio da cabana. 
A cama estava a um canto, coberta por uma colcha branca 
como a neve; ao lado da cama havia um tapete bastante grande: 
era ali que estava normalmente a me Clo. O tapete, a cama, 
e toda aquela parte da habitao eram alvo do maior respeito, 
e protegidos contra as devastaes e pilhagens da gente 
mida. Aquele canto era o salo da
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 cabana. No outro canto havia tambm uma cama, mas menos 
pretensiosa; era evidente que se serviam daquela. 
A parte de cima da chamin estava decorada com 
gravuras a leo de assuntos bblicos, e um retrato do general 
Washington, desenhado e pintado de tal maneira, que o heri 
ficaria espantado se alguma vez o tivesse visto. 
Neste canto, sentados num banco grosseiro, duas crianas 
de cabelo encarapinhado, olhos brilhantes e caras redondas e 
luzidias, entretinham-se a ver as primeiras tentativas que um 
beb fazia para andar. . . 
O beb limitava-se, alis, a pr-se de p, balouar-se um 
momento sobre as pernas, e depois cair. Cada queda era 
acompanhada de aplausos, como se tivesse havido um milagre. 
Uma mesa, cujos membros no estavam livres de 
reumatismu, coberta por uma toalha, estava posta junto da 
chamin. Viam-se os pratos e os copos, de modelo muito 
rebuscado, e outros sintomas de que
se aproximava a hora da refeio. 
A essa mesa estava sentado o pai Toms, o melhor trabalhador 
do Senhor Shelby. Como Tom  o heri da nossa histria, 
devemos descrev-lo aos nossos leitores. Era um homem forte e 
bem constitudo, com o peito largo, membros fortes e rosto de 
bano luzidio; um rosto
de traos nitidamente africanos, caracterizado por uma 
expresso de bom senso grave e firme, aliado a uma grande 
ternura e bondade. Havia
em todo o seu aspecto uma dignidade e um respeito por si 
prprio, unidos a uma simplicidade humilde e confiante. 
Estava nessa altura muito ocupado: com uma ardsia na 
sua frente, esforava-se, cuidadosa e lentamente, por 
escrever algumas letras. Era
vigiado nesta operao pelo seu jovem senhor, o menino 
Jorge, rapaz de treze anos, vivo e petulante, que tomava 
naquela altura muito a srio o seu papel de professor:
- Para esse lado no, pai Toms, para esse lado! - 
gritou ele, vendo que o pai Toms desenhava para a direita a 
cauda de um g; assim fica um q. Est a ver?
- Na realidade - disse o pai Toms olhando com respeito 
e admirao os q e os g, em conta que o seujovem professor 
semeava pela ardsia com a maior das facilidades. 
Pegou ento na pena com os dedos grossos e pesados, 
e recomeou pacientemente. 
- Como estes brancos fazem tudo bem! - disse a me 
Clo, ficando parada com o garfo no ar, que tinha espetado na 
ponta um pedao de toucinho; olhou para Jorge com orgulho. -
J sabe escrever! E ler! E todas as noites, no se importa de 
nos vir dar lies. . . Como ele  bom!
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 - Me Clo - disse Jorge - estou a morrer de fome. . . 
Aquele empado que eu vejo daqui dentro da caarola, no est 
quase pronto?
- Falta pouco, menino Jorge - disse Clo levantando a 
tampa. . . 
- falta pouco. Que coradinho! Bem coradinho! Nestas coisas, 
s eu. A senhora deixou o outro dia a Sally experimentar. . 
para aprender. Ah minha senhora, disse eu, di o corao ver 
estragar assim coisas toboas. " O bolo s subiu de um lado. 
. . e mais duro que uma sola. . Que porcaria!
E depois desta expresso de desprezo pela falta de jeito 
da Sally, a me Clo levantou a tampa e ps na mesa um bolo 
perfeito, de que se poderia gabar o melhor pasteleiro da 
cidade. No fim desta operao delicada, Clo ocupou-se 
activamente da parte substancial do jantar. 
- V, Pedro, Moiss, fora daqui, seus pretos! E tu 
tambm, Polly. A me j d qualquer coisa  sua pequenina. . 
. Menino Jorge, deixe agora os livros e sente-se  mesa mais 
o meu velho. . . Sirvo-os em menos de um minuto. 
- Queriam que jantasse em casa, mas eu bem sabia o que 
me esperava aqui, me Clo. 
- E por isso veio, meu amor! - disse a me Clo pondo o 
bolo fumegante no prato de Jorge. - Sabe que a velha Clo lhe 
guarda sempre os melhores bocados! O menino  que me 
compreende!. . . Lembra-se daquele grande empado de frango, 
quando receberam o general Knox? Eu e a senhora discutimos 
por causa da cobertura. No sei o que se passa s vezes com 
as senhoras, mas  quando uma pessoa tem s suas costas mais 
responsabilidades que elas vm meter o nariz. A senhora 
queria ensinar- me como se fazia. Acabei quase por me zangar. 
. . e disse: Minha senhora, olhe para as suas lindas mos 
brancas cheias de anis. . . olhe agora para as minhas mos 
grandes e pretas. . . no se v logo que Deus nos criou, a 
mim, para fazer a cobertura do empado, e  senhora para 
ficar na sua sala?  verdade, menino Jorge, estive quase a 
zangar-me. . . 
- E o que respondeu a minha me?
- Fixou em mim os seus lindos olhos, e disse: Est bem, 
me Clo, acho que tem razo. . . " E voltou para a sala. 
Devia ter-me dado um soco na cabea pelo meu descaramento. 
Mas cada um no seu lugar. No sou capaz de fazer nada quando 
vejo senhoras na cozinha. 
Entretanto, Jorge chegara quele ponto em que at mesmo 
uma criana no consegue comer nem mais um bocado. Reparou 
ento em todas as pequenas cabeas encarapinhadas que o 
fixavam de vrios cantos da casa com olhos de gula. 
- Vem c, Pedro! Vem c, Moiss - E cortou fatias de 
bolo que lhes deu. - No querem? V, Clo, d-lhes tambm. 
P[21)
 Jorge e Tom sentaram-se confortavelmente ao canto da 
chamin, enquanto Clo depois de fazer mais uma boa pilha de 
bolos, pegou no beb ao colo, dando-lhe de comer e comendo 
tambm, e distribuindo com Pedro e Moiss, que devoravam 
rebolando por debaixo da mesa, i	gritando, dando belisces 
um ao outro, e puxando os ps da irmzinha. 
- Vo para longe! - dizia a me, dando de vez em 
quando pontaps por debaixo da mesa,  maneira de aviso, se 
os movimentos se tornavam demasiado importunos... - No sabem 
portar-se decentemente quando os brancos nos vm visitar? 
Acabem com isso!
- Excitaram-se de tal maneira, que j no conseguem sossegar. 
Nessa altura, as crianas saram debaixo da mesa, e, com as 
mos e a cara cheias de marmelada, comearam a abraar com 
fora a irmzinha. 
 	- Fazem favor de se ir embora! - disse a me, 
afastando as cabeas encarapinhadas. - Puseram-se em lindo 
estado. Ningum os consegue trazer limpos! Voj lavar-se  
fonte!
E  descompostura acrescentou uma bofetada sonora, mas que 
no fez outra coisa seno excitar o riso das crianas, que 
caram uma por cima da outra e saram s gargalhadas. 
 	- Nunca vi rapazes piores do que estes - disse 
Clo, com certa satisfao maternal. Pegou num velho 
guardanapo destinado para esse fim, molhando-o com a gua de 
uma chaleira rachada e limpou as mos e a cara do beb. 
Esfregou-os at ficarem luzidios, depois ps a criana no 
colo de Tom, e fez desaparecer os restos do jantar. O beb 
puxava o nariz de Tom, arranhava-lhe a cara e passava pelos 
cabelos do pai as mos rechonchudas. Este ltimo exerccio 
parecia dar-lhe uma alegria
 	especial. 
 	- No  um amor? - disse Tom afastando-o um pouco 
de si para o ver melhor; e, pondo-se de p, sentou-o ao ombro 
e comeou a gesticular e a danar com ele, enquanto Jorge 
sacudia na sua frente o
leno de algibeira, e Moiss e Pedro davam cabriolas como 
pequenos ursos. Clo declarou por fim que todo aquele barulho 
lhe fazia doer a cabea; mas como esta queixa se ouvia na 
cabana a toda a hora, no
impediu a alegria esfuziante: a dana, a brincadeira e os 
gritos continuaram, at ficarem todos cansados.

 	Enquanto se passava esta cena dentro da cabana do 
escravo, 	passava-se outra muito diferente na casa do senhor. 
O Senhor Shelby e o mercador estavam sentados um em frente do 
outro na sala de jantar, junto de uma mesa onde havia papel e 
o necessrio para escrever. 
O Senhor Shelby contava vrios maos de notas. Quando 
terminou, passou-as ao mercador, que as contou tambm. 
 	- Est certo - disse este. - Agora basta assinar. 
P[22]
 O Senhor Shelby pegou nervosamente nas notas e assinou, como 
quem quer terminar depressa uma penosa tarefa; depois 
estendeu ao mercador a escritura de venda e algumas notas. 
Haley tirou de uma velha mala um pergaminho que apresentou a 
Shelby depois de o
examinar durante uns momentos. Este apoderou-se dele com uma 
nsia que no pde dissimular. 
- Agora est feito - disse Haley levantando-se. 
- Est feito - repetiu Shelby com ar sonhador e dando um 
profundo suspiro. 
- Parece que no ficou satisfeito - disse o mercador. 
- Haley, - disse o Senhor Shelby - lelembre-se de que me
prometeu sob palavra de honra no vender o Tom sem saber a 
que mos ele ir parar. 
- Ah, mas foi exactamente o que o senhor fez - respondeu o 
mercador. 
- Bem sabe que a necessidade me obrigou.
- Tambm eu posso ser obrigado pela necessidade - 
continuou Haley. - Todavia farei os possveis por arranjar um 
bom lugar para Tom. Quanto a maltrat-lo eu prprio, nesse 
aspecto no tem nada a temer. Se tenho a agradecer a Deus 
alguma coisa,  no me ter feito
cruel.

Captulo V
ONDE SE VEM OS SENTIMENTOS DA MERCADORIA HUMANA
QUANDO MUDA DE PROPRIETRIO
PO Senhor e a Senhora Shelby tinham-se retirado 
para os seus aposentos para dormir. 
O marido havia-se sentado num confortvel cadeiro: 
percorria com os olhos algumas cartas chegadas no correio da 
tarde; a mulher estava de p diante do espelho, desenrolando 
os canudos e soltando as tranas dos cabelos arranjados 
graciosamente por Elisa. A Senhora Shelby, notando a palidez 
e o olhar angustiado de Elisa, dispensara os seus servios 
nessa noite; aquilo em que se ocupava recordou-lhe a conversa 
dessa manh, e voltando-se para o marido, disse-lhe des 
preocupadamente:
- A propsito, amor, quem era o homem mal-educado 
que sentaste hoje  nossa mesa?
- Chama-se Haley - respondeu Shelby vultando-se no 
cadeiro, evasivamente e continuou com os olhos fixos na 
carta. 
- Haley! Quem , e que queria ele?
P[23]
 - Meu Deus,  um homem com quem fiz uns negcios, a ltima 
vez que fui a Natchez - disse Shelby. 
- E s por isso, julga-se autorizado a instalar-se 
na nossa casa e a pedir-nos para jantar?
- Mas no. Fui eu que o convidei. Tinha interesse nisso. 
-  um mercador de escravos? - continuou a Senhora 
Shelby, que observava um certo embarao nos modos do marido. 
- Minha querida, quem te meteu essa ideia na 
cabea? - respondeu ele levantando os olhos.
- Ningum! Mas esta tarde a Elisa chegou aqui muito 
transtornada e lavada em lgrimas; disse-me que estavas em 
conferncia com um mercador de escravos, e que o tinha ouvido 
fazer-te ofertas pelo filho dela!. . . 
- Ah, ela disse-te isso? - continuou o Senhor 
Shelby; e pegou novamente na carta que parecia ler com a 
maior ateno, de pernas para o ar. 
Isto tem de se saber, disse ele a si prprio. Tanto faz agora 
como mais tarde. 
- E eu respondi  Elisa - tornou a Senhora Shelby, 
continuando a arranjar o cabelo -, que ela era tonta em 
afligir-se daquela maneira, e que tu nuncafazias negcios com 
gente dessa. . . e depois, que eu saiba, no tencionavas 
vender nenhum dos teus escravos. . . e ainda menos a pobre 
criana. 
- Ouve, Emlia. Foi isso que eu sempre disse e 
pensei. Mas hoje. . . os meus negcios chegaram a tal ponto 
quej no posso mais. e terei de vender alguns. . . 
- A esse miservel? Vender. . . tu? No  
possvel!. . No ests a falar a srio!
- Lamento ter de dizer que falo a srio. Concordei em vender-
lhe o Tom. 
- O qu? O nosso Tom. esse homem bom e fiel, teu 
escravo desde a infncia?. . . Oh, Shelby! E tinhas-lhe 
prometido a liberdade. . . Tu e eu falmos-lhe nisso muitas 
vezes. . . Agora tambm posso acreditar que eras capaz de 
vender o Harry. . . o filho nico da pobre Elisa. . . 
A Senhora Shelby pronunciou estas palavras num tom 
de dor e indignao ao mesmo tempo. 
- Pois bem, visto que  preciso que saibas tudo. . 
.  verdade. Concordei em vender o Tom e o Harry juntos. . . 
No sei porque me olham como um monstro, s porque fao o que 
toda a gente faz todos os dias. 
- Mas porqu esses dois? Se na realidade eras 
forado a vender, porque escolheste logo esses dois?
P[24)
 - Porque me rendem mais.  esta a razo porque no podia 
escolher outros, j que queres saber. O homem ofereceu-me um 
bom preo pela Elisa, se preferires isso!
- O miservel - exclamou a Senhora Shelby. 
- No quis ouvir nem um momento. no. Por tua causa, no 
o quis ouvir. Devias estar-me agradecida. 
- Meu amigo - disse a Senhora Shelby recompondo-se -, 
perdoa-me. Fui violenta. Mas fiquei to surpreendida! No 
esperava uma coisa dessas. Compreendes com certeza que 
defenda essas pobres criaturas. Tom  um negro, mas tem um 
nobre corao, e  um homem fiel. Estou certa de que, se 
fosse preciso, era capaz de dar a vida por ns. 
- Tambm acredito. . . Mas que importa agora? No posso 
fazer outra coisa.
- Porque no fazemos um sacrifcio de dinheiro? Estou 
disposta a suportar a minha parte de boa vontade. Oh, Shelby, 
eu tentei, esforcei- me, como uma boa crist, a cumprir o meu 
dever para com essas pobres criaturas, to simples, to 
desprotegidas. Interessei-me por elas, edu quei-os, tratei 
delas. H uns poucos de anos que conheo as suas pequenas 
alegrias e as suas preocupaes simples. . . Como poderei 
aparecer-lhes de cabea levantada, se por um lucro miservel 
vendemos um homem to digno e com tantas qualidades como o 
Tom? Roubamos-lhe num momento tudo quanto o ensinmos a amar 
e respeitar. . . Sim, eu ensinei- lhes os deveres da famlia, 
de pais e filhos, de marido e mulher: como posso suportar a 
ideia de que no h laos, relaes, por mais sagrados que 
sejam, que no possamos quebrar em troca do dinheiro? Falei 
vrias vezes com a Elisa a respeito do filho e dos deveres 
que tinha para com ele, como uma boa me crist. Disse-lhe 
que devia proteg-lo, rezar por ele, educ-lo como cristo. . 
. e agora. . . que vou dizer-lhe, se tu lho roubas para o 
vender, corpo e alma, a um profano, a um homem sem 
princpios? E tudo isto por causa de um pouco de dinheiro! E 
disse-lhe que a alma vale mais do que todas as riquezas do 
mundo. . . Ser possvel que ela me acredite, ao ver que lhe 
vendem o filho? Vendido, para lhe explorarem o corpo e a 
alma. 
- Tenho pena, Emlia, que vejas as coisas dessa maneira, 
acredita. Respeito a tua maneira de sentir, embora no 
compartilhe dela inteira mente. Mas digo-te agora sem 
rodeios: no vale a pena. Sou obrigado a faz-lo. No 
tencionava fazer-te isto, Emlia, mas em poucas palavras, no 
tenho alternativa entre vender esses dois escravos ou ter de 
vender tudo. Ou os perco, ou perco todos os outros! Haley tem 
um documento de hipoteca assinado por mim. se no o saldo, 
ele leva-me tudo. . . Economizei, procurei por todo o lado, 
fiz emprstimos, fiz tudo, menos pedir esmola. . e no 
consegui atingir a conta sem o preo desses dois. . . Agora, 
minha querida, espero que vejas a necessidade da minha
P[25]
 resoluo e concordes que agi da melhor maneira que as 
circunstncias me permitiam. 
- Sim, sim, com certeza - disse a Senhora Shelby, 
voltando o relgio de ouro entre os dedos febris e 
distrados. - No tenho nenhuma jia de valor, mas este 
relgio deve valer alguma coisa. . Custou caro. Para salvar o 
filho de Elisa, sacrifico tudo quanto tenho. 
- Lamento, Emlia, lamento que leves a coisa to a 
peito. mas no serviria de nada. J fiz o negcio. Os 
contratos de venda esto assinados e nas mos de Haley. D 
graas a Deus que o prejuzo no seja ainda maior. Haley 
podia ter-nos arruinado, e agora est vendido. Se soubesses 
como eu a espcie de homem que ele , verias que escapmos de 
boa. 
-  assim to cruel?
- No  precisamente um homem cruel, mas um homem de 
negcios que s vive para o lucro: frio, inflexvel, 
inexorvel como a morte. Era capaz de vender a me, se o 
preo fosse bom, sem desejar com isso nenhum mal  pobre 
velha. 
- E  esse miservel quem nos compra o nosso fiel Tom e 
o filho da Elisa!
- Minha querida, a verdade  que me custa muitn. . . Nem 
quero pensar nisso. Haley vem c amanh de manh para fazer 
as suas disposies e lev-los. Eu vou dar ordens para terem 
o meu cavalo pronto muito cedo. Vou sair. No poderia ver o 
Tom partir, no poderia. Tu, deves inventar um passeio a 
qualquer parte e levares a Elisa contigo.  melhor que as 
coisas no se passem na presena dela. 
- No, no! - exclamou a Senhura Shelby -, no quero de 
forma nenhuma contribuir ou ser cmplice dessas crueldades. 
Vou falar com o Tom, e consol-lo na sua desgraa. Ficaro 
pelo menos a saber que a sua senhora sofre com eles e por 
causa deles. Quantu  Elisa, nem quero pensar. Que Deus nos 
perdoe! Mas que mal fizemos ns para sermos constrangidos a 
uma necessidade to cruel?
Esta conversa era ouvida por uma pessoa cuja presena o 
Senhor e a Senhora Shelby estavam longe de suspeitar. 
Entre o vestbuln e o quarto deles, havia um grande 
gabinete. Elisa, com a alma transtornada e a cabea em fogo, 
lembrara-se daquele gabinete: escondera-se ali, e com o 
ouvido na greta da porta, no perdera uma s palavra da 
conversa. 
Quando as duas vozes se calaram, retirou-se sem fazer 
barulho, plida e a tremer, as feies contradas, os lbios 
apertados. No se parecia nada com a suave e tmida criatura 
que tinha sido at a. Deslizou com precauo pelo corredor, 
parou um momento  porta da sua senhora, levantou as mos, 
comn para fazer um apelo mudo a Deus, 
p[26]
 depois voltou-se e entrou no seu quarto. Era um quartinho 
calmo e bem arranjado, no mesmo andar que o da senhora. Sobre 
a cama estava deitado o menino adormecido. Os seus longos 
caracis caam negligen temente em volta do rosto ainda 
despreocupado, e da boca entreaberta e cor-de-rosa; as 
mozinhas gordas estavam pousadas sobre a culcha, e todo o 
seu rosto irradiava alegria, como uma manh de sol. 
- Pobre criana! Pobre alma! - disse Elisa. - Venderam-
te, mas a tua me vai salvar-te.
No deixou cair sobre o travesseiro nem uma s lgrima: 
em angstias semelhantes, o corao no tem lgrimas para 
verter. . . verte apenas sangue, chorando para dentro, 
sozinho e em silncio!
Elisa pegou num lpis, num bocado de papel, e escreveu  
pressa: 
Minha senhora! Querida senhora! 
No me julgue ingrata: no pense mal de mim. de maneira 
nenhuma. Ouvi a conversa que o senhor e a senhora tiveram 
esta noite. Deixo-os para salvar o meu filho. No me 
censurem. Deus vos abenoe e recompense da vossa bondade.
Dobrou rapidamente a carta e meteu-a num sobrescrito; 
depois foi a uma gaveta, fez um molho de roupas do filho e 
amarrou-o bem  cintura com um leno; finalmente, porque uma 
me pensa em tudo, mesmo nas grandes angstias, teve o 
cuidado dejuntar um ou dois dos seus brinquedos favoritos, e 
reservou um papagaio de cores vivas para o distrair quando 
fosse preciso acord-lo. Deu-lhe bastante trabalho acordar o 
menino adormecido. Por fim, depois de alguns esforos, ele 
espantou o sono e comeou a brincar com o papagaio enquanto a 
me punha o xaile e o chapu. 
- Me, onde  que vamos? - perguntou ao v-la aproximar-
se da cama com um casaco e u bon dele. 
A me apertou-o de encontro ao peito e olhou-o nos 
olhos, com tal expresso, que ele adivinhou de repente que se 
preparava qualquer coisa de extraordinrio. 
- Chiu, Harry! No fales to alto, que nos ouvem. Um 
homem mau vinha para tirar o Harry  sua me e lev-lo para 
muito longe, para um stio muito escuro. . . mas a mr no 
quer separar-se do Harry. Vai pr o casaco e o bon ao seu 
menino e fugir com ele para o homem mau no o apanhar. 
Dizendo estas palavras, abotoava o casaco da criana, e 
pegando-lhe ao colo, murmurou-lhe ao ouvido:
- Porta-te bem. - Depois, abrindo a porta do quarto que 
dava para o vestbulo, saiu sem fazer barulho. 
Estava uma noite luminosa, fria, cheia de estrelas. A 
me lanou o xaile sobre a criana que, completamente calma, 
embora sentindo um vago terror, se abraou ao seu pescoo: O 
velho Bruno, grande co da Terra Nova, que dormia ao fundo da 
varanda, levantou-se e aproximou-se,
p[27]
 rosnando baixinho. Ela chamou-o em surdina pelo nome, e o 
animal, que a conhecia bem, abanou a cauda, disposto a segui-
la, embora perguntasse a si prprio, no seu raciocnio de 
co, que significava aquele indiscreto passeio de noite. No 
lhe parecia prprio; estava
com as ideias transtornadas; no sabia que resolver. A jovem 
seguiu, e o co parou. Olhava alternadamente para a casa e 
para a escrava. 
Finalmente, movido por qualquer pensamento ntimo, lanou-se 
atrs da fugitiva. 
Passados alguns minutos, chegaram  cabana do pai Toms. 
Elisa bateu de leve nos vidros. 
- Meu Deus, quem ser? - perguntou Clo, levantando-se de um 
salto, e afastou a cortina. - Pela minha salvao se no  a 
Lizzy! Veste-te depressa, homem. Tom! O velho Bruno tambm 
veio. Est a arranhar a porta. . . Mas o que ser? Vou abrir. 
A aco seguiu de perto a palavra, e a porta abriu-se. A 
luz da candeia, que Tom acendera  pressa, bateu na cara 
transtornada e nos olhos aflitos de Elisa. 
- Deus te abenoe, Lizzy! Metes medo. . . Ests doente? 
Que te aconteceu?
- Vou fugir, pai Toms. Vou fugir, me Clo. . . com o 
meu filho. . . O senhor vendeu-o. 
- Vendeu. . - repetiram em coro. E levantaram as mos ao 
cu. 
- Sim, venderam-no! - continuou Elisa com voz firme. - 
Esta noite escondi-me no gabinete da senhora. Ouvi o senhor 
dizer que tinha vendido o meu Harry. . . e a si tambm, pai 
Toms. Foram vendidos
ambos a um mercador de escravos. . . O senhor vai sair 
esta manh, e o homem vem hoje mesmo para receber a 
mercadoria. 
Entretanto, Tom continuava de p, com as mos cadas e 
os olhos fixos, como num sonho. Lenta e gradualmente, como se 
comeasse a compreender, deixou-se cair na sua velha cadeira, 
e deixou pender a
cabea nos joelhos. 
- Que Deus tenha piedade de ns - disse Clo. - Ah, no 
posso acreditar que seja verdade! Mas que fez ele para o 
senhor o vender?
- No  isso. . . ele no fez nada, e o senhor no 
queria vend-lo. A senhora. . . Oh, ela  muito boa. Ouvi-a 
pedir e suplicar por ns; mas ele
dizia que era intil, que estava na divida daquele 
homem, que esse homem tinha poder sobre ele. . . e que se no 
lhe pagava agora ia ser obrigado a vender mais tarde a casa e 
o pessoal. . . e ter de si ir embora
tambm. Sim, eu ouvi-o dizer que era obrigado a vender estes 
dois para no ter de vender os outros. . . O homem 
imperdovel. . . O senhor dizia
que lhe custava muito. E a senhora, se a ouvissem! Se 
ela no  um anjo, ento  porque no h anjos. Eu sou uma 
miservel em deix-la assim, mas  superior s minhas foras. 
. . Ela prpria dizia que uma alma vale
P[28]
 mais do que tudo. E esta criana tem uma alma! Se deixo 
levarem-na, que ser dessa alma? O que eu vou fazer deve 
estar certo... E se no estiver, que o Senhor me perdoe, 
porque no posso deixar de o fazer. 	
- Ento, meu pobre velho - disse Clo -, porque no vais 
tambm? Ficas  espera que te levem para o outro lado do rio, 
onde matam os negros com trabalho e fome? Eu preferia morrer 
mil vezes do que ir para l. Vamos, ainda ests a tempo. . . 
foge com a Lizzy. Tens um salvo-conduto para andares por onde 
quiseres. . . V, mexe- te. Eu arranjo um pacote com as tuas 
coisas. 	
Tom levantou a cabea devagar, olhou em volta tristemente, 
mas com calma, e disse:
- No, eu no vou. A Elisa que parta. Faz bem, no digo o
contrrio. A natureza manda-a partir. Mas ouviste o que ela 
contou: eu tenho de ser vendido, ou ento tudo aqui, as 
coisas e as pessoas, ficam arruinadas. Acho que posso 
suportar isso to bem como qualquer outro. 
- E uma espcie de suspiro seguido de um soluo saiu-lhe do 
peito, que estremeceu convulsivamente. . . - O senhor - 
acrescentou -, encontrou-me sempre no meu lugar. . . vai-me 
encontrar mais uma vez. Nunca faltei  minha f, nunca me 
servi do salvo-conduto contra
a minha palavra. No  agora que vou comear. Mais vale que 
eu parta sozinho do que ser o causador da venda da casa e da 
perda de todos. No devemos censurar o senhor, Clo. Ele 
tomar conta de ti e destas pobres
crianas. . . 
A estas palavras voltou-se para a cama grosseira onde se viam 
as pequenas cabeas encarapinhadas, e rompeu em soluos. 
- E depois - disse Elisa, que continuava junto da porta -, 
falei hoje com o meu marido. . . Ainda no sabia o que ia 
acontecer. . . J no aguenta mais, e disse-me que tencionava 
fugir. Dem-lhe notcias
minhas; digam-lhe como e porque parti. Digam-lhe que vou 
tentar chegar ao Canad; digam-lhe que o amo, e que se no o 
tornar a ver, digam-lhe. . . 
Voltou-se para a parede, escondendo a cara por uns instante, 
depois continuou, com voz rouca:
- Digam-lhe que seja o melhor que puder, para nos 
encontrarmos no cu!. . Chamem o Bruno e fechem-no. Pobre 
animal! No  conveniente que me siga! 	
Houve ainda algumas ltimas palavras, lgrimas, despedidas 
rpidas, misturadas com bnos. Depois, levando nos braos o 
filho, espantado e com medo, desapareceu silenciosamente. 
P[29]
Captulo VI
DESCOBERTA 
Aps a sua longa discusso, o Senhor e a Senhora Shelby 
levaram tempo a adormecer. Por isso, no dia seguinte 
acordaram mais tarde do que de costume. 
- No compreendo o que se passa com a Elisa hoje - disse 
a Senhora Shelby depois de tocar inutilmente a campainha 
vrias vezes. 
O Senhor Shelby, de p em frente do espelho, afiava a 
navalha de barba. A porta abriu-se, e um jovem mulato entrou, 
com a gua para a barba. 
- Andr - disse a Senhora Shelby -, bata  porta da 
Elisa e diga-lhe que j chamei trs vezes... Coitada! - 
acrescentou baixinho, dando um suspiro. 
Andr voltou imediatamente, com os olhos muito abertos. 
- Minha senhora, as gavetas da Lizzy esto todas 
abertas, e as coisas espalhadas pelo cho. Parece que se foi 
embora. 
A verdade passou como um relmpago em frente dos olhos 
dos esposos. O Senhor Shelby exclamou:
- Suspeitou do que ia acontecer. . . e fugiu. 
- Deus seja louvado! - disse a Senhora Shelby, por seu 
turno. Sim, foi isso. 
- No sabes o que dizes se ela foi embora, vou ter 
aborrecimentos. Haley viu que eu hesitava em vender-lhe a 
criana. Vai pensar que fui cmplice da fuga. . . e isso 
afecta a minha honra. 
E o Senhor Shelby saiu do quarto a toda a pressa. 
Passado um quarto de hora, era um vaivm contnuo em 
toda a casa, portas que se abriam e fechavam, e uma confuso 
de caras de todas as cores. 
S uma pesssoa poderia dar qualquer informao, e essa 
pessoa calou-se; era a cozinheira-chefe Clo. Em silncio, 
com uma nuvem de tristeza ensombrando-lhe a face dantes to 
alegre, preparava os doces para o almoo, como se no tivesse 
visto nada, ouvido nada do que se passava em sua volta. 
Da a pouco, uma dzia de rapazes negros como o carvo 
distriburam-se nos degraus da entrada, cada um disposto a 
ser o primeiro a dar ao mercador a notcia do seu desaire. 
- Aposto que vai ficar maluco - dizia Andr. 
- Vai rogar cada praga - continuava o Joo Preto. 
- E sabe-as das boas - disse por sua vez Mandy, Cabea-
de- L. 
- Ouvi-o ontem ao jantar. Escondi-me no gabinete onde a 
senhora guarda a loia e ouvi tudo!
P[30)
 Haley apareceu finalmente, de botas e esporas. . . De todos 
os lados, atiravam-lhe a m notcia  cara. 
Os rapazes no ficaram desapontados na sua expectativa: ele 
praguejou, com uma facilidade e abundncia de palavras que os 
divertiu imensamente; tiveram todavia o cuidado de recuarem e 
se protegerem, de maneira a ficarem sempre fora do alcance do 
seu chicote. 
Depois, rolaram uns por cima dos outros, s gargalhadas 
enormes, sobre a relva seca do ptio, gesticulando, gritando 
e guinchando. 
-Malditos! Se eu os apanhasse!. . . - murmurou Haley 
entredentes.
- Mas no apanha - disse Andr com um gesto de triunfo, 
acompanhado de caretas indescritveis, mas s quando o 
mercador voltou costas, e j no podia ouvi-lo. 
- Ento, Shelby? Acho muito extraordinrio - disse 
Haley, entrando bruscamente no salo. - Parece que a rapariga 
se safou mais o pequeno. 
- Senhor Shelby... est aqui a minha mulher - disse 
Shelby com dignidade. 
- Desculpe, minha senhora - disse Haley, fazendo um leve 
cumprimento de cabea, com o sobrolho carregado -, mas repito 
o que disse: correm estranhas notcias!. . .  verdade?
- Senhor- respondeu Shelby -, se quer conversar comigo, 
faa favor de se portar como um cavalheiro. Andr, pega no 
chapu e no
chicote do Senhor Haley. . . Queira sentar-se. . . E verdade, 
custa-me dizer-lhe que essa rapariga, que suspeitou ou ouviu 
dizer aquilo que lhe
imteressava, pegou no filho e fugiu a noite passada. 
- Confesso que esperava que procedessem lealmente para 
comigo neste negcio - continuou Haley. 
- O qu, senhor? - exclamou Shelby aproximando-se dele 
com ar ameaador. - Que devo entender dessas palavras?. . . 
Para quem pe
em dvida a minha honra, s tenho uma resposta. 
Ao ouvir isto, o traficante ficou mais humilde, e disse, 
baixando o tom. 
- De qualquer maneira  duro para um homem que acaba de 
fazer um bom negcio, ver-se ludibriado desta maneira. 
- Senhor - disse Shelby -, se eu no compreendesse que 
tem uma certa razo no seu desapontamento, no consentiria a 
forma grosseira como entrou no meu salo. E acrescento, visto 
que esta explicao me parece necessria, que no suportaria 
a mais leve
insinuao da sua parte: a minha lealdade no admite 
suspeitas, senhor. Julgo-me todavia obrigado a dar-lhe ajuda 
e proteco. Leve a minha
gente, os meus cavalos, e tente encontrar o que lhe pertence. 
Em resumo, Haley - continuou ele, perdendo de sbito o tom de 
fria
P[31]
 dignidade para voltar aos seus modos francos e cordiais -, o 
melhor que tem a fazer  voltar ao seu bom humor. . e almoar 
connosco. . . Veremos depois o que h a fazer. 
A Senhora Shelby levantou-se e disse que os seus 
afazeres no lhe permitiam tomar parte no almoo, e 
encarregando uma mulata de preparar caf e servi-lo aos dois 
homens, abandonou a sala. 
- Parece que a velhota no gosta l muito deste seu 
criado - disse Haley, fazendo um enorme esforo para parecer 
familiar. 
- No estou habituado a ouvir falar com tanta 
familiaridade da minha mulher - respondeu Shelby com secura. 
- Desculpe. S disse isto por brincadeira. 
- As brincadeiras devem ser agradveis - disse Shelby. 
- Est livre como o diabo, agora que os papis foram 
assinados - murmurou o comerciante. - Como tomou prospias de 
ontem para c!
Nunca a queda de um primeiro- ministro, aps uma intriga 
de corte, desencadeou maior tempestade de emoes do que a 
notcia do que acabava de acontecer ao pai Toms. No se 
falava de outra coisa. Na cabana, como nos campos, discutiam-
se os provveis resultados do acontecimento. Sendo a fuga de 
Elisa sem precedentes em casa do Senhor Shelby, o facto 
aumentava ainda mais a agitao e perturbao de todos. 
O negro Samuel (chamavam-lhe negro porque a sua cor era 
trs vezes mais carregada do que  normal na sua raa) 
analisava todo o desenrolar do assunto, estudava-lhe o 
alcance, pesava a influncia que ele teria no seu prprio 
bem-estar, com uma fora de intuio e uma clareza de vistas 
que teriam feito as honras de um poltico branco de 
Washington. 
- Eh, Samuel! Eh, Sam! O senhor precisa de ti para selar 
o Jerry e a Bell - gritou Andr, interrompendo o monlogo de 
Samuel. 
- Ah, Para qu, rapaz?
- Ento no sabes que a Lizzy se safou com o mido?... 
Tu e eu vamos com o Senhor Haley  procura dela. 
- Ah, bem! Chegou a minha vez - disse Samuel. - Agora  
o Sam o homem de confiana! Sou eu, o preto! Vais ver se a 
apanho ou no. . . Ah, vo ver o que o Sam  capaz de fazer!
- Sam, era melhor pensares duas vezes. A senhora no 
quer que a apanhem, por isso, tem cuidado!
- Ah! - disse Samuel, abrindo muito os olhos -, como  
que sabes isso?
- Ouvi eu esta manh, quando fui ao quarto levar a gua 
para a barba do senhor. Ela mandou-me ver porque  que a 
Lizzy no a vinha ajudar a vestir, e quando eu a informei de 
que ela se tinha ido embora, a senhora disse: Deus seja 
louvado! E o senhor ficou como doido e
P[32]
 respondeu-lhe: No sabes o que dizes!, Mas ela h-de acabar 
por o convencer. Eu sei como as coisas se passam.  melhor 
estar do lado da senhora, digo-te eu!
O negro Samuel coou a cabea encarapinhada, que no 
albergava certamente uma profunda sabedoria, mas que continha 
esse dom especial necessrio aos polticos de todos os pases 
e de todos os regimes, e que consiste em saber de que lado 
sopra o vento. . . Samuel comeou portanto a reflectir, 
arregaando as calas. Era habitualmente o sistema de que se 
servia para facilitar as operaes do seu crebro. 
- Neste mundo nunca se deve dizer que no - murmurou ele 
por fim. 
A palavra neste foi murmurada com toda a nfase de um 
filsofo, como se na verdade Samuel tivesse conhecido muitos 
outros mundos, e esta concluso fosse o resultado das suas 
comparaes. 
- Eujulgava que a senhora ia mandar toda a gente da casa 
atrs da Lizzy - disse ele, com ar pensativo. 
-  o mandas - respondeu o rapaz. - No vs um palmo 
adiante do nariz, velho preto? A senhora no quer que esse 
Haley leve o filho da Lizzy. . . A  que est!
- Ah! - exclamou Samuel, com uma inflexo impossvel de 
compreender por quem nunca a tenha ouvido dos negros. 
- E agora espero que vs depressa buscar os cavalos. No 
percas tempo. A senhora j perguntou por ti, e ficas para 
aqui a conversar. 
Samuel apressou-se ento, e da a pouco voltava 
triunfante, trazendo a galope o Jerry e a Bell. Saltou para o 
cho enquanto eles ainda corriam, e alinhou-os junto da 
parede como se faz num torneio. 
A montada de Haley, que era um potro espantadio, deu 
coices, relinchou e sacudiu a cabeada. 
- Ah! Ah! - disse Samuel. . . - Mau! s mau!. . . 
E o seu rosto negro teve um lampejo de malcia. . . Eu 
j te vou acalmar. 
Uma enorme faia ensombrava o ptio: pequenos bugalhos, 
triangulares e cortantes, juncavam o cho. Samuel pegou num, 
aproximou-se do potro, fez-lhe festas e deu-lhe palmadas, 
como se o quisesse sossegar. E sob o pretexto de lhe apertar 
a sela, meteu-lhe debaixo o bugalho, de maneira que o menor 
peso sobre a sela excitaria o animal, sem deixar qualquer 
vestgio de ferida ou arranhadura. 
- Agora - disse ele rolando os olhos e fazendo uma 
careta -, veremos se ele no fica sossegado. . . 
No mesmo instante, a Senhora Shelby apareceu  varanda, 
e fez-lhe um sinal. 
P[33]
 Samuel aproximou-se, disposto a fazer tudo para lhe cair nas 
graas, como um solicitador procurando conseguir um lugar 
vago em Washington ou no palcio de Saint James. 
- Porque te demoraste tanto, Samuel? Mandei o Andr 
dizer que te apressasses. 
- Deus vos guarde, minha senhora! No podia agarrar 
os cavalos de um momento para o outro. Eles fugiram, at ao 
fim do prado. 
- Pronto, est bem. Agora, Samuel, vais acompanhar 
o senhor Haley, para lhe ensinar o caminho. . para o ajudar. 
. Tem cuidado com os cavalos, Samuel. Bem sabes que na semana 
passada o Jerry coxeava um pouco. . . No os obrigues a andar 
muito depressa. 
A Senhora Shelby pronunciou estas ltimas palavras 
em voz baixa e com uma determinada inflexo. 
- Quanto a isso, deixe o caso c com o negro - disse 
Samuel, revirando os olhos para mostrar que tinha 
compreendido. . . - Sim, minha senhora, eu vou ter cuidado 
com os cavalos. 
- Agora, Andr - disse Samuel voltando ao seu posto debaixo 
da faia -, no me admiro nada que o cavalo do tal senhor 
comece a danar quando ele subir para a sela. Sabes, Andr, 
os animais, s vezes, d-lhes para a. - E deu uma grande 
palmada significativa nas costas do companheiro. 
- Ah! - disse Andr, dando mostras de ter percebido 
de repente. Samuel e Andr sacudiram as cabeas negras, num 
riso contnuo, embora moderando as gargalhadas maiores. 
Depois estalaram os dedos e bateram com os ps no cho, numa 
espcie de xtase. 
Haley apareceu no limiar. Algumas chvenas de caf 
excelente tinham-no acalmdo um pouco. Estava bastante bem 
humorado. Avanou a sorrir e a conversar. Os dois negros 
agarraram numas folhas de palmeira a que chamavam os seus 
chapus e dirigiram-se para os cavalos a fim de estarem 
prontos para ajudar o senhor. 
As folhas do chapu de Samuel j no tinham nada 
que parecesse com aba. Caam por todos os lados, divididas e 
tesas, o que lhe dava um ar de revolta. Parecia um chefe de 
tribo. 
A aba do chapu de Andr tinha desaparecido 
completamente, mas um soco engenhoso tinha-o transformado em 
coroa no alto da cabea. Ele parecia muito contente de si, 
como se dissesse: "Quem  que
pretende que eu no tenho chapu?"
- E agora, rapazes, no temos um minuto a perder. 
- Nem um minuto, senhor - disse Samuel estendendo-
lhe as rdeas e segurando o estribo, enquanto Andr 
desamarrava os dois cavalos. 
P[34]
 	No momento em que Haley se sentou na sela, o fogoso 
animal empinou-se de um salto, e atirou com o dono a alguns 
metros, sobre a relva seca e mole, que amorteceu a queda. 
Samuel correu a segurar na rdea, com um gesto frentico, mas 
s conseguiu enfiar o seu bizarro chapu pelos olhos do 
animal. A vista daquele estranho objecto no podia contribuir 
de forma nenhuma para lhe acalmar os nervos, por isso, 
escapou-se violentamente das mos de
Samuel deitando-o ao cho, e soltou dois ou trs relinchos de 
revolta. 
Depois de dar uns quantos coices vigorosos, correu at ao fim 
do prado, seguido imediatamente por Bell e Jerry, que Andr 
no se esquecera de desamarrar, excitando-os  fuga com 
exclamaes terrveis. 
Seguiu-se uma cena indescritvel de desordem. Andr e Sam
gritavam e corriam; os ces ladravam; Mike, Moiss, Amanda, 
Fanny e todos os outrus garotos de raa negra que se 
encontravam em casa, correram em vrias direces, dando 
guinchos, batendo palmas e bamboleando-se, com a boa vontade 
mais intil e o zelo mais prejudicial do mundo. 
O cavalo de Haley, cheio de vida e ardor, pareceu querer 
colaborar alegremente com os actores desta cena. Tinha por 
sua conta um prado de um quarto de lgua, que descia a ambos 
os lados para um pequeno bosque. Deixava por isso que se 
aproximassem dele, e quando se via ao
alcance da mo, tornava a partir, dando coices e relinchos, 
como um irracional que era, depois afastava-se para qualquer 
longnquo atalho do bosque. Samuel no se preocupou em o 
apanhar, seno quando achasse conveniente. Para isso, tinha 
um trabalho verdadeiramente
 	herico. Semelhante  espada de Ricardo Corao de 
Leo, que brilhava sempre na frente e no ponto mais quente da 
batalha, o chapu de palma de Samuel aparecia sempre no stio 
onde no havia a menor probabilidade de apanhar o cavalo. Nem 
por isso deixava de gritar com
toda a fora dos seus pulmes: - Ali! Deste lado! Agarrem-no! 
Agarrem-no! - de tal maneira que cada vez aumentava ainda 
mais a desordem e a confuso. 
Haley corria tambm da esquerda para a direita, amaldioando, 
	rogando pragas e batendo os ps. O Senhor Shelby, do 
alto da escadaria, 	tentava em vo dar ordens, e a Senhora 
Shelby seguia a cena dajanela
 	do seu quarto, rindo e admirando-se. . . embora no 
fundo adivinhasse qualquer coisa. 
Finalmente pelas 2horas, Samuel apareceu triunfante, montado 
em Jerry, segurando na mo a rdea do cavalo de Haley, a 
escorrer suor, 	mas com os olhos ardentes, as narinas 
dilatadas e dando a perceber que
 	o seu ardor e fogo ainda no estavam dominados. 
 	- Apanhei-o - gritou ele cheio de orgulho. - Se no 
fosse eu, 	era escusado darem-se ao trabalho; no o 
agarravam!
P[35]
 - Se no fosses tu - rosnou Haley de sobrolho franzido -, se 
no fosses tu, nada disto tinha acontecido!
- Deus seja louvado - respondeu Samuel, com ar 
compungido. . . - eu, que fiquei alagado em suor para o 
servir!
- Sim - disse Haley -, fizeste- me perder trs horas por 
causa da tua estupidez. Agora, partamos, e basta de asneiras!
- Ah, senhor - exclamou Samuel, com voz triste -, quer 
matar-nos de vez, a ns e aos animais? Ns j no temos 
foras, e os animais tomaram o freio nos dentes. . O senhor 
devia esperar at depois do jantar. . . O cavalo do senhor 
precisa de ser limpo. Veja em que estado ele se ps. . . O 
Jerry est a coxear. . . e depois, acho que a senhora no o 
vai deixar partir assim. Que Deus o abenoe, senhor! No 
perdemos nada em esperar. A Lizzy no est habituada a andar. 
A Senhora Shelby, a quem esta conversa divertia muito, 
desceu do patamar para tomar parte nela. Avanou para Haley, 
exprimiu com toda a delicadeza como lamentava o acidente, 
convidou-o logo para jantar, garantindo que ia mandar servir 
imediatamente. 
Haley, depois de raciocinar um pouco, resolveu ficar e, 
bastante contrariado, dirigiu-se ao salo. Sam, revirando os 
olhos com uma expresso impossvel de descrever, conduziu 
devagar os cavalos  cavalaria.

Captulo VII
ANGSTIAS DE ME. 
Nunca um ser humano se sentiu mais infeliz e mais abandonado 
do que Elisa, no momento em que se afastou da cabana do pai 
Toms. Os sofrimentos e o perigo que corria o marido, o 
destino que esperava o filho, tudo isso se misturava na sua 
alma com o sentimento confuso e doloroso de todos os perigos 
aque ela prpria se arriscava ao abandonar aquela casa, a 
nica que conhecera, deixando uma senhora que sempre amara e 
respeitara. No abandonava assim todas as coisas familiares 
que nos prendem, o lugar onde crescera, as rvores que lhe 
haviam abrigado a vista, os bosques onde passeara, nas tardes 
dos dias felizes, ao lado dojovem esposo? Todas essas coisas 
que lhe vinham  memria  luz fria e brilhante das estrelas, 
pareciam tomar voz para a censurarem e perguntar-lhe para 
onde podia ela ir ao abandon-las. 
Mas, mais forte do que tudo o resto, o amor maternal 
enlouquecia-a de terror, fazendo-a pressentir a aproximao 
de qualquer perigo. O menino era bastante crescido para 
seguir ao seu lado; noutras
P[36]
 circunstancias, ter-se-ia limitado a lev-lo pela mo; mas 
s a ideia de nunca mais o poder apertar nos braos fazia-a 
estremecer; e, apressando a marcha, apertava-o contra o peito 
num abrao convulsivo. 
A terra gelada estalava sob os seus passos. Tremia ao 
menor vestgio de perigo: o roar de uma folha, o mexer de 
qualquer sombra faziam afluir-lhe o sangue ao corao e 
precipitavam-lhe a marcha. O filho
parecia-lhe leve como uma pluma. 
Primeiro o espanto, a estranheza das circunstncias, 
mantiveram-no acordado; mas a me reprimia-lhe to 
energicamente cada palavra, cada suspiro, assegurando-lhe que 
se ele estivesse sossegado o salvariam, que ele abraou-se 
calmamente a ela, dizendo-lhe apenas, quando
sentiu chegar-lhe o sono:
- Me, eu tenho de ficar acordado? Tenho?
- No, meu anjo. Dorme, se quiseres. 
- Mas se eu dormir tu no me deixas, me, pois no?
- Oh, meu Deus! Deixar-te? No, com certeza - E o seu 
rosto ficou mais plido, e os seus olhos negros mais 
brilhantes. . . 
- Tens a certeza, me?
- A certeza absoluta! - respondeu a me com voz de que 
ela prpria se assustou, porque parecia vir de um esprito 
interior que desconhecia. 
A criana deixou cair a cabea cansada e adormeceu. O 
contacto daqueles bracinhos quentes, a respirao que lhe 
passava junto do pescoo davam aos movimentos da me uma 
espcie de ardor. Os limites da quinta, as moitas, o bosque, 
tudo ia passando como fantasmas. . . E ela andava, continuava 
a andar, sem descanso, sem tomar
flego. . . Os primeiros alvores do dia encontraram-na na 
grande estrada, a muitas milhas da casa. 
Vrias vezes, fora com a senhora visitar uns amigos da 
vizinhana na  aldeia de T. , perto de Ohio: conhecia 
perfeitamente aquele caminho. Mas ir mais longe, atravessar o 
rio, era para ela o princpio
do desconhecido. S podia, a partir de agora, contar com 
Deus. 
Quando os cavalos e os carros comearam a circular na 
estrada, compreendeu, com aquela intuio rpida que temos 
sempre nos momentos de exaltao moral, que parece uma 
inspirao, que a sua
marcha ao acaso e a sua expresso inquieta iam atrair 
sobre ela a ateno desconfiada dos transeuntes. Pousou por 
isso a criana no
cho, comps o vestido, ajeitou o cabelo, e moderou a 
marcha de maneira a salvar as aparncias. Tinha feito uma 
proviso de mas e de doces. As mas serviram para apressar 
o passo da criana: fazia- as
rolar adiante dele, e o menino corria com todas as suas 
foras para as apanhar. Esta brincadeira, repetida muitas 
vezes, f-la ganhar algumas milhas. 
P[37]
 Depressa chegaram a um vale atravessado por um ribeiro 
fresco e murmurante. O garoto tinha fome e sede e comeava a 
queixar-se. Atravessaram ambos o valado e sentaram-se atrs 
de uma rocha que os escondia da vista. Ela deu de comer ao 
filho. A criana reparou que a me no comia, e abraando-a 
quis meter-lhe um pedao de bolo na boca. 
- No, Harry, meu amor. A me no pode comer 
enquanto no estiveres salvo. . Temos que ir. . . Andar, 
andar muito, at chegarmos ao rio. 
E precipitou-se para a estrada. . . depois seguiu a passo 
regular e calmo. 
J tinha passado muitas milhas para alm dos stios onde a 
conheciam. Se por acaso encontrasse algum dizia para consigo 
que a bondade proverbial da familia afastava qualquer ideia 
de evaso. E
depois, tinha a pele to clara, que era preciso um bom 
golpe de vista para reconhecer a mistura do sangue. O filho 
era to branco como ela. 
Era mais uma possibilidade de passar despercebida. 
Por volta do meio-dia parou numa linda quinta para descansar 
e pedir comida. Conforme se distanciava, o perigo diminua; 
tinha os nervos mais calmos, e sentia ao mesmo tempo fome e 
cansao. 
A dona da quinta, j idosa e com cara de boa pessoa, 
ficou encantada por ter com quem conversar, e acreditou sem 
reservas na histria de Elisa, que ia, conforme disse, passar 
uma semana a casa de uma amiga. . . 
- Quem me dera que fosse verdade! - acrescentou ela em 
voz baixa. 
Uma hora antes do pr do Sol, chegava  aldeia de T.,  
beira do rio Ohio, cansada, com o corpo dolorido, mas cheia 
de fora de alma. 
Voltou os olhos para o rio, que, semelhante ao Jordo da 
Biblia, a separava de Cana e da liberdade. 
Era no princpio da Primavera; o rio, cheio e ruidoso, 
arrastava grandes pedaos de gelo nas guas tumultuosas. 
Graas  forma especial da margem, que naquela parte de 
Kentucky avana como um promontrio no meio das guas, 
enormes quantidades de gelo tinham
ficado retidas no caminho. Amontoavam-se em pilhas 
enormes que formavam uma espcie dejangada irregular e 
gigantesca, interrompendo a comunicao entre as duas 
margens. 
Elisa ficou um instante a contemplar aquele espectculo 
desanimador. . No  possvel usar a jangada!", pensou ela. . 
. E correu a uma
pequena estalagem para pedir algumas informaes. 
A estalajadeira, ocupada com os seus fritos e os seus 
guisados para a refeio da noite, parou, de garfo na mo, ao 
ouvir a voz suave e triste
de Elisa. 
- Que deseja?
P[38]
-H algumajangada ou barco para atravessar as pessoas que vo 
para B. ?
- No, no h. Os barcos j no podem passar. 
A dor e o abatimento de Elisa preocuparam aquela mulher. 
- Precisa de passar para o outro lado do rio? - 
perguntou-lhe ela com interesse. - Tem algum doente? Parece 
inquieta. 
-Tenho um filho em perigo de vida. S ontem  noite  
que soube. Vim a correr, na esperana de encontrar a jangada. 
- Que pouca sorte - disse a mulher, sentindo despertar 
todo o seu instinto matemal. . . - Vou ver se a posso ajudar! 
Salomo! - gritou da janela, lanando a voz em direco a uma 
cabana enegrecida. 
Um homem com as mos sujas e um avental de coiro 
apareceu  porta. 
- Ouve l, Salomo, o tal homem no vai atravessar o rio 
esta noite?
- Disse que vai tentar, se for possvel. 
Ento a estalajadeira voltou-se para Elisa:
- Logo h-de vir aqui um homem para passar esta noite 
umas mercadorias. O melhor  sentar-se e esperar. Que lindo 
menino! acrescentou, oferecendo um bolo  criana. 
Mas o garoto, cansado do caminho, comeou a chorar. 
- Pobre menino! - disse Elisa -, no est habituado a 
andar. . . 
- Deite-o aqui neste quarto - disse a estalajadeira 
abrindn um pequeno gabinete onde havia uma cama confortvel. 
Elisa deitou ali o filho e segurou-lhe as mos nas suas at 
ele adormecer. Para ela no podia haver sossego. A ideia dos 
seus perseguidores, como um fogo ardente, devorava- lhe os 
ossos. Olhava por entre lgrimas as ondas altas e terrveis 
que deslizavam entre ela e a liberdade. 
Mas deixemos a infeliz mulher por uns instantes, e 
vejamos o que aconteceu aos que a perseguiam. 
 verdade que a Senhora Shelby dissera que u jantar ia 
ser servido imediatamente: mas da a pouco verificou-se, como 
acontece muita vez, que quem quer vai, quem no quer manda. 
Embora as ordens fossem dadas na presena de Haley e 
transmitidas  me Clo por, pelo menos, uma dzia de rpidos 
mensageiros, essa alta dignitria limitou-se amurmurar 
algumas palavras inaudveis como resposta, sacudindo acabea, 
e continuou o seu trabalho com uma lentido desusada. 
Toda a casa parecia instintivamente adivinhar que a 
senhora no se preocupava nada com este atraso; no se pode 
imaginar o nmero de acidentes que atrasaram o curso normal 
das coisas. Um ajudante desastrado entornou o molho: foi 
preciso faz-lo de novo. Clo ps nisso um cuidado 
desesperante e uma preciso meticulosa. A todas as 
recomendaes respondia que no ia servir um molho mal feito 
a uma
P[39)
 pessoa que tinha pressa em caar outra. Um rapazinho caiu e 
entornou a gua que trazia: foi preciso voltar outra vez  
fonte. Outro deixou cair
a manteiga. 
De vez em quando apareciam, dando gargalhadas, para 
dizer na cozinha que o Senhor Haley no parecia nada 
satisfeito, e passeava inquieto da janela at  porta.
- Estou muito satisfeito - disse Tom - que o senhor no tenha 
sado esta manh, como tencionava. Isso era pior do que saber 
que fui vendido. Para ele era uma coisa muito natural mas 
muito triste para mim, que o conheo desde pequeno, vi o 
senhor e, assim, comeo
a sentir-me conformado com a vontade de Deus. O senhor no 
podia resolver as coisas de outra maneira. Fez bem. Mas tenho 
medo 

que suceda ainda pior quando me for embora. Ningum 
espera que o senhor ande para a a vigiar tudo, como eu 
fazia. Os rapazes tm boa vontade,
mas so muito descuidados. . .  isso que me aflige!
Ouviu-se a campainha, e Tom foi chamado ao salo. 
- Tom - disse Shelby com bondade -, devo prevenir-te que 
terei de devolver dez mil dlares a este senhor, se no 
estiveres amanh no stio que ele te indicar. Agora ele tem 
outros assuntos a resolver. Tens o dia livre. Podes ir para 
onde quiseres, meu rapaz. 
- Obrigado, senhor - respondeu Tom. 
- E no te esqueas - acrescentou o traficante - que se 
pregares alguma partida ao teu senhor, eu lhe exijo a 
devoluo do dinheiro. Se ele pensasse como eu, nunca se 
fiava em vocs, os negros. Vocs escapam-se como enguias. 
- Senhor - disse Tom, endireitando-se diante de Shelby -
, eu tinha oito anos quando a velha senhora o ps nos meus 
braos; ainnda o senhor no tinha um ano: Tom, este ser o 
teu senhor - disse-me ela -, toma bem conta dele E agora 
pergunto-lhe, meu senhor, faltei ao meu dever? Alguma vez lhe 
fui infiel, sobretudo desde que sou cristo. 
- Meu velho Tom, Deus sabe que dizes a verdade. . . e se 
eu pudesse no te vendia, nem por todo o ouro do mundo. 
- To certo como eu ser crist - disse por sua vez a 
Senhora Shelby -, hs-de ser resgatado assim que ns 
pudermos. Senhor Haley, lembre-se a quem o vender e diga-me. 
- Quanto a isso, pode ficar descansada -- disse Haley. - 
Se quiser, posso trazer-lho daqui a um ano. 
- Compro-lho por bom preo. 
- Muito bem - disse o mercador. - Compro, vendo, 
contanto que faa um bom negcio.  s o que eu peo, 
compreende?. . . 
O Senhor e a Senhora Shelby sentiam-se humilhados e 
rebaixados com aquela familiaridade do mercador; mas tambm 
sentiam ambos
P[40]
 	necessidade imperiosa de dominar os seus sentimentos: 
quanto mais o mercador se mostrava duro e avaro mais a 
Senhora Shelby receava v-lo
conseguir apanhar Elisa e o filho. Procurava portanto ret- 
lo com toda a forma de habilidades femininas: eram 
deferncias, sorrisos, conversaes quase ntimas. . . tudo, 
enfim, que fizesse passar o tempo insensivelmente. 
Decorrida mais uma hora, Samuel e Andr trouxeram os cavalos, 
que pareciam mais descansados do que nunca, apesar das 
correrias da manh. 
Quando Haley se aproximou, Samuel dizia a Andr, referindo-se 
evidentemente ao que iam fazer, que tudo correria pelo melhor 
e que no duvidava do maior xito. 
- Quero seguir a direito at ao rio - disse Haley ao chegar 
ao limite da propriedade. - Sei o caminho que todos eles 
tomam: tentaro passar.
- Com certeza - disse Samuel -  uma boa ideia! O Senhor
sabe o que faz. . . Mas h dois caminhos para chegar ao rio, 
o de terra e o caminho de pedras. Por qual quer seguir?
Andr olhou ingenuamente para Samuel surpreendido com 
aquela novidade topogrfica, mas confirmou imediatamente as 
palavras do outro, com reiteradas afirmaes. 
- Acho que a Elisa foi pela que  menos frequentada - 
corroborou ele.
Haley, apesar de ser raposa velha e naturalmente muito 
desconfiado, deixou-se convencer com esta observao. 
Era realmente uma velha estrada que servira outrora para 
chegar ao rio. Estava abandonada havia muitos anos em favor 
de um novo caminho. A estrada estava livre at cerca de uma 
hora de marcha; depois disso era cortada por sebes e quintas. 
Samuel sabia isso, mas estava havia tanto tempo vedada, que 
Andr por isso, cavalgava com um ar de submisso respeitosa, 
resmungando e gritando de tempos a tempos que o piso era 
muito spero e pssimo para a pata de Jerry. 
- Previno-os de que j os conheo, seus espertalhes - disse 
Haley. - Todas as vossas intrujices no me faro abandonar 
esta estrada. . . Cala-te, Andr!
- Faa como entender, senhor - continuou Samuel, com ar 
humilde. E ao mesmo tempo, lanou uma olhadela significativa 
a Andr, que quase ia rebentando a rir. 
Samuel estava no auge da animao: gabava-se da sua ptima 
vista, e gritava de vez em quando: Ah Estou a ver um chapu 
de mulher l no alto!, ou ento, chamando a ateno de Andr: 
No  a Lizzy, 
P[41]
escondida naquele buraco? Escolhia para estas exclamaes as 
zonas difceis e pedregosas da estrada, onde era quase 
impossvel apressaro passo. Mantinha assim Haley em perptuo 
sobressalto. 
Aps uma hora de marcha, os trs viajantes desceram 
precipitadamente para um ptio pertencente a uma grande 
quinta. No encontraram ningum. Estava toda a gente para os 
campos; mas como a quinta barrava completamente o caminho, 
era evidente que no se podia seguir mais adiante naquela 
direco. 
- Que lhe dizia eu, senhor? - exclamou Samuel com o ar 
de quem foi obrigado a fazer uma coisa contra vontade. - Como 
 que um estranho podia conhecer o caminho melhor do que os 
que nasceram e foram criados aqui?
- Patifes! - gritou Haley -, vocs sabiam muito bem!
- Mas eu disse-lhe e o senhor no quis acreditar. Eu 
disse ao senhor que o caminho estava todo vedado e fechado, e 
que no podamos passar. O Andr ouviu. 
Esta afirmao era demasiado verdadeira para que algum 
a pudesse contradizer. O mercador foi por isso obrigado a 
disfarar o melhor possvel. Dominou a sua clera, e deram 
todos trs meia volta e dirigiram-se para a estrada. 
De todos estes atrasos, resultou um certo avano para a 
Elisa. Havia trs quartos de hora que a criana dormia no 
gabinete da estalagem, quando Haley e os dois escravos ali 
chegaram tambm. 
Elisa estava  janela, olhando em direco contrria. Os 
olhos agudos de Samuel viram-na imediatamente. Haley e Andr 
vinham alguns passos atrs. Era um momento decisivo. Samuel 
fez com que um golpe de vento lhe levasse o chapu. Deu um 
grito formidvel e de uma maneira muito especial. Esse grito 
despertou Elisa como um aviso. Recuou imediatamente. 
Os trs viajantes pararam em frente da porta de entrada, 
muito perto da janela. 
Para Elisa, concentraram-se ali mil vidas naquele 
instante supremo. O gabinete tinha uma porta lateral que dava 
para o rio. Agarrou no filho e desceu a correr alguns 
degraus. O mercador viu-a no momento em que ela desaparecia 
por detrs da encosta da margem. Desceu do cavalo, chamou 
Samuel e Andr aos gritos, e precipitou-se atrs dela, como o 
co corre atrs de um veado. Naquele minuto terrvel, os ps 
de Elisa mal tocavam o cho; parecia levada na crista das 
ondas. Seguiram atrs dela. Ento, com aquele poder que Deus 
concede apenas aos desesperados, soltando um grito selvagem, 
de um salto, ela atirou-se da margem por sobre a torrente 
ruidosa e caiu najangada de gelo. Foi um salto desesperado, 
impossvel, raiando o desespero e a loucura. Haley, Samuel e 
Andr lanaram uns gritos e levantaram as mos ao cu. 
P[42]
 Um enorme bloco de gelo estalou e fugiu-lhe debaixo dos ps. 
mas ela no parou um segundo. Entretanto, lanando sempre 
gritos selvagens, redobrando de energia perante o perigo, 
lanou-se de bloco em bloco, escorregando, agarrando- se, 
caindo, mas levantando-se sempre! Perdeu um sapato, as meias 
fugiram-lhe das pernas, deixou o seu rasto marcado com 
sangue. Mas no deu por nada, no sentiu nada, at que 
finalmente. . . como num sonho, viu a outra margem, e um 
homem que lhe estendia a mo. 
Elisa reconheceu a cara e a voz de um homem que morava 
numa quinta muito perto da sua antiga morada. 
- Oh, Senhor Symmer, salve-me! Salve-me! Esconda-me! - 
pediu ela. 
- Mas o que aconteceu? J no ests em casa do Senhor 
Shelby?
- O meu filho, esta criana, ele vendeu-a! E aquele  o 
seu novo dono - disse ela, apontando a margem de Kentucky. - 
Oh, Senhor Symmer! O senhor tambm tem um filho!
- Sim, tenho!. . . - E ajudou-a, com rudeza, mas com 
bondade, a subir para a margem. 
Quando chegaram ao alto da margem, o homem parou:
- Eu gostava de fazer qualquer coisa por ti - disse ele 
-, mas no tenho onde te alojar. A nica coisa que posso 
fazer  indicar-te onde deves ir. - E mostrou-lhe uma grande 
casa branca isolada na rua principal da cidade. - Vai l. So 
boas pessoas. No h o menor perigo. . . Eles te ajudaro. . 
. Esto habituados a coisas deste gnero. 
- Deus o abenoe! - disse Elisa, com vivacidade. 
- No tem importncia - continuou o homem -, no tem 
importncia nenhuma, absolutamente nenhuma. 
- E o senhor no vai contar a ningum?
- Por quem me tomas, mulher? Mereces bem a tua 
liberdade, e t-la-s, se isso depender de mim. 
Elisa pegou novamente no filho ao colo, e caminhou a 
passo firme e rpido. O quinteiro parou a v-la. 
Shelby talvez ache que eu no fui um bom vizinho, mas que 
importa? Se apanhar alguma vez uma das minhas mulheres nas 
mesmas circunstncias, no vai perder a ocasio de se 
desforrar. Mas eu no resisti, ao ver esta pobre criatura a 
correr, a lutar, com os ces a persegui-la, e tentando 
salvar-se. . . Alis, no estou encarregado de dar caa e 
apanhar os escravos dos outros. 
Haley ficara como fulminado por este espectculo. Quando 
Elisa desapareceu, lanou sobre os dois negros um olhar turvo 
e inquisidor. 
- Foi bonito - disse Samuel. 
-  preciso que ela tenha sete diabos no corpo - 
continuou Haley. . . - Saltava como um gato-selvagem. 
P[44]
- Meu Deus! - disse Samuel -, espero que o senhor no nos 
tenha levado a mal por no a seguir. No tivemos coragem de 
ir por aquele caminho. 
E Samuel teve um acesso de riso que nunca mais acabava.

Captulo VIII
ONDE SE V QUE UM SENADOR NO PASSA DE UM HOMEM
Os reflexos de um lume vivo reflectiam-se no tapete e nos 
cortinados de um belo salo, e brilhavam no bojo 
resplandecente de uma chaleira rodeada de chvenas. O Senhor 
Bird, o senador, descalava-se e preparava-se para meter nos 
ps um par de pantufas novas que a mulher acabara de fazer 
para ele durante a sesso do Senado. A Senhora Bird, imagem 
viva da felicidade, cuidava do arranjo da mesa, dirigindo de 
vez em quando recomendaes a umas poucas de crianas 
barulhentas, que se entregavam a todas as desordens e 
maldades que so otormento das mes desde que o mundo  
mundo. 
- Ento - perguntou a mulher quando a mesa estava quase 
pronta e o ch preparado -, o que foi que fizeram hoje no 
Senado?
Era caso raro ver aquela pequenina Senhora Bird 
preocupar-se com o que se passava no Senado. Ela achava, com 
muita razo, que lhe bastava ter de se preocupar com a casa. 
Por isso, o Senhor Bird abriu muito os olhos e disse:
- Minha querida, votaram uma lei que probe ajudar os 
escravos que vm de Kentucky. Esses abolicionistas furiosos 
fizeram tantas que os nossos irmos de Kentucky esto muito 
irritados, e parece necessrio e ao mesmo tempo prudente e 
cristo que o nosso estado faa qualquer coisa para os 
sossegar. 
- Que lei vem a ser essa? No nos probe com certeza de 
albergar poruma noite essas pobres criaturas?. . . Probe? 
Probe que lhes dmos umaboarefeio, algumas roupas usadas, 
e deix-los ir tranquilamente  sua vida?
- Mas, querida, tudo isso seria proteg-los e ajud-los, 
bem vs. 
- John, gostava de saber se achas verdadeiramente que 
essa lei  justa e crist. 
- No me mandas fuzilar, Mary, se te disser que sim?
- No esperava isso de ti, John. No a votaste, est 
claro!
- Claro que votei, senhora dona poltica. . . 
- Devias ter vergonha, John! Essas pobres criaturas, sem 
tecto, sem abrigo! Que lei infame, sem corao, abominvel. 
Desobedeo-lhe assim que tiver ocasio. . . e essa ocasio 
h-de chegar!. . . Ah! Ao
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que chegmos, se uma pessoa no pode dar sem praticar um 
crime, uma sopa quente e uma cama a esses desgraados que 
morrem de fome, porque so escravos, quer dizer, porque foram 
oprimidos e torturados durante toda a vida! Pobre gente!
- Mas, querida Mary, escuta. Os teus sentimentos so 
justos e humanos, e gosto de ti por seres assim. Mas, 
querida, no devemos deixar-nos arrastar pelos nossos 
sentimentos sem pensar. No se trata aqui do que ns 
sentimos. Esto emjogo grandes interesses pblicos. Vai uma 
tal efervescncia entre o povo, que devemos sacrificar as 
nossas prprias simpatias. 
- Ouve, John! Eu no sei nada da vossa poltica, mas sei 
ler a Biblia, e vejo que devo dar de comer a quem tem fome, 
vestir os nus, consolar os aflitos. E quero seguir a Bblia!
- Mas no caso da tua atitude desencadear uma desgraa 
pblica?
- Obedecer a Deus nunca pode desencadear uma grande 
desgraa pblica. . . Sei que isso no pode ser! O melhor  
fazer sempre o que ele ordena. 
- Escuta, Mary, vou dar-te um excelente argumento para 
te provar que. . . 
- No, John! Podes ficar para a a falar toda a noite 
que no me convences. E pergunto-te: serias capaz de expulsar 
da tua casa uma criatura a morrer de fome e de frio, s por 
ser um escravo fugitivo? Serias capaz? Responde!
Agora, devemos dizer que o nosso senador tinha a 
infelicidade de ser um homem de natureza terna e sensvel: 
expulsar uma pessoa em dificuldade nunca fora o seu forte, e 
o que era ainda mais aborrecido para ele, em presena de um 
tal argumento, era que a mulher o conhecia bem, e que sabia a 
praa sem defesa. . . Precisava portanto de recorrer a todos 
os meios possveis para ganhar tempo: fazia que puxava do 
leno, limpava os vidros dos culos. A Senhora Bird, vendo 
que o campo inimigo estava quase conquistado, abusava ainda 
mais das suas vantagens. 
No ponto crtico da discusso, o velho Cudjox, o criado 
para todo o servio da casa, espreitou  porta e pediu  
senhora se podia chegar  cozinha. 
O nosso senador, aliviado, seguiu com os olhos a mulher, 
com uma caprichosa mistura de prazer e contrariedade e, 
sentando-se num cadeiro, comeou a ler os seus papis. 
Passados uns instantes, ouviu-se a voz da Senhora Bird 
que dizia em tom vivo, cheia de comoo: 
- John! John! Podes chegar aqui um instante?
O Senhor Bird ps de parte os papis e dirigiu-se  
cozinha. Ficou mudo de espanto com o espectculo que tinha na 
sua frente. Uma jovem
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magra, com o vestido roto e encharcado, sem um sapato, a meia 
cada, um p ferido e cheio de sangue, estava deitada sobre 
duas cadeiras, sem sentidos. . . Reconheciam-se no seu rosto 
os traos distintos da raa desprezada, mas adivinhava-se ao 
mesmo tempo a sua beleza triste e apaixonada; a sua rigidez 
de esttua, o seu aspecto
imvel, onde se lia a morte, causavam imediatamente angstia. 
O Senhor Bird ficou parado, com o peito arfante e em 
silncio. A mulher, o seu nico criado de cor e a tia Dina 
entregavam-se activamente em faz-la voltar a si, enquanto o 
velho Cudjox pegava no menino nocolo, tirava-lhe os sapatos e 
as meias, e tentava aquecer-lhe os ps. 
-Pobre rapariga! S v-la, mete d - disse a velha Dina 
com voz angustiada. - Acho que foi o calor que lhe fez mal. . 
. Estava to bem quando entrou. . . pediu para se aquecer um 
pouco. Perguntei-lhe de onde vinha, e ela caiu estendida no 
cho. Nunca fez trabalhos pesados, v-sepelas mos. 
-Pobrezinha! - disse a Senhora Bird com voz comovida, 
quando a jovem, abrindo os grandes olhos pretos, lanou em 
volta um olhar
distante e vago. . . Uma expresso de angstia passou-lhe no 
rosto, e de repente exclamou:
- Oh! O meu Harry!	Levaram-no?
Ao ouvir este grito, a criana soltou-se dos braos de Cudjox 
e correu para ela. 
-Ah! Est aqui! Est aqui!
E, com ar desvairado, dirigindo-se  Senhora Bird:
- Oh, minha senhora, proteja-o! No deixe que o levem!
 	- No, com certeza! Aqui ningum te far mal - disse a 
Senhora Bird. - Ests em segurana, nada receies. 
- Que Deus lhe pague - disse a escrava cobrindo o rosto 
com as mos, a soluar. 
O garoto, ao v-la a chorar, tentou apert-la nos braos. 
Finalmente, ela acalmou-se, graas a todos os cuidados 
delicados e femininos que ningum sabia dar melhor do que a 
Senhora Bird. 
Arranjaram provisoriamente uma cama para ela junto do 
fogo, e a rapariga em breve caiu num sono profundo, 
envolvendo nos braos o filho, que estava to fatigado como 
ela. No quis separar-se dele, ao
contrrio, resistira com uma espcie de medo nervoso, a 
todos os esforos feitos para lho tirarem. Mesmo durante o 
sono, abraava-o, apertava-o num amplexo que ningum 
conseguiria desatar, como se
quisesse defend-lo ainda. 
O Senhor e a Senhora Bird voltaram para o salo e, por mais 
estranho que possa parecer, nem um nem outro fizeram a menor 
aluso  conversa anterior. A Senhora Bird pegou no seu 
tric, e o senador fingiu ler os seus papis, at que, pondo-
os de lado, disse:
- No fao ideia de quem ela seja, nem o que faa. 
P[47]
- Quando acordar, e estiver mais calma, veremos - 
respondeu a Senhora Bird. 
- Diz-me uma coisa, querida - perguntou o Senhor Bird, 
aps uns segundos de silncio. 
- O qu, meu amigo?. . . 
- No podias dar-lhe um dos teus vestidos, descendo um 
pouco a bainha? Parece-me que ela  um pouco mais alta do que 
tu. 
Um sorriso imperceptvel passou sobre o rosto da Senhora 
Bird, e respondeu: 
- Vai-se ver!. . . 
Segundo silncio, quebrado novamente pelo Senhor Bird. 
- Outra coisa, querida!
- Sim. Que mais queres?
- Sabes, aquele casaco de bombazina que me costumas pr 
pelas costas quando durmo a minha sesta depois dojantar. . . 
podias dar-lho tambm. Ela precisa de roupas. 
Naquele mesmo instante, apareceu Dina e disse que a 
mulher tinha acordado e queria falar com a senhora. 
O Senhor e a Senhora Bird dirigiram-se  cozinha, 
seguidos dos dois filhos mais velhos. A prole de mais tenra 
idade fora metida na cama a tempo e horas. 
Elisa estava sentada na lareira, junto do lume. Olhava 
fixamente as chamas com aquela expresso calma, indcio de um 
corao despedaado, muito diferente do tumulto selvagem que 
descrevemos antes. 
- Pode falar comigo - disse a Senhora Bird, num tom 
cheio de bondade. - Espero que se sinta melhor. 
Um profundo suspiro e um estremecimento foram a nica 
resposta de Elisa. Mas levantou os olhos pretos e fixou-os na 
Senhora Bird com uma expresso de tristeza to profunda e de 
splica to comovedora que a pobre mulher sentiu-se dominada 
pelas lgrimas. 
- Nada receie. Est entre amigos. Diga-me de onde vem e 
o que quer. 
- Venho de Kentucky. 
- Quando saiu de l? - continuou o senhor, que queria 
dirigir o interrogatrio. 
- Esta noite. 
- E como chegou at aqui?
- Passei por cima do gelo. 
- Por cima do gelo? - repetiram todos os assistentes. 
- Sim - continuou ela, devagar. - Consegui, com a ajuda 
de Deus, porque eles vinham atrs de mim. . . perto, muito 
perto. . . e no havia outra soluo. 
- Meu Deus! - exclamou Cudjox -, mas o gelo partiu-se em 
grandes blocos que deslizam e andam s voltas sobre o rio. 
P[48)
 - Bem sei, bem sei - disse Elisa, com ar desvairado. - Mas 
foi assim. . . Nunca julguei conseguir. . . Tinha de passar 
ou morrer. Nunca sabemos at que ponto Ele ajuda quem precisa 
- acrescentou, com um brilho nos olhos. 
- Era escrava? - perguntou o Senhor Bird. 
- Era, sim. Pertencia a um senhor de Kentucky. 
- E ele tratava-a mal?
- Oh, no! Era um senhor muito bom. 
- E a senhora, era rspida?
- No, no! A senhora foi sempre boa para mim. 
-Ento o que a levou a abandonar uma boa casa, a fugir, 
ainda por cima atravs de tantos perigos?
A escrava fixou na Senhora Bird um olhar interrogador. 
Reparou que ela estava vestida de luto. 
-Minha senhora - disse ela de repente -, alguma vez perdeu um 
filho?
A pergunta era inesperada, e revolveu uma chaga ainda aberta. 
Havia trs meses que um menino, o benjamim da familia, fora a 
enterrar.
O Senhor Bird voltou-se e foi at janela. A Senhora Bird 
comeou a chorar, mas, dominando-se imediatamente, disse:
- Porque faz essa pergunta? Sim, perdi um filho. 
- Ento pode compreender a minha dor. Eu j perdi dois, 
um a seguir ao outro. Ficaram na terra de onde venho. S me 
resta este. No houve uma s noite que no dormisse ao meu 
lado.  tudo quanto possuo no mundo, o meu consolo, o meu 
orgulho, a minha preocupao de dia e de noite. Pois bem, 
minha senhora, iam tirar-mo para mo vemderem, venderem-no aos 
mercadores do Sul, para ele ficar sozinho, o pobre garoto que 
nunca se separou de mim na vida. No pude suportar tal ideia, 
minha senhora. Eu bem sabia que se o levassem, nunca mais 
seria capaz de fazer nada, e quando soube que tinha sido 
vendido, que os papisjestavam assinados, peguei nele e fugi 
durante a noite. Eles seguiram-me. O homem que me comprou e 
alguns escravos do meu senhor estavam quase a apanhar-me, 
ouvi-os perto. e ento saltei para cima do gelo. Como foi que 
consegui passar, nem sei. E vi um homem que me ajudava a 
subir para a margem. 
No chorava nem soluava. Tinha chegado quele ponto da 
dor em que as lgrimas secam. Mas em seu redor cada um 
demonstrava  sua naneira o que lhe ia no corao. 
Os dois garotos, depois de procurarem inutilmente na 
algibeira aquele leno que nunca se encontra, acabaram por se 
agarrar s saias da me, chorando e soluando, e limpando os 
olhos e o nariz ao vestido
P[49)
 dela. A Senhora Bird tapara o rosto com o leno, e a velha 
Dina, com as lgrimas a correrem em cascata sobre a bondosa 
cara negra, exclamava: Que Deus tenha piedade de ns. Parecia 
estar a fazer um discurso numa misso. O velho Cudjox 
esfregava os olhos  manga com fora, fazia inmeras caretas, 
e respondia no mesmo tom, com o maior fervor. O nosso 
senador, na sua qualidade de homem de Estado, no podia 
chorar como qualquer outra pessoa: voltou o rosto ao grupo, e 
foi espreitar pela janela, suspirando, limpando os culos, 
mas assoando-se vezes suficientes para levantar suspeitas, 
caso se encontrasse ali algum bastante senhor de si para 
poder fazer crticas. 
- Como pode dizer que tinha um senhor muito bom? - 
perguntou ele, voltando-se de repente, e reprimindo os 
soluos que lhe subiam  garganta. 
- Disse, porque  verdade - respondeu Elisa. - Era muito 
bom, e a senhora tambm, mas o dinheiro no lhes chegava! 
Tiveram que. . . Eu no sei explicar, mas havia um homem que 
os tinha na mo e os obrigava a fazer o que ele queria. 
- No  casada?
- Sou. Mas o meu marido pertence a outro homem. O senhor 
dele trata-o mal e no o deixa visitar- me. . . Tornou-se 
cada vez mais cruel: Ameaa-o a todo o momento de o mandar 
para o Sul e de o vender. . .  como se nunca mais contasse 
tornar a v-lo. 
O tom calmo com que Elisa pronunciou estas palavras 
poderia levar um observador superficial a crer que ela era 
completamente insensvel; mas podia verificar-se, reparando 
nos seus grandes olhos, que o seu desespero s aparentava 
calma por ser tanto mais profundo. 
- E onde tenciona ir? - perguntou a Senhora Bird, cheia 
de bondade. 
- Para o Canad, se souber o caminho.  muito longe, o 
Canad? - perguntou ela, com ar simples e confiante, olhando 
para a Senhora Bird. 
-  mais longe do que julga, minha filha. Mas ns vamos 
tentar fazer qualquer coisa por si. Ouve, Dina,  preciso 
fazer uma cama no teu quarto, ao p da cozinha. Amanh de 
manh verei o caminho a seguir. Entretanto, nada receie, 
minha filha. Confie em Deus. Ele a proteger. 
A Senhora Bird e o marido voltaram para o salo. A 
mulher sentou-se junto da lareira, numa cadeira de baloio. O 
Senhor Bird passeava de c para l, murmurando: 
-  um problema!  um problema!... 
Finalmente, caminhou direito  mulher e disse-lhe:
- Minha querida,  preciso que ela se v embora esta 
noite mesmo! O mercador chegar aqui amanh de manh cedo. Se 
fosse s a mulher, podia esconder-se at ele se ir embora; 
mas nem um exrcito consegue
P[50]
manter um garoto sossegado. Pe-se a espreitar  porta ou 
janela,  mais que certo: seria muito bonito para mim 
apanharem-me aqui com eles!. . . No, tm de se ir embora 
esta noite!
- Esta noite? Como pode ser? E para onde?
- Onde? Sei l! - disse o senador, calando as botas. 
Quando ficou com um p calado, sentou-se, a outra bota na 
mo, estudando hentamente os desenhos do tapete. - No h 
mais remdio - disse ele-, apesar de que. . . Diabos! - Meteu 
a outra bota no p, e voltou para a janela. 
A Senhora Bird era uma mulher discreta, uma mulher a 
quem nunca mingum ouvira dizer uma s vez na vida: Eu bem 
sabia! Na presente ocasio, embora soubesse onde conduziria a 
meditao do marido, absteve-se prudentemente de o 
interromper. Sentou-se em silncio, preparando-se para ouvir 
a resoluo do seu legtimo senhor, quando ele se resolvesse 
a dar-lha a conhecer. 
- Sabes - disse ele -, lembrei-me do meu antigo cliente, 
Van Tromp, que veio de Kentucky, e libertou todos os seus 
escravos. Estabeleceu- se a sete milhas daqui, atrs do rio, 
num stio onde no vai ningum, a no ser que tenha negcios 
a tratar.  um stio que no se descobre com facilidade. A 
rapariga pode ali ficar em segurana. O pior  que ningum 
consegue l chegar de noite com a carruagem. Ningum, a no 
ser eu.
- Mas o Cudjox  um excelente cocheiro. 
- Sem dvida. Mas  preciso passar o rio a vau duas 
vezes. A segunda passagem  perigosa quando no se conhece 
como eu conheo. Passei-a mais de cem vezes a cavalo, e sei 
as voltas a dar. Bem vs que noh outra soluo. Cudjox 
atrela os cavalos tranquilamente cerca da meia-noite, e eu 
levo-o comigo. Para dar veracidade  coisa, finjo que ele me 
acompanha para tomar o carro de Colombo, que passa dentro de 
trs ou quatro horas. Assim, julgam que foi para isso que eu 
levei a carruagem. Tenho l uns negcios a tratar amanh de 
manh. No sei o que me vai acontecer depois do que disse e 
fiz sobre a questo dos escravos. No importa.
- John, o teu corao  muito melhor do que a tua 
cabea! - excclamou a Senhora Bird pondo a mo pequena e 
branca sobre a mo do marido. - Seria possvel que alguma vez 
te tivesse amado se no te conhecesse melhor do que tu te 
conheces a ti prprio?
E a mulher pareceu-lhe to bonita, com os olhos to 
brilhantes de lgrimas que o senador pensou que era na 
verdade um homem excepcional, para ter inspirado nela uma 
admirao to apaixonada. Que poderia fazer ento, seno 
mandar atrelar a carruagem? Todavia, parou  porta e, 
voltando para trs, disse, um pouco hesitante:
P[51]
 - Mary, no sei se ests de acordo, mas temos uma gaveta 
cheia de coisas. . . do. . . do. . . nosso pequeno Henrique. 
. . - Deu rapidamente meia volta e fechou a porta atrs dele. 
A mulher abriu a porta de um pequeno quarto de dormir 
contguo ao seu, ps um castial em cima da secretria e, 
tirando a chave de um pequeno esconderijo, meteu-a com ar 
pensativo na fechadura da gaveta. 
A Senhora Bird abriu lentamente a gaveta. Havia fatinhos de 
todos os modelos, coleces de bibes e de pegas. Havia at 
mesmo sapatos. 
Sapatos que tinham sido usados, gastos nos calcanhares. As 
biqueiras desses sapatos espreitavam pela abertura do saco de 
papel onde estavam metidos. Havia tambm brinquedos 
familiares: o cavalo, a carroa, a bola, um pio. Pequenas 
recordaes queridas, guardadas
com muitas lgrimas e o corao desfeito! 
Sentou-se em frente dessa gaveta, escondeu o rosto nas mos e 
chorou! As lgrimas deslizavam por entre os dedos e caam na 
gaveta!
Depois, levantando de repente a cabea. . . com uma 
precipitao nervosa escolheu entre aquelas coisas as mais 
slidas e melhores, e fez um embrulho. 
Passados uns momentos, a Senhora Bird abriu um guarda-
fato e, tirando um ou dois vestidos simples mas ainda em bom 
uso, sentou-se  mesa de costura, munida de agulha, tesoura e 
dedal, e comeou a
operao de deitar a bainha abaixo como o marido 
dissera. 
Trabalhou activamente at que o velho relgio, colocado 
a um canto do quarto, bateu as doze badaladas da meia-noite. 
Ouviu ento um barulho abafado de rodas parando  porta. 
- Mary - disse o Senhor Bird entrando de sobretudo na 
mo, vai acord-la. Temos de partir!
A Senhora Bird apressou-se a meter numa pequena caixa as 
diversas coisas que juntara; fechou a caixa e pediu ao marido 
que a pusesse no carro. Depois correu a despertar a rapariga. 
Da a pouco, embrulhada num casaco e num xaile, com um chapu 
da sua benfeitora,
Elisa apareceu  porta, com o filho nos braos. 
- Suba! Suba! - diss a Senhora Bird. E empurrou-a para dentro 
da carruagem. Elisa debruou-se  portinhola e estendeu a 
mo. Outra mo igualmente bonita
branca estendeu-se tambm para ela. Fixou os seus grandes 
olhos pretos cheios de emoo e reconhecimento no rosto da 
Senhora Bird.
Parecia querer dizer qualquer coisa. 
Tentou uma ou duas vezes: mexeu os lbios mas no 
conseguiu articular qualquer som. Levantou aos cus um 
daqueles olhares que nunca mais se esquecem, inclinou-se no 
banco e tapou o rosto. O carro partiu. . . 
P[52]
 Que situao para um senador que durante toda a semana 
estimulou ozelo da legislatura do seu pas para fazer votar 
as mais severas sanes contra os escravos fugitivos e 
aqueles que os recolhem e os ajudam!
O nosso legislador vencera qualquer dos seus confrades de 
Washington neste gnero de eloquncia que levou to alto a 
glria dos nossos senadores. Como fora sublime quando se 
sentara, de mos nas algibeiras, ridicularizando a fraqueza 
sentimental daqueles que pem o bem-estar de qualquer 
miservel fugitivo acima dos grandes interesses do Estado.
Nesse ponto, ele era como um leo, estava fortemente 
convencido, e comunicara a sua convico  assembleia. Mas 
nessa altura ele no conhecia a respeito de um fugitivo mais 
do que as letras com que se escreve essa palavra, ou quando 
muito a caricatura vista numjornal, de um homem passando com 
a trouxa metida num pau. Mas a magia poderosa de uma desgraa 
real e presente, um olhar humano implorando ajuda, as mos 
humanas, plidas e trementes, o apelo desesperado de uma 
agonia sem socorro... eram qualquer coisa a que ele nunca 
resistira. Nunca tinha imaginado que esse escravo em fuga 
pudesse ser a infeliz me de uma criana indefesa, como a que 
nesse momento usava o bonezinho - tinha-o reconhecido - do 
seu pobre filho morto. De qualquer maneira, embora o Senhor 
Bird fosse um poltico com culpas, estava agora a pag-las 
com os percalos da sua viagem nocturna. Tinha chovido dias a 
fio, e aquela boa e rica terra de Ohio, sempre pronta a 
transformar-se em lama, ficara encharcada pela chuva. A 
estrada era muito antiga. 
Naquelas regies onde a lama atinge profundidades 
incalculveis, as estradas so feitas de grosseiras placas de 
madeira postas transversalmente ao lado umas das outras: 
cobrem-se depois com terra, erva e o quanto se apanha. . . e 
os naturais da regio chamam quilo estrada e ficam muito 
satisfeitos por poderem caminhar sobre ela. Com o Inverno, a 
chuva arrasta a terra e a erva, arranca as placas de madeira, 
coloca-as numa desordem pitoresca, abrindo aqui e acol 
abismos de lodo negro. 
Era por uma dessas estradas que seguia o nosso senador, 
aos solavancos, entregue a reflexes interrompidas com 
frequncia pelos acidentes do terreno. 
Era alta a noite quando a carruagem, depois de conseguir 
atravessar o rio, parou em frente da porta de uma grande 
quinta. Foi preciso insistir para acordar os moradores. 
Finalmente, o respeitvel proprietrio apareceu e abriu a 
porta. Era um homem alto e forte, que vestia uma camisa de 
caador, de flanela encarnada. Os cabelos, de um amarelo 
desbotado pareciam uma floresta inculta. Uma barba de alguns 
dias dava quele homem digno um aspecto que no abonava em 
seu favor. 
P[53]
 Ficou alguns minutos de archote na mo, examinando os 
viajantes com o ar de atrapalhao mais divertido do mundo. O 
senador teve imenso trabalho para lhe fazer compreender de 
que se tratava. 
O honesto John van Tromp fora outrora um rico fazendeiro 
e possuidor de escravos em Kentucky e, contra todas as 
aparncias, senhor de um grande corao. Humano e generoso, 
fora durante muito tempo testemunha impotente de um sistema 
igualmente funesto ao opressor e ao oprimido. Finalmente, no 
aguentou mais; aquele nobre corao estoirou. Agarrou na 
pasta, atravessou o Ohio, comprou uma vasta propriedade, 
libertou os escravos, homens, mulheres e crianas, meteu-os 
numa carruagem e entregou-lhes a terra para eles cultivarem. 
Depois partiu para a baa e retirou-se numa quinta sossegada 
a fim de viver em paz com a sua conscincia. 
- Vejamos - disse o senador -, ser capaz de dar asilo a 
uma pobre mulher e a uma criana que so perseguidos pelos 
caadores de escravos?
- Penso que sim - respondeu o honesto John, com certo 
nfase. 
- J calculava - acrescentou o senador. 
- Se eles aparecerem - disse o valente homem, 
endireitando o corpo atltico -, c estou para os receber! E 
alm disso tenho seis filhos, todos com seis ps de altura, 
que tambm ficam  espera. D-lhes os meus cumprimentos e 
diga-lhes que venham quando quiserem
- continuou o homem. - No me faz diferena nenhuma. Passou 
os dedos pelas mechas de cabelos que lhe cobriam a cabea 
como um telhado de colmo, e deu uma estrondosa gargalhada. 
A cair de fadiga, esgotada, meia morta, Elisa arrastou-
se at  porta, com o filho adormecido nos braos. John, 
sempre brusco, aproximou-lhe o archote do rosto e, fazendo 
ouvir um murmrio cheio de compaixo, abriu a porta de um 
pequeno quarto de dormir que dava para a vasta cozinha onde 
se encontravam. Mandou-a entrar, acendeu uma vela que ps em 
cima da mesa, e depois disse:
- Agora, minha filha, j no tem nada a recear. Acontea 
o que acontecer, estou disposto a tudo - disse ele mostrando 
duas carabinas penduradas por cima da chamin. - Os que me 
conhecem sabem perfeitamente que  melhor no tentarem vir 
buscar ningum a minha casa quando no estou de acordo. E 
agora, minha filha, fique to descansada como se a sua me 
velasse por si. 
Saiu do gabinete e fechou a porta. 
O senador contou em poucas palavras a histria de Elisa. 
-  possvel?. . . O qu? Fez bem em me contar. 
Perseguida! Perseguida por obedecer ao grito da natureza! 
Pobre mulher! Caada como se fosse uma gazela! Caada por 
fazer o que qualquer outra no podia deixar de fazer. Oh! 
Coisas dessas obrigam-me a blasfemar!
P[54]
 John enxugou os olhos s costas da mo calosa e tisnada. 
- Pois saiba, senhor, que estive anos sem ir  igreja, porque 
os sacerdotes diziam do plpito abaixo que a Bblia permitia 
a escravatura. . . No podia responder-lhes em grego nem em 
latim: por isso larguei tudo: Bblia e sacerdotes. Nunca mais 
voltei  igreja, at encontrar um sacerdote que fosse contra 
a escravatura, mesmo com todo o grego e mais o resto. Agora 
j l posso voltar. 
Enquanto falava, John fazia saltar a rolha de uma garrafa de 
sidra espumosa, oferecendo um copo ao seu interlocutor. 
- Devia c ficar at amanh de manh - disse ele cordialmente 
ao senador. - Vou chamar a velhota, e ela prepara-lhe uma 
cama num instante. 
 	- Muito obrigado, meu caro, mas tenho de partir 
para tomar ainda esta noite a carruagem para Colombo. 
- Sendo assim, vou acompanh-lo e ensinar-lhe um caminho
 	melhor do que a estrada por onde veio. Essa estrada 
 de facto pssima. 
John preparou-se e, de lanterna na mo, conduziu o seu 
hspede por um caminho que contornava a casa.  partida, o 
senador meteu-lhe na mo uma nota de dez dlares. 
- So para ela - disse laconicamente. 
- Est bem! - respondeu John. 
Deram um aperto de mo e separaram-se.

Captulo IX
ENTREGA DA MERCADORIA
Uma alvorada de Fevereiro, cinzenta e triste, alumiou 
asjanelas da cabana do pai Toms; em volta, todas as caras 
estavam igualmente tristes reflectindo o que sentiam os 
coraes. A pequena mesa colocada em frente da lareira estava 
coberta com o cobertor de passar a ferro. Uma ou duas camisas 
grosseiras, mas limpas, estavam estendidas nas costas de uma 
cadeira, junto da chamin, outra estava sobre a mesa em 
frente de Clo. 
Com um cuidado minucioso, ela passava cada prega, e 
de vez em quando levava a mo ao rosto para enxugar as 
lgrimas que lhe corriam pelas faces. 
Tom sentou-se ao seu lado, com a Biblia aberta nos 
joelhos e a cabea apoiada na mo. Nem um nem outro diziam 
uma palavra. Era muito cedo, e as crianas ainda dormiam 
todas juntas na sua cama rstica. 
P[55]
Tom tinha no mais elevado grau o culto dos afectos familiares 
que infelizmente para ele,  um dos sinais distintivos da sua 
raa. Levantou-se e foi com ar solene junto do leito para 
contemplar os filhos. 
-  a ltima vez! - disse ele. 
Clo no respondeu. Mas o ferro girou de c para l, 
passou e tornou a passar a camisa, embora estivesse j to 
lisa como s o sabem fazer mos femininas. Depois, de 
repente, pousando o ferro com um gesto desesperado, sentou-se 
perto da mesa e comeou a chorar alto. 
- Eu sei - disse ela -, que devemos ter resignao; mas 
pergunto a Deus que resignao posso ter? Se eu ao menos 
soubesse para ond vais, como sers tratado! A senhora diz que 
far tudo para te comprar daqui a um ou dois anos. Mas, ai, 
os que vo para o Sul nunca mais voltam. Matam-nos! Eu sei 
como os tratam nas plantaes. 
- L existe o mesmo Deus que aqui, Clo. 
-  possvel - disse Clo. - Mas Deus s vezes deixa 
acontecerem coisas to terrveis. . . Receio no encontrar 
consolo por esse lado.
- Eu estou nas mos do Senhor - disse Tom. - Nada pod 
acontecer que Ele no permita. Isto acontece porque Ele quer, 
e eu dev agradecer-lhe. Sou eu que sou vendido, que me vou 
embora, e no tu ou as crianas. Aqui, vocs ficam em 
segurana. O que tem que acontecer s me acontecer a mim, e 
Deus h-de ajudar-me. Sim, eu sei que Ele me vai ajudar. 
Levantem os olhos para o Senhor que est l em cima. Acima de 
todos ns. No morre um pardal nesta terra sem que Ele o 
ordene. 
- Eu sei; mas tudo isso no me serve de consolao - 
disse Clo. 
- Para qu falar no assunto? Vou tirar o bolo do lume e 
servir-te un bom almoo. Quem sabe quando comers outro 
igual?
Para compreender o sofrimento dos negros vendidos aos 
mercadores do Sul  preciso lembrar que todos os afectos 
instintivos desta raa so de uma fora incrvel. Agarram-se 
ao lugar onde nasceram; no sentem o desejo de aventura: tm 
todos os afectos domsticos. Juntem a isso o terror com que a 
ignorncia sempre pinta o desconhecido. Acrescentem ainda que 
ser vendido para o Sul  uma perspectiva apresentada desde a 
infncia perante os olhos do negro como o mais severo dos 
castigos. 
Inspira-lhe menos medo a ameaa do chicote e da tortura 
do que ameaa de ser levado para o outro lado do rio. 
A modesta refeio da manh fumegava sobre a mesa de 
Tom. A Senhora Shelby tinha naquele dia dispensado Clo de 
todos os servios da casa. A pobre mulher tinha posto toda a 
sua coragem na preparao daquele almoo de despedida. Tinha 
morto e cozinhado os melhores frangos, e os doces estavam 
exactamente ao gosto de Ton.
P[56]
 Tambm tinha feito aparecer certa garrafa misteriosa, e 
conservas que s viam a luz do dia nas grandes ocasies. 
As crianas, depois de terem devorado o que havia em 
cima da mesa, comearam a reflectir acerca do que se passava. 
Vendo a me a chorar e o pai muito triste davam suspiros e 
esfregavam os olhos. O pai Toms ps sobre os joelhos a filha 
mais pequena, que se entregou ao divertimento favorito, 
arranhando a cara e puxando os cabelos do velho negro, e 
tendo de vez em quando acessos de alegria que pareciam 
responder a ideias ntimas. 
- Ri inocentinha, ri - exclamou Clo. - Um dia chegar a tua 
vez: hs-de crescer para veres o teu marido vendido e talvez 
para seres vendida tambm. E os teus irmos tambm sero 
vendidos, com toda a certeza, desde que valham alguma coisa. 
. . No  assim que tratam os
negros?
Naquele momento uma das crianas gritou:
- Vem a a senhora!
- Para qu? No tem aqui nada que fazer - gritou Clo. 
 A Senhora Shelby entrou. Clo estendeu-lhe uma cadeira 
com ar amuado. A Senhora Shelb pareceu no dar por nada. 
Estava e parecia inquieta. 
- Tom - disse ela -, venho aqui para. . . 
De repente parou, olhou para o grupo silencioso, sentou-se, 
tapou o rosto com o leno e rompeu em soluos. 
- Ah, minha senhora - disse Clo -, no. . . no. . - E 
comeou achorar tambm. . . E da a pouco todos choravam. . . 
- Meu pobre Tom - disse a Senhora Shelby -, por enquanto no 
posso fazer nada por ti. Se te der dinheiro, tiram-to. Mas 
juro solenente que no te perderei de vista e que, assim que 
puder, estars aqui imediatamente. At l, tem confiana em 
Deus.
As crianas gritaram:
- Vem ali o Senhor Haley!
A porta foi aberta com um pontap brutal. Haley ficou de p, 
cansado da viagem nocturna e irritado com o pouco resultado.
-Aqui negro! Ests pronto?. . . Minha senhora. . . um seu 
criado. 	
E tirou o chapu ao ver a Senhora Shelby. 
Clo fechou a caixa e atou-a, olhando o mercador com ar 
irritado. 
As lgrimas pareciam ter-se transformado em fascas. 
Tom levantou-se com calma para seguir o seu novo senhor, e 
carregou com a pesada caixa s costas. A mulher pegou na 
pequenina ao colo, para acompanhar o marido at  carruagem. 
Os garotos seguiram-na a chorar. 
P[57]
 A Senhora Shelby dirigiu-se ao mercador e reteve-o um 
momento. falava-lhe animadamente. Entretanto, toda a familia 
avanava para o carro, que j estava atrelado junto da porta. 
Os escravos novos e velhos acotovelavam-se em volta para 
dizerem adeus ao velho companheiro. Tom era considerado por 
todos como o chefe dos escravos e director espiritual. A sua 
partida provocava sincero desgosto. 
- Sobe - disse Haley a Tom, passando por entre a 
multido de escravos que o olhavam com preocupao. 
Tom subiu. 
Ento, tirando debaixo do banco um pesado par de 
algemas, Haley prendeu-lhas aos tornozelos. 
Um murmrio abafado de indignao correu pelo grupo e a 
Senhora Shelby gritou do patamar:
- Asseguro-lhe, Senhor Haley, que essa precauo  
intil. 
- Nunca fiando, minha senhora: j perdi aqui mesmo um 
escravo de quinhentos dlares; no quero correr o mesmo 
risco. 
As duas crianas, que pareciam compreender agora a sorte 
do pai, agarraram-se  saia de Clo, gritando, chorando e 
gemendo. 
- Lamento - disse Tom -, que o menino Jorge no esteja 
aqui. 
Jorge estava com efeito em casa de um amigo, numa plantao 
da vizinhana; ignorava a desgraa de Tom. 
- Dem muitas recomendaes minhas ao menino Jorge - 
continuou ele com ar srio. 
Haley chicoteou o cavalo. Depois de lanar um ltimo e 
demorad olhar  casa, Tom partiu. 
O Senhor Shelby estava ausente. 
Vendera Tom obrigado pela mais dura necessidade, e para 
no ficar nas mos de um homem que ele temia. A sua primeira 
impresso depois de assinar o contrato, foi uma espcie de 
alvio. As splicas da mulher despertaram os seus sentimentos 
meio adormecidos. O desinteresse de Tom tornava o seu 
desgosto ainda mais pungente. Era em vo que repetia a si 
prprio que estava no direito de proceder assim, que todos o 
faziam, sem terem sequer como ele a desculpa da necessidade. 
No podia conformar-se, e para no ser testemunha das ltimas 
e tristes cenas da separao, partira de manh cedo, 
esperando que tudo tivesse acabado antes do seu regresso. 
Tom e Haley rodavam num turbilho de poeira. Todas as 
coisas familiares ao escravo passavam como fantasmas. 
Os limites da propriedade ficaram para trs, e entraram 
na estrada pblica. 
Ao fim de cerca de uma milha, Haley parou em frente da 
loja de um ferrador, e entrou para mandar fazer algumas 
modificaes num par de algemas. 
P[58]
 - So muito pequenas para ele - disse Haley mostrando os 
ferros e olhando para Tom. 
- O qu?  o Tom do Shelby!. . . No o vendeu!?
- Vendeu, sim - continuou Haley. 
- impossvel!. . . Ele? Quem diria? Nesse caso, no 
precisa de o prender.  o melhor, o mais fiel homem do mundo. 
. . 
- Pois sim - disse Haley -, mas so os bons que querem 
fugir, precisamente. Os estpidos deixam-se levar para onde a 
gente quer. . . Contanto que lhes d comida, no querem saber 
do resto. Mas os escravos inteligentes odeiam mais as 
mudanas do que o demnio. S h uma maneira,  prend-los. 
Se lhes deixamos as pernas livres, servem-se logo delas, 
garanto-lhe. 
- Mas - disse o ferrador, fazendo o trabalho 
pensativamente, os negros de Kentucky no se do bem nas 
plantaes do Sul. Parece que morrem muito depressa. 
- Claro que sim! - disse Haley. -  por causa do clima. E h 
ainda outras razes! Enfim, isso movimenta muito o mercado!
- Ento - continuou o ferrador -, custa ver ir para l 
um homem honesto como este pobre Tom. 
- Mas ele tem sorte; eu prometi trat-lo bem. Vou p-lo como 
criado em casa de qualquer boa antiga famlia, e a, se no 
for vtima da febre e do clima, ser to feliz quanto um 
negro pode desejar. 
- Deixa atrs de si a mulher e os filhos, creio eu. 
- Sim, mas arranja outra. Bem sabe que h muitas 
mulheres em todo o lado.
Durante esta conversa, Tom estava tristemente sentado no 
carro,  porta da casa. De repente, ouviu o rudo seco, vivo 
e conhecido de patas de cavalo. Antes de ter tempo de ver o 
que era, Jorge, o seujovem senhor, subiu para o carro, e 
lanou-lhe os braos ao pescoo, soltando um enorme grito:
-  uma infmia - dizia ele -, uma verdadeira infmia!Digam o 
que disserem. Se eu j fosse um homem, isto no acontecia, 
no acontecia! - continuou ele com indignao contida. 
- Ah, menino Jorge, fico to satisfeito - dizia Tom. - 
Sentia-me to triste por me ir embora sem o ver. Fico to 
satisfeito, juro-lhe. 
Tom mexeu um pouco o p. Jorge reparou na grilheta. 
- Que vergonha! - exclamou ele levantando as mos ao cu. Vou 
dar uma sova nesse velho patife.  o que ele merece.
- No, menino Jorge, no. Nem sequer deve falar to alto. No 
adiantava nada que ele se enfurecesse contra mim. 
-Estbem! Por ti, contenho-me, Tom. . . Mas s de pensar 
nisso! Sinto,  uma vergonha! Ningum me avisou, e se no 
fosse o Toms
P[59]
 Lincoln, no teria sabido de nada. . . Ah, disse-lhes das 
boas l em casa! A todos, sim, a todos!
- Receio que no tenha razo, menino Jorge. No, no tem 
razo. 
- Foi superior s minhas foras; repito que  uma vergonha! 
Olha, pai Toms - acrescentou ele voltando o rosto na 
direco da loja e tomando um ar misterioso -, trouxe-te o 
meu dlar. 
- Mas eu no o posso levar, menino Jorge,  impossvel - 
disse Tom, com emoo. 
- Vais lev-lo - disse Jorge. - Escuta! A Clo 
disse-me para fazer um buraco no meio, passar- lhe um fio e 
pr-to ao pescoo. Esconde-o debaixo da roupa, para esses 
patifes no to roubarem. Vou, vou dar-lhe uma sova. S assim 
fico aliviado. 
- Oh, no! No faa isso! Quem no ficava aliviado era eu!
- Est bem! - disse Jorge, pendurando o dlar ao pescoo de 
Tom. - Agora abotoa o casaco, guarda o colar, e sempre que 
olhares para ele lembra-te que eu hei-de ir l buscar-te um 
dia, e hei-de trazer-te. J disse  me Clo, j lhe disse 
que no tem nada a temer. Vou tratar do assunto e atormentar 
o meu pai, at que ele o faa!
- Oh, menino Jorge, no fale assim do seu pai!
- Pelo amor de Deus, Tom, no julgues que tenho ms 
intenes. . 
- E agora, menino Jorge - disse Tom -, tem de ser um bom 
rapaz. No se esquea de quantos coraes dependem de si. No 
caia nas loucuras da mocidade; obedea  sua me: nunca se 
julgue demasiado crescido para isso. Lembre-se, menino Jorge, 
que h milhares de coisas boas que Deus nos pode dar muitas 
vezes, mas que ele s nos d uma me. . . Alm disso, menino 
Jorge, nunca encontrar una mulher como ela, nem que viva cem 
anos. No a abandone, e agora que est quase um homem, seja o 
seu amparo. Vai fazer isso, no vai?
- Sim, pai Toms, prometo - disse Jorge, com um ar muito 
srio.
- Sim, vou ser bom. De primeira qualidade. Mas no 
percas a coragem! Um dia hei-de mandar reconstruir a tua 
cabana de alto a baixo. H-de ter uma grande sala de entrada, 
com um tapete, quando eu for crescido. Oh, ainda vais ser 
muito feliz. 
Haley saiu da loja, com as algemas penduradas na mo. 
- Suponha - disse Jorge, com um ar superior -, que eu conto a 
meus pais a maneira como o senhor trata o Tom. - Bem me 
importa - respondeu Haley. 
- Pensava que tinha vergonha - continuou o rapaz -, de passar 
a vida a traficar homens e mulheres e a acorrent-los como se 
fossem animais. . .  uma profisso muito baixa!
- Enquanto os seus ilustres pais comprarem - continuou 
Haley -, posso muito bem vender. . .  quase a mesma coisa. . 
. . 
P[60]
 - Quando eu for crescido - respondeu Jorge -, no farei nem 
uma coisa nem outra. Agora sinto vergonha de ser de Kentucky! 
Antes, tinha orgulho. Vamos pai Toms! Adeus. . e coragem!
- Adeus, menino Jorge, adeus - disse Tom, olhando-o com uma 
ternura misturada com admirao. - Que Deus o abenoe. . . 
No h em todo o Kentucky ningum que se compare com o 
menino! - exclamou ele, num mpeto. 
Jorge foi-se embora. . . Tom ficou a v-lo partir: o 
barulho do cavalo diluiu-se por fim no silncio. Tom no viu 
mais nada, no ouviu mais nada que lhe recordasse a casa de 
Shelby. . . Mas sentia um stio no peito cheio de calor. Era 
o stio onde as mos do jovem tinham colocado o colar... E 
Tom apertou-o de encontro ao corao.

Captulo X
EM CASA DOS QUAKERS
Uma cena calma e feliz se apresenta agora diante dos nossos 
olhos. Entramos numa cozinha espaosa, com as paredes 
pintadas de cores novas; nem um tomo de poeira nos tijolos 
amarelos da lareira, esfregados e polidos; pilhas de alfaias 
de estanho brilham por todos os lados, abrindo o apetite, ao 
lembrar-nos uma infinidade de petiscos. O fogo preto reluz 
de asseio; as cadeiras de pau, velhas e macias, reluzem 
tambm. 
 Numa delas, balouando-se devagar, os olhos postos no 
trabalho, est sentada a nossa velha amiga, a fugitiva Elisa. 
Sim,  ela, mais magra do que em Kentucky; adivinha-se sob as 
longas pestanas, l- se no jeito da boca uma dor ao mesmo 
tempo calma e funda.  fcil ver como aquele jovem corao se 
tornou forte e valente sob a austera disciplina da desgraa. 
Levanta de vez em quando osolhos para seguir as brincadeiras 
do pequeno Harry, vivo e gil como uma borboleta dos 
trpicos. Descobre-se nela uma fora de vontade, deciso 
inabalvel, que no existia nos seus verdes anos. Junto dela 
est uma mulher que tem no regao um tabuleiro de estanho 
onde dispe cuidadosamente ameixas secas. Deve ter uns 
cinquenta a sessenta anos, mas possui um daqueles rostos que 
a passagem dos anos embeleza. A capa de crepe que usa, branca 
como a neve,  talhada exactamente como as das mulheres dos 
quakers; o leno simples, de musselina branca, cruzado no 
peito em longas pregas, o lque, o vestido, tudo revela a 
comunidade a que pertence. 
- Ento, Elisa, continuas a pensar em ir para o Canad? 
Sbe-se que os quaker. s tratam toda a gente por tu. (N. do 
T. )
P[61)
 perguntou ela com voz suave, continuando a olhar para as 
ameixas. 
- Sim, minha senhora - disse Elisa com deciso. - Tenho 
de partir. No me atrevo a ficar aqui mais tempo. 
- E que vais fazer quando l chegares? Tens de pensar 
nisso, minha filha.
Minhafilha era um tratamento que saa normalmente dos 
lbios de Raquel Halliday, porque as suas feies e expresso 
lembravam a cada passo as de uma boa me. . . 
As mos de Elisa tremeram, e caram-lhe algumas lgrimas 
sobre o trabalho. . . mas respondeu com firmeza:
- Farei o que puder: espero encontrar qualquer trabalho. 
- Sabes que podes ficar aqui enquanto quiseres - disse 
Raquel.
- Oh Obrigada - respondeu Elisa -, mas (e olhou para Harry) 
no consigo dormir de noite. Ainda ontem, sonhei que esse 
homem entrava no ptio. . . 
E teve um calafrio. . . 
- Pobre criana! - exclamou Raquel limpando os olhos. - 
Deus ainda no permitiu que nenhum fugitivo fosse arrancado  
nossa aldeia. Esperamos que no sejas tu a primeira. 
A porta abriu-se, e uma mulher baixa, redonda como uma 
pregadeira, ficou parada no limiar: nada pode comparar-se ao 
seu rosto florescente. Por mim s o comparo a uma ma 
madura. Estava vestida como Raquel, de cor escura, e um leno 
de musselina cobria-lhe o peito amplo. 
- Ruth Stedman - disse Raquel avanando apressadamente 
para ela. - Como ests, Ruth?. . - E pegou-lhe em ambas as 
mos. 
- Maravilhosamente - disse Ruth, tirando o chapu escuro 
i sacudindo-o com o leno, deixando ver uma cabea pequena e 
redonda, onde o chapu ficava a abanar, provocantemente, 
apesar de todos os esforos da mo para o segurar. Alguns 
caracis frisados escapavam-se aqui e acol e tinham de ser 
arranjados permanentemente, escapando- se outra vez do seu 
lugar. A recm-chegada, que devia ter uns vinte e cinco anos, 
abandonou finalmente o espelho em frente do qual tinha feito 
todos estes arranjos, e pareceu muito satisfeita consigo 
prpria. 
Qualquer pessoa ficaria satisfeita no lugar dela, porque 
era uma linda mulher, com um ar franco e um rosto radioso 
bastante para alegrar o corao de um homem. 
- Ruth, esta  a nossa amiga Elisa Harris, e o pequeno 
de quem falei. 
- Tenho muito prazer em conhecer-te, Elisa, muito 
prazer!disse Ruth apertando-lhe a mo como se a Elisa fosse 
para ela uma
P[62]
 velha amiga h muito esperada. - Este  o teu filho querido. 
. . Trago-lhe um bolo. 
Estendeu a Harry um bolo do feitio de um corao, que o 
garoto aceitou timidamente, olhando para Ruth atravs dos 
compridos caracis soltos. 
- Onde est o teu beb? - perguntou Raquel. 
- Trouxe-o comigo, mas a tua pequena Mary agarrou-o e 
levou-o para a quinta para o mostrar s outras crianas. 
No mesmo instante, a porta abriu-se, e Mary, com o rosto 
corado e grandes olhos castanhos como a me, entrou na sala, 
trazendo o beb. 
- Ah Ah - disse Raquel pegando no menino branco e 
gordinho ao colo -, como ele est bonito, e como cresceu!
-  verdade,  verdade - disse Ruth. 
E pegou no filho, tirou-lhe um casaco de seda azul e 
vrios xailes em que o embrulhara; e dando um toque aqui, um 
puxo acol, arranjou-o, apertou-o, fez-lhe festas, abraou-o 
com toda a fora, e p-lo no cho, para ele ficar  vontade. 
O beb estava sem dvida habituado a estas maneiras, porque 
meteu o dedo na boca e pareceu absorver-se em reflexes, 
enquanto a me, sentando-se finalmente, pegou numa meia s 
riscas azuis e brancas, e comeou a fazer malha com ardor. 
- Mary, fazias bem em encher a chaleira - disse Raquel 
com voz meiga. 
Mary foi ao poo, voltou da a pouco e ps a chaleira ao 
lume, onde ela comeou a fumegar e a cantar a sua alegre 
cano de hospitalidade. A mesma Mary, por ordem de Raquel, 
ps as ameixas ao lume numa grande travessa de estanho. 
Raqul pegou ento numa forma branca como a neve, amarrou o 
avental, e comeou a fazer biscoitos, depois de recomendar  
filha:
- Mary, fazias bem em dizer ao John que preparasse um 
frango. 
Mary obedeceu. 
- Como vai Abigail Peters? - perguntou Raquel enquanto 
fazia os biscoitos. 
- Ah, muito melhor - disse Ruth. - Fui l esta manh; 
fiz-lhe a cama e arrumei a casa. A Lea Hills vai l de tarde 
fazer po e bolos para alguns dias. E eu prometi ficar a 
tomar conta dela esta noite. 
- Eu vou l amanh - disse Raquel -, lavar-lhe e coser-
lhe a roupa. 
- Fazes bem - disse Ruth. - Ouvi dizer - continuou ela -
, que a Ana Stanwood est doente. O John ficou a vigi-la a 
noite passada. Eu vou para o p dela amanh. 
- Diz ao John que venha c almoar ejantar - continuou 
Raquel
P[63]
 -, se tencionas passar ali todo o dia. 	
- Obrigada, Raquel. Amanh veremos. . . A vem o Simeo. 
Simeo Halliday, alto, forte, vestido com umas calas e um 
casaco de fazenda grosseira, trazendo na cabea um chapu de 
abas largas, entrou naquele instante. 
- Como vai a nossa Rth? - perguntou ele afectuosamente. 
E estendeu a mo larga  pequena mo gordinha. - E o John?
- Ah, o John est bem, e todos os nossos - respondeu 
Ruth alegremente. 
- Que novidades h, pai? - perguntou Raquel metendo os 
biscoitos no forno. 
- O Peters Stelbins disse-me que vinha c esta noite com 
alguns amigos - disse Simeo com voz significativa, lavando 
as mos numa bacia muito limpa que se encontrava num gabinete 
ao lado. 
- Sim? - disse Raquel com ar pensativo, deitando uma 
olhadela a Elisa. 
- No disseste que o teu apelido era Harris? - perguntou 
Simeo quando voltou. 
Raquel olhou fixamente o marido. Elisa, muito trmula, 
respondeu:
- Sim. 
Os seus temores sempre exagerados levaram-na a pensar 
que talvez tivessem afixado cartazes com o seu nome. 
- Me! - disse Simeo, dirigindo- se  porta de entrada, 
e chamando a mulher l para fora. 
- O que , pai? - perguntou Raquel limpando as mos 
enfarinhadas e dirigindo-se para a porta. 
- O marido desta rapariga est na colnia - murmurou 
Simeo. 
- Vem c esta noite. . . 
- E s agora  que o dizes, pai - exclamou Raquel, com o 
rosto radiante. 
- Est aqui - continuou Simeo. - O Peters foi ontem l 
com o carro; encontrou uma velha e dois homens; um deles 
chama-se Jorge Harris. Pela histria que ela contou, tenho a 
certeza de que se trata dele.  um belo rapaz, amvel. Vamos 
dizer-lhe j? No, dizemos primeiro  Ruth. Ruth, chega aqui!
- Ruth, qual  a tua opinio? O pai diz que o marido da 
Elisa veio no ltimo grupo e que estar aqui esta noite. 
A alegria da mulherzinha no a deixou ouvir mais. 
Comeou aos pulos e a bater palmas. Dois caracis frisados 
caram-lhe sobre o leno. 
- Acalma-te, querida - disse-lhe Raquel -, acalma-te, 
Ruth. Achas que lhe devemos dizer j?
- Pois claro! Imediatamente! Meu Deus, se fosse o meu 
pobre John!. . . Digam-lhe imediatamente!
P[64]
 - Ah, s pensas nos outros, Ruth! Est certo! - disse 
Simeo, olhando-a com ternura. 
- Mas no foi para isso que nascemos? Se eu no amasse o 
John e o beb. . . no compreenderia os desgostos dela. 
Vamos! Diz-lhe agora. 
E pousou a mo persuasiva no brao de Raquel. 
- Leva-a para o quarto. Entretanto, eu vou arranjar o 
fogo. Raquel entrou na cozinha, onde Elisa continuava a 
coser, e abrindo a porta de um pequeno quarto de dormir 
disse-lhe suavemente:
- Vem c, minha filha, vem! Tenho uma novidade a dar-te. 
O sangue subiu ao rosto plido de Elisa. Levantou-se muito 
emocionada, a tremer, e deitou os olhos para o filho. 
- No, no - disse a pequena Ruth pondo-se de p e 
segurando-lhe na mo -, no  isso!. . . No tenhas medo. So 
boas notcias, Elisa. . . vamos, nada receies - E empurrou-a 
para a porta, que fechou atrs de si. Depois, voltando  
cozinha, pegou no pequeno Harris ao colo e comeou a beij-
lo. 
- Vais ver o teu pai! Sabias? O teu pai vai voltar! - E 
repetia sempre a mesma coisa. A criana, muito espantada, 
olhava-a com os olhos muito abertos. 
Entretanto, passava-se uma cena diferente no quarto. 
Raquel puxou Elisa para junto dela e disse:
- O Senhor teve piedade de ti, minha filha, e arrancou o 
teu marido  casa da escravido. 
Uma onda de sangue subiu s faces de Elisa, depois 
tornou a descer- lhe ao corao. Sentou-se, plida e quase 
sem sentidos. 
-Coragem, minha filha, coragem - acrescentou ela pondo a 
mo sobre a cabea de Elisa. - Ele est com uns amigos que o 
vo trazer aqui. . . logo  noite!
- Logo  noite, Elisa! Logo  noite!
As palavras perdiam o significado para ela. Girava na 
sua cabea a confuso, como num sonho; passou-lhe uma nuvem 
nos olhos. 
Quando voltou a si, encontrou-se deitada numa cama, 
envolta num cobertor. Ao seu lado, a pequena Ruth esfregava-
lhe as mos com cnfora. Abriu os olhos, sentiu um torpor 
agradvel: era a felicidade de quem carregou durante muito 
tempo um pesado fardo e se liberta dele. 
Os seus nervos, sempre irritados desde a primeira hora 
da sua fuga, distenderam-se um pouco. Um sentimento novo de 
repouso e segurana invadiu-a. Ficou deitada, com os grandes 
olhos pretos abertos e, como num sonho calmo, seguiu os 
movimentos dos que a rodeavam. Via a porta do outro quarto 
aberta, a mesa do jantar com a sua toalha branca de neve. 
Ouvia o murmrio da chaleira, e via Ruth, com passo mido, 
levando doces, conservas, e parando de vez em quando para
P[65]
 meter uma bolacha na mo de Harry, ou acariciar a cabea e 
enrolar os caracis da criana entre os seus dedos brancos. 
Via a figura majestosa e o ar maternal de Raquel, que vinha 
de tempos a tempos junto da cama para puxar e arranjar os 
cobertores. Parecia-lhe ver descerem dos seus grandes olhos 
castanhos raios de sol brilhantes. Viu o marido de Ruth 
chegar; viu-a correr para ele, segredar qualquer coisa com 
abundncia de gestos expressivos, e apontar o quarto onde ela 
estava. Viu-a sentar-se  mesa do ch, com o beb ao colo. 
Viu-os todos  mesa e o pequeno Harry numa grande cadeira 
perto de Raquel, como protegido pelas suas asas. E depois 
ouviu o suave murmrio da conversa, e o tilintar de colheres 
e o rudo das chvenas e dos pratos. Era o sonho do repouso 
feliz! Elisa adormeceu e dormiu como nunca tinha dormido 
desde aquela hora terrvel da meia-noite em que, pegando o 
filho nos braos, fugira  luz das estrelas. 
Sonhava com um lindo pas, uma terra amena, com margens 
verdejantes, ilhas encantadoras e correntes de gua 
reflectindo o Sol. Ali, numa vivenda onde as pessoas amigas 
lhe diziam que estava em sua casa, via brincar o filho, o seu 
filho feliz e livre; ouvia os passos do marido, pressentia a 
sua chegada, os braos dele apertavam-na, as lgrimas de 
Jorge caam-lhe no rosto... e acordou. 
No era um sonho. 
Havia muito que anoitecera. O filho dormia calmamente a 
seu lado. Uma chama enchia o quarto de uma luz dbia, e Jorge 
soluava  cabeceira dela. 
Na manh seguinte foi uma alegria em casa dos quaker. A 
me levantou-se com a alvorada e, rodeada de rapazes e 
raparigas que ainda no tivemos tempo de apresentar aos 
nossos leitores, e que obedeciam com delicadeza aos Fazias 
bem, ou No seria bom?, ocupava-se activamente dos 
preparativos do almoo. O almoo, naquele luxuriante vale de 
Indiana,  coisa complicada e necessita da ajuda de muitas 
mos. 
John corria para a fonte, o Simeo filho peneirava a 
farinha de milho destinada aos bolos; Mary estava encarregada 
de moer o caf e Raquel andava por todos os lados, fazendo 
doces, preparando o frango e alegrando toda a cena como o 
prprio Sol. 
Quando Elisa, Jorge e o pequeno Harry apareceram, foram 
recebidos com tanta cordialidade e satisfao que acreditaram 
mais que estivessem a viver um sonho do que a realidade. 
Da a pouco estavam todos  mesa. S Mary ficou junto do 
lume, a fazer torradas, que eram servidas  medida que 
atingiam aquele belo tom dourado, ideal para as torradas. 
Raquel, a meio da mesa, nunca tinha parecido to feliz. 
Arranjava maneira de se mostrar maternal e afectuosa no 
simples gesto de passar
P[66]
 um prato de bolos ou servir uma chvena de ch. Parecia que 
dava alma  comida e bebida que oferecia s pessoas. 
Era a primeira vez que Jorge se sentava  mesa de 
brancos: sentiu primeiro um certo acanhamento e embarao, que 
depressa se desfizeram como o nevoeiro perante o sol matinal 
daquela bondade to sincera. 
Aquilo era uma casa: um lar. Jorge nunca soubera o que 
essa palavra significara. A f em Deus, a confiana na 
providncia encheram pela primeira vez o seu corao com uma 
nuvem dourada de esperana. 
- Pai, e se te descobrissem outra vez? - perguntou o 
Simo filho, barrando um biscoito com manteiga. 
- Pagava a multa - respondeu o pai tranquilamente. 
- E se te metessem na cadeia?
- A tua me e tu no podiam muito bem tomar conta da 
quinta?exclamou Simeo a sorrir.
- A me sabe fazer tudo - respondeu o rapaz. . . - Mas, 
essas leis no so uma vergonha?
- No devemos dizer mal dos nossos legisladores, Simeo 
- continuou o pai com autoridade. - Deus concedeu-nos os bens 
terrenos para podermos fazer justia ou perdoar; se os 
legisladores exigem de ns o preo das nossas boas aces, 
devemos pag-lo.
- Odeio esses proprietrios de escravos - disse o rapaz, 
que naquele momento no mostrava ser mais cristo do que um 
reformador moderno. 
- Estou espantado contigo, meu filho. No so essas as 
lies da tua me. Eu faria pelo senhor de um escravo o mesmo 
que fao pelos escravos, se ele viesse bater  minha porta 
aflito. 
Simeo ficou muito corado, mas a me limitou-se a 
sorrir. 
- Simeo  um bom filho - disse ela. - Quando crescer, 
pensar como o pai. 
- Espero que no venha a ter aborrecimentos por nossa 
causadisse Jorge, com ansiedade. 
-No tenhas receio, Jorge;  para isso que estamos neste 
mundo. . . Se no fssemos capazes de suportar qualquer 
contratempo pela nossa causa, no seramos dignos do nosso 
nome. 
- Mas eu no quero que sofram por mim - disse Jorge. 
- No tenhas receio, Jorge. No  por ti,  por Deus e 
pela humanidade que o fazemos. . Fica aqui tranquilamente o 
dia todo. Logo  noite, s dez horas, Fineu Fletcher ir 
lev-los  prxima estao. Os perseguidores vm atrs de ti, 
no queremos demorar-te. 
- Ento, porque esperamos? - perguntou Jorge. 
- Ficas aqui em segurana todo o dia. Na nossa colnia, 
so todos fiis. Alis,  mais seguro para ti viajares de 
noite. 
P[67]
 Captulo XI
EVANGELINA
O Mississpi Que varinha mgica o modificou, desde que 
Chateau-briand, na sua prosa potica, o descreveu como o rio 
das solides virgens, dos imensos desertos, deslizando por 
entre aquelas maravilhas da Natureza com que nunca se havia 
sonhado?
Os ltimos raios do Sol poente tremem na vasta superfcie 
deste rio, grande como o mar. As canas frgeis, os altos 
ciprestes negros onde o musgo escuro suspende as suas 
grinaldas de luto, brilham na luz dourada. 
O barco a vapor, com a sua pesada carga, continua a marcha. 
Os fardos de algodo esto empilhados nos pores, na ponte, 
por toda a parte. Dir-se-ia enorme mole cinzenta. Precisamos 
de um exame mais atento para descobrir o nosso pobre amigo 
Toms. Finalmente, vamos descobri-lo  proa do navio, 
enrolado entre os fardos de algodo. 
As recomendaes do Senhor Shelby deram resultado. Haley 
pde, alis, julgar por si prprio da bondade e submisso 
daquele carcter inofensivo. Tomj lhe ganhou a confiana: a 
confiana de um homem
como Haley.
Ao princpio tinha-o vigiado de perto durante o dia, e 
no passara uma s noite sem o acorrentar. Depois, a pouco e 
pouco, a calma e resignao de Tom tinham-no conquistado: 
deixou de o vigiar, contentando-se com uma espcie de palavra 
de honra, e permitia-lhe que
andasse  sua vontade pelo barco. 
Sempre bom e atencioso, sempre pronto a dar uma ajuda 
aos trabalhadores em qualquer ocasio, conquistara a estima 
de todos; ajudando-os com o mesmo zelo e a mesma boa vontade 
com que trabalhava na quinta de Kentucky. 
 	Quando via que no tinha mais nada para fazer, metia-se 
entre os fardos de algodo, em qualquer canto da proa, e 
comeava a estudar a Bblia. 
 nesta ocupao que o encontramos agora. 
A cento e tantas milhas antes de Nova Orlees, o nvel 
do rio  mais elevado do que a regio que atravessa, lanando 
o seu caudal entre
fortes diques de vinte ps do alto da ponte, como da torre de 
um castelo flutuante, o viajante pode ver toda a regio at 
distncias quase infinitas. 
Tom, ao ver desenrolarem-se assim as plantaes uma aps 
outra, tinha por assim dizer sob os olhos o mapa da vida que 
o esperava. 
Via ao longe os escravos a trabalhar, as suas aldeias de 
cabanas, alinhadas em longas filas, afastadas das moradias 
soberbas e do parque dos senhores; e  medida que se 
desenrolava este quadro vivo, o seu
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 pensamento voltava-se para a velha quinta de Kentucky, 
escondida entre as velhas faias! Lembrava-se da casa de 
Shelby, das salas e da sua prpria cabana toda enfeitada de 
rosas bravas e begnias escarlates. . . Julgava reconhecer as 
caras familiares dos escravos, criados com ele desde a 
infncia. Via a mulher, ocupada
a preparar a ceia, ouvia o riso alegre dos filhos e o palrar 
do beb nos seus joelhos. . . Depois, tudo se desvaneceu. . . 
S viu as canas-de-acar e os ciprestes reluzentes das 
plantaes; s ouviu o
salmo de David que lhe dizia claramente	que toda aquela
vida tinha desaparecido para sempre. 
Entre os passageiros havia umjovem senhor, nobre e rico, 
residente em Nova Orlees: tinha o apelido de Saint-Clare.
Levava consigo uma filha de cinco anos, vigiada por uma 
mulher que parecia ser sua parente. 
Tom reparara muitas vezes nessa menina: era uma daquelas 
crianas vivas e mexidas, impossveis de manter quietas, como 
um raio de Sol, ou uma brisa de Vero. 
Era o ideal da beleza infantil, sem as faces demasiado 
redondas nem gordura do corpo que a desfeiem. Toda ela seguia 
uma linha ondulante; tinha no sei que graa area que fazia 
sonhar com os seus antepassados e as criaes fantsticas da 
mitologia. O seu rosto era menos
notvel pela beleza perfeita dos traos do que por uma 
expresso sonhadora, rara e profunda. Quem procura a beleza 
ideal ficava extasiado ao v-la; os outros, vulgares e 
grosseiros, sentiam-se emocionados, sem saberem bem porqu. A 
forma da cabea, a elegncia do
pescoo, o busto, tinham as caractersticas de uma nobreza 
singular; os longos cabelos de um castanho-dourado, que 
flutuavam em sua volta como uma nuvem; os olhos de um azul- 
escuro, profundo, inteligente, sombreados por espessas 
pestanas castanhas. . . tudo parecia diferenn ci-la das 
outras crianas, e atrair os olhares, quando ela deslizava 
por entre os passageiros, leve e intangvel. 
No se pense por isso que fosse uma criana grave e 
triste. 
Pelo contrrio: um ar de inocncia feliz parecia 
flutuar-lhe no rosto, como a sombra de uma folhagem de Vero. 
Estava sempre em movimento, com um sorriso a brincar-lhe na 
boca rosada: cantava, corria e danava. O pai e a mulher que 
tomava conta dela andavam
sempre  sua procura; mas, quando julgavam t-la apanhado, 
ela escapava-se como uma nuvem primaveril. E como, fizesse o 
que fizesse, nunca uma palavra de censura lhe chegara aos 
ouvidos, continuava a correr por todo o navio. Sempre vestida 
de branco passava
como um fantasma, sem parar em nenhum stio. 
s vezes o mecnico, levantando os olhos do trabalho, 
via os grandes olhos dela fixos na profundidade tumultuosa 
das caldeiras:
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 parecia cheia de medo e de pena dele, como se temesse um 
grande perigo. Outras vezes era o timoneiro que parava, com o 
leme na mo, a sorrir, por ver aquele rosto suave, belo como 
uma pintura, aparecer e desaparecer  janela da sua cabina. 
Mil vozes rudes a tinham abenoado, e rostos severos se 
tinham adoado  sua passagem; quando ela avanava 
imprevidentemente para stios perigosos, mos calosas 
enegrecidas estendiam-se involuntariamente como para a 
salvar. 
Tom, impressionvel como todos os da sua raa, sempre 
atrado pela simplicidade da infncia, seguia com os olhos 
aquela pequena criatura com um interesse que aumentava de dia 
para dia. Via nela qualquer coisa de divino; sempre que 
contemplava aquela cabea lora e aqueles olhos azuis entre 
dois fardos de algodo ou sobre uma pilha de encomendas, 
parecia-lhe ver um daqueles anjos de que fala a Bblia.
Muitas vezes ela passava triste e pensativa ao lado do 
rebanho de homens e mulheres acorrentados. Metia-se entre 
eles e olhava-os com ar triste e piedoso; outras vezes, com 
as suas pequenas mos, tentava
levantar os ferros. Depois suspirava e fugia. Mas voltava da 
a pouco com as mos cheias de guloseimas, de nozes e laranjas 
que distribuia por eles alegremente; a seguir, ia-se embora a 
correr. 
Tom olhou-a durante muito tempo antes de se atrever a meter 
conversa com ela. Mas conhecia a maneira de atrair e cativar 
as crianas. E resolveu faz-lo com toda a habilidade. Sabia 
fazer cestinhos com caroos de cereja, talhar figuras cmicas 
em cocos, e o prprio P no o igualava na fabricao de 
flautas de toda a espcie e
de todos os tamanhos. Trazia as algibeiras cheias de 
objectos sedutores, que fizera outrora para os filhos do seu 
senhor, e de que se servia agora com prudncia e 
discernimento para arranjar novas relaes. 
A criana mantinha-se reservada; era difcil cativar o 
seu esprito irrequieto. Em princpio vinha empoleirar-se em 
qualquer caixote como uma ave das Canrias, perto de Tom, e 
aceitava timidamente os pequenos objectos que lhe oferecia: 
por fim, chegaram a uma confiana
quase ntima. 
- Como se chama a menina? - perguntou Tom quando achou o 
momento oportuno para estabelecer uma conversa. 
- Evangelina Saint-Clare - disse a garota. - Mas o pap 
e toda a gente me chama Eva. E o senhor, como se chama?
- O meu nome  Toms, mas as crianas costumavam chamar-
ne pai Toms, l em Kentucky. 
- Ento tambm vou chamar-lhe pai Toms - disse Eva 
porque gosto muito de si. E para onde vai, pai Toms?
- No sei, menina Eva. 
- No sabe?
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 - No. Vou ser vendido a uma pessoa qualquer, mas no sei 
quem. 
- O pap podia compr-lo - disse Eva com vivacidade -, e 
se ele o comprar,  muito bem tratado. Vou-lhe pedir que o 
compre.
- Obrigado, menina.
O navio parou numa pequena enseada para meter a lenha. Eva, 
ouvindo a voz do pai, correu para ele. Tom levantou-se e foi 
oferecer-se para ajudar os trabalhadores.
Eva e o pai estavam junto da amurada para verem o navio 
partir. 
A roda deu duas ou trs voltas: a criana perdeu o equilbrio 
e caiu da amurada. . . O pai, muito aflito, quis atirar-se 
atrs dela, mas foi impedido por algumas pessoas que viram 
oferecer-se salvador
eficaz. 
Tom estava perto dela na altura do acidente, e viu-a 
cair. Atirou-se  gua, e com os braos fortes e o peito 
largo, foi uma brincadeira para ele boiar uns instantes e 
agarr-la quando ela veio  superfcie. 
Sem largar a criana, nadou ao longo do barco e estendeu-a a 
uma centena de mos que se debruaram como se pertencessem a 
um s homem. 
Na tarde seguinte, no fim de um dia de calor, o navio 
aproximava-se de Nova Orlees. A bordo havia um barulho e um 
tumulto estranho.
Todos procuravam as suas coisas, juntavam-nas e 
preparavam-se para o desembrque. O bagageiro, as mulheres da 
limpeza esfregavam, lavavam, poliam para embelezar o navio e 
prepar-lo para uma entrada
triunfal. 
O nosso amigo Tom continuava sentado  proa, com os braos
cruzados no peito, e voltando de tempos a tempos os 
olhos para o grupo que se encontrava do outro lado do navio. 
Nesse grupo estava a linda Evangelina, um pouco mais 
plida do que na vspera, mas sem apresentar qualquer 
vestgio do acidente. 
Um homem ainda novo, gentil e elegante encontrava-
sejunto dela, com o cotovelo negligentemente apoiado num 
fardo de algodo. 
Bastava uma vista de olhos para saber que esse homem era 
o pai de Evangelina. 
Tinha o mesmo feitio de rosto, os mesmos olhos grandes e 
azuis, mesmo cabelo de um castanho-dourado; mas a expresso 
era completamente diferente. Os olhos, iguais aos da filha, 
no tinham contudo aquela profundidade sonhadora e reservada. 
Eram claros, firmes, brilhantes, mas com uma luz apenas 
terrena. A boca bem desenhada
tinha de vez em quando uma expresso orgulhosa e 
sarcstica. Um ar superior, cheio de -vontade, dava aos seus 
movimentos uma graa espontnea. Escutava distrada e 
alegremente, com expresso bastante
P[72]
 desdenhosa, a conversa de Haley, que dava com extrema 
versatilidade todos os pormenores e qualidades do artigo que 
pretendia vender. 
- Em resumo - disse ele quando Haley acabou -, todas as 
virtudes morais e crists encadernadas em marroquim preto! 
Enfm, quanto  o prejuzo, como vocs dizem em Kentucky? 
Quanto? No ezagere, sim?
 - Pois bem - disse Haley -, se pedisse mil e trezentos 
dlares, era o que dei por ele. 
- Pobre homem! - disse o jovem, fixando Haley com olhar 
trocista. . . - Mas vai entregar-mo por esse preo s para me 
ser agradvel?
- Exactamente. A menina parece fazer tanto gosto nisso. . 
Alis,  natural. 
- Com efeito:  mais um apelo  sua boa vontade, meu 
caro. . . E agora, como bom cristo, e para fazer o gosto a 
uma criana que se interessa particularmente por ele, qual  
o desconto que pode fazer?
- Mas olhe bem para ele - dizia o mercador. - Veja 
aqueles msculos, aquele peito. .  forte como um touro! 
Veja-lhe a testa! Aquela testa alta que indica um preto 
inteligente.  capaz de fazer tudo quanto o senhor quiser! J 
verifiquei isso. Um negro desta espcie e com aquela 
constituio, vale muito dinheiro, ainda que no seja s pelo 
fsico, mesmo que fosse estpido. Mas atendendo s suas 
qualidades intelectuais, conforme lhe disse h pouco. . . o 
preo  mais elevado. . . Ele tem uma habilidade especial 
para o negcio. . . Era ele quem dirigia sozinho a quinta do 
seu senhor. 
- Tanto pior! Tanto pior! Sabe de mais - disse o jovem, 
conservando nos lbios o mesmo sorriso trocista. - No se 
consegue fazer nada dele Esses negros inteligentes acabam 
sempre por fugir, roubam os cavalos e pregam partidas levadas 
do diabo. . . Acho que fazia bem em abater duzentos dlares 
pela sua demasiada inteligncia. 
- Compre-o, pap, seja por que preo for - disse 
Evangelina trepando para cima de um caixote e passando os 
braos em volta do pescoo do pai. - Eu sei que o pap tem 
muito dinheiro. . . Eu quero-o para mim. 
- E para qu, meu amor?  como um brinquedo? Um cavalo 
de pau? O qu? Diz l!
- Quero que ele seja feliz. 
- Ora a est uma boa razo.
No mesmo instante, Haley estendeu ao jovem um 
certificado assinado pelo Senhor Shelby. Ele pegou-lhe com os 
dedos compridos e lanou-lhe um olhar distrado. 
- Sabe escrever - leu ele -, e tem boa caligrafia - E 
acrescentou: - Mas o facto de ser religioso inquieta-me. . . 
No sei a que preo
P[73]
 est a religio no mercado: h muito tempo que no leio 
jornais para saber qual  a cotao. . . Em quantos dlares 
avalia a religio do senhor Tom?
E, tirando o mao de notas da carteira, continuou:
- V, meu velho, conte o seu dinheiro - disse ele ao 
mercador entregando-lhe o mao. 
- Est certo - disse Haley, cheio de alvio. E tirando 
da algibeira um velho tinteiro, preencheu o contrato de venda 
que estendeu ao jovem. 
- Se eu fosse avaliado com tanta mincia - disse Saint-
Clar pergunto a mim prprio a quanto subiria o meu preo: 
tanto pela forna da cabea, tanto pela minha testa alta, 
tanto pelas mos, braos e pernas, tanto pela educao, o 
saber, o talento, a humildade, religio, sei l! Estes dois 
ltimos artigos, acho que no dariam grande coisa. Anda, Eva.
E pegando-lhe na mo foi com ela at ao outro extremo do 
navio levantando o queixo de Tom com a ponta do dedo, disse-
lhe de bom humor:
- Tom, v se o teu novo senhor te convm!
Tom levantou a cara. 
Era impossvel ver ajovem e bela figura de Saint-Clare 
sem semtir prazer. Tom sentiu lgrimas nos olhos, e foi do 
fundo do corao que exclamou:
- Que Deus o abenoe, senhor!
- H-de abenoar, espero. Como te chamas? Toms, h? 
Tamb me podes perguntar o meu nome. Sabes guiar cavalos, 
Tom?
- Estou habituado a lidar com cavalos - respondeu Tom. - 
Na quinta do Senhor Shelby havia dzias deles!
- Est bem, ficas a ser meu cocheiro, com a condio de 
s te embriagares uma vez por semana, a no ser em grandes 
festas. . . 
Tom pareceu ficar espantado e ferido. 
- Eu nunca bebo, senhor. 
- J me informaram disso! Depois veremos. . . Ainda 
bem... Vamos, meu velho, no te ofendas - disse ele, ao ver 
que Tom ainda parecia preocupado com a recomendao. - No 
duvido das tuas boas intenes. 
- Pode estar certo disso, meu senhor!
- E ser feliz - disse Evangelina -, porque o pap  
muito bom para toda a gente. S gosta  de fazer um bocadinho 
de troa das pessoas. 
- O pap agradece-te muito esse elogio - disse Saint-
Clare. E voltando as costas, preparou-se para partir. 
P[74]
 Captulo XII
O NOVO SENHOR DE TOM
Agostinho Saint-Clare era filho de um rico plantador da 
Luisiana. A famlia viera do Canad. De dois irmos muito 
semelhantes no gnio e temperamento, um estabelecera-se numa 
luxuosa quinta de Vermont, o outro tornara-se um rico 
plantador da Luisiana. 
A me de Agostinho era uma protestante francesa cuja famlia 
migrara para a Luisiana, na poca da colonizao. Agostinho e 
o irmo eram os nicos dois filhos do casal. Agostinho, tendo 
herdado da me uma constituio extremamente delicada, foi, a 
conselho do mdico, mandado para Vermont, para casa de um 
tio, onde passou grande parte da sua infncia. Pensava-se que 
aquele clima frio e saudvel lhe fortificaria a sade. 
Desde a infncia, Agostinho fez-se notar por uma extrema 
sensibilidade, que se parecia mais com a ternura feminina do 
que com a rudeza habitual do seu sexo. O tempo envolveu essa 
ternura com uma forte carapaa. Tornou-se um verdadeiro 
homem, e poucos sabiam at que ponto conservava fresca e viva 
a sensibilidade da sua alma. Era o que se chama um homem de 
mrito, mas tinha uma preferncia marcada pela esttica e 
pelo ideal: da lhe vinha, como em todos os que tm os mesmos 
gostos, uma soberana repugnncia pelo comrcio e pela 
confuso dos negcios. Quase assim que saiu do liceu, 
apaixonou-se por uma jovem to bela e distinta como ele. 
Ficaram noivos. Ela habitava um dos estados do Norte. E ele 
teve de voltar ao Sul para regular uns assuntos de famlia. 
De repente, as cartas foram-lhe devolvidas pelo correio, 
acompanhadas de uma nota do tutor da rapariga. Essa nota 
dizia que mesmo antes de receber a carta, a noiva j seria 
noiva de outro. 
Julgou que enlouquecia: depois, como tantos outros, 
esperou poder arrancar do corao essa flecha mortal. 
Demasiado orgulhoso para pedir uma explicao, lanou-se 
num turbilho de prazeres. Em breve se tornou o apaixonado da 
mulher mais requestada em todos os sales. Tudo foi arranjado 
rapidamente, e casou com uma linda mulher, com dois grandes 
olhos pretos e cem mil dlares. Como deviam invej-lo!
Os noivos passaram a lua-de-mel com um crculo brilhante 
de amigos, na sua esplndida vivenda,  beira do lago 
Pontchartrain. Certo dia, trouxeram ao jovem marido uma carta 
com aquela letra que ele conhecia to bem. Foi-lhe entregue 
mesmo no salo, no meio das conversas alegres e cheias de 
palavras de esprito. 
P[75]
 Ao reconhecer a caligrafia, ficou plido como a morte; 
todavia dominou-se e levou at ao fim o dilogo gracioso com 
uma mulher. Da a pouco saiu. Quando se encontrou sozinho no 
quarto, abriu a carta. agora intil, mais do que intil! Era 
uma carta dela. Contava a perseguio da famlia e do tutor. 
Queriam obrig-la a casar com o filho desse homem. Primeiro 
tinham-lhe apanhado as cartas de Agostinho, mas continuara a 
escrever-lhe durante muito tempo. . . Depois viera o desgosto 
e a dvida. No meio dessas pungentes ansiedades, caiu doente. 
Finalmente descobrira a conspirao. . . A carta contava tud 
isso, e terrninava com expresses de agradecimento e de 
esperana, os protestos de uma afeio eterna, mais cruis do 
que a morte para o infeliz jovem. 
Respondeu imediatamente:
Recebi a sua carta, mas demasiado tarde. Acreditei no que me 
disseram e desesperei. Estou casado. Tudo acabou. S nos 
resta, a mim e a si, esquecer!"
Quando encontrou Agostinho estendido no sof, plido 
como morte, o que explicou dizendo que estava com uma 
enxaqueca, a Senhora Saint-Clare aconselhou-o a respirar 
sais. E ao ver que a palidez e a enxaqueca continuaram 
durante vrias semanas, limitou-se a dizer que nunca esperara 
que o Senhor Saint-Clare fosse to doente. . . que estava 
sempre com dores de cabea, e que era muito aborrecido para 
ela aparecer sempre sozinha aps um ms de casada. 
No ntimo, Agostinho ficou satisfeito por ter casado com 
una mulher to pouco perspicaz. Mas quando terminaram as 
festas e visitas da lua-de-mel, apercebeu-se de que uma 
mulher jovem e bela que fora durante toda a vida adulada e 
estragada com mimos, pod tornar-se dentro do lar uma pessoa 
muito tirnica. 
O pai, de quem era filha nica, nunca lhe recusara fosse 
o que fosse, mesmo aquilo que parecia impossvel. Por altura 
da sua entrada em sociedade, bela, educada, rica herdeira, 
teve a seus ps todos os homens da cidade em que habitava. 
Nem um s momento duvidou de que Agostinho se sentisse feliz 
por ser o escolhido. 
Ningum exige o amor dos outros da maneira mais 
imperiosa do que uma mulher egosta. Simplesmente, quanto 
mais deseja ser amada, menos digna se torna de o ser. Quando 
Saint-Clare comeou a pr de parte as galanterias e todos os 
pequenos cuidados de um homem que faz a corte, encontrou-se 
perante uma rainha que no est disposta a perder o seu 
escravo. Houve muitas lgrimas, amuos e pequenas tempestades. 
A seguir, descontentamentos, ferroadas e acessos de fria. 
Saint-Clar, pessoa de carcter e indulgente, tentou acalmar a 
mulher com presentes e carinhos. Quando Maria foi me de uma 
linda menina, sem despertar nele um sentimento de ternura. 
P[76]
 A me de Saint-Clare havia sido uma mulher de sentimentos 
to puros como elevados; por isso ps  menina o nome da av, 
feliz com a ideia de que talvez tambm lhe herdasse as 
qualidades. A mulher teve
um grande ataque de cimes. O profundo amor de Agostinho pela 
filha s lhe inspirava um descontentamento desconfiado. Tudo 
quanto era oferecido  filha parecia roubado  esposa. Desde 
o nascimento da
criana, a sua sade declinara visivelmente. Uma vida de 
inaco permanente no torpor do corpo e da alma, a influncia 
de um tdio constante, aliado  fraqueza normal do perodo da 
maternidade, depressa transformaram aquela beleza florida da 
juventude numa mulher
plida, estiolada, doente, que passava o tempo a queixar-se 
de uma srie de doenas imaginrias, considerando-se a mulher 
mais lastimvel e mais infeliz do mundo. 
Eram lamentos sem fim. A enxaqueca no a deixava sair do 
quarto pelo menos trs vezes na semana; todo o governo da 
casa ficou portanto entregue aos criados. Saint-Clare achou o 
seu lar muito pouco confortvel. A filha era muito dbil, e 
ele receou que, abandonada assim, sem
cuidados nem atenes, a sua sade, e at mesmo a vida, no 
ficassem em risco pela indiferena materna. Levou-a consigo a 
Vermont, onde tinha de tratar de uns assuntos, e contratou 
uma prima, Oflia Saintclare, para vir com eles para a sua 
casa no Sul. 
Encontravam-se no barco que os trazia de regresso quando os 
conhecemos. 
Mas agora que as cpulas e as torres de Nova Orlees se 
erguiam na sua frente, vamos apresentar a Menina Oflia aos 
leitores. 
Oflia, que j passara dos quarenta e cinco anos, era a filha 
mais velha de uma numerosa famlia; mas para o pai e para a 
me, continuava a ser uma criana, e a proposta de ir para 
Nova Orlees foi para eles
qualquer coisa de grave. O pai, de cabelos grisalhos, pegou 
no atlas de Morses que tinha na estante, mediu com exactido 
a longitude e a latitude, a seguir leu a Viagem de Filnt pelo 
Norte e pelo Oeste, para
ficar a conhecer aquela regio. 
A me, muito inquieta, perguntou se no era uma cidade 
horrvel, 	e no hesitou em compar-la com as ilhas 
Sanduche, ou a qualquer outra terra habitada por pagos. 
Soube-se em casa do pastor, do mdico e da Senhora Rabody, 
dona do estabelecimento de modas, que Oflia Saint-Clare 
tencionava ir para Nova Orlees com o primo. 
Este importante assunto foi em breve o tema de todas as 
conversas da aldeia. O pastor, que tinha ideias 
abolicionistas, perguntou se tal
viagem no era um estmulo para os possuidores de escravos. O 
mdico, pelo contrrio, que era partidrio da colonizao, 
achava que a Menina Oflia devia fazer a viagem, para mostrar 
aos habitantes de
P[77]
 Nova Orlees que os seus irmos do Norte no tinham afinal 
nada contra eles. 
Pensava que era preciso encorajar o Sul!
A Menina Oflia, conforme a encontrmos, vestida de 
negro, alta, magra e angulosa. Tinha o rosto esqulido, com 
todos os salientes. Apertava os lbios, como as pessoas que 
tm opinies definitivas sobre todas as coisas. Os seus olhos 
pretos e curiosos eram desconfiados, observavam tudo como se 
houvesse sempre qualquer coisa a pr em ordem. 
Todos os seus movimentos eram secos, decididos, 
enrgicos; falava pouco, mas tudo quanto dizia estava certo: 
dizia o que tinha a dizer.
Era a ordem, a exactido, o mtodo em pessoa. Na 
pontualidade, infalvel como um relgio, inexorvel como uma 
locomotiva. Odiava todos os que no se parecessem com ela. 
A seus olhos, o maior pecado, o cmulo de todos os males, era 
a leviandade. E o maior insulto que podia dirigir a uma 
pessoa, palavra inconsequente, pronunciada de certa maneira. 
. . Aplicava o termo a tudo o que no se adaptava 
completamente  maneira de ser que escolhera para si prpria. 
Tinha um soberano desprezo pelas pessoas que no faziam nada, 
que no sabiam o que haviam de fazer, que no o faziam 
exactamente da maneira devida. Esse desprezo sempre era 
expresso por palavras, mas a maior parte das vezes por uma 
espcie de trejeito e altivez glacial, como se no quisesse 
descer  palavra para classificar semelhantes assuntos. 
No ponto de vista intelectual, era um esprito lcido, 
forte e activo; tinha lido a histria e os velhos clssicos 
ingleses. Fechado dentro de certas limitaes, o seu 
raciocnio era evoludo; as suas doutrrinas religiosas 
estavam condensadas em frmulas exactas, e em pequenos 
compartimentos etiquetados; tinha estabelecido uma certa 
conta e nunca a ultrapassava. Procedia da mesma forma quanto 
s suas atitudes prticas da vida comum, e quanto s suas 
relaes de vizinhana ou amizade. Mas para ela, acima de 
tudo, estava o sentimento do dever conscincia. e a 
Oflia era uma escrava do dever. 
Se lhe provassem que o caminho do dever, como ela dizia, 
obrigava a seguir nesta ou naquela direco, nem a gua nem o 
fogo a obrigariam a desviar-se dele. Para cumprir o seu 
dever, ter-se-ia atirado a um poo ou avanado para a boca de 
um canho. Mas, este sentimento do dever era to dominador, 
abarcava tantas coisas, era de uma mincia to severa, fazia 
to poucas concesses  fraqueza humana que, apesar do 
herosmo dos seus esforos, a Menina Oflia nunca atingia o 
seu ideal; e vivia sob o peso do fardo da sua insuficincia e 
da sua fraqueza.
P[78]
 Esta disposio espalhava-se como uma sombra sobre o seu 
comportamento religioso. 
Podia a Menina Oflia dar-se bem com Agostinho Saintclare, 
despreocupado, nada pontual, cptico e, por assim dizer, com 
uma liberdade insolente por cima de todas as opinies que 
respeitava?
Em criana, era ela quem lhe ensinava o catecismo e o rodeava 
dos cuidados da infncia. O seu corao era ainda capaz de 
calor, e fizera com ela como fazia com a maior parte das 
pessoas: Gozara-a. Foi assim que a convenceu de que o caminho 
do dever era na direco de Nova Orlees, e que ela devia ir 
com ele para tomar conta de Eva e impedir a runa da sua 
casa. A ideia de um lar de que cuidava atingiu em cheio o 
corao da Menina Oflia. . .  
Gostava da pequena Eva. . . E quem no teria amado aquela 
criana encantadora?. . . E embora considerasse Agostinho um 
pago, ria das suas graas e levava a indulgncia para com 
ele ao mximo dos limites. 
Mas a Menina Oflia vai dar-se a conhecer 
suficientemente na continuao desta histria. 
Entretanto, o vapor, soltando fortes roncos como um 
monstro gigantesco fatigado, preparava-se para abrir caminho 
por entre os outros navios. Eva, muito alegre, apontava com o 
dedo as torres e cpulas, que a faziam reconhecer a sua 
cidade natal. 
- Sim, sim, querida!. . .  muito bonito! Mas o barco j 
parou!. . . Onde se ter metido o teu pai?
Foi ento um tumulto como acontece sempre  chegada dos 
navios. Oscriados de hotel precipitando-se sobre as pessoas, 
num permanente vaivm; mes chamando pelos filhos, homens 
fazendo embrulhos, e
toda a gente acotovelando-se na prancha que ligava o barco  
terra firme. 
-Aqui est um bom descarregador. . . - disse Saint-
Clare, voltando-se para um rapaz que vinha atrs dele. - 
Vamos! A carruagem est  espera. J se foi toda a gente 
embora, e podemos seguir  nossa vontade, sem empurres nem 
cotoveladas. . . Aqui! - acrescentou ele, dirigindo-se a um 
cocheiro -, leve estas bagagens. 
- Onde est o Toms? - perguntou Eva. 
- Est na boleia, minha querida; vou dar-lhe o lugar 
desse bbado que nos atirou da carruagem abaixo. . . Vou 
oferec-lo  tua me. 
- Oh, o Tom vai ser um ptimo cocheiro - exclamou 
Eva. Tenho a certeza de que ele nunca bebe
A carruagem parou em frente de uma casa antiga, construda 
numa mistura de estilos francs e espanhol. Ainda se 
encontram em Nova Orlees casas deste tipo. A carruagem 
atravessou um portal em
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 abbada e entrou num ptio rodeado de edifcios 
quadrangulares: era um ptio mourisco. O interior desse ptio 
revelava um gosto requintado: tinha compridas galerias em 
toda a volta. Os pilares mouriscos, as colunas elegantes, os 
arabescos dos ornamentos, tudo fazia lembar aquele reino 
fabuloso do Oriente na Espanha romntica. No meio do ptio, 
uma fonte espalhava o seu repuxo prateado, que caa em ondas 
de espuma numa taa de mrmore bordada de grandes canteiros 
de violetas; na gua dessa fonte, transparente como o 
cristal, brincavam mirades de peixes dourados e prateados, 
que tinham reflexos de pedras preciosas. Em redor da fonte 
havia uma alameda pavimentada com mosaicos cheios de 
caprichosos desenhos. Depois era a relva, suav como um tapete 
de veludo verde. O caminho das carruagens seguia ao longo da 
galeria mourisca: duas enormes laranjeiras espalhavam sombra 
e perfume. Alinhados em volta da relva viam-se vasos de 
mrmore esculpido com as flores tropicais mais raras; imensas 
ronzeiras de folhas lustrosas e flores cor de fogo, jasmins 
da Arbia de folhas escuras, de flores em forma de estrela, 
gernios, roseiras luxuriantes, carregadas de cachos de 
rosas, jasmins amarelos, verbenas, confundindo o seu brilho e 
o seu perfume, enquanto aqui e acol um velho alos 
misterioso, estranho, com a sua folhagem macia que parecia um 
feiticeiro dos tempos idos, olhando do alto da sua 
grandiosidade eterna toda a outra vegetao efmera que vivia 
e morria a seus ps.
As galerias que cercavam o ptio estavam enfeitadas com 
cortimados de tecido africano, que se podiam estender  
vontade para abrir os raios do Sol. 
A carruagem entrou. Eva, numa espcie de exaltao, 
parecia uma ave prestes a fugir da gaiola. 
- Oh, no  linda e encantadora a minha casa, a minha 
querida casa? - perguntou ela a Oflia. - No  realmente 
bonita?
- Sim, o stio  bonito - disse a Menina Oflia, 
descendo -, mas a mim parece-me um pouco antiquado e bastante 
pago. 
Tom desceu e lanou em redor um olhar de satisfao 
calma e reconfortante. 
 preciso lembrar que os negros vm da terra mais 
esplndida e magnfica que existe no mundo; guardam no fundo 
da alma una verdadeira paixo por tudo quanto  belo, rico, 
grandioso e fantstico e entregam-se sem os limites de um 
gosto severo a essa paixo que provoca o sarcasmo e a ironia 
da raa branca, mais correcta e mais feliz.
Saint-Clare, natureza voluptuosa e potica, sorriu ao 
ouvir o parecer da Menina Oflia e, vendo a admirao que 
transparecia no rosto negro de Tom, disse-lhe:
- Parece que isto te agrada, meu velho?
- Sim, meu senhor,  mesmo assim. 
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 Tudo isto se passou num abrir e fechar de olhos, enquanto as 
bagagens eram descarregadas e o cocheiro recebia o seu 
dinheiro. Uma multido de criados de todas as idades e 
tamanhos, homens, mulheres e crianas, apareceram, vindos de 
todos os lados para assistirem  chegada do senhor.  frente 
de todos os outros via-se umjovem mulato, cuja toilette se 
evidenciava por exibir todos os exageros da moda. Agitava, 
com ar gracioso, um leno de baptista perfumado. 
Esta personagem desenvolveu grande actividade empurrando 
at ao fundo do vestbulo o grupo de criados. 
- Todos para trs - dizia ele com tom autoritrio. - 
Querem j incomodar o senhor, logo no dia da sua chegada?
Embasbacados com to bela frase e com o modo como era 
dita, todos os escravos recuaram e ficaram a uma distncia 
respeitosa, com excepo de dois robustos descarregadores que 
levavam as bagagens. 
Graas ao expediente do Senhor Adolfo, era esse o nome 
da personagem, quando Saint-Clare acabou de pagar ao cocheiro 
e se voltou, apenas viu o prprio Senhor Adolfo, com casaca 
de seda, corrente de ouro e calas brancas, que o saudava com 
uma graa e uma perfeio inexprimveis. 
- Ah, s tu, Adolfo - disse o senhor estendendo-lhe a 
mo. Como vai isso, meu rapaz?
Adolfo recitou com muito -vontade um discurso 
improvisado. . . havia quinze dias!
- Muito bem, muito bem! - disse Saint-Clare -, mas no 
te importas de tomar conta das malas? J venho ter com vocs 
dentro de uns segundos. 
Conduziu a Menina Oflia at um grande salo que dava 
para o vestbulo. 
Entretanto, Eva, correndo pelo prtico e pelo salo, 
entrou num pequeno gabinete que dava igualmente para o 
vestbulo. 
Uma mulher alta e plida, com grandes olhos pretos, 
semi-ergueu-se da sua cama de repouso. 
- Mam - exclamou Eva, numa espcie de delrio, 
lanando-se ao pescoo dela e beijando-a sem interrupo. 
- J chega, minha filha. Tem cuidado - disse a me. - 
Queres que eu fique com dores de cabea? - E beijou-a 
languidamente. 
Saint-Clare entrou, beijou a mulher segundo as regras do 
protocolo conjugal, depois apresentou-lhe a prima. Maria 
levantou os grandes olhos para a prima e examinou-a com certa 
curiosidade; recebeu-a alis com a sua delicadeza lnguida. 
Entretanto, o grupo de criados apinhava-se  porta. No 
meio deles, ou antes,  frente de todos os outros, via-se uma 
mulata de uns quarenta
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 anos, que se mantinha numa expectativa alegre e irrequieta. 
- Ah!  a Mammy! - disse Eva atravessando o quarto; e, 
atirando-se para os braos de Mammy, beijou-a com a mais 
inocente efuso. 
A Mammy no disse que ela lhe fazia dores de cabea; 
apertou-a de encontro ao peito, rindo e chorando ao mesmo 
tempo. . . Dir-se-ia que no estava em seu plenojuzo. . 
Finalmente, largou Eva, que passoude um para outro escravo, 
apertando a mo a este, e beijando aquele. 
A Menina Oflia declarou que tudo aquilo a enojava. 
- Estas crianas do Sul - disse ela -, fazem coisas que 
eu era incapaz de fazer!
- Que quer dizer com isso? - perguntou Saint-Clare. 
- Eu trato bem toda a gente, sou incapaz de fazer mal a 
uma mosca. . . Mas beijar. . . 
- Os negros. . . Ah, no est habituada, no ?
- ! Como pode ela fazer isso?
Saint-Clare dirigiu-se para o vestbulo a rir. 
- Eh, cheguem c Mammy, Jemmy, Polly, Suckey! Esto 
contentes por verem o senhor. - E foi de um a outro, 
apertando-lhes a mo. . . 
- Tenham cuidado com as crianas - acrescentou ele, desviando 
com o p um mido que andava de gatas no cho. - Avisem-me se 
eu esborrachar algum.
Eram de todos os lados risos e bnos. Saint-Clare 
distribuiu moedas. 
- E agora, rapazes e raparigas, fora daqui. - E a negra 
e luzidia assembleia desapareceu por uma das portas do 
vestbulo, seguida de Eva, que levava um grande saco que 
enchera, durante a viagem, de nozes, mas, acar, fitas, 
rendas e brinquedos de toda a espcie. 
Ao voltar-se, Saint-Clare viu Tom que estava de p, 
apoiando-se ora numa perna, ora na outra, bastante pouco -
vontade, enquanto Adolfo, negligentemente encostado a uma 
coluna, o examinava atravs de um monculo de pera, com um 
ar que faria inveja a um dandy da moda. 
- Ento, meu impostor! - disse Saint-Clare -,  assim 
que tratas o teu companheiro?. . . Parece - acrescentou ele 
passando a mo na casaca de cetim bordado -, parece que esta 
casaca  minha. . . 
- Oh, meu senhor, estava toda suja de vinho, e um 
cavalheiro, com a posio do senhor, no a podia usar nesse 
estado. j s serve para um pobre negro como eu.
E Adolfo sacudiu a cabea e passou os dedos pelos 
cabelos perfumados. 
- Est bem. Passa por esta vez - disse Saint-Clare. - 
Agora vou mostrar o Toms  sua senhora. Depois indicas-lhe a 
cozinha, e trata de
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 no tomar atitudes com ele: fica sabendo que no lhe chegas 
aos calcanhares. 
- O senhor est sempre a brincar - disse Adolfo a rir. . 
. - Fico muito satisfeito por o ver de bom humor. 
- Vem, Tom - disse Saint-Clare. 
Tom entrou no salo; olhou em silncio para os tapetes 
de veludo e para aquele luxo que ele nunca tinha sonhado que 
existisse, os espelhos, as pinturas, os quadros, as esttuas 
e reposteiros; e, como a rainha do Sab perante Salomo, no 
estava em si", e nem sequer se atrevia a pr os ps no cho. 
- Vs, Maria - disse Saint-Clare -, trago-te finalmente 
um cocheiro; tem tanto de sbrio como de escuro, e  capaz de 
te conduzir apasso de procisso, se te apetecer: olha bem 
para ele. e depois diz que eu no pensei em ti quando me fui 
embora!
Maria abriu os olhos e fixou-os em Tom. 
- Tenho a certeza de que ele bebe - disse ela. 
- No. Garantiram-me que era uma mercadoria sbria e 
religiosa. 
- Desejo que se porte bem, mas no creio!
- Adolfo, leva o Tom para baixo. e lembra-te do que te 
recomen dei. 
Adolfo retirou-se, andando com muita elegncia. Tom 
seguiu-o a passo pesado. 
-  um verdadeiro mastodonte - disse Maria. 
- Vamos, Maria, s condescendente - disse Saint-Clare 
sentando-se num tamborete junto do sof -, diz qualquer coisa 
amvel ao teu pobre marido. 
- Andaste por fora mais quinze dias do que o tempo 
combinado!
-  verdade, mas j te expliquei a razo. 
- Numa carta to fria e to curta!
- Ah, querida, o correio ia partir. . . Ou escrevia 
aquilo ou nada. 
-  sempre assim - disse a mulher -, arranjas maneira de 
prolongar a viagem e diminuir as cartas. . . 
- Vejamos - continuou Saint-Clare tirando da algibeira 
um elegante estojo de veludo e abrindo-o -,  um presente que 
te trago de Nova Iorque, um daguerretipo, ntido como uma 
gravura, que representa Eva e o pai, de mo dada. 
Maria olhou para o retrato descontente. 
- Quem escolheu esta posio to forada?
- Meu Deus, a posio  discutvel mas que dizes da 
semelhana?
- Se no queres saber da minha opinio num caso, acho 
que tambm no te importa no outro - disse a mulher, fechando 
o estojo. 
O diabo leve as mulheres!, disse Saint-Clare para consigo. E 
continuou
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 - Vamos, Maria, que dizes da semelhana? S razovel. 
- No  bonito da tua parte, Saint- Clare, insistir 
dessa maneira para me obrigar a falar ou a olhar. Estive todo 
o dia cheia de dores de cabea e tm feito tanto barulho 
desde que tu chegaste, que me sinto meio n morta. 
- A senhora costuma ter dores de cabea? - perguntou 
Oflia saindo das profundezas de um cadeiro onde se sentara 
tranquilamente, fazendo o inventrio e calculando o preo da 
mobilia do quarto. 
- Dores de cabea! Sofro como um mrtir - disse a 
Senhora Saint-Clare. 
- O ch de zimbro  ptimo para as enxaquecas - disse a 
Menina Oflia. -  essa pelo menos a opinio da Augustina, 
mulher de Abrao Perry, que era uma excelente enfermeira. 
- Vou mandar apanhar os primeiros que amadurecerem 
no jardim  beira do lago - disse Saint-Clare. E tocou uma 
campanha.
- Prima, deve precisar de ir para os seus aposentos, 
depois de longa viagem. Adolfo, diz  Mammy que venha c. A 
mulata que Eva beijara com tanta efuso entrou, com a cabea 
n enrolada num turbante encarnado e amarelo que a criana 
acabava de lhe oferecer. 
- Mammy - disse Saint-Clare -, confio esta senhora 
aos teus cuidados. Est cansada e precisa de repouso. Leve-a 
para os seus aposentos, e cuide que fique confortvel. 
Mammy saiu  frente da Menina Oflia.

Captulo XIII
A SENHORA DE TOM E AS SUAS OPINIES
- Agora, Maria - disse Saint- Clare -, voltaram para ti os 
dias alegres. Trouxe-te a nossa prima Oflia da Nova 
Inglaterra, uma mulher prtica, que te vai tirar de cima as 
preocupaes, e deixar-te o tempo livre para rejuvenesceres e 
tornar a ser feliz. Nunca mais ters o trabalho de pensar em 
distribuir as chaves. 
Esta frase foi dita  mesa durante o almoo, alguns 
momentos depois da chegada da Menina Oflia. 
- Ser bem vinda - disse Maria encostando 
preguiosamente a cara  mo. - Mas ela vai depressa 
verificar uma coisa,  que nesta terra as senhoras so as 
escravas. 
- Ah, sim, ela vai ver isso, e muitas outras coisas - 
disse Saint-Clare. 
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- Censuram-nos por termos escravos! - continuou Maria -, como 
se fosse para nosso interesse. Se olhssemos s a isso, 
mandvamo-los todos embora de uma vez. 
Evangelina fixou no rosto da me os seus grandes olhos 
srios; no podia compreender perfeitamente aquela resposta. 
E disse simplesmente:
- Ento para que os tem, mam?
- No sei. . . para nossa desgraa. . . porque so eles 
a minha maior infelicidade.  por causa deles, mais do que 
por tudo o resto que eu estou doente. . . Os nossos so os 
piores de todos. 
- Maria, vs hoje tudo muito negro - disse Saint-Clare. 
- Bem sabes que no  assim!. . . A Mammy, por exemplo, no  
a melhor das pessoas?. . . Que seria de ti sem ela?
- A Mammy  ptima - disse a Senhora Saint-Clare -, mas 
como toda a gente de cor,  terrivelmente egosta. 
- Ah, o egosmo  de facto uma coisa terrvel! - disse 
com ar grave Saint-Clare. 
- Por exemplo - continuou Maria -, no ser egosmo ter 
o sono to pesado?. . . Ela sabe que eu preciso de pequenas 
atenes, quase a toda a hora, quando me vm as crises; pois 
bem,  muito difcil acord-la. Foi todo o meu esforo da 
noite passada que me ps to fraca esta manh. 
- No esteve  sua cabeceira todas estas noites, mam?
- Quem foi que te disse? - continuou com secura a 
Senhora Saint- Clare. - Com que ento ela queixou-se?
- Ela no se queixou; s me disse que a mam passou mal 
umas poucas de noites seguidas. 
- Nesse caso - disse Saint-Clare -, porque no a 
substituis uma noite ou duas pela Jane ou pela Rosa? Ela 
assim j podia descansar. 
- Como podes imaginar uma coisa dessas, Agostinho? No 
pensas no que dizes! Nervosa como eu sou, a menor mudana d 
cabo de mim. Mos desconhecidas a tocarem-me agoniam-me. Se a 
Mammy tivesse por mim a considerao que devia ter, ficava 
acordada. Ouvi dizer que havia pessoas que tinham criados com 
essa dedicao. mas eu no tive sorte.
E Maria soltou um suspiro. 
A Menina Oflia ouvira este discurso com uma certa 
dignidade fria, apertando os lbios como algum resolvido a 
conhecer o terreno antes de se aventurar. 
- Claro que a Mammy  boa  sua maneira - disse Maria. - 
 meiga e respeitadora, mas no fundo  uma egosta. Est 
sempre a falar no marido e a pedir para ir para o p dele. 
Quando casei trouxe-a comigo. O meu pai ficou com o marido;  
ferrador, e por isso fazia-lhe
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 muita falta. Nessa altura pensei e disse que, no podendo 
viver junto dele, o melhor era considerarem-se separados para 
sempre. Devia ter insistido em casar a Mammy com outro 
qualquer. No o fiz: fui demasiado indulgente e fraca. Disse 
ento  Mammy que no contasse ver o marido mais do que uma 
ou duas vezes na vida, porque o clima onde vive o meu pai no 
convm  minha sade, e eu no podia voltar para l. 
Aconselhei-a ento a arranjar aqui algum. Mas no! No quis. 
. . A Mammy tem s vezes teimosias que ningum conhece como 
eu. 
- Ela tem filhos? - perguntou Oflia. 
- Sim, tem dois. 
- Essa separao deve custar-lhe. 
- Talvez, mas eu no podia traz- los para aqui. . . 
Eram dois seres sujos e eu no aguentava. E depois, iam 
tomar-lhe o tempo todo. No fundo, penso que a Mammy ficou 
sempre triste por causa disso. No quer casar com outro homem 
e acho que, mesmo agora, apesar de saber que me  
absolutamente necessria, voltava amanh mesmo para o marido. 
Sim, tenho a certeza... As pessoas hoje em dia so to 
egostas. . . mesmo as melhores!
- At custa pensar nisso - murmurou Saint-Clare, em tom 
seco. 
A Menina Oflia fixou nele um olhar penetrante, compreendeu 
toda a irritao que ele procurava conter, e viu o sorriso 
sarcstico esboado nos seus lbios. 
- A Mammy foi sempre a minha preferida - continuou a 
Senhora Saint-Clare. - Eu gostava de poder mostrar a roupa 
dela s vossas criadas do Norte: sedas, musselinas e 
baptistas autnticas s vezes, eu passava tardes inteiras a 
arranjar-lhe chapus para ela levar s festas. Foi sempre bem 
tratada, nunca apanhou chicotadas seno uma ou duas vezes em 
toda a vida. Toma todos os dias ch ou caf, com acar 
branco.  um abuso; mas  assim que o Saint-Clare quer que os 
tratem. Fazem o que lhes apetece. Os culpados dos escravos 
serem egostas, somos ns; portam-se como crianas mimadas. 
Estou farta de dizer a Saint-Clare que no posso mais. 
- Nem eu - disse Saint-Clare, pegando no jornal da 
manh. 
Eva, com aquela expresso de recolhimento mstico e profundo 
que lhe era habitual, avanou devagar at  cadeira da me, e 
passou-lhe os pequenos braos em volta do pescoo. 
- Que mais queres, Eva?
- Mam, no posso ficar a tomar conta de si uma noite, 
uma noite s?. . . Tenho a certeza de que no irrito os seus 
nervos, e de que no adormeo. . . Passo tantas noites 
acordada!. . . Ponho-me a pensar. . . 
- Que loucura, menina, que loucura! s uma criana muito 
estranha!
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 - Deixa, mam?. . . Parece-me - acrescentou - que a Mammy 
no est bem. Disse-me que h uns tempos para c anda sempre 
com dor de cabea. 
- Ah,  mais uma das extravagncias da Mammy. . .  como 
todos os outros negros faz uma barulheira, s por causa de 
uma dor de cabea ou um golpe num dedo! No lhes devemos dar 
ouvidos, nunca! Em minha casa,  uma questo de princpios - 
disse ela voltando-se para Oflia. - Dentro de pouco tempo, 
vai ver que tenho razo. Se deixa os escravos queixarem-se 
por tudo e por nada, nunca mais se entende. Eu nunca me 
queixo. . . e s Deus sabe o que sofro. Acho que  nossa 
obrigao sofrermos calados; portanto,  isso que eu fao. 
A esta afirmao inesperada, os olhos redondos da Menina 
Oflia exprimiram um espanto que no conseguiu disfarar. . . 
Quanto a Saint- Clare, soltou uma enorme gargalhada. 
- O Agostinho ri-se cada vez que fao a menor aluso ao 
meu sofrimento!. . . - disse Maria com uma voz de mrtir na 
agonia. Oxal que no se arrependa mais tarde!... 
E Maria levou o leno aos olhos. 
Houve uns instantes de desagradvel silncio. Saint-
Clare levantou- se, olhou para o relgio, e disse que tinha 
de sair. Eva foi atrs dele, e a Menina Oflia e a Senhora 
Saint-Clare ficaram sozinhas  mesa. 
- V como  o Saint-Clare? - disse Maria, tirando o 
leno dos olhos. - No compreende. . . no compreende que eu 
sofro h uns poucos de anos. . . Tinha razo, se eu estivesse 
sempre a queixar-me e a falar nas minhas doenas. . . mas eu 
tenho-me calado, tenho-me resignado. resignado! E agora o 
Saint-Clare entende que eu posso tolerar tudo. 
Oflia no sabia bem o que responder. 
Enquanto raciocinava, Maria limpou as lgrimas. Depois, 
comeou a conversar com Oflia a respeito das coisas da casa, 
referindo-se s porcelanas, aos quartos, s provises, a 
todas as coisas previstas para a Menina Oflia tomar conta. 
Fez tantas recomendaes, reflexes e observaes, que uma 
cabea menos organizada que a da prima no teria aguentado. 
- Agora - disse Maria -, creio quej expliquei tudo. A 
primeira vez que eu tenha uma crise, pode agir sem me 
consultar. Simplesmente, tenha cuidado com a Eva,  preciso 
vigi-la!
- Parece-me uma ptima criana - disse Oflia -, nunca 
vi outra melhor. 
-  muito estranha! Muito estranha - disse a me. - Tem 
coisas verdadeiramente extraordinrias. . . No se parece 
comigo. . . 
E Maria suspirou, como se tivesse pronunciado uma 
verdade dolorosa. . . 
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 Espero que no se parea!, pensava por seu turno a Menina 
Oflia. 
- Eva sempre gostou da companhia dos escravos. Meu Deus, 
eu sei que todas as crianas so assim. Eu prpria brincava 
com os negros do meu pai. . . mas isso nunca me influenciou. 
A Eva parece s vezes tratar de igual para igual toda a gente 
com quem lida. Nunca consegui que se desabituasse. Julgo que 
Saint-Clare a estimula a isso. . Saint-Clare d mimos a todos 
os que vivem debaixo do seu tecto. . . menos  esposa!
Oflia continuava a manter o mais profundo silncio. 
- S h uma maneira de lidar com os escravos - continuou 
Maria. -  preciso fazer-lhes sentir a sua inferioridade e 
domin-los! Isso para mim foi sempre muito fcil desde 
pequena. . . Mas a Eva sozinha  capaz de revoltar toda a 
casa. Que far ela quando for crescida e tiver um lar? 
Confesso que no sei. Procuro ser boa para os escravos. . e 
sou! Mas  preciso fazer-lhes sentir a sua posio. . . e  
isso que a Eva no faz. . . No consigo meter-lhe essa ideia 
na cabea. Ouviu-a oferecer- se para tratar de mim durante a 
noite para a Mammy poder dormir. Isto  uma amostra do que 
faria se a deixassem. 
- Mas - disse bruscamente Oflia -, concorda certamente 
que os seus escravos so pessoas como as outras, e que 
precisam de descansar quando esto cansados.
- Certamente, certamente. Quero que tenham tudo o que 
seja justo e conveniente. A Mammy pode dormir uma vez por 
outra; no h mal nenhum nisso. . . Mas  a pessoa mais 
ensonada que conheo! Sentada, de p, durante o trabalho, 
est sempre a dormir! No h perigo de no dormir o 
suficiente. Bem v, tratar os escravos como flores de estufa 
ou porcelanas da China,  na verdade ridculo - disse Maria, 
recostando-se na macieza de um enorme almofado, de onde 
retirou um elegante frasco de cristal. - Bem v - disse ela 
com a voz moribunda, suave como a brisa passando porjasmins-
da-arbia, ou qualquer coisa igualmente etrea -, bem v, 
prima Oflia, que raras vezes falo de mim, no est nos meus 
hbitos. . . Detesto isso!. . . Para falar verdade no tenho 
coragem. Mas h muitas coisas em que somos diferentes, eu e 
Saint-Clare. Ele nunca me compreendeu, nunca me apreciou. 
Julgo que  da que resulta a minha falta de sade. Saint- 
Clare est cheio de boas intenes, no duvido; mas os homens 
so todos uns egostas: faz parte da maneira de ser deles; 
no compreendem as mulheres. . .  essa a minha impresso. 
A Menina Oflia, que tinha a prudncia natural dos 
habitantes da Nova Inglaterra e um horror muito especial 
pelas questes de famlia, previu a sorte que a ameaava; 
comps um rosto impenetrvel e, pegando numa comprida meia 
que tinha sempre de reserva contra os
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 perigos da ociosidade, comeou a fazer malha com uma 
velocidade espantosa, apertando os lbios, com o ar de quem 
queria dizer: Queres obrigar-me a falar, mas eu no tenho 
nada que me meter nos vossos assuntos. A sua cara ficou to 
simptica como a de um leo de pedra. 
Maria nem reparou; tinha algum com quem desabafar, e 
isso bastava-lhe. Respirou novamente os sais para tomar um 
pouco de fora e continuou:
- Est a ver bem? Quando casei com Saint-Clare, trouxe o 
meu dote e os meus escravos; tenho por isso o direito de os 
usar como eu quiser. . . O Saint-Clare tem a sua fortuna e os 
seus escravos. . . Que os trate  sua maneira. Mas os 
meus!... Acerca de muitas coisas, tem umas ideias muito 
extravagantes. . . em especial na maneira de tratar os 
escravos. Trata-os como se fossem mais importantes do que eu 
ou do que ele prprio. . Deixa-os fazer tudo sem levantar 
sequer um dedo. Em certas coisas, Saint-Clare  assustador. . 
. chega a assustar-me a mim. . . embora parea, de uma 
maneira geral, ter bom feitio. . . Decidiu que ningum daria 
uma s chicotada nesta casa, sucedesse o que sucedesse, a no 
ser ele ou eu!. . . E disse isso de tal maneira que eu no 
posso contrari-lo. Compreende ao que isto leva. . . Podiam 
andar em cima dele, que no se mexia. . . V a crueldade que 
seria se me exigissem semelhante esforo. . Os escravos so 
como crianas grandes!
- No sei nada desse assunto, graas a Deus - disse 
Oflia. 
-  possvel; mas vai aprender, e aprender  sua custa 
se continuar aqui. No pode imaginar a estupidez, a 
ingratido, a petulncia dessa raa miservel!
Maria retomava foras, como por milagre, quando entrava 
neste assunto; por isso, abriu muito os olhos e pareceu 
esquecer o seu torpor. 
- No supe as partidas que eles fazem s donas de casa, 
todos os dias e a toda a hora! Mas  intil dizer a Saint-
Clare; d respostas to estranhas. . Responde que a culpa 
deles serem como so  nossa, e que devemos aceit-los assim; 
diz que somos ns os culpados e que, nesse caso, seria 
crueldade castig-los; e que no lugar deles ns ramos ainda 
piores. . . como se pudssemos compar-los connosco!
- Mas - disse secamente Oflia -, no lhe parece que 
Deus os fez de carne e osso como ns?
- No, no me parece, evidentemente. Essa  boa! Uma 
raa degradada. 
- No acha que a alma deles  imortal? - continuou a 
prima, num tom de indignao crescente. 
- No digo que no - respondeu Maria bocejando. - Isso 
ningum duvida. Mas quanto a comparar a alma deles com a 
nossa, no pode ser. Saint-Clare pretendeu que separar a 
Mammy do marido era a mesma coisa que separar-me dele. . . 
Foi escusado dizer-lhe que h
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 uma grande diferena, ele no consegue compreender.  o 
mesmo que dizer que a Mammy gosta daqueles filhos nojentos 
como eu gosto da Eva! Todavia, Saint-Clare pretendeu fria e 
seriamente que eu devia, fraca como sou, mandar embora a 
Mammy e arranjar qualquer outra pessoa para a substituir. . . 
Era um pouco duro, mesmo para o meu bom corao! Raras vezes 
mostro os meus sentimentos. Tenho por norma sofrer tudo em 
silncio. . . mas dessa vez, rebentei. . . Ele no voltou a 
falar no assunto. Mas acabei por compreender por certos 
olhares e certas palavras, que continua com as mesmas ideias. 
 to obstinado, to provocante!
Oflia pareceu ter medo de dizer qualquer coisa; acelerou o 
movimento das compridas agulhas com uma fria mais expressiva 
do que as palavras, se Maria Saint-Clare a pudesse 
compreender. . . 
- Por isso, j v - continuou ela - que espcie de casa vai 
dirigir. uma casa sem rei nem roque, onde os escravos tm 
tudo o que querem, e fazem o que querem. . . excepto quando 
eu tenho foras. . . Agarro no pingalim, mas o esforo mata-
me! Se ao menos Saint-Clare fizesse como os outros!
- Que fazem eles?
- Mandam-nos ao calabouo, ou a qualquer outro stio onde os 
chicoteiam. No h outra forma. . . Se eu no fosse to 
doente, governava-os com o dobro da energia de Saint-Clare. 
- Como consegue ele dirigi-los ento? Diz que nunca lhes 
bate!
- Bem, os homens tm uma maneira de mandar diferente. . . 
Para eles  mais fcil! E depois, se reparar nos olhos de 
Saint-Clare, ver que so muito estranhos. Quando se zanga, 
ficam com um brilho especial. At eu sinto medo, e os 
escravos sabem que nessa altura  preciso ter cuidado! Eu no 
conseguia, nem que desse centenas de chicotadas, o que Saint-
Clare consegue com um simples olhar quando est zangado! Se 
ele est em casa, no se ouve o mais pequeno barulho.  por 
isso que ningum acredita em mim. Mas quando os comear a 
dirigir, ver que no faz nada deles sem um pulso de ferro. . 
. So to maus, to mentirosos, to indolentes!
- Ah, sempre a mesma histria! - disse Saint-Clare 
entrando de repente. . . - Que contas terrveis tero esses 
desgraados que prestar no dia do Juzo, sobretudo por causa 
da sua preguia!. . . No v o exemplo que eu e a Maria lhes 
damos? - acrescentou estendendo-se num canap em frente da 
mulher. 
- Ests a ser muito maldoso, Agostinho.
- Estou? Julgava que fazia muito bem concordando contigo... 
como fao sempre. 
- Sabes perfeitamente que no  verdade!
P[90]
 - Nesse caso, enganei-me. . . Obrigado por me repreenderes, 
querida!
- Ah, agora queres provocar-me!
- Vejamos, Maria, est um calor horrvel. Acabo de ter 
uma enorme discusso com o Adolfo, e cansei-me muito... 
Permite-me que descanse um pouco  sombra do teu amvel 
sorriso. 
- Que se passou com o Adolfo? O descaramento desse 
patife passa das marcas. J no o posso suportar. Ah, s 
queria mandar nele uns tempos  minha vontade. . . Metia-o na 
ordem. 
- O que acabas de dizer, minha querida,  fruto da tua 
subtileza e do teu bom senso habituais. Quanto a Adolfo, o 
caso foi o seguinte: dedicou-se durante tanto tempo a imitar 
as minhas graas e perfeies, que acabou por se julgar 
tambm senhor. . . e fui obrigado a mostrar-lhe que se 
enganava. 
- Como? - perguntou Maria. 
- Bem, fiz-lhe compreender que desejava conservar 
algumas das minhas roupas para meu uso pessoal. Tambm tive 
de pr limites aos gastos de gua-de-colnia. Levei mesmo a 
minha crueldade at lhe deixar apenas uma dzia dos meus 
lenos de baptista. O Adolfo usava tudo isso com uma 
petulncia, que foi preciso igualmente moderar com os meus 
conselhos paternais. 
- Ah, Agostinho, essa indulgncia  realmente 
intolervel! Quando aprenders como se tratam os escravos?
- Alis, onde est o crime quando um pobre escravo se 
quer parecer com o seu senhor?. . . Se eu o eduquei to mal 
que ele s pensa em gua- de-colnia e lenos de baptista, 
porque no hei-de dar-lhos?
- E porque foi que no o educou melhor? - perguntou 
Oflia, com um pouco de audcia. 
- Porque isso cansa. Oh, prima, prima, a preguia perde 
mais almas do que a prima poderia salvar. Se no existisse a 
preguia, eu prprio seria um anjo. Chego a acreditar que a 
preguia  aquilo a que o nosso antigo doutor Botherem, de 
Vermont, chamava a essncia do mal moral. 
- Acho - continuou Oflia - que vocs, os possuidores de 
escravos, tomam uma terrivel responsabilidade. . . Eu no a 
queria ter nem por todo o ouro do mundo! Vocs devem educar 
os vossos escravos, trat-los como seres pensantes, como 
almas imortais, de quem tero de prestar contas um dia no 
tribunal de Deus.
-  muito fcil falar - disse Saint-Clare. - Parece-me 
que foi Shakespeare quem ps na boca de uma das suas 
personagens: Ser-me-iamais fcil ensinar a vinte pessoas o 
que se deve fazer, do que ser uma das vinte pessoas a seguir 
as minhas mximas! No h nada como a diviso do trabalho: o 
meu forte  falar; o seu, prima,  agir!
P[91]
 Quanto ao tratamento que lhe davam, o pai Toms no tinha 
razo de queixa. 
A fantasia da pequena Eva, ou antes, a gratido e a 
simpatia de um carcter bem formado, levaram-na a pedir ao 
Senhor Saint-Clare que pusesse o escravo ao seu servio 
particular. Tom recebeu assim ordem para abandonar tudo, 
quando Eva o reclamasse. E estava radiante. Andava muito bem 
vestido: a libr era um dos luxos de Saint-Clare. Para ele, o 
trabalho das cavalarias no passava de um pr-forma. Tinha 
ele prprio escravos sob as suas ordens, limitando-se a uma 
simples inspeco. Maria Saint-Clare dissera que no podia 
suportar o cheiro a cavalos quando ele estava perto. Exigira 
portanto que no lhe entregassem qualquer trabalho cujas 
consequncias pudessem abalaro seu sistema nervoso, incapaz, 
segundo ela, de suportar semelhantes choques. Um cheiro 
nauseabundo bastava para pr termo aos seus dias! Tom, na sua 
casaca de fazenda bem escovada, com um chapu de castor na 
cabea, calado com botas reluzentes, o colarinho e os punhos 
impecveis, e o rosto negro e simptico, tinha um ar bastante 
respeit vel para se poder sentar na cadeira episcopal de 
Cartago, que, alis, pertencera outrora a homens da sua cor. 
Vivia num stio lindo, facto a que a sua raa sensvel 
nunca  indiferente. Apreciava, com uma felicidade tranquila, 
as aves, as flores, as fontes, os perfumes, a luz e a beleza 
do ptio; os reposteiros de seda, as pinturas, os lustres, as 
estatuetas, os dourados, que, a seu ver, tornavam o salo um 
verdadeiro palcio das Mil e Uma Noites. 
Se a frica alguma vez produzir uma raa culta e 
civilizada - e tempos viro em que a frica ter o seu lugar 
na marcha incessante do progresso humano -, a vida h-de ali 
acordar com um esplendor e uma magnificncia desconhecidas 
das nossas frias tribos do Oeste. Sim, nessa terra mstica do 
ouro, das prolas, das especiarias ardentes, das palmeiras 
ondulantes, das flores maravilhosas e da fertilidade sem 
limites, a arte criar novas formas, e o esplendor ter um 
brilho diferente. A raa negra, que j no ser ento 
desprezada e calcada aos ps, produzir com certeza a mais 
alta manifestao da vida humana. Sim, na sua doura, na sua 
humildade de corao, na sua tendncia para se confiar a um 
ser superior e dirigir-se ao poder divino; na simplicidade 
infantil dos seus afectos, no esquecimento das injrias 
recebidas, realizaro, na sua forma mais elevada, a 
verdadeira vida crist. Deus faz sofrer aqueles que ama, e 
escolheu a frica, neste mundo de aflio, para lhe dar um 
lugar cimeiro no reino supremo que dar aos homens, quando 
todos os outros reinos forem julgados... e destrudos; porque 
os primeiros sero os ltimos, e os ltimos sero os 
primeiros. 
Seriam estas as ideias que preocupavam Maria Saint-Clare 
na manh de certo domingo, de p no patamar do seu palcio, 
luxuosamente
P[92]
 vestida, com uma pulseira de diamantes apertada no pulso 
fino? Devia ser isso. . . ou coisa semelhante, porque Maria 
patrocinava obras de caridade e ia, em toilette esplendorosa: 
diamantes, sedas, rendas, jias, tudo enfim, a uma igreja 
qualquer da moda para se mostrar ali muito piedosa. Maria, 
por uma questo de princpios, era extraordinariamente 
piedosa aos domingos. Era v-la no vestbulo, to direita, 
to elegante, to area e suave em todos os seus movimentos. 
Parecia que as rendas a envolviam numa nuvem. Era uma 
graciosa criatura. As suas ideias deviam parecer-se com ela. 
A Menina Oflia estava ao seu lado, fazendo um ntido 
contraste. No porque vestisse um vestido de seda igualmente 
bonito, um xaile e um leno to elegantes; mas era 
esqueltica, rgida e angulosa. Tinha tambm a sua nuvem que 
a envolvia, e se essa nuvem no era visvel, podia adivinhar-
se to bem como a graa da sua companheira. Essa graa no 
era alis a graa de Deus, mas no inporta.
- Onde est Eva? - perguntou Maria. 
- Parou na escada para dizer qualquer coisa  Mammy. Que 
dizia Eva a Mammy? Escute o leitor, e compreender, embora a 
Senhora Saint-Clare no compreendesse. 
- Minha querida Mammy, eu sei que tens dores de cabea. 
-  muito boa, menina Eva! H uns tempos para c, estou 
sempre com dores de cabea. . . no se preocupe comigo!. . . 
- Este passeio vai fazer-te bem!. . . - E deitou-lhe os 
braos ao pescoo. . . - Toma o meu frasco de sais. 
- O qu? Essa linda coisa de ouro com diamantes? Meu 
Deus, menina! No posso. 
- Porqu? Tu precisas dele e eu no; a mam usa sempre 
isto para as dores de cabea. . . Vai fazer-te bem. V, leva-
o para me seres agradvel.
- Esta menina  umajia! - disse Mammy enquanto 
Evangelina lhe metia o frasco na mo, a beijava e descia as 
escadas a correr. 
- Porque te demoraste, minha filha? - perguntou a me. 
- Estava a dar o meu frasco de sais  Mammy, para ela o 
levar para a igreja. 
- O qu, Eva? O teu frasco de ouro?. . .  Mammy! - 
exclamou Maria batendo o p. - Quando aprenders a portar-te 
como deve ser? Vai busc-lo depressa. 
Evangelina baixou os olhos, fez uma cara muito triste e 
subiu a escada lentamente. 
- Vamos, Maria - disse Saint-Clare -, deixa esta criana 
ser livre. . . e fazer o que entender. 
- Ah, Saint-Clare, como queres que ela siga o seu 
caminho na sociedade? - perguntou Maria. 
P[93]
 - S Deus sabe; mas seguir o caminho do cu muito melhor 
que tu e eu. 
- Ah, pap, no diga isso; entristece a mam. - exclamou 
a menina tocando ao de leve no brao do pai. 
- O que preferes - continuou Saint- Clare -, viver como 
em casa do teu tio em Vermont ou ter uma casa cheia de 
escravos como aqui?
- Oh, a nossa maneira de viver  muito melhor - respondeu 
Eva.
- Porqu? - continuou Saint-Clare tocando-lhe na testa. 
- Porque temos mais pessoas em nossa volta para amar. 
- Ah,  mesmo da Eva - disse Maria -,  mesmo uma das suas 
respostas tolas. 
- Eu disse alguma coisa de mal, pap? - perguntou 
Evangelina sentando-se no colo do pai. 
- Sim, se considerarmos a maneira como os outros pensam 
- respondeu Saint-Clare. - Mas onde esteve a minha filha  
hora do jantar?
- No quarto do Tom a ouvi-lo cantar. . . A me Dina 
levou-me comida. 
- A ouvir o Tom cantar!. . 
- Sim, ele costuma cantar para mim. . . Eu leio-lhe a Biblia, 
e el explica-me o que quer dizer!
- Estou espantada - disse Maria a rir. - Esta  a melhor 
anedota do ano!
- Aposto - disse Saint-Clare -, que o Tom no explica a 
Bblia to mal como isso.  um escravo com o sentido da 
religio. Esta manh precisei dos cavalos muito cedo. . . 
Subi ao quarto dele, por cima da cavalaria. . . Estava a 
fazer as suas oraes. . . Nunca ouvi nada to comovente. . . 
Pedia por mim a Deus com um fervor apostlico. . . 
- Sabia que o estavas a ouvir. . . J conheo esses truques. 
- No era truque, porque dizia perante Deus a opinio que tem 
a meu respeito, com bastante desembarao. Achava que eu 
precisava de fazer progressos, e era pela minha converso que 
rezava. 
- Ento pense nisso! - disse Oflia. 
-  tambm essa a sua opinio, tenha a certeza - disse 
Saint-Clare. - Veremos. . . no  verdade, Eva?


Captulo XIV
COMO SE DEFENDE UM HOMEM LIVRE
Voltemos agora a casa dos Quakers. Aproxima-se a 
noite, e h um pouco de agitao no lar. Raquel Halliday anda 
de um lado para o outro.
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 Ttira das suas provises alguma comida para os amigos que 
vo partir. As sombras da tarde prolongam-se em direco ao 
oriente; na linha do horizonte, o Sol em brasa suspende-se e 
lana os seus raios calmos e dourados para o interior do 
quarto onde esto sentados ao lado um do outro Jorge e Elisa. 
Jorge tem o filho sobre os joelhos, e a mo na mo da mulher. 
Parecem tristes e h nos seus rostos vestgios de lgrimas. 
- Sim, Elisa - dizia Jorge -, reconheo que tudo o que dizes 
 verdade: vales muito mais do que eu! Tentarei fazer como 
queres... Tentarei ter sentimentos dignos de um homem livre, 
dignos de um cristo! Deus todo-poderoso sabe que eu quis 
proceder bem. . . que tentei com todas as minhas foras 
proceder bem, quando era tudo contra mim!. . . E agora, vou 
esquecer o passado. . . vou atirar para longe os sentimentos 
amargos e cruis. . vou ler a Biblia e aprender a ser bom. 
- Quando estivermos no Canad, eu ajudo-te a viver - 
continuou Elisa. - Sei fazer vestidos, passar a ferro, 
engomar roupa fina. . . Com o trabalho dos dois, havemos de 
viver. 
- Sim, Elisa, enquanto nos tivermos um ao outro e 
tivermos o nosso filho. No possumos seno os nossos braos, 
e contudo sinto-me fortte!. . . Parece-me que no devo pedir 
mais nada a Deus. . . Trabalhei de dia e de noite at aos 
vinte e um anos, e no tenho um cent. . . Nem sequer tenho um 
tecto de colmo para me abrigar, nem um palmo de terra a que 
possa chamar meu. . . Mas se me deixarem em paz, serei feliz 
e grato. Hei-de trabalhar e mandar aos Shelby o dinheiro do 
resgate para ti e para o pequeno. . . Quanto ao meu antigo 
senhor, est pago cem vezes; no lhe devo nada. 
- Ainda no estamos livres de perigo - disse Elisa. - 
Ainda no estamos no Canad!
-  verdade; mas parece-me que j respiro o ar livre, e 
que isso me d foras!
Nesse momento ouviram-se vozes l fora, e bateram  
porta. . . Elisa foi abrir em sobressalto. 
Era Simeo com um outroquaker, que mandou entrar e 
apresentou pelo nome de Fineu Fletcher. Fineu era alto, magro 
como um bacalhau, cabelos encarnados e uma cara cheia de 
inteligncia e vivacidade; estava longe de ter a fisionomia 
calma, serena, despreocupada, de Simeo Halliday. Devemos 
reconhecer que tudo isso dizia bastante mal com o chapu de 
abas largas e a fraseologia da sua comunidade. 
- O nosso amigo Fineu - disse Simeo Halliday a Jorge - 
descobriu qualquer coisa importante para ti e para os teus. 
Era bom que o ouvisses. 
-  verdade - disse Fineu -, o que mostra mais uma vez 
que em certos stios  sempre bom dormir com um olho fechado 
e o outro aberto. A noite passada, parei numa pequena taberna 
solitria, do lado
P[95)
 de l da estrada. Lembras-te, Simeo, do stio onde o ano 
passado vendemos mas a uma mulher que tinha uns brincos 
muito compridos? Eu estava cansado da viagem, e estendi-me a 
um canto, em cima de um monte de sacos, e tapei-me com uma 
pele de bisonte enquanto esperava que me arranjassem a cama. 
. . E que aconteceu? Adormeci. n
- Com um olho aberto e o outro fechado, no foi? - disse 
tranquilamente Simeo. 
- No, com os olhos bem fechados, durante uma ou duas 
horas! Estava cansadssimo. Quando j tinha passado pelas 
brasas, estavam dois homens sentados a uma mesa, a beber e a 
conversar. . . Como ouvi dizer a palavra quakers, pus-me  
escuta. Quer dizer que esto em casa dos quakers - exclamou 
um -, com toda a certeza! Aqui, abri bem os olhos. Era de 
vocs que falavam. Ouvi todo o seu plano. 
O Jorge tinha de ser entregue ao seu senhor, em 
Kentucky, para ser dado um exemplo que aterrasse para sempre 
os negros que pretendem fugir. Dois deles iriam vender a 
Elisa em Nova Orlees. . . Esperavam ganhar com ela de mil e 
seiscentos a mil e oitocentos dlares; o filho devia voltar 
para o mercador que o comprara; o Jim e a me tambm: deviam 
ser mandados para o senhor, em Kentucky. Diziam que na cidade 
mais prxima havia dois magistrados que levavam consigo para 
apanhar os fugitivos. . . e que a mulher seria apresentada em 
tribunal, e que um desses indivduos, pequeno e com voz de 
falsete, ia jurar que ela lhe pertencia. . . Sabiam alis o 
caminho que vamos seguir, e viriam sete ou oito em nossa 
perseguio. E agora que vamos fazer?
Durante esta informao, todo o grupo tomara uma atitude 
digna de uma pintura. Raquel Halliday, que abandonara os seus 
bolos para ouvir a notcia, levantou ao cu as mos 
enfarinhadas; lia-se no seu rosto uma grande inquietao. 
Simeo reflectia, e no conseguia tirar os olhos dele. Jorge 
cerrava os punhos, lanava fascas pelos olhos. . . 
- Que vamos fazer, Jorge? - perguntou Elisa, quase sem 
voz. 
- Eu sei o que vou fazer - disse Jorge entrando no quarto de 
dormir, onde examinou as pistolas. 
- Eh - disse Fineu a Simeo, abanando a cabea -, j 
ests aver o que se vai passar. 
- Vejo perfeitamente - respondeu Simeo -, mas desejo 
que no se chegue a tanto. 
- No pretendo arrastar ningum comigo - disse Jorge. - 
S peo que me emprestem um carro e me indiquem a estrada. O 
Jim  forte como um gigante, e valente como o desespero, e eu 
tambm!
- Est muito bem, meu amigo - disse Fineu -, mas com 
tudo isso precisas ainda de outra coisa: de algum que te 
conduza. Se queres lutar,  l contigo; mas h nessa estrada 
duas ou trs coisas que desconheces. 
P[96]
 - Mas no quero compromet-los - exclamou Jorge. 
- Comprometer? - disse Fineu com uma expresso de 
malcia. Comprometer-me em qu, pode saber-se?
- Fineu  prudente e hbil - disse Simeo -, podes 
confiar nele, Jorge. 
Para falar verdade, Fineu fora durante muito tempo 
explorador, e um valente caador de caa grossa. . . Mas 
apaixonara-se pela filha de um quaker, e entrara para a 
comunidade; e embora fosse agora um membro digno e exemplar, 
os mais fervorosos ainda o acusavam de conservar uns restos 
do veneno da sua antiga vida. 
- O amigo Fineu tem uma maneira de ser muito dele - 
disse Raquel, a sorrir -, mas afinal. . . sabemos que  um 
grande corao!
- No seria melhor despacharmo-nos? - perguntou Jorge. 
- Levantei-me s quatro horas, e vim o mais depressa que 
pude - continuou Fineu. - Se eles seguiram o seu plano, levo 
sobre eles duas horas de avano. Alis, no  prudente partir 
antes de anoitecer. H na aldeia trs ou quatro patifes que 
podiam incomodar-nos e fazer-nos atrasar. . . Daqui a duas 
horas podemos arriscar-nos. Vou falar com o amigo Miguel 
Cross e pedir-lhe que siga  nossa frente na sua pileca, para 
abrir caminho e avisar-nos se houver perigo. Vou avisar 
tambm o Jim e a velhota para estarem prontos e prepararem os 
cavalos. Temos possibilidades de atingir a primeira paragem 
antes de sermos atacados. 
Fineu saiu e fechou a porta atrs dele. 
- Fineu no tem medo de nada e far tudo por ti, Jorge - 
disse Simeo. 
- O que me entristece - respondeu Jorge -,  faz-los 
correr a todos qualquer risco. 
- Agradecemos-te, amigo, que no tornes a dizer isso. O 
que fazemos  aquilo a que a nossa conscincia nos obriga; 
no podemos proceder de outra maneira. E agora, me - 
continuou ele, voltando-se para Raquel -, prepara depressa a 
comida; no podemos deixar partir os nossos amigos em jejum. 
Enquanto Raquel e os filhos acabavam de fazer os bolos 
de milho e coziam o frango e o presunto, Jorge e a mulher 
ficavam sentados na saleta, com as mos entrelaadas, 
pensando que da a umas horas estariam separados, talvez para 
sempre. 
- Elisa - disse Jorge -, as pessoas que tm amigos, 
casas, terrenos, dinheiro, no podem amar-se como ns, que s 
nos temos a ns prprios. At que te conheci, Elisa, ningum 
me teve amor, a no ser a minha me e a minha irm!. . . E 
agora,  preciso que saibas, Elisa, que eu vou talvez 
derramar o meu ltimo sangue. . . Mas no deixarei que te 
levem. . . Para isso, tero de passar por cima do meu 
cadver. 
- Oh, que Deus tenha piedade de ns - exclamou Elisa. - 
Se ao
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 menos Ele permitisse que nos fssemos embora deste pas...  
tudo quanto Lhe pedimos. 
Ouviram-se pequenas pancadas na porta, e entrou Ruth. 
- Vim a correr - disse ela -, para dar ao menino estes trs 
pares de meias limpas e de l quentinha. No Canad faz muito 
frio, sabem?
E desapareceu aos saltinhos. 
Passado um bocado, um grande carro coberto parou em 
frente da porta. A noite estava clara e cintilante de 
estrelas. Fineu salto agilmente do banco para dar lugar aos 
viajantes. Jorge saiu; dava uma das mos ao filho, a outra  
mulher. Seguia com passo firme, o rosto cheio de coragem e 
resignao. Raquel e Simeo seguiam atrs dele. 
- Desam da - disse Fineu aos que se encontravam j dentro 
do carro -, para eu arranjar lugar para as mulheres e para a 
criana. 
- Aqui esto duas peles de bfalo - disse Raquel. - Pe-nas 
sobre o banco para irem mais confortveis. 
Jim foi o primeiro a descer e ajudou a me. Tinha com 
ela os maiores carinhos. A pobre mulher lanava para todos os 
lados olhares inquietos, como se esperasse a todo o momento 
ver chegar os seus perseguidores. 
- Trouxeste as tuas pistolas, Jim? - perguntou Jorge em voz 
baixa. - Se nos atacarem, sabes para que servem. . . 
- Se sei - disse Jim mostrando o peito largo e 
respirando fundo. 
- Descansa, que eu no os deixo apanharem a minha me! 
Enquanto trocavam estas palavras, Elisa despedira-se da sua 
boa amiga Raquel. Simeo meteu-a no carro e ela instalou-se 
no fundo com o filho. A velha foi sentar-se ao p dela, e 
Jorge e Jim ficaram na sua frente sentados num banco 
grosseiro. Fineu seguiu na boleia. 
- Adeus, amigos! - gritou Simeo. 
- Deus o abenoe! - responderam todos. 
E o carro partiu, fazendo estalar o cho gelado debaixo 
das rodas. Caminharam por atalhos do bosque; atravessaram 
vastas plancies galgaram colinas, desceram at aos vales, e 
as horas iam passando. 
A criana adormeceu depressa e caiu pesadamente sobre o 
regao da me. A pobre velha negra esqueceu os seus temores 
e, ao amanhecer, Elisa fechou tambm os olhos. Fineu era o 
mais alegre do grupo; assobiava, para o caminho no lhe 
parecer to comprido, algumas canes um pouco profanas. . . 
na boca de um quaker. 
Pelas trs horas, Jorge ouviu o rudo ntido e rpido de 
cascos de cavalos; deu uma cotovelada a Fineu, que parou  
escuta. 
- Deve ser o Miguel: reconheo o trote do seu cavalo. Ps-se 
de p, e olhou com certa inquietao. 
No alto da colina, bastante afastado, viram um homem que 
vinha ao seu encontro a toda a velocidade. 
-  ele! - disse Fineu. 
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 Jorge e Jim saltaram do carro, antes de saberem o que iam 
fazer, e voltaram-se em silncio para o lado de onde vinha o 
mensageiro inesperado. Ele continuava a avanar. Uma elevao 
de terreno escon deu-o por instantes, mas continuaram a ouvir 
o cavalgar precipitado. Finalmente, apareceu num alto, e ao 
alcance da voz. 
-  o Miguel,  Eh Miguel Miguel!
- s tu, Fineu?
- Sim.
- Que novidades h? Vm a?
- Vm atrs de mim! So oito ou dez! Esto encharcados 
em lcool, e rogam pragas e rangem os dentes como lobos. 
Mal tinha acabado de falar, quando uma rajada de vento 
trouxe o barulho do galope dos cavalos deles. 
- Subam! Depressa, depressa para dentro do carro, Fineu. 
Se querem dar combate, esperem que eu lhes indique o stio. 
Tornaram a subir, e Fineu lanou os cavalos a galope. 
Miguel cavalgava ao seu lado. As mulheres esperavam. . . Viam 
ao longe um grupo de homens cuja silhueta escura se recortava 
sobre as faixas rosadas do cu matinal. Galgando apenas mais 
uma colina, os perseguidores descobriam o carro facilmente, 
graas ao seu toldo branco. . . Ouviu-se um grito de triunfo 
brutal. Elisa, quase a desmaiar, apertava o filho de encontro 
ao peito; a velha rezava e gemia; Jorge e Jim pegaram nas 
pistolas com a mo a tremer. 
Os inimigos ganhavam terreno; o carro virou bruscamente 
e parou junto de um bloco de rochas escarpadas que se elevava 
no meio de uma vasta plancie. Essa pirmide isolada erguia-
se, gigantesca e escura, para o cu claro, e parecia oferecer 
um abrigo inviolvel. Fineu conhecia perfeitamente o stio; 
tinha ali ido muitas vezes durante as suas caadas. Era para 
l chegar que esforara tanto os cavalos. 
- C estamos - disse ele parando e saltando do banco. - 
V, saltem todos, depressa, e trepem comigo quele rochedo! 
Miguel, atrela o teu cavalo ao carro e vai a casa de Amariah. 
Ele que venha com alguns dos seus para terem uma conversa com 
aqueles patifes. 
Num abrir e fechar de olhos, todos desceram. 
-Por aqui - disse Fineu, pegando no pequeno Harry. - Por 
aqui. Peguem na velhota ao colo! E se tm pernas, corram!
O conselho era intil: em menos tempo do que levaria a 
dizer, o pequeno grupo correu para as rochas, enquanto Miguel 
se afastava rapidamente. 
- Avancem - disse Fineu, no momento em que, j perto do 
rochedo, eles distinguiram  luz da alvorada e das estrelas 
misturada, os sinais de um carreiro tosco, mas nitidamente 
cavado, que conduzia ao interior da rocha. - Era uma das 
nossas cavernas de caa. Venham.
P[99]
 Fineu ia  frente, saltando como um cabrito, de pedra em 
pedra, levando a criana ao colo. Jim seguia-o carregando com 
a me velha.
Jorge e Elisa fechavam a marcha. 
Os cavaleiros chegaram  beira da estrada e desceram soltando 
gritos e pragas, dispostos s a seguir os fugitivos. Aps 
alguns minutos de escalada, estes encontraram-se no altto do 
rochedo. O atalho passava agora por um desfiladeiro onde s 
podiam seguir em fila indiana. De repente, chegaram a uma 
fenda de cerca de trs ps de largura e trinta de 
profundidade que separava em duas a massa de rochas. Era um 
precipcio escarpado a pique como as muralhas de uma 
fortaleza. 	
Fineu saltou com toda a facilidade por cima da brecha e 
depositou a criana num espesso tapete de musgo branco. 
- Vamos, vamos, vocs, saltem todos! Est emjogo a vida. 
Saltaram, com efeito, uns aps outros. Alguns fragmentos de 
rocha, formando uma espcie de parede, escondiam-nos aos 
olhos dos assaltantes. 	
- Bem, estamos todos - disse Fineu, espreitando por cima 
desta defesa natural para seguir os movimentos do inimigo. 	
O inimigo dirigia-se para os rochedos. 	
- Que nos apanhem, se puderem; mas vo ser obrigados a seguir 
um a um no meio destes rochedos, ao alcance das nossas 
pistolas. . . Esto a ver, meus filhos?
- Sim, estou a ver - disse Jorge. - Mas como isto  um caso
pessoal deixe-nos sermos os nicos a correr o risco e a 
combater.
- Meu Deus, Jorge, combate  tua vontade. - exclamou Fineo, 
mastigando uma folha de amoreira selvagem -, mas ds-me 
licena que assista, no? Olha para eles a deliberarem 
espetando o pescoo; como galinhas para se prepararem para 
saltar para o poleiro. No seria melhor avis-los antes de os 
deixar subir?. . . Diz-lhes s que vais disparar sobre eles.
O grupo, que se distinguia agora nitidamente, era composto 
pordois magistrados e por um reforo de bandidos recrutados 
na taberna a troco de alguns copos de aguardente. 
- Pronto, Tom - disse um deles -, esto apanhados. . . 
- Sim, foram ali para cima. . . e ns seguimos por este 
carreiro. . . 	
No podem atirar-se l para baixo, e esto caados!
- E se eles disparam contra ns? No era nada agradvel!
- S pensas na tua pele! - continuou Tom, com ar de troa. 
No h perigo. Os negros so muito medrosos. 
- No sei porque no hei-de pensar na minha pele - disse 
Marks -, no tenho seno esta!. . . s vezes os negros lutam 
como diabos. 
Nesse momento, Jorge apareceu no alto da rocha e gritou em 
voz alta e clara:
P[ 100]
 - Senhores, quem so e o que querem?
- Queremos um rebanho de escravos que fugiu - disse Loker; 
Jorge e Elisa Harris e o filho, Jim Selden e uma velha. 
Trazemos connosco dois magistrados e um mandado de captura 
para os prender. . . e vamos prend-los. Ouviram? s o Jorge 
Harris que pertence ao Senhor Harris do condado de Shelby, no 
Kentucky?
- Sou Jorge Harris. Um tal Senhor Harris, de Kentucky, diz 
que eu lhe perteno. Mas agora sou um homem livre, na terra 
de Deus! E exijo que a minha mulher e o meu filho me 
pertenam. Jim e a me esto aqui. . . Temos armas para nos 
defendermos. Podem subir quando quiserem. . . mas o primeiro 
que se aproxime  um homem morto, e o segundo, o terceiro, 
at ao ltimo. 
- Vamos, vamos, rapaz - disse um indivduo baixo e 
gordo, que avanou assoando-se -, todos esses discursos no 
tm razo de ser na tua boca. Bem vs que somos 
representantes da justia. temos a lei do nosso lado, e o 
poder, e tudo! Sabes o melhor que tens a fazer?  entregares-
te sem resistncia. Mais tarde ou mais cedo  o que ters de 
fazer.
- Sei bem que vocs tm o poder e a lei do vosso lado - 
continuou Jorge, amargamente. . . - Querem apoderar-se da 
minha mulher para a vender em Nova Orlees. Querem apresentar 
o meu filho como se fosse um vitelo no mercado de um 
traficante. Querem entregar a me de Jim ao animal que a 
chicoteava e maltratava, porque no podia maltratar o Jim. 
Querem-nos torturar! Querem meter-nos debaixo dos ps 
daqueles a quem chamam os nossos senhores, que as vossas leis 
protegem. . . Malditos sejam vocs mais as vossas leis! Mas 
ainda no nos apanharam! Ns no reconhecemos as vossas leis, 
nem o vosso pas. Estamos aqui sob os olhos de Deus que nos 
criou, e juro que vamos combater pela nossa liberdade at  
morte.
Enquanto fazia esta declarao de independncia, Jorge estava 
de p sobre o rochedo, bem iluminado pelo sol. Os raios da 
aurora banhavam o seu rosto escuro. A maior indignao e o 
desespero punham-lhe fascas nos olhos, e falava com a mo 
levantada para o cu como se quisesse chamar a justia de 
Deus sobre os homens. 
A atitude, o olhar, a voz, todo o orador, enfim, reduziu ao 
silncio o grupo de Tom Loker. Existe na audcia e na 
valentia qualquer coisa que fascina por instantes a natureza 
mais grosseira. Marks foi o nico que no sentiu a menor 
emoo. Armou resolutamente a pistola e, durante uns segundos 
de silncio que se seguiram ao discurso de Jorge, fez fogo 
sobre ele. 
- Sabem - disse ele limpando a pistola -, que do o 
mesmo por ele, vivo ou morto!
P[ 102]
 Jorge deu um salto para trs. Elisa soltou um grito 
horrvel. A bala passara entre os cabelos do marido e roara 
a face da jovem, para ir bater numa rvore. 
- No foi nada, Elisa - disse Jorge, com vivacidade. 
- So uns patifes! - exclamou Fineu. - Mas em vez 
de fazeres discursos, era melhor que te protegesses. 
- Ateno, Jim! - disse Jorge -, pega nas tuas pistolas 
e vigiemos a passagem; o primeiro que aparecer  meu; o 
segundo ser para ti. No vale a pena gastar dois tiros com o 
mesmo. . . 
- E se no lhe acertas?
- Acerto - disse Jorge, com segurana. 
- Estes homens tm estofo - murmurou Fineu entre 
dentes. 
Todavia, aps o tiro de pistola de Marks, os assaltantes 
pararam indecisos. 
- Deves ter acertado num - disseram a Marks -, eu 
ouvi um grito. 
- Vou eu acertar noutro - disse Tom. - Os pretos 
nunca me meteram medo. No  agora que vou comear. Quem quer 
vir comigo?
- E lanou-se para os rochedos. 
Jorge ouviu distintamente toda esta conversa, e 
apontou a pistola para o stio do desfiladeiro onde ia 
aparecer o primeiro homem. 
Um dos mais corajosos do grupo seguiu Tom; os 
outros vinham atrs, e empurravam os primeiros at um pouco 
mais depresssa do que eles desejavam. Aproximaram-se. Da a 
pouco a figura macia de Tom apareceu  beira da fenda da 
rocha. 
Jorge disparou; a bala atingiu-o no flanco, mas 
Tom, com o urro de um touro, atravessou a brecha e foi cair 
na plataforma do rochedo. 
- Amigo - disse Fineu, pondo-se em frente do seu 
pequeno grupo e empurrando Tom com os braos fortes. - No 
precisamos c de ti para nada!
Loker caiu no precipcio, rolando no meio das 
rvores, das moitas, das pedras soltas, at que chegou l ao 
fundo, todo dorido e a gemer. 
Teria morrido com a queda, se ela no fosse 
amortecida pelos ramos, mas nem por isso deixou de sofrer com 
o choque. 
- Misericrdia! So uns verdadeiros demnios! - 
gritou Marks dirigindo a retirada por entre os rochedos, com 
muito mais pressa do que tivera para subir ao assalto. 
Todo o grupo o seguiu precipitadamente. O gordo magistrado 
corria sem flego. . . 
- Camaradas - disse Marks -, dem a volta e vo l 
abaixo buscar o Tom. Eu vou montar a cavalo e pedir auxlio. 
. . 
E sem dar ouvidos aos sarcasmos e risos, Marks 
juntou os actos s palavras e partiu. 
P[103]
 - Que grande cobarde! - disse um dos homens. - Vimos
defender os interesses dele, e safa-se. 
- Vejamos - continuou outro -,  preciso ir buscar o 
homem, quer esteja vivo ou morto!
Orientando-se pelos gemidos de Tom, e agarrando-se aos ramos 
e s ervas, desceram at ao precipcio onde o heri jazia 
estendido, ora suspirando, ora praguejando com igual 
veemncia. 
- Porque grita assim, Tom? Deve estar todo modo. 
- No sei. Ajudem-me a levantar! Maldito quaker! Se no 
fosse ele, atirava-os todos c para baixo. . . a ver se 
gostavam!
Ajudaram-no a levantar-se, seguraram-no pelos ombros, e 
levaram-no at junto dos cavalos. 
- Se me pudessem levar ao menos a uma milha daqui, at  
tal taberna! Dem-me um leno, qualquer coisa. . . para 
apertar a ferida e estancar o sangue!
Jorge olhou por cima das rochas, e viu que tentavam 
mont-lo no cavalo. Aps duas ou trs tentativas inteis, ele 
desequilibrou-se e caiu pesadamente no cho. 
- Espero que no tenha morrido - disse Elisa que observava 
com os companheiros toda esta cena. 
- E se estiver? - disse Fineu. - Era o que ele merecia!
- Mas depois vinha ojulgamento! - disse Elisa. 
- Sim - acrescentou a velha, que gritara como os metodistas 
durante todo o tempo. - Seria muito mau para a alma do pobre 
homem.
- Ia jurar que abandonam a partida - disse Fineu. 
E era verdade. Depois de pensarem e conferenciarem uns 
momentos, pegaram nos cavalos e foram-se embora. 
Assim que desapareceram, Fineu comeou a mexer-se. 
- Vejamos - disse ele -, temos de descer e seguir 
caminho. 
Disse ao Miguel que fosse  quinta, trouxesse reforos e 
voltasse com o carro, mas acho que devemos ir ao encontro 
dele. Deus queira que no
se demore. Ainda  cedo, e no tardaremos a encontr-lo; no 
estamos a mais de duas milhas da herdade. Se o caminho no 
estivesse to mau, podamos t-los evitado. 
Ao aproximar-se da estrada, Fineu viu o carro, que 
voltava com os amigos. 
- ptimo - gritou ele alegremente. - A vm o Miguel, o
Estvo e o Amariah. . . Agora estamos em segurana, 
como se j l tivssemos chegado.
- Faamos qualquer coisa por aquele pobre homem que est 
a sofrer - disse Elisa. 
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 - No seria mais do que cumprir o nosso dever de cristos - 
disse Jorge. - Vamos lev-lo connosco. 
- E os quakers trataro dele - acrescentou Fineu. - Acho 
bem; no me oponho de forma nenhuma! Vejamos o que ele tem!
E Fineu, que durante a sua vida de caador tinha 
adquirido certos conhecimentos de cirurgia, ajoelhou junto do 
ferido e comeou um exame atento. 
- s tu, Marks?. . . - perguntou Tom com voz fraca. 
- No, no  o Marks - disse Fineu. - Esse preocupou-se 
mais com ele do que contigo. . . H muito tempo que se foi 
embora!
- Estou perdido - exclamou Tom. - Esse co maldito 
deixa-me aqui a morrer sozinho!. . . A minha pobre me sempre 
disse que eu acabaria mal. 
- Calma! - disse Fineu. - Ests realmente perdido se eu 
no conseguir estancar o sangue. 
- Foi voc que me empurrou - disse Tom, num suspiro. 
- Se no o fizesse, eras tu quem nos empurrava a ns, 
por isso, bem vs! - disse Fineu aplicando a ligadura. - V, 
deixa-me fazer-te o penso. Ns no te queremos mal. Vamos 
levar-te para uma casa onde sers tratado como pela tua me. 
Tom soltou um gemido e fechou os olhos. . . 
Entretanto, chegara Miguel com o carro: tiraram os 
bancos, dobraram as peles de bfalo, puseram-nas de um lado 
s e, com grande esforo, quatro homens meteram Tom dentro do 
carro, onde ele acabou por desmaiar completamente. A velha 
negra, muito emocionada, sentou-se ao fundo e ps a cabea 
dele nos seus joelhos. Elisa, Jorge e Jim arrumaram-se como 
puderam, e partiram. 
- Que lhe parece? - perguntou Jorge a Fineu, ao lado do 
qual se sentara na boleia. 
- No est muito mal; o tiro s atingiu a carne, mas a 
queda foi violenta; perdeu muito sangue e ficou sem foras. 
Vai recuperar e ficar a saber um certo nmero de coisas. . . 
- Que vamos fazer deste pobre diabo? - perguntou Jorge. 
- Vamos lev-lo para casa de Amariah! Est l a av do 
Estvo Dorcas;  a melhor enfermeira que eu conheo... Em 
quinze dias, pe-no bom. 
Passada uma hora, os nossos viajantes chegavam a uma 
linda quinta, onde os esperava um excelente almoo. Tom foi 
deitado com todas as cautelas numa cama mais fofa e mais 
limpa do que as outras onde costumava dormir. A ferida foi 
tratada e ligada. Como uma criana com sono, abria e fechava 
os olhos devagar, enquanto os seus salvadores passavam 
alegremente diante dele para verem se precisava de mais 
alguma coisa. 
P[105]
 Captulo XV
EXPERINCIAS E OPINIES DA MENINA OFLIA
O nosso amigo Toms, nos seus ingnuos devaneios, comparava a 
sua situao de escravo feliz com a de Jos do Egipto. 
Efectivamente, com o tempo e  medida que o senhor o ia 
conhecendo, a comparao era cada vez mais acertada. 
Saint-Clare era indolente por natureza e no tinha a 
menor preocupao pelo dinheiro. At a, as compras e os 
fornecimentos tinham estado confiados a Adolfo, to 
despreocupado e extravagante como o seu senhor. Desta 
maneira, a dissipao e os desperdcios eram fabulosos. Ao 
entrar em casa de Saint- Clare, Tom, acostumado havia muitos 
anos a olhar a fortuna dos seus senhores como uma coisa 
entregue  sua guarda, via, com uma preocupao que no podia 
disfarar, todas as despesas da casa, e com aquela arte das 
insinuaes e rodeios, que possuem os da sua classe, fazia de 
vez em quando algumas advertncias. 
Ao princpio, Saint-Clare s se serviu dele casualmente, 
mas, impressionado com o seu extraordinrio bom senso e 
inteligncia para os negcios, confiou cada vez mais nele, 
at ao ponto de o tornar uma espcie de intendente. 
Investido da confiana sem limites de um senhor 
negligente, que lhe entregava as notas sem ver de quanto 
eram, e que recebia o troco sem o contar, Tom tinha todas as 
facilidades para lhe surgir a tentao de ser infiel. Isto 
era importante para verificar toda a honesta simplicidade do 
seu carcter, fortalecdu ainda pela f crist. Mas para ele 
a confiana tornava-se mais um lao, e uma nova obrigao. 
Com Adolfo sucedera exactamente o contrrio. Ftil, 
indiferente, sem o freio de um senhor que achava a 
indulgncia mais cmoda do que uma ordem, Adolfo acabara por 
confundir de forma to estranha o que  meu com o que  teu, 
em relao ao senhor, que o prprio Saint-Clare comeava a 
assustar-se. O seu bom senso dizia-lhe que semelhante conduta 
era ao mesmo tempo injusta e perigosa. 
No era suficientemente forte para a mudar; mas sentia 
em si prprio, oujulgava sentir, uma espcie de remorso 
prprio que acabava finalmente numa indulgncia cada vez 
maior. Passava por cima das faltas mais graves, porque achava 
que os escravos cumpririam melhor o dever deles se o prprio 
senhor tivesse cumprido melhor o seu. 
Tom sentia pelo seu jovem e bom senhor uma singular mistura 
de respeito, dedicao e solicitude paternal. 
Reparava que ele nunca lia a Biblia, nunca ia  igreja, que 
brincava com tudo, e que ia ao teatro, mesmo ao domingo! Que 
frequentava os
P[ 106]
clubes, as ceias de luxo, que bebia. Tom notava isso como 
toda a gente, e estava convicto que o seu senhor no era 
cristo. 
Tom no confessava essa convico a ningum, mas sofria 
muito com isso quando ficava sozinho no seu quarto. 
No  que Tom no fosse capaz de exprimir as suas ideias 
com uma certa habilidade de insinuao. Uma noite, Saint-
Clare, depois de um festim com um grupo escolhido, voltou 
para casa entre a uma e as duas horas da manh, num estado 
que mostrava bem que a carne dominara o esprito. Tom e 
Adolfo meteram-no na cama. Este ltimo estava encantado, 
achava muita graa ao incidente, e ria a bom rir da ingnua 
desolao de Tom, que ficou toda a noite acordado a rezar 
pelo seu jovem senhor. 
- Porque  que no te foste deitar, Tom? - perguntou-lhe 
Saint- Clare no dia seguinte, em pantufas e roupo, na 
biblioteca. - Tens alguma preocupao? - acrescentou, ao ver 
que Tom continuava  espera. Lembrou-se de que lhe tinha dado 
ordens e entregue dinheiro. 
- Tenho medo, senhor - disse Tom com ar grave. Saint-
Clare deixou cair o jornal, pousou a chvena de caf e fixou 
Tom. 
- Ento, que se passa? Ests solene como um tmulo.
- Sim! Sou muito infeliz, senhor! Sempre pensei que o 
meu senhor era bom para toda a gente. 
- O qu?. . . Vamos, precisas de alguma coisa? 
Esqueceste qualquer recado. 
- O senhor sempre foi bom para mim, no preciso de nada. 
. . no  isso. . . S h uma coisa em que o meu senhor no  
bom. . . 
- O que  que te passou pela cabea? Fala, explica-te. 
-A noite passada, entre a uma e as duas horas, pensei 
muito nisso. Disse para comigo: o senhor no  bom para si 
prprio. 
Tom disse estas palavras voltando-se e pondo a mo na 
maaneta da porta.
Saint-Clare corou, e depois comeou a rir. 
- Ah, era isso? - exclamou ele alegremente. 
- Era! - disse Tom, tornando a voltar-se de repente, e 
caindo de joelhos. . . - Oh, meu querido senhor!. . . Receio 
que venha a perder tudo! Tudo! O corpo e a alma. O grande 
livro diz: O pecado morde como a serpente e pica como a 
abelha!
A voz de Tom embargava-se na garganta, e caam-lhe as 
lgrimas pelas faces. 
- Pobre pateta! - disse Saint-Clare, que tambm sentia 
lgrimas nos olhos. - Levanta-te, Tom, eu no mereo que 
chorem por mim. 
Mas Tom no se ia embora. . . Parecia continuar a 
suplicar com os olhos. 
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 - Est bem, Tom, no volto a tomar parte nessas loucuras. 
Palavra de honra que no torno. H muito que as detesto e me 
detesto por causa delas. Por isso, Tom, limpa essas lgrimas 
e vai  tua vida. . . Vamos, vamos, nada de bnos. . No 
sou to bom que as merea. . . - E levou suavemente Tom  
porta da biblioteca. - Juro que nunca mais me vers naquele 
estado!
Tom foi-se embora limpando os olhos, e com a alma cheia 
de alegria. 
- Vou cumprir a minha palavra - disse para consigo 
Saint-Clare quando ele se foi embora. 
E cumpriu. 
Mas quem poder narrar as atribulaes de toda a espcie que 
sofreu a nossa amiga Oflia, encarregada de governar uma casa 
do Sul?
H uma diferena profunda entre os escravos de todas as 
moradias do Sul, e essa diferena provm sempre do carcter e 
do mrito da dona da casa. 
No Sul, como no Norte, existem mulheres que tm em 
elevado grau a arte de mandar e de educar os escravos. Com 
aparente facilidade, sem empregarem a fora, sabem fazer- se 
obedecer. 
Era esse, por exemplo, o caso da Senhora Shelby. 
Se tais donas de casa so raras no Sul,  porque na 
verdade so raras no mundo inteiro. 
Nem Maria Saint-Clare nem a me, antes dela, podiam 
incluir-se nesta categoria privilegiada. 
No primeiro dia da sua administrao, Oflia estava a p 
s quatro horas e, depois de arranjar o seu prprio quarto, o 
que fazia sempre desde que chegara a casa de Saint-Clare, com 
grande espanto da criada de fora, achou que era conveniente 
comear uma severa inspeco aos armrios e gabinetes de que 
possua as chaves. 
A despensa, a lavandaria, as porcelanas, a cozinha, o 
celeiro, foram passados em revista nesse dia. Quantos 
mistrios escondidos ela descobriu! Os criados assustaram-se, 
alarmaram-se e murmuraram contra as maneiras daquelas 
senhoras do Norte.
A velha Dina, cozinheira-chefe, administradora-geral do 
departamento da cozinha, enfureceu-se contra semelhantes 
atropelos ao seu poder. 
Dina era uma personalidade e seria injusto que no 
fizssemos dela uma descrio exacta ao leitor. Nascera para 
ser cozinheira tal como Clo. O talento culinrio  um dos 
mritos da raa africana. Mas Clo era dirigida, recebia 
ordens; tinha o seu lugar numa hierarquia. Dina, pelo 
contrrio, era um gnio volvel e, como todos os gnios em 
geral, arrebatada, teimosa, sujeita a caprichos. Semelhante a 
uma certa ordem de filsofos modernos, Dina desprezava 
soberanamente a lgica e a
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 tenso, obedecendo apenas  intuio instintiva. O instinto 
era para ela uma fortaleza inexpugnvel. Nem o talento, nem a 
autoridade, nem a presso conseguiam convenc-la de que 
existisse no mundo um sistema que se comparasse com o seu, ou 
que deveria mudar no mais pequeno pormenor a sua maneira de 
proceder. Esta conduta fora aceite pela sua antiga senhora, e 
a Menina Maria, como continuava a tratar a Senhora Saint- 
Clare mesmo depois do casamento, preferira sujeitar-se do que 
lutar. Assim, Dina tinha um poder absoluto. A sua posio era 
tanto mais fcil de manter, porquanto possua toda a cincia 
diplomtica, aliando a deferncia de maneiras  
inflexibilidade de princpios. 
Dina tinha a arte suprema das explicaes e das 
desculpas. Uma cozinheira  infalvel! Era este um dos seus 
axiomas. Acrescentamos que, nas casas do Sul, a cozinheira 
encontra sempre  sua volta uma srie de pessoas sobre as 
quais pode atirar as prprias faltas, conservando intacta a 
sua pureza imaculada. Cada engano tinha um cento de causas 
estranhas a Dina; cada falta, um cento de culpados que ela 
castigava com um zelo sem igual. 
Mas, em ltima anlise, quase nunca havia nada a 
censurar-lhe. Os resultados eram sempre estupendos. Seguia 
por caminhos tortuosos, mas chegava sempre, no importava o 
tempo nem o lugar. A sua cozinha estava sempre num estado que 
dava a ideia de ter sido arrumada por um ciclone; tinha para 
cada coisa tantos lugares como os dias do ano. Mas, 
deixassem-na  vontade, no lhe dessem muita pressa, e teriam 
uma refeio digna de um epicurista. 
Era a hora de comearem os preparativos para o jantar. A 
me Dina, que precisava de reflexo e de repouso, e que, 
alis, tinha para isso o tempo que queria, estava sentada no 
cho da cozinha, a fumar um velho cachimbo de que ela gostava 
muito, e que acendia sempre, como uma lamparina de altar, 
quando procurava inspirao. Era assim que invocava as musas 
domsticas. 
Em sua volta estavam sentados os restantes membros dessa 
florescente famlia que pulula nas casas do Sul. Descascavam 
ervilhas, batatas, ou depenavam aves. Dina interrompia de vez 
em quando a sua meditao para dar um soco na cabea de algum 
dos seus jovens ajudantes, ou chamar a ateno de outro com o 
cabo da colher de pudim. 
A Menina Oflia, depois de acabar a excurso pelo resto 
da casa, chegou  cozinha. Dina soubera por vrias vias a 
reforma que se preparava; estava resolvida a manter-se numa 
defensiva feroz, e disposta a opor a qualquer nova medida a 
atitude passiva da inrcia. 
A cozinha era uma grande diviso pavimentada de tijolo. 
Uma enorme chamin  maneira antiga ocupava completamente uma 
das paredes, Saint- Clare pensara em vo substitu-la por um 
fogo. Dina no consentira. 
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 Quando Oflia entrou na cozinha, Dina no se levantou; 
continuou a fumar com calma sublime, seguindo todos os 
movimentos da solteirona, pelo canto do olho, embora 
aparentemente se limitasse a vigiar o trabalho dos seus 
auxiliares. 
A Menina Oflia abriu uma gaveta. 
- O que  que guardam aqui?
- Uma poro de coisas - respondeu a velha Dina. 
A resposta estava certa: havia de tudo dentro daquela 
gaveta. Oflia tirou para fora primeiro uma linda toalha 
adamascada, toda suja de sangue, que servira evidentemente 
para embrulhar carne crua. 
- Que vem a ser isto, Dina? Espero que no costume 
embrulhar a carne nas toalhas de mesa da sua senhora?
- Oh, no, que ideia!. . . J no tinha panos. . . e 
essa toalha estava a para mandar lavar. . . 
Que desmazelo, disse Oflia para consigo, e continuou a 
rebuscar na gaveta. . . Encontrou um ralador, duas ou trs 
nozes-moscadas, um livro de cnticos metodistas, dois lenos 
rasgados, ls, um bocado
de malha, tabaco, um cachimbo, duas molheiras douradas 
cheias de banha, sapatos velhos, um bocado de flanela 
acolchoada a embrulhar
cebolas, toalhas de damasco e grossos guardanapos, agulhas de 
croch, 	cartuchos rasgados de onde saam ervas de cheiro, a 
que o sol do meio-dia d um perfume to activo. 
- Onde costuma guardar as nozes-moscadas? - perguntou a
Menina Oflia, no tom de uma pessoa que pede a Deus que lhe 
d pacincia. 
- Em qualquer stio, menina! Esto a umas dentro dessa 
chvena rachada. . . e h mais naquele armrio. 
- E dentro deste passador - disse Oflia mostrando as 
nozes. 
- Meti-as a dentro esta manh. Gosto de ter tudo  mo. 
- E isto o que ? - perguntou Oflia, pegando na 
molheira cheia de banha. 
-  gordura. Gosto de a ter  mo. 
-  assim que se serve das molheiras douradas?
- Estava com muita pressa. . . Lavo-a um dia destes. 
- E esta toalha de mesa, que faz aqui?
-  para mandar lavar. 
- Mas no tem um stio qualquer para guardar a roupa 
suja?
- O Senhor Saint-Clare diz que comprou uma arca de 
propsito para isso, mas a tampa  muito pesada. E depois eu 
ponho-lhe coisas em cima, e  onde costumo bater a massa. 
- Porque no a bate nesta mesa que  prpria para isso?
- Ai, menina! Tem tanta loia em cima. . . e outras 
coisas. . . que j no h lugar. . . 
P[110)
 - Tem de lavar esta loia e tir-la daqui. 
- Lavar a loia? - gritou Dina, com voz esganiada. A 
ira fazia-a esquecer a reserva habitual das suas maneiras. - 
Que percebem as senhoras disso? Gostava de saber!. . . A que 
horas jantava o senhor, se euperdesse tempo a lavar e a 
arrumar os pratos? A Menina Maria nunca se mete no meu 
servio.
- Esto aqui estes alhos.
- Sim, fui eu que l os pus. Nunca mais me lembrei. 
Era para fazer um estufado; para a ficaram embrulhados nessa 
flanela. 
Oflia pegou no cartucho das ervas cheirosas. 
- Era melhor a menina no mexer nessas coisas - disse 
Dina em tomj mais decidido. - Gosto de saber onde esto as 
coisas quando preciso delas. 
- No v que o papel est rasgado?
-  para as poder tirar melhor. 
- Mas fica tudo espalhado dentro da gaveta. 
- Claro. . . a menina esteve para a a remexer!. . . Foi 
a menina que as espalhou. . . - E Dina aproximou-se da 
gaveta, a tremer. - Se a menina voltasse para o salo at eu 
ter tempo de arrumar isto tudo. . . Vou pr um pouco de ordem 
na cozinha, mas no sou capaz de fazer nada quando as 
senhoras andam em cima de mim. 
- Dina, eu mesma vou arrumar esta cozinha - disse Oflia 
-, e espero que depois conserve as coisas no seu devido 
lugar. 
- Oh, meu Deus, Menina Oflia, no so as senhoras que 
devem fazer isso. . . Nunca as vi fazer, nem  minha antiga 
senhora, nem  Menina Mari a. Nunca!
E Dina, furiosa, andava de um lado para o outro, com 
grandes passadas, enquanto Oflia arrumava, guardava, 
esfregava, limpava, dispunha e distribua os objectos, com 
uma rapidez incrvel. 
Em poucos dias, a Menina Oflia modificou a casa toda, 
mas os seus esforos, quando era necessria a colaborao dos 
criados, eram semelhantes aos de Ssifo ou das Danaides. 
Certo dia, como ltimo recurso, apelou para Saint-Clare. 
-  impossvel meter esta gente na ordem.
- Tem razo. 
- Nunca vi tanta inconscincia, tanto desperdcio, tanta 
confuso!
- De acordo. 
- No levava as coisas to a frio, se estivesse 
encarregado de governar a casa. 
- Querida prima, compreenda de uma vez para sempre que 
ns, os senhores, estamos divididos em duas classes: os 
opressores e os oprimidos. Os que so bons e odeiam a 
severidade, esto sujeitos a uma poro de inconvenientes. J 
que insistimos em manter dentro das
P[111]
 nossas casas um bando de patifes,  preciso sujeitarmo-nos 
s consequncias.  muito raro, mesmo com um tacto muito 
particular, conseguir a ordem com austeridade. Eu no possuo 
esse talento, e h muito tempo que me resigno em deixar 
correr as coisas como correm. No quero chicotear nem fazer 
sofrer esses pobres diabos. . . Eles sabem. . . e  talvez 
por isso que abusam. 
- Mas no haver ordem, nem tempo, nem lugar para coisa 
nenhuma!  de um desmazelo inaudito!
- Minha querida Oflia, vocs, os do Norte, do ao tempo 
uma importncia verdadeiramente ridcula! Que vale o tempo 
para um homem que dispe do dobro daquele que pode gastar? 
Quanto  ordem,  pontualidade, quando no h mais nada para 
fazer do que ficar estendido em cima de um sof, que importa 
que o almoo ou o jantar seja uma hora mais cedo ou mais 
tarde? A Dina faz-nos ptimos petiscos, sopas, guisados, 
assados, sobremesas, gelados e tudo! Consegue isso tudo no 
meio de uma confuso diablica.  sublime, mas Deus nos livre 
de descermos  cozinha e assistirmos aos preparativos. . . 
No tornvamos a comer! Perdamos a nossa paz de alma, e 
fazamos perder a cabea  Dina. Deix-la fazer como 
entender. 
- Mas o primo no sabe em que estado eu encontrei as 
coisas!
- Julga que no? Que eu no sei que o rolo da massa est 
debaixo da cama dela, o ralador na algibeira do avental de 
mistura com o tabaco? Que h cinquenta aucareiros espalhados 
por outros tantos stios? Que ela um dia limpa a loia s 
toalhas de mesa, e no dia seguinte  ponta da saia?. . . Mas 
a maravilha  que ela nos faz jantares esplndidos, e um 
caf. . . que caf! Temos de a julgar comojulgamos os homens 
de Estado. . . pelo seu xito!
- Mas os desperdcios, a despesa!
- Seja! Feche tudo e guarde a chave. V dando as coisas 
 medida que forem precisas, mas no se preocupe com 
ninharias. . . Ainda  a melhor coisa a fazer. 
- Mas, Agostinho, fico preocupada. . . Pergunto a mim 
prpria: Eles sero realmente honestos? Acha que posso contar 
com isso?. . . 
Agostinho riu s gargalhadas com a cara sria e inquieta da 
Menina Oflia enquanto fazia esta pergunta. 
- Ah, prima, essa  forte! Honestos Como se pudssemos 
esperar que eles fossem honestos. E porque haviam de ser? Que 
fizemos para que eles o fossem?
- Ento no h nenhum honesto?
- Sim, h. De vez em quando, a natureza entretm-se a 
criar um, to simples, to ingnuo, to fiel, que as 
influncias mais detestveis no conseguem nada dele. Mas, 
sabe, desde o bero que as crianas de cor percebem que no 
podem vencer seno por meios clandestinos. 
P[112)
 a nica maneira, e usam-na com os pais, com os senhores e 
com os filhos dos senhores. A manha e a mentira tornam-se 
hbitos necessrios, inevitveis. No se pode esperar outra 
coisa de um escravo; no devemos sequer castig-lo por isso. 
 preciso mant-lo numa espcie de infncia que o impede de 
compreender que os bens do seu senhor no lhe pertencem. . . 
se ele os puder apanhar. Por mim, no vejo como poderiam os 
escravos ser honestos. Um caso como o de Toms parece-me um 
milagre moral. 
- E a alma deles, que destino vai ter?
- O problema no  meu. Que me importa? S me interessa 
esta vida. Pensa-se em geral que toda esta raa pertence ao 
diabo, aqui, na Terra, para maior vantagem dos brancos. . 
Talvez seja diferente no cu. 
-  horrvel - disse Oflia. - Ah, vocs, os donos dos 
escravos, deviam ter vergonha!
- Estamos bem acompanhados. . . Eu fao como os outros. 
Passa-se o mesmo em toda a parte. A classe inferior  
dominada, corpo e alma.  assim tambm em Inglaterra e em 
todo o mundo. E, todavia, a cristandade revolta-se e acusa-
nos, porque fazemos o que ela faz, embora de outra maneira. 
- E, na sua opinio, como acabar tudo isto?
- No sei mas uma coisa  certa: corre hoje em todo o 
mundo entre as massas um dio surdo. Eu sinto que amanh, ou 
mais tarde, vir um terrvel Dies irae. . . Preparam-se 
acontecimentos em toda a Europa, ou pelo menos em Inglaterra, 
e no nosso pas. Mas, est a tocar a sineta, por isso, prima, 
ponhamos de parte a nossa discusso e vamos jantar. Agora j 
no pode dizer que no falei a srio uma vez na vida. . . 
- H negros - disse Maria, quando se sentaram  mesa - 
de quem no  possvel fazer nada; so to maus que nem 
merecem viver. No sinto a menor compaixo por eles. A 
misria dos negros vem toda da sua maldade; h alguns que no 
se deixam dominar nem com os maiores castigos. . . Lembro-me 
de que o meu pai teve em tempos um escravo que era to 
preguioso que fugiu para no trabalhar. Vagueava pelas 
savanas, roubando e praticando toda a espcie de crimes. Esse 
homem foi apanhado e chicoteado. . . Recomeou, e tornaram a 
chicote-lo. No serviu de nada. Por fim, arrastou-se uma vez 
mais at s savanas, embora j quase no pudesse andar. E 
morreu ali. E note-se que no tinha a menor razo para 
proceder assim, porque em casa do meu pai os negros foram 
sempre bem tratados. 
- A mim aconteceu-me uma vez - disse Saint-Clare -, 
conseguirdominar um homem de quem todos os senhores e 
capatazes tinham desistido. 
- Tu? - exclamou Maria. - Ah, gostava de saber como 
conseguiste alguma vez fazer isso!
P[113)
 - Era um africano, um hrcules, um verdadeiro gigante. 
Sentia-se nele um forte instinto de liberdade. Nunca vi homem 
mais indomvel; um verdadeiro leo da selva. Chamava-se 
Cipio. Nunca tinham conseguido fazer nada dele. Os capatazes 
de todas as fazendas vendiam-no e tornavam a vend-lo. 
Finalmente, meu irmo Alfredo comprou-o julgando poder 
domin-lo. Certo dia, pregou uma sova no capataz e fugiu para 
a savana. Eu estava de visita  plantao de Alfredo; foi a 
seguir s nossas partilhas. O Alfredo estava exasperado. Eu 
disse-lhe que a culpa era dele, e que apostava que era capaz 
de dominar o rebelde. Combinmos que ele ficava para mim se a 
experincia resultasse. E fomos seis ou sete ca-lo, com 
ces e espingardas. Sabem que a caa ao homem pode ser to 
empolgante como a caa ao veado,  uma questo de hbito. Eu 
prprio me sentia um pouco excitado, embora fosse apenas 
intermedirio, no caso de o apanharmos. 
Lanmos os cavalos a galope. Os ces ladravam seguindo o 
rasto, at que o descobrimos. Corria e saltava como um 
cabrito, deixando-nos durante muito tempo ficar para trs. 
Finalmente, foi obrigado a parar numa plantao de canas-de-
acar. Voltou-se para nos fazer frente, e
devo confessar que lutou valentemente com os ces, s com as 
mos, e matou dois ou trs que atirou para longe. Foi abatido 
por um tiro e veio cair aos meus ps, numa poa de sangue. O 
pobre homem levantou para mim uns olhos aonde havia desespero 
e coragem ao mesmo tempo. Chamei os homens e os ces, que iam 
atirar-se sobre ele, e reivindiquei-o como meu prisioneiro. 
Foi tudo quanto pude fazer para os impedir de o fuzilarem na 
embriagus do triunfo. Comprei-o ao Alfredo e levei-o 
comigo... Pois ao fim de quinze dias, estava mais manso do 
que um cordeiro. 
 - Que lhe fizeste? - perguntou Maria. 
- Foi muito simples. . . Mandei deitarem-no no meu quarto, 
numa boa cama. Tratei-lhe das feridas, velei-o eu prprio at 
poder levantar- se. . . depois concedi-lhe a liberdade e 
disse que podia ir para onde quisesse. . . 
- E ele foi? - perguntou Oflia. 
- No! O pateta rasgou a carta de alforria em quatro e 
recusou-se a separar-se de mim. . . Nunca tive um servo to 
dedicado. . . fiel e honesto como um co. . . Passado tempo 
fez-se cristo e ficou terno como uma criana. . . Ficou a 
tomar conta da minha vivenda  beira do lago e desempenhou 
esse cargo de maneira impecvel. Morreu com a clera. . . 
Posso dizer que deu a vida por mim. . . Eu estava a morrer; 
foi um verdadeiro pnico; todos me abandonaram, e ele no me 
largou. . . Fez-me voltar  vida, mas o pobre homem contraiu 
a doena, e no foi possvel salv-lo. . . Nunca vi morrer 
ningum que me desse maior desgosto. 
P[ 114]
 Durante toda esta narrao, Eva aproximara-se a pouco e 
pouco do pai, com os lbios entreabertos, os olhos dilatados, 
e em todo o seu rosto os sinais de um interesse absorvente. 
Quando Saint-Clare se calou, ela lanou-lhe os braos ao 
pescoo, comeou a chorar e rompeu em soluos. 
- Eva, minha filha, o que  isso? - exclamou Saint-Clare 
ao ver aquela frgil criana a tremer de emoo. - No se 
podem contar estas coisas diante dela. . .  to nervosa!
- Eu no sou nervosa, pap - disse Eva dominando-se com 
uma fora bastante estranha numa criana to pequena. - Eu 
no sou nervosa, mas essas coisas tocam-me o corao!
- Que queres dizer com isso, Eva?
- No sei explicar. . . Penso em muitas coisas. . . 
Talvez um dia lhe conte. 
- Pensa, pensa o que quiseres, minha querida Mas no 
chores nem faas sofrer o teu pai. Olha, v que lindo pssego 
que apanhei para ti!
Eva, sorridente, pegou no pssego, mas continuou com um 
leve tremor ao canto dos lbios. 
- Vamos ver os peixes encarnados - disse Saint-Clare 
pegando-lhe na mo, e levando-a para o ptio. 
Da a pouco ouviram-se gargalhadas alegres. Eva e Saint-Clare 
atiravam ptalas de rosas um ao outro e perseguiam-se pelas 
alamedas.

O nosso amigo Toms corre o risco de ficar esquecido no 
meio das aventuras de todas estas nobres personagens; mas se 
os leitores quiserem acompanhar-nos at um pequeno quarto por 
cima das cavalarias, podero ficar logo ao corrente do que 
se passa. 
Era um quarto decente. Tinha uma cama, uma cadeira, e 
uma mesinha de madeira tosca sobre a qual se via a Bblia de 
Tom e o seu livro de cnticos. Tom encontrava-se sentado a 
essa mesa, com a ardsia na sua frente, entregue a qualquer 
trabalho que lhe absorvia completamente a ateno. 
A recordao e as saudades da famlia tinham-se tornado 
to fortes, que pedira a Eva uma folha de papel de carta e, 
reunindo toda a cincia caligrfica que devia aos cuidados do 
Menino Jorge, tomara a resoluo audaciosa de escrever uma 
carta; fazia primeiro o rascunho na ardsia. Tom encontrava-
se no maior embarao... 
Esquecera-se do feitio de certas letras, e no se 
lembrava muito bem do valor das outras. Enquanto procurava 
com esforo, Eva veio pr-se atrs da cadeira, olhando por 
cima do ombro dele. 
-  pai Toms! Que coisas to engraadas que ests a 
fazer!
- Estou a tentar escrever  minha mulher, Menina Eva, e 
aos meus filhos. . . 
P[115]
 - Gostava de te ajudar, Tom. Sei escrever um bocadinho. O 
ano passado j sabia juntar todas as letras, mas se calhar 
esqueci-me. 
Eva aproximou a cabea loira da cabea preta de Tom. 
Eram to ignorantes um como o outro. Aps muitos esforos, 
reflexes e tentativas, a coisa comeou a parecer-se com 
escrita. 
- Ah, pai Toms, ficou muito bem! - dizia Eva. - Como a 
tua mulher vai ficar contente. E ento os teus filhos! Oh, 
foi muito mal feito separarem-te deles! Eu vou pedir ao pap 
que te deixe ir embora daqui a uns tempos. 
- A minha antiga senhora disse que me comprava assim que 
pudesse, e o Menino Jorge disse que me vinha buscar. E deu-me 
este dlar como penhor. - E o pai Toms tirou do peito o 
dlar. 
- Ah, ento vem com certeza! - exclamou Evangelina. 
- Tenho de lhes escrever, para eles saberem onde eu 
estou, e dizer  pobre Clo que me encontro bem. Ela estava 
to preocupada comigo, a pobre velha!
- Ento, Tom? - disse Saint-Clare, chegando neste 
instante  porta. 
Tom e Eva levantaram-se ao mesmo tempo. 
- Que  isto? - perguntou Saint- Clare olhando para a 
ardsia. 
-  uma carta - respondeu Tom. - No est bem?
- No quero desanimar nem um nem outro, mas acho que era 
melhor pedires-me para ta escrever, Tom. . E  o que vou 
fazer quando voltar do meu passeio a cavalo. 
-  preciso que ele escreva, pap - continuou Eva -, 
porque a senhora dele disse que mandava o dinheiro para o 
comprar. 
Saint-Clare pensou para consigo que tinha sido 
provavelmente uma daquelas promessas temerrias, como fazem 
os senhores caridosos para atenuar na alma do escravo o 
horror de ser vendido, mas no disse nada. Limitou-se a 
mandar Tom selar-lhe o cavalo.  tarde, a carta do pai Toms 
ficou escrita como devia ser e foi metida na caixa do 
correio.

Captulo XVI
TOPSY
Certa manh, enquanto a Menina Oflia descansava do trabalho 
da casa, ouviu a voz de Saint-Clare que a chamava do rs-do-
cho. 
- Desa, prima, quero mostrar-lhe uma coisa. 
- O que ? - perguntou Oflia descendo com a costura 
ainda na mo. 
P[116]
 - Veja.  uma aquisio que acabo de fazer para si. - E 
mandou avanar uma negrinha de oito ou nove anos. 
Era uma das caras mais negras da sua raa. . . Os olhos 
redondos brilhavam como contas de vidro, voltando-se 
constantemente para tudo quanto se encontrava na sala. A boca 
entreaberta pelo espanto que lhe causavam tantas maravilhas 
deixava ver uma fila de dentes brancos. O cabelo crespo 
estava dividido em pequenas tranas que se espalhavam em 
volta da cabea. A expresso do seu rosto era uma curiosa 
mistura de esperteza e fingimento, por detrs de uma espcie 
de gravidade solene e altiva. Como nico vesturio tinha um 
saco velho e esfarrapado. Cruzava obstinadamente as mos 
sobre o peito. Havia em toda a sua pessoa um no sei qu de 
bizarro e fantstico. No era uma rapariga; era uma apario. 
Oflia ficou desconcertada. . . achou que ela tinha um ar 
pago. Por fim, voltou-se para Saint-Clare. 
- Agostinho, para que me trouxe isso?
- Para que a prima a possa instruir e educar como deve 
ser. Pensei que era uma linda amostra da raa negra. Aqui, 
Topsy - acrescentou ele, assobiando como para chamar a 
ateno de um co. - V, canta-nos uma das tuas canes e 
mostra-nos uma das tuas danas. 
Viu-se brilhar nos olhos de vidro uma espcie de malcia e, 
com voz aguda e clara, cantou uma velha melodia negra. 
Acompanhava o canto com movimentos ritmados das mos e dos 
ps; batia palmas, pulava, unia osjoelhos. . Era um ritmo 
estranho e selvagem. Fazia ouvir de vez em quando aqueles 
sons roucos e guturais que distinguem a msica da sua raa; 
por fim, depois de duas ou trs cabriolas, deu uma nota final 
aguda, to estranha s gamas de qualquer melodia como o apito 
de uma locomotiva, depois deixou-se cair no cho, ficou com 
as mos juntas, e uma expresso de doura e solenidade 
esttica tornou a aparecer-lhe no rosto. . . Mas continuava a 
lanar de soslaio olhares furtivos e audaciosos. 
A Menina Oflia no dizia uma palavra. Estava 
petrificada. Saint-Clare, como um rapaz maldoso, parecia 
divertir-se com o seu espanto, e disse para a criana:
- Topsy, esta  a tua nova senhora. Vou oferecer-te a 
ela. V se te portas bem. 
- Sim, si - respondeu Topsy com a sua gravidade solene, 
mas piscando o olho, com ar bastante malicioso. 
- Tens de ser boa, Topsy; percebeste?
- Sim, sim, si - continuou Topsy, juntando devotamente 
as mos. 
- Vejamos, Agostinho, que quer isto dizer? - continuou 
finalmente Oflia. - A sua casa j est cheia destas pequenas 
pestes; no
P[117)
 podemos dar um passo que no tropecemos com elas. . . Assim 
que me levanto, logo de manh, encontro um negrinho a dormir 
atrs da porta... Debaixo da mesa aparece um negro; outro 
est deitado no capacho; aparecem em todos os lados, gritam, 
trepam. . . E ainda traz mais. . . Para
qu, santo Deus?
- Para a prima a educar, no lhe disse j? Est sempre a 
fazer a apologia da educao, e eu quis trazer-lhe matria em 
bruto. . . Experimente: eduque-a como deve ser. 	
- No me sobra tempo; j tenho bastante que fazer. 
- Ora aqui est como so vocs todos, os cristos. Formam
associaes, e mandam qualquer pobre missionrio passar a 
vida entre selvagens. Mas indiquem-me um s de vocs que 
pegue num destes desgraados e se d ao trabalho de o 
converter! No senhor! Quando
chega essa altura, dizem que so sujos e desagradveis, que  
uma grande responsabilidade, e mais isto e mais aquilo!
- Ah, no via as coisas por esse prisma - disse a Menina 
Oflia, abrandando um pouco. - Pois bem, ser quase uma obra 
apostlica. 
- E olhou para a criana com mais doura. 
Saint-Clare acertara em cheio. A conscincia da prima estava 
sempre alerta. 
Contudo, ela acrescentou:
- Talvez no fosse preciso compr-la. . . H muitos de sobra 
na misso, para mal dos meus pecados. 
- Est bem, prima - disse Saint-Clare ao retirar-se -, peo 
perdo de todos os meus argumentos. A prima  to boa que no 
eram precisos. O facto  que esta pequena pertencia a um 
casal de bbados que tm uma taberna horrorosa. . . Passo  
porta deles todos os dias. 
Estava farto de os ouvir; esta a chorar, os outros a 
insultarem-na e a baterem-lhe. . . Ela pareceu-nos esperta e 
engraada. . . pensei que se
podia daqui fazer qualquer coisa. . . e comprei-a para lha 
oferecer. . . 
Tente agora dar-lhe uma educao ortodoxa,  maneira da Nova 
Inglaterra. . . Veremos como resulta. . . Por mim, no tenho 
queda para o
ensino, mas ficarei encantado vendo-a ensinar. 
- Farei o que puder - disse Oflia. E aproximou-se do seu
sbdito, com a precauo que teria perante uma aranha negra, 
que pretendesse tratar bem. 
- Est porqussima e vem quase nua. . . 
- Mande-a  cozinha para a lavarem e vestirem. . . 
A Menina Oflia levou-a at s regies gastronmicas. 
Para que precisa a Menina Oflia de mais uma negra?, 
perguntou para consigo a cozinheira, olhando para a recm-
chegada com ar pouco amigvel. - Espero que no a metam aqui. 
P[118]
 -Puh - disseram a Jane e a Rosa, com ar de desprezo -, que 
no se aproxime. . . Para que seria que o senhor comprou mais 
um desses horrveis negros?
- Acabem com isso! - gritou a velha Dina, que tomou 
para si prpria parte do comentrio. - Ela no  mais preta 
que voc, menina Rosa. Ou julga-se muito branca? No  nem 
branca nem preta. . . Era prefervel ser uma ou outra coisa. 
Oflia compreendeu que ningum estava disposto a 
presidir  operao de limpeza e vesturio da recm-chegada. 
Resolveu portanto actuar ela prpria, com a ajuda pouco 
amvel da carrancuda Jane. 
No ser talvez conveniente fazer perante 
sensibilidades delicadas o relato pormenorizado desta 
toilette de uma criana at ento desprezada e maltratada. . 
. Infelizmente, vivem neste mundo multides de seres em tais 
condies, que os nervos dos seus semelhantes no aguentam 
uma simples descrio. A Menina Oflia era uma mulher 
prtica, cheia de deciso e de firmeza; desafiou todos os 
inconvenientes, no sem alguma repugnncia, mas acabou por 
cumprir a tarefa. Os seus princpios no lhe permitiam fazer 
outra coisa. 
Quando descobriu, nos braos e nas costas da criana, 
grandes cicatrizes e ndoas negras, marcas do sistema em que 
a tinham educado sentiu-se invadida por enorme compaixo. 
- Olhem, - disse ela, apontando as marcas -, no se v 
por aqui a maldade dos homens? Ela vai dar-nos uma carga de 
trabalhos. Odeio estes malditos pretos. . . Que nojentos! 
Puh! Parece impossvel que o senhor a tenha comprado. 
Topsy ouvia estes comentrios a seu respeito, com o ar 
dolente e manhoso habitual. Apenas os seus olhos vivos e 
penetrantes se fixavam a cada instante nos brincos de Jane. 
Quando ficou completamente vestida, e quando lhe cortaram o 
cabelo, Oflia sentiu certa satisfao, e disse que ela tinha 
assim um aspecto mais cristo do que antes. Comeou mesmo a 
arquitectar um plano de educao. 
Sentou-se em frente da jovem escrava e comeou a 
interrog-la. 
- Que idade tens tu, Topsy?
- No sei, senhora. . . - E fez uma careta que lhe 
deixou  vista os dentes todos. 
- Como  possvel no saberes a tua idade? Nunca ningum 
te disse? Quem  a tua me?
- Nunca tive - disse a rapariga, com outra careta. 
- Nunca tiveste me! Que queres dizer com isso? Onde  
que nasceste? 
- No nasci - continuou Topsy com caretas to diablicas que, 
se Oflia fosse nervosa, julgaria estar perante algum 
terrvel gnomo do pas das quimeras. Mas Oflia no era nada 
nervosa; era uma mulher
P[119]
 de bom senso, enrgica e corajosa, e continuou, com um pouco 
de severidade:
- No  assim que deves responder, menina. Eu no estou 
a brincar contigo; diz-me onde nasceste, e quem era o teu pai 
e a tua me. 
- No nasci - continuou a criana, com mais firmeza. - 
No tive pai, nem me, nem nada. . . Fui criada por um 
negociante, com muitos outros. . . Era a velha me Sue quem 
tratava de ns. 
A criana estava a falar verdade. Via-se. Ento Jane 
disse a rir:
- Vejam o diabo dos negros. . . Os negociantes compram-
nos baratos quando so pequenos, e vendem-nos caros depois de 
crescidos. 
- Quanto tempo viveste com o teu senhor e a tua senhora?
- No sei. 
- Um ano? Mais? Menos?
- No sei. 
- J ouviste falar em Deus, Topsy?
A criana pareceu espantada, e fez a sua careta 
habitual. 
- Sabes quem te criou?
- Acho que no foi ningum. - E comeou a rir. 
- Sabes coser? - perguntou Oflia, que sentiu a 
necessidade de fazer perguntas menos complicadas. 
- No. 
- Que sabes fazer? Que fazias tu em casa dos teus 
senhores?
- Sei tirar gua, lavar pratos, esfregar facas, servir 
as pessoas. 
- Eles eram bons para ti?
- Parece-me que sim! - disse ela, lanando um olhar de 
desafio para Oflia. 
A Menina Oflia ps termo a esta conversa pouco 
encorajante. Saint-Clare estava apoiado nas costas da sua 
cadeira. 
- Pois bem, prima, aqui est um terreno virgem. . . No 
tem de arrancar ervas ruins. Semeie nele as suas ideias. 
As ideias da Menina Oflia acerca de educao, como 
todas as suas outras ideias, eram seguras e definitivas. Eram 
as ideias que prevaleciam h cem anos na Nova Inglaterra, e 
que ainda continuam em certas zonas do pas longe da 
corrupo (ali, onde no existe caminho de ferro). Essas 
ideias podem, alis, exprimir-se em poucas palavras. Dizer s 
crianas quando devem falar, ensinar-lhes o catecismo, a ler, 
a escrever, bater-lhes quando mentem.  possvel que este 
sistema esteja muito ultrapassado, hoje que se lanam sobre a 
educao torrentes de luz, mas no  menos verdade que as 
nossas avs, com este regime de que muitas pessoas ainda se 
lembram, conseguiram educar homens e mulheres que valiam 
tanto ou mais que quaisquer outros. 
Em todo o caso, Oflia no conhecia outro sistema, e 
apressou-se a aplicar este  sua pequena pag. 
P[120]
 Houve uma declarao de direitos: Topsy foi considerada como 
pertencendo  Menina Oflia. Esta, vendo o acolhimento pouco 
amvel que a criana recebia na cozinha, resolveu limitar ao 
seu quarto o campo de operaes. Com uma dedicao que 
algumas das nossas leitoras podero apreciar, em vez de fazer 
com as prprias mos uma cama confortvel, varrer e limpar o 
p do quarto, entregou-se ao martrio voluntrio de ensinar 
Topsy a fazer todas estas coisas. Era difcil.
Oflia mandou portanto Topsy ir ao quarto dela logo na 
primeira manh. 
- Vou mostrar-te como se faz uma cama. Gosto de camas 
bem feitas. Portanto, repara bem no que vais ver. 
- Sim, senhora - disse Topsy dando um profundo suspiro e 
com uma expresso de grande tristeza. 
- Olha, Topsy, esta  a barra do lenol, este  o 
direito, e este o avesso. No te esqueces, no?
- No - disse Topsy, com todos os sinais de uma grande 
ateno. 
- O lenol de baixo deve ser entalado desta maneira - 
continuou Oflia. - Tem de se prender bem do lado dos ps. 
- Sim, senhora. 
Devemos acrescentar que, enquanto a Menina Oflia voltou 
as costas parajuntar o exemplo s palavras, a aluna 
conseguira apoderar-se de um par de luvas e de uma fita que 
metera imediatamente nas mangas. As mos voltaram logo a 
cruzar-se sobre o peito, na posio mais inocente. 
- Agora experimenta tu - disse Oflia, tirando os 
cobertores. E sentou-se. 
Topsy desempenhou-se da sua tarefa com tantojeito como 
seriedade, para inteira satisfao da Menina Oflia. Estendeu 
os lenis, alisou a menor prega, e mostrou uma ateno que 
espantou a sua instrutora. Mas um movimento mais brusco fez 
cair da manga a ponta da fita. Ao ver aquilo, Oflia ps-se 
de p e agarrou a fita!
- Que vem a ser isto, atrevida?
Topsy ficou a olhar com o ar mais inocente e espantado. 
- O qu? Esta fita  da Menina Oflia? Como  que veio 
parar dentro da minha manga?. 
- Topsy, no mintas! Roubaste-a. 
- Menina! Eu digo disso que isso no  verdade. Vi agora 
mesmo a fita pela primeira vez. 
- Topsy - continuou Oflia -, no sabes que  muito feio 
mentir?
- Mas eu nunca minto, Menina Oflia - continuou Topsy 
com toda a seriedade da virtude. - Estou a dizer a verdade, a 
pura da verdade!
- Topsy, continuas a mentir:. . Vou mandar chicotear-te. 
P[121]
 - Ai, menina, podia chicotear-me toda a vida que eu no lhe 
dizia outra coisa. . . - continuou Topsy gaguejando. - Nem 
sequer vi esta fita. . . Deve ter ficado presa na manga. . . 
A Menina Oflia deixou-a com certeza em cima da cama. . . 
Deve ter sido isso. 
Esta mentira descarada revoltou de tal forma Oflia, que 
ela agarrou a criana e sacudiu-a. 
- No tornes a dizer isso!
As sacudidelas fizeram cair as luvas da outra manga. 
- Ento, vais continuar a dizer que no roubaste a fita? 
Topsy confessou que roubara as luvas, mas negou 
obstinadamente que tivesse roubado a fita. 
- Bem, se confessares tudo, no te mando chicotear. 
Topsy fez uma confisso completa, com todos os indcios de um 
profundo arrependimento. 
- Vamos, fala! Deves ter roubado mais coisas desde que 
ests c em casa. . . Ontem deixei-te  vontade durante todo 
o dia. . . Diz-me tudo quanto fizeste. 
- Tirei aquela coisa encarnada que a Menina Eva costuma 
trazer ao pescoo. . . 
- Que criana impossvel! E que mais?
- Tirei os brincos da Rosa, sabe, aqueles brincos 
encarnados. . . 
- Vai devolver tudo imediatamente, ouviste?
- Ah, no posso. . . Queimei-os!
- Queimaste? Outra mentira!. . . Vamos, imediatamente, 
ou ento levas com o chicote. 
Ento, com os mais vivos protestos, lgrimas e soluos, 
Topsy declarou que no podia devolver porque tinha queimado 
tudo, tudo!. . . 
- E porque foi que queimaste essas coisas?
- Porque sou m, sim, muito m!. . .  mais forte do que 
eu. 
No mesmo instante, Eva entrou inocentemente no quarto, com o 
colar vermelho ao pescoo. 
- Eva, onde foi que achaste o teu colar?
- Achar? Mas tenho andado com ele todo o dia. . . 
- E ontem?
- Ontem tambm, prima. E toda a noite. . . Esqueci-me de 
o tirar quando me deitei. 
A Menina Oflia ficou muito espantada. . . E mais 
espantada ficou quando no mesmo instante entrou Rosa com um 
tabuleiro de roupa passada a ferro, e os brincos de coral a 
abanarem nas orelhas. . . 
- No sei realmente o que hei-de fazer com esta criana 
- disse Oflia desesperada. - Topsy, para que foi que 
disseste que tinhas roubado estas coisas?
P[ 122]
- A menina disse-me para confessar. . . e eu no tinha nada 
para confessar - respondeu Topsy esfregando os olhos. 
- Mas eu no queria obrigar-te a confessar coisas que no 
tivesses feito. Isso continua a ser mentir. 
- Ai, ? - exclamou Topsy com a maior inocncia. 
- Esta gente nunca diz uma coisa que seja verdade - 
disse Rosa, olhando para Topsy com indignao. - Se eu fosse 
ao Senhor Saint-Clare mandava-a chicotear at fazer sangue, 
para ela aprender. 
- No Rosa, no - exclamou Evangelina, com um tom autoritrio 
que sabia usar s vezes. - No deves falar assim. . . No 
gosto de ouvir falar assim. 
- Ah, Menina Eva, a menina  muito boa. . . No sabe 
como  preciso tratar os negros. . . S h uma forma:  mo-
los com pancada. 
Sou eu quem lho digo. . . 
-  revoltante, Rosa! Nem mais uma palavra sobre o 
assunto. 
- A Menina Eva sai ao pai. . .  claro - murmurou ela ao 
sair. Defende toda a gente. . .  igualzinha ao pai!
Evangelina olhava para Topsy. 
Enquanto Oflia se entregava a censuras violentas contra 
o procedimento de Topsy, Eva parecia triste e hesitante. 
Depois disse em voz meiga:
- Pobre Topsy! Que necessidade tens de roubar? Bem sabes 
que vamos tratar de ti. . . Eu preferia dar-te tudo quanto 
tenho do que ver-te roubar. . . 
Era a primeira palavra bondosa que Topsy ouvia na vida. 
A ternura daquela voz, o encanto daqueles modos agiram de 
forma estranha no corao selvagem e indomvel da criana e, 
nos olhos redondos, vivos
e penetrantes, brilhou qualquer coisa parecida com 
lgrimas. Depois ouviu-se um riso agudo e Topsy faz a sua 
careta habitual. O ouvido que souviu palavras duras e cruis 
permanece forosamente incrdulo a
primeira vez que escuta a voz desses dons celestes que 
so a ternura e a bondade. Para Topsy, o que dizia Evangelina 
era apenas engraado
e incompreensvel. No acreditava!
Como lidar ento com Topsy? A Menina Oflia perdia o seu 
latim. 
O seu plano no parecia aplicvel. Precisava de tempo para 
pensar e, para arranjar esse tempo, fechou Topsy num quarto 
escuro. Confiava no efeito moral dos quartos escuros nas 
crianas.
- No vejo muito bem - disse ela a Saint-Clare - como 
poderei educar esta criana sem lhe bater!
- Bata-lhe at se fartar. . . Tem o meu consentimento. 
Faa o que entender.
-  sempre preciso bater nas crianas - disse Oflia -, nunca 
ouvi dizer que se pudessem educar sem isso.
P[ 123)
 -  evidente - continuou Saint- Clare, a rir para consigo. -
Faa como entender. . . Mas permita-me apenas uma observao. 
. . Eu vi baterem nesta criana com a p do lume; vi 
espetarem-na com a tenaz. . . enfim, com tudo o que lhes 
vinha  mo. J est habituada. Vai ser preciso chicote-la 
com muita fora para conseguir qualquer resultado. 
- Ento no sei que fazer. 
- Nem eu - disse Saint-Clare. - As crueldades horrveis, 
as sevcias que vm s vezes nos jornais, qual  a causa?  
muitas vezes o procedimento censurvel de uns e de outros. . 
. O senhor torna-se cada vez mais cruel, o escravo mais duro. 
Sucede com o chicote e os maus tratos o mesmo que com o 
ludano;  preciso dobrar a dose quando diminui a 
sensibilidade. Vi isso assim que fui possuidor de escravos. . 
. Resolvi no comear, por no saber at onde teria de ir. 
Quis salvar pelo menos a minha moralidade.  por isso que os 
meus escravos se portam como crianas mimadas. Parece-me que 
 melhor para mim e para eles do que endurecermo-nos e 
degradarmo-nos todos juntos. Falou muito na nossa 
responsabilidade quanto  educao, prima. Eu tinha realmente 
necessidade de a ver experimentar com uma criana que afinal 
no  mais do que um caso entre mil. 
- No posso agradecer-lhe a experincia, mas vejo nisso 
um dever; vou insistir, e tentarei fazer o melhor que puder. 
Oflia meteu resolutamente ombros  tarefa, dedicou-se, 
foi enrgica, fixou a ordem e as horas do trabalho; comeou a 
ensinar Topsy a ler e a coser. 
A leitura foi bastante bem. Topsy aprendia as letras com 
facilidade, e depressa leu correntemente. . . Na costura teve 
mais dificuldade. gil como um gato, mexida como um macaco, 
tinha horror  imobilidade exigida por esta espcie de 
trabalho. . Partia as agulhas, atirava-as pela janela ou 
escondia-as nas fendas da parede. Quebrava ou embaraava a 
linha, ou ento, com gesto rpido e invisvel, fazia 
desaparecer carrinhos inteiros: tinha a mobilidade de dedos 
de um prestigitador, e disfarava com incrivel habilidade. 
Era escusado a Menina Oflia dizer que tais acidentes, 
to repentinos, no podiam acontecer sozinhos, porque nunca, 
apesar da vigilncia mais apertada, conseguiu apanh-la em 
flagrante. 
Topsy comeou a ser notada na casa; tinha recursos 
inesgotveis: fazia imitaes, caretas, danava, saltava, 
trepava, dava cambalhotas, assobiava e imitava todas as vozes 
e todas as inflexes possveis.  hora do recreio, tinha 
invariavelmente em sua volta todas as crianas da casa, que a 
seguiam de boca aberta, alegres e espantadas. A prpria Eva 
ficava fascinada com todas estas diabruras fantsticas. 
Oflia lamentava que Eva tivesse tanto gosto no convvio de 
Topsy, e pediu a Saint- Clare que pusesse termo naquilo. 
P[ 124]
 - Ah, deixe as crianas brincarem. . A companhia da Topsy s 
lhe faz bem. 
- Uma criana to desaustinada! No receia, pelo 
contrrio, que ela lhe faa mal?
- No  possvel. . Se fosse com outra criana, talvez. 
Mas o mal passa por Eva como o orvalho sobre as folhas, sem 
as penetrar. 
- Nunca se sabe. Por mim, nunca deixaria os meus filhos 
brincarem com Topsy. 
- Os seus, no, mas os meus, sim - continuou Saint-
Clare. - Se a Eva pudesse ficar contaminada, j o estava h 
muito. 
Topsy fora em princpio troada e desprezada pelos 
outros escravos. 
Depressa compreenderam que tinham de mudar de opinio a 
seu respeito. Verificaram que aqueles que a molestavam 
recebiam imedia tamente castigo. Era um par de brincos ou 
qualquer enfeite favorito que nunca mais se encontrava. Era 
um objecto de adorno escangalhado. . . ou ento tropeava-se 
num balde cheio de gua a ferver. . Ou ainda um banho de gua 
suja que caa como um dilvio por cima de um vestido novo. . 
. Fazia-se um interrogatrio, mas era impossvel descobrir o 
autor do delito. . Topsy era chamada ao tribunal supremo da 
cozinha. . Conseguia sempre provar a sua inocncia. 
No havia a menor dvida, mas tambm no havia a menor 
prova. Alis, a ocasio era sempre to bem escolhida que no 
era possvel descobrir o culpado. Se queria vingar-se de Jane 
ou de Rosa, esperava o momento (e esse momento chegava 
sempre) em que elas tinham desagradado  senhora, pouco 
disposta ento a receber favoravelmente as suas queixas. Numa 
palavra, Topsy fez compreender a toda a gente que deviam 
deix-la em paz. E foi o que fizeram. 
Topsy tinha a mo hbil e rpida. Aprendia com espantosa 
facili dade tudo quanto lhe ensinavam. Em poucas lies 
passou a arrumar o quarto da Menina Oflia como ela queria e, 
apesar das suas exigncias, no conseguia encontrar uma 
falta. Era impossvel esticar melhor os lenis, colocar 
melhor a almofada, varrer, limpar o p, arrumar melhor do que 
Topsy, quando ela queria; mas infelizmente poucas vezes 
queria. 
Se Oflia, aps dois ou trs dias de vigilncia atenta, 
pensava que Topsyj podia executar sozinha a sua tarefa e, 
para se ocupar de outras coisas, deixava-a entregue a si 
prpria, Topsy, em menos de uma ou duas horas, transformava o 
quarto num caos. Em vez de fazer a cama, retirava as fronhas 
e coroava-se com um verdadeiro diadema de penas, que lhe 
ficavam espetadas na carapinha, em todas as direces; 
trepava ao dossel da cama e pendurava-se de cabea para 
baixo; estendia os lenis no cho, como se fossem um tapete; 
vestia o travesseiro com a
P[125]
 camisa de dormir da Menina Oflia e, no meio de tudo isto, 
cantava, assobiava, mirava-se ao espelho e fazia caretas. Em 
resumo, um verdadeiro diabo!
Um dia, Oflia, por uma distrao inconcebvel numa 
mulher como ela, esqueceu-se da chave da gaveta. Quando 
entrou no quarto, encontrou Topsy com o seu belo xaile de 
crepe- da-china vermelho enrolado na cabea, em forma de 
turbante e pavoneando- se em frente do espelho com ar de 
rainha de pea de teatro. 
- Topsy - gritou ela, perdendo a pacincia -, que ests 
a fazer?
- No sei, senhora!  porque sou muito m!
- No ters emenda, Topsy?
-  melhor bater-me, senhora! A minha antiga dona `tava 
sempre a bater-me, preciso que me batam para trabalhar!
- No, Topsy, eu no te quero bater. . . Podes portar-te 
bem, se quiseres. Porque  que no queres?
- `Tava habituada a apanhar, senhora. Acho que me faz 
bem!
Oflia usava s vezes essa receita; Topsy entrava sempre 
em convulses. . . Dava gritos agudos, soluava, chorava, 
gemia. . . Meia hora depois, empoleirada em qualquer 
salincia da varanda, rodeada do grupo de pequenos negros, 
parecia mostrar o mais completo desprezo pelo que se passara. 
- Ah Ah A Menina Oflia d-me com o chicote. No magoa 
nem uma mosca com o chicote dela. . . Haviam de ver o meu 
antigo senhor; at arrancava bocados de carme. . . Ele  que 
sabia, o meu antigo dono!
Topsy fazia alarde dos seus defeitos; considerava-os 
como uma distino especial. 
- Eh, pretalhada! - dizia ela ao auditrio -, sabem que 
todos vocs so pecadores? Sim, vocs e toda a gente. At os 
brancos! Foi a Menina Oflia quem disse. . . Mas eu acho que 
os pretos so os maiores pecadores que h. . E eu sou mais 
pecadora do que ningum! Sou to m que no se consegue fazer 
nada de mim! A minha antiga dona chamava-me nomes todo o dia. 
Acho que sou a pessoa pior que h no mundo!
E dando uma cambalhota Topsy saltava rapidamente para 
qualquer grade alta, exibindo as suas habilidades. 
Todos os domingos, Oflia empenhava-se activamente em 
ensinar-lhe o catecismo. Topsy tinha uma memria 
extraordinria para fixar palavras, e recitava com um 
desembarao que encantava a sua instrutora. 
- Pensa que isso lhe serve para alguma coisa? - 
perguntava Saint- Clare. 
- Isto sempre fez bem s crianas.  o que lhes devemos 
ensinar. 
- Quer compreendam, quer no?
P[126)
 - Oh, as crianas nunca compreendem logo  primeira, mas 
compreendero quando crescerem. 
- Ainda l no cheguei - disse Saint Clare -, embora no 
se possa dizer que a prima no me metesse bem as lies na 
cabea. 
- Ah, Agostinho, o primo tinha a maior das vocaes, e 
deu-me tantas esperanas!
- Quer dizer que?. . . 
- Gostava que fosse to bom hoje como era nesse tempo, 
Agostinho. 
-Tambm eu gostava, prima. Mas continue. . . Catequize a 
Topsy; Talvez faa qualquer coisa dela!
Assim continuou, durante um ou dois anos, a educao de 
Topsy. Saint-Clare divertia-se com isso como se treinasse um 
papagaio ou um co de circo. Quando as faltas de Topsy lhe 
fechavam todas as outras portas, ela ia refugiar-se por 
detrs da sua cadeira, e Saint-Clare sempre arranjava maneira 
de fazer as pazes; por sua vez, ela tinha sempre forma de lhe 
apanhar uma moeda para comprar nozes ou torres de acar que 
distribua com magnanimidade com as outras crianas da casa.

Captulo XVII
KENTUCKY
Talvez os nossos leitores gostem de voltar um pouco atrs, e 
deitarem uma vista de olhos pela propriedade de Kentucky, 
verem a cabana do pai Toms e saberem o que aconteceu queles 
que abandonmos h tanto tempo. 
 de tarde, a tarde de um dia de Vero. As portas e as 
janelas do salo esto abertas. Sente-se a brisa que 
refresca, que se deseja. O Senhor Shelby est sentado numa 
grande sala que comunica com o salo e que se estende por 
toda a fachada da casa. Recostado numa cadeira, com os ps 
estendidos em cima de outra, fuma o seu charuto depois 
dojantar. A Senhora Shelby est sentada  porta da sala, 
entretida com um trabalho de mos. Percebe-se que ela tem 
qualquer coisa no esprito e que procura a ocasio favorvel 
para a dizer. 
- Sabes - diz finalmente - que a Clo recebeu uma carta 
do Tom?
- Ah, sim? Parece que encontrou uns bons amigos. . . 
Como est ele, o nosso velho Tom?
- Foi comprado por uma excelente familia. Diz que  bem 
tratado e tem pouco que fazer. 
P[127]
 - Ainda bem, ainda bem! Fico muito satisfeito - disse com 
sinceridade o Senhor Shelby. - O Tom vai perder o medo s 
residncias do Sul. . . Nunca mais pensa em voltar. 
- Pelo contrrio, pergunta ansiosamente quando teremos 
dinheiro para o resgatar. 
- Quanto a isso, no posso dizer nada - exclamou o 
Senhor Shelby. - Quando os negcios comeam a correr mal, 
nunca se sabe onde vo parar.  como uma savana onde se evita 
um lameiro para cair noutro. Pedir emprestado a uns para 
pagar aos outros; receber de uns para dar aos outros. . . As 
letras chegam antes de termos tempo de fumar um charuto. Ah, 
as facturas, as cobranas! Que praga!
- Mas parece-me, querido, que podamos ao menos pr 
essas contas em dia. Se vendesses os cavalos. . . uma das 
tuas quintas. . . para pagar aos credores. 
- O que ests a dizer no faz sentido, Emlia! s a 
mulher mais encantadora de Kentucky. . . mas nisso, s como 
todas as outras mulheres. . . no entendes nada de negcios. 
- No podias ao menos iniciar-me um pouco nos teus? Dar-
me uma lista daquilo que deves e do que te devem? Eu tentava, 
via se era possvel ajudar-te a economizar. . . 
- No me atormentes. No sei dizer com segurana. . Sei 
mais ou menos, mas no se trata de negcios como a Clo trata 
da massa dos pastis. . . No falemos mais nisso. . . Repito, 
no entendes nada de negcios. . . 
E o Senhor Shelby, no tendo mais nenhum argumento para 
fazer prevalecer as suas ideias, engrossou a voz.  um 
argumento irresistvel na boca de um marido que discute com a 
mulher. 
A Senhora Shelby calou-se e soltou um suspiro. Embora 
fosse uma mulher, como dizia o marido, tinha porm uma 
inteligncia lcida e prtica, e uma fora de carcter 
superior  dele; era muito mais capaz do que o Senhor Shelby 
imaginava. Queria cumprir a promessa que fizera a Tom e Clo, 
e ficava desolada por ver os obstculos multiplicarem-se em 
sua volta. 
- No conseguiramos esse dinheiro? - continuou ela. - A 
pobre Clo no pensa noutra coisa!
- Tenho muita pena. Fizemos uma promessa precipitada. . 
. Agora no a podemos cumprir, e a melhor coisa a fazer  
dizer  Clo. . . Ela h-de habituar-se. O pai Toms, daqui a 
um ano ou dois, arranja outra mulher. . . e ela tambm h-de 
arranjar algum. 
- Senhor Shelby, eu ensinei ao meu pessoal que o 
casamento deles  to sagrado como o nosso. Nunca darei 
semelhante conselho  Clo. 
-  lamentvel, minha querida, que os tenhas 
sobrecarregado com o peso de uma moral acima da sua posio. 
Foi sempre o que eu achei. 
P[128]
 -  apenas a moral da Bblia!
- Seja! No falemos mais nisso, Emlia. . . No tenho 
nada que ver com as tuas ideias religiosas. . . simplesmente, 
continuo a pensar que no convm a pessoas dessa condio. 
- Tens razo. . no convm  condio deles.  por isso 
que odeio semelhante condio! E digo-te, meu amigo, 
considero-me ligada pelas promessas que fiz a esses 
desgraados. . . Se no houver outra maneira, pois bem, darei 
lies de msica. Ganharei o suficiente. . . e hei-de juntar 
sozinha a quantia necessria. 
- No consentirei, Emlia. No queres envergonhar-te a 
esse ponto. 
- Envergonhar-me, dizes tu? Sentirei mais vergonha com 
isso do que violando a minha promessa? No, certamente!
- Vamos, tens sempre esses ataques de herosmo, mas era 
melhor reflectires antes de empreender essa aventura 
quixotesca. 
Esta conversa foi interrompida pela apario da me 
Clo, ao fim da varanda. 
- A senhora quer ver este lote de criao?
A Senhora Shelby aproximou-se. 
- Pensei se a senhora no gostaria para hoje de um 
empado de aves. 
- -me indiferente. Faa como entender, me Clo. Clo 
segurava os frangos com ar distrado. . . Era evidente que 
no estava a pensar neles. Finalmente, com um risinho seco e 
curto, peculiar gente de raa negra quando se preparam para 
fazer uma partida, disse:
- Meu Deus, porque  que o senhor e a senhora se 
preocupam tanto por causa do dinheiro, quando tm o remdio 
na mo?. . 
Clo tornou a rir, com o mesmo risinho seco. 
- No compreendo - disse a Senhora Shelby, percebendo 
pelos modos de Clo que ela no tinha perdido uma palavra da 
conversa entre ela e o marido. - No entendo.
- Eh - exclamou Clo -, as outras pessoas alugam os 
negros e fazem dinheiro assim. . . Para qu tantas bocas a 
comer nesta casa?
- Pois bem, fale, Clo. Qual dos nossos escravos acha 
que devemos alugar?
- Eu no acho nada, minha senhora. Mas o Samuel disse 
que havia em Luisville fabricantes que davam  vontade quatro 
dlares por semana por algum que soubesse fazer bolos e 
pastelaria. Sim, minha senhora, quatro dlares!
- E depois, Clo?
- Depois? Acho que  mais que tempo da Sally fazer 
qualquer coisa. A Sally esteve sempre sob as minhas ordens; 
agora j sabe tanto
P[ 129]
 como eu, no ? E se a senhora me deixasse ir, eu podia ir 
para l ganhar esse dinheiro. 
- Ento, Clo, era capaz de deixar assim os seus filhos?
- J so bastante crescidos para trabalharem, e a Sally 
tomava conta da mais pequena. . . Ela  um amor; no d 
maada nenhuma. 
- Luisville fica muito longe daqui. 
- Oh, meu Deus! Isso no me mete medo!  abaixo do rio. 
. . No deve ficar muito longe do stio onde est o meu 
marido. . . 
Esta ltima parte da resposta foi dita em tom interrogativo, 
com os olhos fixos na Senhora Shelby. 
- Fica a mais de cem milhas de distncia, Clo!
Clo pareceu desolada. 
- No importa, Clo - continuou a Senhora Shelby -, de 
qualquer maneira, sempre fica um pouco mais perto dele. . E 
tudo quanto ganhar ser posto de lado para o resgate do seu 
marido. 
Por vezes um raio prateado ilumina de repente a nuvem mais 
escura. Foi assim que brilhou a face negra de Clo!
- Oh, a senhora  muito boa! - exclamou ela. - Era nisso 
que eu estava a pensar. . . No preciso de sapatos, nem de 
roupa, nem de nada! Posso pr o dinheiro de lado! Quantas 
semanas tem o ano, minha senhora?
- Cinquenta e duas, Clo. 
- Cinquenta e duas! A quatro dlares por semana. . . 
quanto faz? 
- Duzentos e oito dlares por ano. 
- Ah, sim? - disse Clo, encantada. - E quantos anos 
sero precisos para...
- Quatro ou cinco anos. . . Mas no vais ter de esperar 
esse tempo todo. . . Eu vou ajudar-te. 
- Oh, eu no quero que a senhora d lies, nem nada que 
se parea. . . O senhor tem razo! No se pode fazer uma 
coisa dessas. . . Espero que ningum da familia precise de 
chegar a isso, enquanto eu tiver mos. 
- No se preocupe, Clo - continuou a Senhora Shelby a 
sorrir, - terei o cuidado de guardar a honra da famlia. . 
Mas quando conta partir?
- Ainda no tinha pensado nisso. . . Mas o Samuel vai 
descer o rio por causa de uns potros. . . E diz que me pode 
levar. . . J arrumei as minhas coisas. Se a senhora no se 
importasse, eu ia amanh de manh com o Samuel. Queria que a 
senhora me desse um salvo- conduto e uma carta de 
recomendao. 
- Est bem. Vou tratar disso. . . se o Senhor Shelby no se 
opuser. Tenho primeiro de falar com ele. 
P[130]
A Senhora Shelby voltou para dentro de casa e Clo, radiante, 
correu  cabana para preparar as suas coisas. 
- J sabe, menino Jorge? Eu vou amanh para Luisville - 
disse ela aojovem que entrou na cabana e a viu ocupada a pr 
em ordem as roupas do beb. - Estou a arrumar as coisas da 
Susete. Eu vou, menino Jorge, eu vou! Quatro dlares por 
semana. . e a senhora guarda-os para resgatar o meu homem. 
-  uma boa notcia - disse Jorge. - E quando  que vai?
- Amanh de manh com o Samuel. E agora, menino Jorge, 
sente-se e escreva ao meu pobre Toms a contar-lhe tudo. . . 
Sim?
- Com certeza - respondeu Jorge. - O pai Toms vai ficar 
todo contente por receber notcias nossas. Vou buscar papel e 
tinta. Quero tambm dizer-lhe quantos potros nasceram, e 
tudo.
- Sim, sim, menino Jorge, v! Entretanto, eu arranjo-lhe 
um bocado de frango ou qualquer outra coisa. J no vai cear 
muitas vezes com a sua velha Clo.

Captulo XVIII
O RAMO PENDE, A FLOR MURCHA
A vida passa, dia aps dia. Assim se passaram dois anos da 
existncia do nosso amigo Toms. Estava separado de tudo 
quanto o seu corao amava; tinha saudades de tudo quanto 
deixara atrs de si e, todavia no podemos dizer que fosse 
infeliz. A harpa do sentimento humano  feita de tal forma 
que, se um choque no lhe quebra ao mesmo tempo todas as 
cordas, ainda  possvel tirar dela algumas harmonias. Se 
lanarmos os olhos para trs, para o tempo das nossas dores e 
mfelicidades, vemos que cada hora que passa nos traz conforto 
e alvio, e que se no fomos completamente felizes, tambm 
no fomos completamente infelizes. 
Tom aprendera a contentar-se com a sua sorte, qualquer 
que ela fosse. Tinha sido a Bblia que lhe ensinara essa 
doutrina, por isso, parecia-lhe justa e razovel. Estava 
perfeitamente de acordo com a tendncia da sua alma pensativa 
e confiante. 
Conforme dissemos, Jorge respondera  sua carta, e com 
uma bela caligrafia de estudante que Tom podia ler, tudo 
quanto ele dizia, de uma ponta  outra. Esta carta dava-lhe 
inmeras informaes domsticas que os nossos leitores j 
conhecem. Anunciava que Clo estava a trabalhar em Luisville, 
onde com a sua habilidade em tudo quanto se refere a 
pastelaria fina, ganhava muito dinheiro. . . Diziam a Tom que 
esse dinheiro se destinava ao seu resgate. O Moiss e o Pedro 
estavam
P[131]
 a trabalhar bem, e o beb j corria a casa toda, sob a 
vigilncia de Saly em particular e de toda a gente no geral. 
A cabana do pai Toms estava provisoriamente fechada, mas 
Jorge alargava-se com muita eloquncia e imaginao, acerca 
das obras do embelezamento que faria no regresso de Tom. 
O resto da missiva narrava a lista dos trabalhos escolares de 
Jorge. 
Dizia tambm o nome dos quatro novos potros que tinham 
nascido depois de Tom se ir embora. Jorge acrescentava que o 
pai e a me estavam de perfeita sade. 
O estilo de Jorge era claro e conciso; na opinio de Tom, 
esta carta era a maior obra literria dos tempos modernos. 
No se fartava de a contemplar. Aconselhou-se at com Eva 
para saber como havia de a emoldurar para a pendurar na 
parede do quarto. . . S desistiu por no descobrir a maneira 
de se verem os dois lados da pgina. 
A amizade do pai Toms e de Eva tambm aumentava de dia para 
dia. Era difcil dizer o lugar que ela ocupava na alma terna 
e impressionvel do fiel servo. Amava Eva como qualquer coisa 
de frgil e terreno, mas venerava-a igualmente como qualquer 
coisa de celeste e divino. Contemplava-a como um marinheiro 
italiano contempla o Menino Jesus, com respeito e ternura ao 
mesmo tempo. A sua maior felicidade era satisfazer as 
ingnuas fantasias de Eva e realizar os mil desejos infantis 
que assaltam os coraes jovens, volveis e mutveis como as 
cores do arco-ris. 
Nesta altura da nossa histria, toda a familia Saint-Clare 
estava na vivenda do lago Pontchartrain. O calor do Vero 
expulsara da cidade poeirenta e abrasada todos aqueles que 
podiam fugir dela e instalar-se  beira do lago gozando o 
fresco da brisa maritima. 
A vivenda de Saint-Clare estava construda no estilo das que 
se vem nas ndias Orientais. Era cercada por leves galerias 
de bambu, e todos os lados davam para parques e jardins. O 
grande salo dominava um jardim perfumado por flores 
tropicais, e onde se viam as plantas mais raras. Carreiros, 
que se contorciam como serpentes, desciam at  beira do 
lago, luzindo sob a luz do Sol, quadro sempre movedio, 
sempre encantador m torrentes de ouro fluido, que so sempre 
agradveis de ver.
Era a hora em que o Sol se esconde e os seus raios 
parecem inundar o horizonte e transformar as guas num outro 
cu em chamas. O cu estava raiado de prpura e ouro; aqui e 
alm surgiam as brancas asas dos barcos  vela, como outros 
tantos fantasmas; pequenas estrelas cintilantes piscavam os 
olhos, mirando-se trmulas no espelho das guas. 
Evangelina e Toms estavam sentados num tapete de musgo do 
jardim. Era um domingo  tarde. Eva tinha a Bblia aberta 
sobre os joelhos. 
P[132)
- Pai Toms, onde achas que fica a nova Jerusalm?
- L em cima, nas nuvens, menina Eva.
- Ento - disse Evangelina -, parece-me que a estou a ver. 
Repara naquelas nuvens alm, se no parecem grandes portais 
de prolas. . . E mais longe, muito mais longe, no  como se 
fosse tudo feito de ouro?. . . Pai Toms, canta qualquer 
coisa sobre os anjos. Esses anjos s vezes aparecem-me em 
sonhos. 
E os olhos de Eva tomaram ma expresso sonhadora. Depois
murmurou: 
- Pai Toms, eu vou para l. 
- L, onde, menina Eva?
Evangelina levantou-se e ergueu a mo para o cu. Um raio de 
Sol brincava-lhe nos cabelos dourados, tingindo-lhe as faces 
de um fulgor que no era deste mundo. . . e os olhos 
voltavam-se invencivelmente para o cu.
 - Sim, vou para l, vou ter com os espritos brilhantes!. . 
. J falta pouco tempo, Tom!
O pobre e velho corao fiel sentiu como um choque. . . e Tom 
lembrou-se de que havia seis meses as mos de Evangelina se 
tornavam cada vez mais plidas, e a pele mais transparente e 
a sua respirao mais abafada. Recordou-se de como ficava 
cansada quando brincava e corria nosjardins. Tinha ouvido a 
Menina Oflia falar numa tosse que osremdios no faziam 
passar. . . E agora as mos, as faces, escaldavam	de febre. . 
. E todavia, o pensamento escondido por detrs das palavras 
de Eva nunca lhe surgira na ideia.
A conversa de Tom e Eva foi interrompida por um grito de 
Oflia. 
- Eva. Eva! Oh, minha querida, est a cair muito 
orvalho, no podes ficar aqui fora.
Eva e Tom apressaram-se a voltar para casa. 
A velha Menina Oflia era ptima enfermeira. Notara os 
primeiros e terrveis progressos daquele mal silencioso e 
traioeiro que leva consigo aos milhares os seres mais jovens 
e mais belos e, antes mesmo de cortar o fio da vida, parece 
marc-los irrevogavelmente para a morte. Observara aquela 
tossezinha seca, aquelas cores demasiado vivas nas faces; e 
nem o brilho dos olhos, nem a irrequieta animao do rosto 
tinham conseguido engan-la. 
Tentou expor a sua inquietao a Saint-Clare, mas este 
rejeitou as suas insinuaes com a sua alegria e 
despreocupao habituais. 
- Nada de maus agoiros, prima.  uma coisa que eu 
detesto. No v que  o crescimento? Nestas idades, as 
crianas enfraquecem todas. 
- Mas, a tosse?. . . 
- No  nada. Talvez se tenha constipado. . . 
P[133]
Ai, foi assim que se foram embora a Elisa James, a Helena e a 
Maria Sanders. 
- Basta de discursos fnebres! Vocs, os velhos, ficam to 
cautelosos, que uma criana j no pode tossir ou espirrar, 
que no a vejam logo a morrer. . . S lhe peo uma coisa: 
vigie bem a Eva, defenda-a do ar da noite, no a deixe ficar 
muito quente quando brincar. . . e tudo
correr bem. 
Foi assim que falou Saint-Clare. 
Mas no fundo da alma sentiu-se inquieto. Passou a espiar Eva 
de dia para dia com uma ansiedade febril. Repetia a cada 
passo: 
- A Eva est bem. . . Aquela tosse no tem importncia. . - 
Quase no a largava; levava-a com mais frequncia nos seus 
passeios a cavalo. . . Todos os
dias lhe levava qualquer xarope fortificante, qualquer nova 
receita. No era - acrescentava - que a criana precisasse, 
mas no lhe podia
fazer mal. 
Devemos dizer que o que angustiava mais profundamente o seu 
corao, era a maturidade precoce e crescente da alma e dos 
sentimentos de Eva. 
- Mam - perguntou ela um dia  me -, porque  que no
ensinamos os nossos escravos a ler?. . . 
- Que ideia! Ningum faz isso. 
- E porque  que no se faz?
- Porque no lhes servia para nada. Nem sequer trabalhavam 
melhor. . . E eles s nasceram para trabalhar. 	
- Mas  preciso que eles leiam a Bblia, mam, para 
conhecerem a vontade de Deus. 	
 - Podem pedir a algum que leia para eles, quando for 
necessrio. 
- Mam, eu acho que a Bblia foi feita para cada um a ler 
para si prprio. . . E muitas vezes precisamos de a ler 
quando estamos sozinhos. 
- Eva, tu s uma criana muito estranha!
- A Menina Oflia ensinou a Topsy!
- Sim, e sabes para que serviu? A Topsy  a pior criatura que 
eu conheo. 
- E a pobre Mammy. . . gostava tanto de poder ler a Bblia! 
Que vai ser dela quando eu no estiver c para lhe ler?
A Senhora Saint-Clare, muito entretida a remexer nas gavetas, 
respondeu com ar distrado: 
- Sim, sim, com certeza; mas daqui a
pouco ters mais em que pensar. . . Quando tiveres de 
aprender a vestir-te e frequentar a sociedade, no ters 
tempo para mais nada. Olha acrescentou - as jias que te vou 
dar. . . So as que levei ao meu
primeiro baile. E posso dizer-te, Eva, que fiz sensao. 
Eva pegou no cofre, e tirou dele um colar de diamantes. Os 
seus olhos pensativos fixaram-se um momento nele. 
P[134]
 - Isto vale muito dinheiro, mam?
- Com certeza: o meu pai mandou-os vir de Frana. Valem 
uma fortuna. 
- Eu preferia ter esse dinheiro para fazer o que eu 
quisesse. 
- E que querias tu fazer?
- Comprar uma quinta nos estados livres, e levar para l 
todos os meus escravos, e dar-lhes professores para os 
ensinarem a ler e a escrever. 
- Abrir um colgio! Ah! Ah! Ah!. . . Tambm os ensinavas 
a tocar piano e a pintar sobre veludo?
- Ensinava-os a ler a Biblia. a lerem e escreverem as 
cartas deles - disse Eva com tom calmo e decidido. - Eu sei, 
mam, como eles sofrem por no o saberem. . . 
- Est bem! No passas de uma criana que no percebe 
nada dessas coisas. . . E depois, fazes-me dores de cabea!
A Senhora Saint-Clare tinha sempre uma dor de cabea de 
reserva para quando a conversa no lhe agradava. 
Eva saiu. A partir desse dia, deu com assiduidade lies 
de leitura a Mammy. 

Captulo XIX
HENRIQUE
Foi por esta altura da nossa histria que Alfredo, o irmo de 
Saint-Clare, foi com o filho, um rapaz de doze anos, passar 
um ou dois dias na vivenda do lago Pontchartrain. 
No podia haver nada de mais estranho e mais belo do que 
aqueles dois irmos gmeos um ao p do outro. A natureza, em 
vez de os ter feito semelhantes, parecia ter-se empenhado a 
estabelecer entre eles apenas diferenas. 
O filho mais velho de Alfredo, Henrique, tinha os olhos 
pretos e o ar aristocrtico do pai. Assim que chegou  
vivenda, sentiu-se fascinado pelas qualidades morais da prima 
Evangelina. Evangelina tinha um pnei favorito, branco como a 
neve. Era to manso como a sua dona. 
Tom conduziu o pnei at  parte de trs da varanda no 
mesmo momento em que umjovem mulato de treze ou catorze anos 
levava a Henrique um cavalo rabe, todo preto, que tinha sido 
mandado vir de propsito para ele. 
Henrique, como todas as crianas, estava muito orgulhoso 
com a sua nova aquisio. No momento de aceitar as rdeas da 
mo do criado, examinou o cavalo cuidadosamente, e carregou o 
sobrolho. . . 
P[135]
 
- Dod, s um co preguioso! No limpaste o meu cavalo esta 
manh. 
- Perdo, senhor - respondeu Dod em tom submisso. - 
Deve ter apanhado poeira no caminho. 
- Cala-te, patife! - gritou Henrique, levantando o chicote 
com fora. - Como te atreves a abrir a boca?
O criado era um belo mulato de olhos brilhantes e da mesma 
estatura que Henrique. O cabelo encaracolado emoldurava-lhe a 
testa alta e cheia de audcia. Tinha sangue de brancos nas 
veias. Ficou com a cara vermelha e os olhos faiscantes quando 
tentou responder:
- Senhor Henrique. 
Mal abriu a boca, Henrique deu-lhe na cara com o chicote 
e, agarrando-o por um brao, forou-o a ajoelhar- se e bateu-
lhe at perder o flego. 
- Co danado! Toma, para aprenderes a no responder! 
Leva este cavalo e limpa-o como deve ser!. . . Eu me 
encarrego de te ensinar!
- Meu senhor - disse o pai Toms -, eu sei o que ele ia 
explicar: o cavalo espojou-se no cho quando saiu da 
cavalaria. . .  muito fogoso!. . . Foi assim que ficou todo 
sujo. Eu vi-o limp-lo. . . 
- E tu calado, at que eu te faa perguntas. 
Deu meia volta e dirigiu-se para Eva, que estava de p, 
vestindo o traje de montar. 
- Lamento, prima, que aquele estpido a tenha feito 
esperar. . . Sentemo-nos. . . Ele no demora. . . Mas, que 
tem, prima? Parece triste!
- Como pde ser to cruel para o pobre Dod?
- Cruel? - continuou o rapaz, com inocente espanto. - Que 
quer dizer com isso, querida Eva?
- No consinto que me chame querida Eva, quando se porta 
assim. 
- Cara prima, no conhece o Dod. No se consegue nada dele 
de outra maneira;  to mentiroso, to intrujo! A nica 
coisa a fazer  castig-lo logo e no o deixar abrir a boca. 
 assim que faz o pap. 
- Mas o pai Toms disse que foi um acidente. . . e o pai 
Toms diz sempre a verdade. 
- Nesse caso,  um exemplar nico da sua raa. O Dod 
mente assim que comea a falar. 
- O primo obriga-o a mentir com medo, tratando-o dessa 
forma. 
- Vamos, Eva, tem uma estima muito especial pelo Dod; 
previno-a de que vou ter cimes. 
- Bateu-lhe e ele no merecia. 
-  para compensar alguma vez que merea e no apanhe. 
Com o Dod s se perdem as que caem no cho.  um verdadeiro 
demnio! Mas eu nunca mais lhe bato na sua frente, se isso a 
desgosta. 
P[136]
Eva no ficou satisfeita, mas compreendeu que seria intil 
querer fazer compartilhar os seus sentimentos com os do 
primo. 
Dod apareceu da a pouco com o cavalo. 
- Vs, Dod, desta vez fizeste como devia ser - disse 
ele em ar de graa. - Vem c, e segura o cavalo da menina 
Eva, enquanto eu a ajudo a montar. 
Dod aproximou-se e ficou muito perto do cavalo de Eva. 
Tinha o rosto transtornado, e viam-se nos seus olhos restos 
de lgrimas. 
Henrique, muito orgulhoso dos seus modos aristocrticos, 
da sua elegncia e cortesia, colocou a linda prima na sela, 
depois, pegando nas rdeas, meteu-lhas na mo. Mas Eva 
inclinou-se para o outro lado do cavalo, onde se encontrava o 
escravo. 
- s um bom rapaz, Dod - disse ela -, obrigada. Dod, 
muito surpreendido, ergueu os olhos para aquele belo rosto. . 
Sentiu subirem- lhe as lgrimas aos olhos e ficou muito 
corado. 
- Aqui, Dod! - chamou Henrique, com voz imperiosa. Dod 
foi a correr e segurou o cavalo enquanto o seu senhor 
montava. 
- Toma este dinheiro para comprares rebuados. 
E atirou-lhe uma moeda. 
Os dois jovens afastaram-se. 
Dod seguiu-os com os olhos: um deles tinha-lhe dado 
dinheiro. . . outro dera-lhe. . . uma coisa muito mais 
valiosa: uma boa palavra cheia debondade!
Havia poucos meses que Dod estava separado da me. O 
seu senhor comprara-o num mercado de escravos, por causa da 
sua bela figura. Condizia com o lindo potro negro, e estava a 
ser treinado por Henrique. 
A cena tivera como testemunhas os dois irmos Saint-
Clare, que passeavam no jardim. 
Agostinho ficou revoltado, mas limitou-se a dizer com a 
sua ironia habitual:
- Alfredo, espero que isto seja o que se chama uma 
educao republicana. 
- O Henrique  um verdadeiro demnio quando se zanga - 
respondeu Alfredo, com igual ironia. 
- Sim, mas tu aprovas a sua conduta - acrescentou 
Agostinho com bastante secura. 
- Que aprove ou no, no o posso impedir. Henrique  um 
verdadeiro furaco. H muito que eu e a me desistimos de lhe 
dizer seja o que for. Mas esse Dod  um patife, e umas 
chicotadas de vez em quando no lhe fazem mal nenhum. 
P[137]
 - Certamente.  para aprender a primeira regra do catecismo 
republicano: todos os homens nascem livres e iguais. 
- Ora! Foi um desses disparates sentimentais que Jefferson 
aprendeu em Frana. . . J  tempo de acabar com isso. 
- Tambm me parece - respondeu Agostinho Saint-Clare, en 
tom significativo. 
- O Henrique s vezes preocupa-me - disse Alfredo, 
pensativ.
-  bom e generoso, mas quando se excita,  um verdadeiro 
furaco. Parece-me que o vou mandar para o Norte, onde se 
preza mais a obedincia, onde ele veja mais gente da sua 
classe e menos dos seres inferiores. 
- Se a educao das crianas  a obra mais importante da 
humanidade - continuou Agostinho -, o que acabas de dizer  
uma prova de que o nosso sistema est errado. 
- Enfim, Agostinho, o que estamos para aqui a dizer no 
serve de nada. J batemos na mesma tecla mais de cinquenta 
vezes sem resultado. E se jogssemos uma partida de gamo?
Os dois irmos subiram para a varanda e sentaram-se a 
uma pequena mesa de bambu, em frente do tabuleiro. Enquanto 
arrumava as fichas, Alfredo disse:
- Na verdade, Agostinho, se eu pensasse como tu, fazia 
uma coisa. . . 
- O qu?
- Mandava educar e instruir os escravos. . . para 
experimentar. 
E Alfredo sorriu desdenhosamente. 
- Dizer-me para educar os meus escravos, quando eles 
esto esmagados sob o peso dos abusos sociais! Era o mesmo 
que por-lhes em cima o monte Etna e dizer-lhes que o 
levantassem! Um homem sozinho nada pode fazer contra a 
sociedade. . . Para que a educao consiga qualquer coisa, 
ter de ser uma educao do Estado. .  preciso pelo menos 
que o Estado no lhe ponha obstculos!
-  a tua vez de jogar! - disse Alfredo. 
E os dois irmos jogaram em silncio, at que ouviram o 
barulho dos cavalos que voltavam. 
- A vm os pequenos - disse Agostinho levantando-se. - 
Repara, irmo: j viste coisa mais bela?
Eram realmente maravilhosas as duas crianas. Henrique, 
com sua cabea altiva, os seus caracis pretos e luzidios, os 
olhos brilhantes, o riso alegre, inclinava-se para a linda 
prima. Eva vestia um traje de andar a cavalo, azul, e boina 
da mesma cor; o exerccio tornara-lhe vivo o vermelho das 
faces, e tornara realmente muito estranha a transparncia da 
pele e dos cabelos dourados como uma aurola. 
P[138]
 - Meu Deus, que beleza fascinante - esclamou Alfredo. - Far 
um dia o desespero de muitos coraes, tenho a certeza!
- Oh, sim, o desespero. . . Deus sabe como o receio - 
disse Saint- Clare com voz subitamente amarga. 
E correu para a receber quando ela descia do cavalo. 
- Eva, minha querida! No ests muito cansada? - disse 
ele, apertando-a nos braos. 
- No, pap. 
Mas Saint-Clare sentiu-lhe a respirao curta e opressa. 
. . e teve medo. 
- Porque correste tanto, querida? Sabes que isso no te 
faz bem.
- Acho divertido!. . . Gosto tanto de correr, que me 
esqueci. 
Saint-Clare pegou-lhe ao colo, e levou-a at ao sof, onde a 
deitou. 
- Henrique, deves ter cuidado com a Eva. Ela no pode 
andar a galope. 
- Vou ter cuidado - disse Henrique sentando-se junto do 
sof e pegando na mo de Evangelina. 
Eva sentiu-se melhor. Os dois irmos retomaram ojogo e 
deixaram as crianas. 
- Sabes, Eva, tenho muita pena de que o pap no possa 
c ficar mais de dois dias. Vou estar tanto tempo sem te ver! 
Se ficasse ao p de ti, procurava ser bom, nunca mais batia 
no Dod. . . Eu no quero fazer-lhe mal, mas tenho mau gnio. 
. Juro-te que no sou mau para ele. Dou-lhe dinheiro de vez 
em quando. . . e vs que o trago bem vestido. . . Em resumo, 
o Dod  bastante feliz. 
- Sentias-te feliz se no tivesses ao p de ti ningum 
que te amasse?
- Eu? No, est claro!
-Pois bem, roubaste o Dod queles que o amavam. . . e 
agora ele no tem quem o ame. Essa felicidade, no podes dar-
lhe. 
- No, no posso!. . . No posso ser amigo dele, nem eu 
nem ningum aqui.
- E porque no podes? - perguntou Evangelina. 
- Ser amigo do Dod? Que queres dizer, Eva? Simpatizo 
com ele, mas da a ser amigo! Tu, s amiga dos teus escravos?
- Claro que sou. 
- Que loucura!
- A Biblia no diz que devemos amar os outros?
- Ora a Biblia!. . . Diz muitas coisas, mas ningum faz 
caso! Ningum, Eva.
Eva no respondeu. . . Tinha os olhos parados, cheios de 
lgrimas e de sonhos. 
- Em todo o caso, procura ser amigo do Dod para me 
fazer a vontade, querido primo, e trata-o bem!
P[139]
 - Por ti, prima, eu era capaz de ser amigo de toda a gente, 
porque tu s a melhor pessoa do mundo. 
Henrique pronunciou estas palavras com um mpeto que lhe 
fez subir o sangue ao rosto. Eva recebeu a promessa com 
simplicidade e sem a menor emoo. 
- Fico muito satisfeita que penses assim, meu querido 
Henrique - respondeu ela. - Espero que nunca te esqueas. 
A sineta para o jantar ps termo  conversa. 

Captulo XX
SINISTROS PRESSGIOS
Dois dias aps esta cena, Alfredo e Henrique separaram-se. 
Eva, a quem a companhia do primo excitara um pouco, 
entregara-se a exerccios superiores s suas foras. Comeou 
a declinar rapidamente. Saint-Clare resolveu-se ento a 
consultar o mdico. Evitara sempre faz-lo. Chamar o mdico 
no era reconhecer a triste verdade? Mas como Eva se sentiu 
to mal que teve de ficar dois dias de cama, foi chamado o 
mdico. 
Maria Saint-Clare no notara este declnio rpido das 
foras e da sade da filha. Estava nessa altura absorvida 
pelo exame de mais duas ou trs doenas novas que julgava 
ter, e no acreditava que algum pudesse sofrer mais do que 
ela. Recusava-se a acreditar, com uma espcie de indignao, 
que pudesse haver doentes em sua volta. Tinha sempre a 
certeza de que nos outros se tratava de preguia ou falta de 
energia. Se sofressem - pensava ela - todos os males que a 
atormentavam, veriam a diferena!
Oflia tentara por mais de uma vez, mas em vo, acordar 
os seus receios maternos a respeito de Eva. 
- No lhe noto mal nenhum - respondeu ela. - Corre, 
brinca. . . 
- Mas tem uma tosse!. . . 
- Tosse! Ah, no me falem de tosse. Eu tossi durante 
toda a minha vida. Com a idade de Eva, julgavam que eu estava 
atacada de tuberculose. A Mammy ficava ao p de mim todas as 
noites. . . A tosse da Eva no  nada. 
- Mas aquela fraqueza. . . a respirao abafada. . . 
- Tive isso anos e anos seguidos. So nervos, 
simplesmente nervos.
- Sua toda a noite. . . 
- Eu tive isso durante dez anos. Todas as manhs, os 
meus lenis estavam encharcados e a camisa de noite 
espremia-se. A Mammy tinha
P[140]
 de estender os lenis l fora para secarem. O que so os 
suores de Eva ao p disso?
A Menina Oflia ficou calada durante vrios dias. 
Quando a doena de Eva se tornou demasiado evidente e 
foi chamado o mdico, Maria passou ao extremo oposto. 
- Eu bem disse - exclamava ela -, sempre tive o 
pressentimento: sabia que estava condenada a ser a me mais 
desgraada do mundo. Doente como sou, e tenho de ver a minha 
filha nica partir antes de mim. - E Maria atormentava Mammy 
todas as noites, e de dia gritava o lamentava-se desta nova, 
desta horrvel desgraa. 
- Minha querida Maria, no fales assim - dizia Saint-
Clare, no devemos desesperar.
- Ah, Saint-Clare, tu no sabes o que  um corao de 
me! No podes compreender. . . no, nunca compreenders!
- Mas, Maria, o mal no  irremedivel. 
- Eu no posso, no posso compartilhar a tua 
indiferena. Se no sentes nada quando vs a tua pobre filha 
em tal estado!. . . Eu no sou como tu!  um golpe demasiado 
cruel para mim, depois do que tenho sofriido. 
 Todos em casa aconselhavam Maria a que se acalmasse, porque 
ela fazia alarde da sua nova desgraa e aproveitava para 
atormentar os que chegavam junto dela. Tudo quanto se dizia, 
o que se fazia, e o que no se fazia, mostrava-lhe, dizia 
ela, que estava rodeada de coraes de pedra, de seres 
insensveis, que no se importavam nada com os seus 
sentimentos.
A pobre Eva ouvia-a de vez em quando e chorava com pena das 
tristezas da me, afligindo-se por a fazer sofrer assim. 
Ao fim de quinze dias deu-se uma grande melhora aparente na 
sua sade. Houve uma daquelas trguas ilusrias que tal 
doena concede muitas vezes s suas vtimas, para brincar com 
a doena, mesmo  beira do tmulo. Eva dava ainda alguns 
passeios no jardim, ainda corria ao longo das alamedas. 
Brincava e ria. . . e o pai, cheio de satisfao, disse a 
toda a gente que ela recobrara a sade. Apenas o mdico e a 
Menina Oflia no eram da mesma opinio. 
Havia outro corao que tambm no se enganava, era o 
pobre corao de Eva. Tinha uma certeza calma, suave, 
proftica, de que estava j perto do cu. Sim, to calma como 
um belo pr de Sol suave na serenidade luminosa de uma linda 
tarde de Outono! E nessa prpria certeza, aquele corao 
encontrava um repouso que no era perturbado pela ideia do 
desgosto dos que lhe tinham tanto amor. 
Sofria as angstias de uma ternura amarga, quando 
pensava em todos aqueles que ia deixar atrs de si, sobretudo 
o pai! Sem se aperceber completamente disso, sentia contudo 
que estava mais nesse
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 corao do que em qualquer outro. Gostava da me, mas o 
egosmo da Senhora Saint-Clare afligia-a e perturbava-a ao 
mesmo tempo, porque pensava sinceramente que a me devia ter 
sempre razo. Havia qualquer coisa que no compreendia, mas 
dizia para consigo:Apesar de tudo,  a mam!. . . - E amava-
a!
Lamentava tambm os bons e fiis escravos para quem era como 
a luz do dia, como um Sol abenoado! Sentia um desejo vago de 
fazer qualquer coisa por eles, de consolar e salvar, no 
apenas os seus, mas todos os que sofriam como eles; e havia 
como um penoso contrapesu entre o ardor dos seus desejos e a 
fragilidade do seu pobre corpo. 
- Pai Toms - disse ela um dia em que lia a Bblia -, eu 
compreendo perfeitamente porque Jesus quis morrer por ns. . 
. 
- Porqu, menina Eva?
- Porque eu sinto que tambm era capaz de fazer a mesma 
coisa.
- Explique, menina Eva. . . Eu no compreendo. 
- No sei explicar, mas no barco, lembras-te? Quando vi 
aquelas pobres criaturas. . . umas que tinham perdido os 
maridos, outras as mes. Tambm havia mes que choravam pelos 
filhos. Muitas outras vezes, senti que morria satisfeita se a 
minha morte acabasse com todas essas misrias. . . Sim, eu 
queria morrer por eles - continuou ela con profunda emoo, 
pondo a delicada mo sobre a mo de Toms. 
O pai Toms olhava para ela com venerao. Saint-Clare chamou 
a filha, e ela foi-se embora. Tom seguiu-a ainda com os 
olhos, enxugando as lgrimas. 
-  intil tentar que a menina Eva fique mais tempo 
entre ns - disse ele a Mammy uns momentos depois. - O Senhor 
j lhe ps u sinal na testa. 
- Sim, sim - respondeu Mammy levantando as mos ao cu, 
foi o que eu sempre disse. Ela nunca foi como as outras 
crianas que devem continuar a viver! Houve sempre qualquer 
coisa muito estranha nos seus olhos. Falei nisso muitas vezes 
 senhora. . . A hora dela aproxima-se. . . j todos o 
percebemos. . . Pobre cordeiro de Deus!
Evangelina foi a correr para junto do pai que se encontrava 
na galeria. O Sol descia no horizonte, e espalhava por detrs 
dela como um resplendor glorioso. Estava vestida de branco, 
os cabelos loiros enrolavam, tinha as faces coradas, e a 
febre que lhe queimava o sangue dava aos seus olhos um brilho 
sobrenatural. 
- Querida Eva, h uns dias que ests melhor. No  
verdade que te sentes melhor?
- Pap - disse Eva com firmeza -, h muito tempo que 
tenho uma coisa para te dizer. Quero diz-la agora, antes de 
estar mais fraca para a dizer. 
Saint-Clare estremeceu. 
P[ 142]
 Eva sentou-se no colo dele, encostou-lhe a cabea ao peito e 
disse:
- No vale a pena, pap, preocuparem-se comigo mais tempo. 
Sinto que os vou deixar. . . 
 	Evangelina suspirou. 
 	- Ah, que  isso, minha querida Eva? - disse Saint-
Clare com voz que pretendia ser alegre e que a emoo fazia 
tremer. - Ests a ficar nervosa!. . . No deves entregar-te a 
essas ideias sombrias. . . Olha, comprei-te esta estatueta. 
- No, pap - disse Eva afastando devagar a estatueta -, no 
se deixe enganar. . . Eu no estou melhor, e sei muito bem. . 
. Vou partir dentro de pouco tempo. . . No, no estou 
nervosa. . . Se no fosse por ti, 	pai, e por aqueles que me 
estimam, sentia-me completamente feliz. .  
 	Tenho de ir para longe, para muito longe.
- Mas que tens tu, minha querida? Quem te deu essas ideias 
to tristes? Tens aqui tudo quanto te pode fazer feliz!
- Prefiro ir para o cu; mas por causa daqueles que amo, no 
me importava de continuar a viver. H aqui muita coisa que me 
entristece, coisas terriveis. . . Prefiro ir para l. . . e, 
contudo, no queria deix-los. . . 
 	 o que me parte o corao. 
 	- Pois bem, diz-me o que te entristece, Eva! Diz o 
que achas to terrv el. 
 	- Meu Deus, coisas que sempre se fizeram. . . que 
se fazem todos os dias. . . So os escravos quem me aflige. . 
. Gostam de mim, so todos
 	bons e meus amigos. . . Eu queria que eles fossem 
livres!
 	- Mas, querida, achas que eles no so bastante 
felizes em nossa casa?
- Sim, pap, mas se lhe acontecer qualquer coisa, 
que ser deles? Hpoucas pessoas como tu, pap. . O meu tio 
Alfredo no  como tu, a mam tambm no. No haver uma 
forma de dar a liberdade a todos os escravos ?
-  muito difcil, minha filha. . . A escravatura  
uma coisa muito m, na opinio de muita gente. Eu prprio sou 
contra a escravatura; gostava, do fundo do meu corao, que 
no houvesse um s escravo sobre a terra; mas a forma de o 
conseguir, no sei.
-Pap, tu s to carinhoso, to bom, falas to 
bem!. . . No podias ir a casa dos outros falar com eles. . . 
e tentar convenc-los a fazer. . . o que se deve fazer? 
Quando eu estiver morta, pai, pensa em mim. e pelo amor que 
me tens faz isso. . . Eu mesma o faria, se tivesse foras!
- Morta, Eva?. . . Quando estiveres morta!. . . Oh, 
no fales assim, minha filha! Tu s tudo quanto eu tenho no 
mundo!
- Vs, a pobre Mammy tambm gosta dos filhos. . 
Via-a chorar muitas vezes quando falava neles. O Tom tambm 
gosta dos filhos, e est longe deles. . . Ah,  terrvel ver 
casos destes todos os dias. 
P[143)
 - Vamos, vamos, meu anjo - disse Saint-Clare com a voz cheia 
de ternura -, no te aflij as mais, no fales em morte. Eu 
prometo fazer tudo o que quiseres. 
- Ento, querido pai, promete que o Tom ser livre assim 
que. . . - Suspendeu as palavras, e depois, um pouco 
hesitante, continuou:Assim que eu partir. 
- Sim, querida, farei tudo o que me pedires. 
- Querido pai - acrescentou, encostando a face ardente  
cara do pai -, como eu gostava que nos fssemos embora 
juntos!
- Para onde, minha querida?
- Para a morada de Deus. . .  o jardim da paz, do amor 
e da ternura. 
A criana falava com ingenuidade de um lugar de onde 
parecia ter vindo. 
- No queres vir comigo, pap?
Saint-Clare apertou-a de encontro ao peito, mas no 
respondeu. 
- Virs depois ter comigo - continuou a criana, com voz 
calma mas segura. 
Tomava muitas vezes aquele tom, sem sequer dar por isso. 
- Sim, eu vou ter contigo - disse Saint-Clare. - No te 
esquecerei. 
Entretanto, a noite envolvia-os de uma sombra solene. 
Saint-Clare sentou-se. No falava, mas apertava de encontro 
ao corao aquele corpo frgil e encantador. J no lhe via o 
olhar profundo mas escutava-lhe a voz, que parecia a voz de 
um esprito. E ento, como se assistisse ao julgamento final 
pareceu-lhe ver surgir na sua frente todo o seu passado. 
Ouviu as oraes e os cnticos da me; sentiu novamente os 
seus desejos e aspiraes de criana para o bem; e depois, 
entre esses momentos abenoados e o presente, havia os anos 
cpticos e mundanos, aquilo a que se chama viver!. . . As 
ideias e os sentimentos atropelavam-se na alma de Saint-
Clare, mas no encontrava palavras para os exprimir. 
Cara a noite. Levou a filha para o quarto e, quando ela 
estava pronta para se deitar, mandou embora as mulheres e, 
pegando-lhe mais uma vez, embalou-a suavemente at ela 
adormecer. 

Captulo XXI
A MORTE
O quarto de dormir de Eva era muito grande. Como todos os 
outros, dava para a varanda. Este quarto comunicava de um 
lado com os
P[144]
 aposentos dos pais, e do outro com o quarto da Menina 
Oflia. Saint- Clare esmerara-se em decor-lo de harmonia com 
a pessoa a quem se destinava. As janelas estavam cobertas por 
cortinados de musselina branca e cor-de-rosa. O tapete, 
mandado fazer em Paris segundo desenho prprio, era cercado 
de grinaldas de botes de rosa, e no meio viam-se braados de 
rosas completamente abertas. A cama, as cadeiras e os 
cadeires de bambu eram trabalhados com a mais graciosa 
fantasia. 
Por cima da cama, sobre uma mesa de alabastro, um anjo, 
admiravelmente esculpido, abria as asas, com uma coroa de 
mirto na mo. Desta coroa desciam sobre a cama leves 
cortinados de gaze cor-de-rosa com listas prateadas, 
proteco indispensvel ao sono naquele clima propcio aos 
mosquitos. Os belos sofs de bambu estavam guarnecidos de 
almofades de damasco cor-de-rosa. No meio do aposento, em 
cima de uma pequena mesa, via-se um vaso de mrmore de Paros, 
talhado em forma de lis, rodeado de botes da mesma flor. O 
clice desta flor artificial estava sempre cheio de flores 
naturais. Era nessa mesa que Eva punha os livros, as jias e 
a sua estante de marfim esculpido. Tinha sido oferta do pai 
quando percebeu que ela queria aprender a ler e a escrever. 
Sobre a chamin estava uma imagem de Cristo chamando a 
si as crianas e, a cada lado, um vaso de mrmore. Era uma 
alegria para Tom ench-los de flores todas as manhs. Havia 
tambm no quarto dois ou trs belos quadros representando 
crianas em vrias atitudes. Em resumo, os olhos encontravam 
por toda a parte a imagem da infncia, da beleza e da paz; e 
quando Eva abria as plpebras aos primeiros raios matinais, 
contemplava sempre todas aquelas coisas que lhe inspiravam 
suaves e encantadores pensamentos. 
A energia enganadora que mantivera Eva durante algum 
tempo desvanecera-se, e os seus passos na varanda s se 
ouviam agora com intervalos cada vez maiores. Mas viam-na 
muita vez estendida numa chaise-longue, junto dajanela 
aberta, com os grandes olhos profundos fixos no lago, cujas 
guas subiam e desciam com regularidade. 
Era a meio da tarde. A Bblia estava aberta na sua 
frente. . Os dedos translcidos, distrados, folheavam o 
livro. . . quando ouviu a voz da me aos gritos. 
- Que mais temos? Outra das tuas partidas! Arrancaste as 
minhas flores, h?
E Eva ouviu o barulho de uma bofetada dada com fora. 
- Ai, senhora! Foi para levar  menina Eva - disse uma 
voz que ela reconheceu ser a voz de Topsy. 
- Para a menina Eva! Boa desculpa! Para que precisa ela 
das tuas flores, atrevida?
Eva levantou-se do sof e desceu at  galeria. 
P[145)
 - Oh, mam, eu quero essas flores!. . . D-mas!. . . 
- O qu? Tens o quarto cheio de flores. 
- Nunca acho de mais. Topsy, traz- me as flores!
Topsy, que ficara durante toda esta cena triste e de 
cabea baixa, aproximou-se de Eva e estendeu-lhe as flores. . 
Deu-lhas com um olhar tmido e hesitante, que no se parecia 
nada com a petulncia e atrevimento habituais. 
- Que lindo ramo! - exclamou Eva contemplando-o. Era, 
pelo contrrio, um ramo bastante estranho: compunha-se de um 
gernio e de uma rosa-do japo branca, com as suas folhas 
lustrosas. - Topsy, tu sabes fazer um ramo - disse Eva. - 
Toma. Mete-o naquela jarra. . . Quero que todos os dias lhe 
ponhas flores. 
Topsy ficou encantada. 
- Que loucura! - disse a Senhora Saint-Clare. - Para que 
precisas tu de tanta flor?
- Deixe, mam. . . Ah, mas se prefere que ela no as 
apanhe. . . 
- Como quiseres, minha querida, como quiseres! Topsy, 
ouviste o que disse a menina? Agora no te esqueas!
Topsy fez uma ligeira vnia e baixou os olhos. Quando se 
voltou, Evangelina viu uma lgrima rolar-lhe sobre a face 
negra. . . 
- Vs, mam, eu bem sabia que a Topsy queria fazer 
qualquer coisa por mim. 
- Que disparate! Ela s gosta de fazer mal. . . Sabe que 
no deve apanhar as flores e apanha-as! Mas se isso te 
agrada. . . est bem!
- Mam, eu acho que a Topsy est muito mudada, e agora 
quer ser uma boa menina. 
- Vai levar muito tempo a conseguir - disse Maria, com 
um riso despreocupado. 
- Ah, mam, esta pobre Topsy teve sempre todos contra 
ela!
- Desde que veio para a nossa casa, no! Foi ensinada, 
recomendada, enfim, tudo o que era possvel fazer! E continua 
to m como dantes. . . No se consegue nada de semelhante 
criatura. 
- H uma diferena to grande em ser educada como eu, 
com tanta gente a amar-me, tantas coisas para me fazerem 
feliz e boa. . . e a maneira como ela o foi at ao dia em que 
veio para a nossa casa!
- Meu Deus - exclamou Maria bocejando -, que calor!
- Mam - disse Eva -, eu queria cortar os meus cabelos. 
. . 
- Para qu?
- Para dar aos meus amigos, enquanto posso ser eu mesma 
a oferec-los. No se importa de dizer  prima que mos venha 
cortar?
Maria chamou Oflia que se encontrava no outro quarto. 
Quando ela entrou, a criana ergueu-se sobre as almofadas e, 
sacudindo as longas tranas de ouro velho, disse-lhe com ar 
alegre:
P[146]
 - Venha c, prima, tosquiar a ovelha!
- Que se passa? - perguntou Saint-Clare, que entrou com 
as mos cheias de frutos que tinha ido buscar para ela. 
- Pap, sou eu que estou a pedir  prima que me corte os 
cabelos. . . Pesam-me muito. . . fazem-me dores de cabea e, 
depois, quero d-los. . . 
A Menina Oflia entrou, munida da tesoura. 
- Cuidado! - disse Saint-Clare -, no os estrague! Corte 
por baixo, onde no se note. Os cabelos da Eva so o meu 
orgulho. 
- Oh, pap! - disse Eva, com voz triste. 
- Pois claro - continuou o pai -, eu quero que estejas 
bonita quando te levar  plantao do tio, para veres o teu 
primo Henrique. 
- Nunca l irei, pap. . . Vou para um stio melhor. 
Sim, pap,  verdade! Bem v que estou cada dia mais fraca. . 
. 
- Eva, queres fazer-me sofrer?
- Mas  verdade, pap; e se comear a habituar-se, 
depois sofre menos. . . 
Saint-Clare calou-se e olhou tristemente para as lindas 
madeixas que, cortadas da cabea da criana, estavam 
estendidas sobre a cama. Ela apanhou-as, olhou-as com emoo, 
enrolando-as nos dedos magros. . . depois fixou o pai. 
- Euj suspeitava - disse Maria. - Foi isso que me deu 
cabo da sade. . . e que h-de levar-me  sepultura, embora 
nunca ningum quisesse acreditar. . . Sim, eu j sabia! Em 
breve me dars razo; Agostinho!
- E nessa altura ficas muito satisfeita, com certeza - 
disse Saint- Clare em tom seco, cheio de amargura. 
Maria deixou-se cair no sof e tapou o rosto com o seu 
leno de baptista. . . 
Os olhos azuis e lmpidos de Evangelina, iam de um ao 
outro, com tristeza. Eram os olhos calmos, compreensivos, de 
uma alma liberta dos laos terrestres. Era evidente que ela 
percebia, sentia e analisava a diferena que havia entre os 
dois. 
Fez ao pai um sinal com a mo, e ele foi sentar-se junto 
dela. 
- Pai, eu estou a perder as foras de dia para dia. Sei 
que me vou embora, por isso... H coisas que preciso de dizer 
e fazer.  preciso. E tu no me queres ouvir. No se pode 
adiar. Queres fazer-me agora a vontade?
- Sim, minha querida filha, quero - disse Saint-Clare, 
escondendo os olhos com uma das mos, e pegando com a outra 
na mo de Eva. 
- Quero ver toda a nossa gente aqui reunida. H uma 
coisa que lhes quero dizer!
- Est bem! - disse Saint-Clare com voz surda. 
P[147]
 Oflia mandou-os chamar e da a pouco chegavam todos os 
escravos. Eva estava recostada nas almofadas, com os cabelos 
em volta do rosto, e as faces rubras faziam um triste 
contraste com a brancura normal da sua pele e o contorno 
magro dos membros e das feies. Os olhos cheios de alma 
fixavam-se com uma expresso indescritvel em cada um dos 
assistentes. 
Os escravos sentiram-se subitamente emocionados. Aquele 
belo rosto, as madeixas de cabelo cortadas e postas sobre os 
seus joelhos, o pai escondendo as lgrimas, a me que 
soluava, tudo revolvia o corao dessa raa impressionvel e 
sensvel. Quando entraram no quarto, olharam uns para os 
outros, suspiraram e baixaram a cabea. E fez-se um silncio 
profundo, um silncio de morte. . . 
A menina semiergueu-se, fixando todos com olhares 
enternecidos. Todos pareciam profundamente comovidos, numa 
expectativa penosa. As mulheres escondiam a cara no avental. 
- Meus amigos, pedi-lhes para virem aqui, porque os 
estimodisse Eva. - Sim, amo-os a todos, e quero dizer-lhes 
uma coisa que no devem esquecer. . . Eu vou deix-los. Daqui 
a uns dias, nunca mais me vero. 
Aqui, a criana foi interrompida por soluos, gemidos e 
lamentos que se ouviram de todos os lados e quase lhe 
abafavam a voz. Esperou um instante, e num tom que fez calar 
os soluos, continuou:
- Eu sei, eu sei que todos vocs me amam!
- Sim, sim, sim Todos Deus a abenoe - Foi esta a 
resposta que saiu de todos os lbios. 
- Bem sei. No h um s de vocs que no tenha sido 
sempre bom para mim. Vou dar-lhes uma coisa que, quando 
olharem para ela, se ho-de lembrar de mim. . Vou dar-lhes a 
cada um uma madeixa do meu cabelo. E quando olharem para ela 
lembrem-se de que os amei a todos. . . que fui para o cu. . 
. e espero encontrar-me l com vocs!. . . 
 impossvel descrever esta cena, cheia de lgrimas e de 
gemidos. Acotevelavam-se em volta da menina, recebendo das 
suas mos aquela ltima prova de amor. Ajoelhavam, choravam, 
rezavam, beijando-lhe a ponta do vestido. . . e os mais 
velhos diziam-lhe, conforme o costume da sua raa, palavras 
de ternura, bnos e oraes. 
Oflia, que sabia o efeito que esta cena ia ter sobre a 
doente, ia-os fazendo sair  medida que iam recebendo a sua 
ddiva. 
Da a pouco s restavam Toms e Mammy. 
- Toma, pai Toms - disse Eva. - Esta  para ti. Oh, 
sinto-me to feliz, pai Toms, por pensar que os torno a ver 
no cu. . . E tu, Mammy, querida e boa Mammy - disse ela, 
lanando os braos ao pescoo da velha ama -, eu sei que tu 
tambm irs para o cu!
P[148]
 - Oh, menina Eva, como posso eu viver sem a menina? - disse 
afiel mulher. - A menina parte, e tudo o mais se acaba! - E 
Mammy entregou-se  maior manifestao de dor. 
A Menina Oflia levou suavemente Tom e Mammy para fora 
do quarto. Julgou que j no havia mais ningum. . . Voltou-
se e viu Topsy. 
- De onde saste? - perguntou ela bruscamente. 
- Tenho estado aqui - respondeu Topsy limpando os olhos. 
Olhe, menina Eva, eu tenho sido to m. Mas, mesmo assim, no 
me d un?
- Sim, sim, minha pobre Topsy. . . Vou dar-te uma 
madeixa tambm a ti. Pega! E cada vez que olhares para ela, 
lembra-te de que te amei e quis que fosses boa menina. . . 
- Sim, menina Eva, eu quero. mas  muito difcil ser 
bom. Sabe, no estou acostumada!
 -Jesus conhece-te bem, Topsy, e ter compaixo de ti; vir 
em tua ajuda. 
Topsy escondeu a cabea no avental. Oflia f-la sair 
silenciosa mente do quarto. Topsy meteu a preciosa madeixa no 
peito. 
Tinham-se ido todos embora. Oflia fechou a porta. 
Durante toda esta cena, a respeitvel mulher tinha enxugado 
vrias vezes as lgrimas.
Saint-Clare, sentado com as mos nos olhos, no fizera 
um movimento. Continuava imvel. 
- Pap! - disse Eva, pondo suavemente a mo sobre uma 
das mos do pai. 
Saint-Clare estremeceu e no disse uma palavra. 
- Querido pap - continuou Eva. 
- No me deste uma madeixa - disse Saint-Clare com um 
sorriso amargo. 
- Estas so todas para ti e para a mam: mas dem tambm 
 prima Oflia, se ela quiser. . . Mas quis ser eu prpria a 
d-las a essa pobre gente, com medo que se esquecessem deles 
depois, e porque espero que assim eles se lembrem. 
Eva declinava rapidamente. J no havia dvidas, e as 
mais ternas esperanas no podiam cegar ningum. O seu belo 
quarto no passava agora de um quarto doente. Oflia cumpria 
sem interrupo a sua tarefa de enfermeira atenta. Nunca os 
Saint-Clare haviam tido ocasio de apreciar tanto os seus 
mritos. Tinha tanta habilidade, tanta experincia! Sabia 
escolher o momento oportuno. Nunca se desnorteava, no 
esquecia fosse o que fosse, nunca se enganava. Por vezes 
tinham de fechar os olhos s suas manias e extravagncias, 
to diferentes da despreocupao das pessoas do Sul; mas foi 
preciso reconhecer que, nas circunstncias presentes, era ela 
a pessoa indispensvel. 
P[149]
 Tom ficava muitas vezes no quarto de Eva. Eva tinha ataques 
de nervos, e sentia um grande alvio se lhe pegassem ao colo. 
Era uma felicidade para Tom deitar-lhe a cabea numa almofada 
e passe-la nos braos, na galeria ou nas salas. E quando 
soprava do lago uma brisa mais fresca, ou Evangelina, de 
manh, se encontrava um pouco melhor, levava-a a passear 
debaixo das laranjeiras do jardim, ou sentavam-se ambos, e o 
pai Toms cantava alguns dos seus cnticos favoritos. 
Outras vezes, era Saint-Clare que lhe pegava; mas tinha 
menos fora, cansava-se, e ento Evangelina dizia- lhe:
- Pai, deixe o Tom pegar-me. . . Ele gosta tanto. E 
agora  a nica coisa que ele pode fazer por mim. 
- E eu, Eva? - perguntava o pai. 
- Oh, o pai pode fazer tudo. . . e  tudo para mim. L-
me, fica ao p de mim durante a noite. . . O Tom s tem os 
braos e os cnticos! E depois,  mais forte, no se cansa. 
Mas o desejo de fazer qualquer coisa no se limitava a 
Tom. Todos os escravos sentiam o mesmo, e todos, cada um  
sua maneira, faziam o que podiam. 
O corao da pobre Mammy estava sempre junto da sua 
querida menina; mas nunca tinha ocasio. A Senhora Saint-
Clare dissera que no estado em que estava no conseguia 
dormir. E era contra os seus princpios deixar dormir os 
outros. . . Vinte vezes por noite obrigava Mammy a levantar-
se para lhe esfregar os ps ou molhar- lhe a testa, para lhe 
ir buscar o leno ou vir ver que barulho era aquele no quarto 
de Eva; para baixar a persiana porque havia muita luz, ou 
levant-la porque havia pouca... De dia, quando a boa negra 
queria ir ver a sua menina, Maria arranjava mil maneiras de a 
reter. . . Ir a correr v-la dois minutos, era tudo quanto 
conseguia. 
- O meu dever - dizia Maria -,  tratar-me agora o 
melhor que puder, fraca como estou e com todo o trabalho que 
me d esta pobre criana. . . 
- Ah, minha querida - respondia Saint-Clare -, eu 
julgava que nesse ponto a prima Oflia te tinha aliviado 
bastante. 
- Falas como homem, Saint-Clare. . . Uma me pode 
sentir-se aliviada quando v a filha em semelhante estado? 
No importa! Ningum sabe o que eu sofro. No tenho a tua 
indiferena!
Saint-Clare sorria. . . Que lhe seja perdoado ainda 
poder sorrir, mas o adeus daquela querida criana era to 
calmo!. . . Uma brisa to suave e perfumada levava o barco 
para as praias do cu, que nem parecia o barco da morte! A 
criana no sofria; sentia apenas uma espcie de fraqueza 
agradvel e tranquila, que aumentava de dia para dia, mas 
insensivelmente. E ela era to meiga, estava to resignada, 
to bela, que no se podia resistir  doce influncia daquela 
atmosfera de paz e de
P[150]
 inocncia que se respirava em seu redor. Saint-Clare sentia 
invadi-lo no sei que estranha suavidade. No era esperana - 
essa era impossvel - nem resignao. Era uma espcie de 
repouso num presente que lhe parecia to belo que ele no 
queria pensar no futuro; era qualquer coisa parecida com a 
melancolia que sentimos no meio da floresta nos dias de 
Outono, quando a ferrugem doentia tinge as folhas das rvores 
e as ltimas folhas se debruam  beira dos regatos. E 
apreciamos com mais avidez aquele encanto e aquela beleza, 
porque sabemos que da a pouco tudo vai desvanecer-se e 
desaparecer. 
Tom era quem conhecia melhor os sonhos e os 
pressentimentos de Eva. Ela contava-lhe o que nunca contara 
ao pai, com medo de o afligir. Falava-lhe daqueles avisos 
misteriosos que fazem vibrar uma alma no momento em que se 
quebra para sempre o fio da vida. Tomj no queria dormir no 
quarto dele; passava a noite na galeria,  porta de Eva, para 
estar ao p ao menor chamamento. 
- Pai Toms - disse-lhe um dia a Menina Oflia -, que 
hbito to estranho que tomou agora de dormir em qualquer 
stio, como um co. Julgava que gostasse de dormir na sua 
cama, como qualquer outra pessoa. 
- Oh, Menina Oflia - respondeu Tom, com ar misterioso -
, sim, gosto, mas neste caso. . . 
- Que caso?
- Mais baixo; o Senhor Saint-Clare no deve ouvir. Sabe, 
Menina Oflia,  preciso que algum esteja alerta... 
Tom e Oflia tiveram esta conversa entre as dez e as 
onze horas da noite, no momento em que, feitos todos os 
preparativos da noite, ela ia fechar a tranca da porta. Foi 
ali que encontrou o pai Toms, deitado na galeria. 
A Menina Oflia no era impressionvel nem nervosa; mas 
os modos solenes e comovidos do negro perturbaram-na 
fortemente. Eva, durante toda a tarde estivera de uma 
animao e alegria pouco vulgares, ficara durante muito tempo 
sentada na cama, vendo as suasjias e todos os seus objectos 
preciosos, dizendo os nomes das amigas a quem deviam ser 
oferecidas: estava com mais energia, falava com voz natural! 
O pai dissera que ela nunca tinha estado to bem desde que 
adoecera e quando a beijou, no momento de se retirar, disse a 
Oflia:
- Talvez se salve, prima!. . . ela est melhor!
E foi-se deitar, com o corao mais calmo. 
Mas  meia-noite,  hora mgica,  hora mstica, no 
momento em que se levanta o vu que separa o presente 
fugitivo do futuro eterno, a mensageira chegou. 
Ouviu-se um rudo no quarto, o rudo de passos leves; 
eram os passos da Menina Oflia. Resolvera ficar de vigia 
toda a noite. 
P[151]
 Observara o que as enfermeiras experientes chamam a 
transio. A porta da galeria abriu-se, e Tom, que estava 
sempre de sentinela, ps-se imediatamente de p. 
- O mdico, Tom! No perca um minuto!
Depois, atravessou o quarto e bateu  porta de Saint-
Clare:
- Primo, venha depressa, pelo amor de Deus!
Tom voltou da a pouco com o mdico. Ele entrou, lanou 
um olhar sobre a cama e, como todos os outros, ficou em 
silncio. 
- Quando entrou em agonia? - perguntou o mdico ao 
ouvido de Oflia. 
- Pela meia-noite. 
Maria, que acordara com a chegada do mdico, saiu do 
quarto vizinho, assustada. 
- Agostinho. Prima. O que foi? O que foi?
- Cala-te! - disse Saint-Clare, com voz rouca. - A nossa 
filha est a morrer. 
Mammy ouviu estas palavras, e correu a acordar os 
escravos. Toda a casa se ps a p; viram-se luzes, ouviu-se o 
barulho de passos: sombras inquietas passavam e tornavam a 
passar nas compridas galerias. Saint-Clare s via o rosto da 
filha. 
- Oh, se ao menos ela acordasse e falasse uma vez mais!. 
. . - e, inclinando-se para ela, chamou: - Eva!
Os seus grandes olhos azuis abriram-se e um sorriso 
passou-lhe nos lbios. Tentou levantar a cabea e falar. 
- Reconheces-me, Eva?
- Querido pai. . . 
E, num esforo supremo, lanou-lhe os braos ao pescoo. 
Depois soltou-os e deixou-os cair. 
Saint-Clare levantou-lhe a cabea e viu o espasmo da 
agonia. Ela tentou respirar, e estendeu as mozinhas. 
- Oh, meu Deus!  horrvel. . - esclamou o infeliz. E, 
voltando-se com os olhos esgazeados, procurando a mo de Tom, 
acrescentou:
- Ah, meu amigo, isto mata-me!
O pai Toms conservou a mo do seu senhor entre as dele. 
. . Corriam-lhe lgrimas pela face negra. 
- Reze para que acabe este sofrimento - disse Saint-
Clare. 
A criana tornara a cair sobre a almofada, vencida e sem 
flego; levantava de vez em quando os olhos, que ficavam 
imveis. mas havia naquele rosto um claro de vitria, to 
misterioso e solene, que acalmava todas as lgrimas. 
- Eva! - chamou Saint-Clare em voz baixa. 
Ela j no o ouviu. Um sorriso manso passou-lhe no rosto 
e, com voz entrecortada, murmurou:
P[152]
 - Oh, amor. . . paz. . . alegria! - Depois soltou um 
suspiro. . . e passou da morte para a vida verdadeira.

Captulo XXII
TUDO ACABA 
As estatuetas e as pinturas do quarto de Eva foram cobertas 
de vus brancos. S se ouviam murmrios, suspiros e passos 
suaves. A luz penetrava atravs das persianas descidas como 
se quisesse iluminar aquela treva solene. A pequena cama 
estava coberta por uma colcha branca, e, sob a proteco do 
anjo inclinado, a menina repousava, naquele sono de que nunca 
mais se acorda. 
Repousava, vestida com o simples vestido branco que, 
durante a vida, vestira tanta vez. A luz cor-de-rosa filtrada 
pelas cortinas do quarto espalhava como um resplendor quente 
sobre o frio da morte. As longas pestanas desciam sobre as 
faces puras, e a cabea estava inclinada como num sono 
verdadeiro. Mas em todas as feies do rosto via-se aquela 
expresso celestial, misto de repouso e xtase, que revela 
no ser o sonho de uma hora, mas aquele longo e sagrado sono 
que Deus concede aos que ama. 
Rosa entrou devagar no quarto, com um cesto de rosas 
brancas. Deu um passo atrs e parou respeitosamente ao ver 
Saint-Clare; mas como ele no deu pela sua presena, 
aproximou-se da cama, para colocar as flores em redor da 
morta. Saint-Clare viu-a, como num sonho, no momento em que 
ela punha entre os pequeninos dedos um ramo de jasmins-do-
cabo, dispondo com perfeito gosto as outras flores em redor 
da cama. 
A porta abriu-se e Topsy, com os olhos inchados de 
chorar, apareceu  entrada; tinha qualquer coisa debaixo do 
avental. Rosa fez-lhe um gesto ameaador, mas ela entrou. 
- Sai - disse Rosa em voz baixa, mas em tom imperioso -, 
sai! No tens aqui nada que fazer!
- Oh, deixe! Eu trouxe uma flor to bonita! - E mostrou 
um boto de rosa-ch apenas entreaberto. . . - Deixe-me pr-
lhe s esta flor. 
- Sai! - disse Rosa, com mais energia ainda. 
- Deixa-a ficar - disse Saint-Clare batendo o p. - 
Deixa-a ficar! 
Rosa foi-se embora. 
Topsy avanou e deps a sua oferenda aos ps do corpo. . 
. depois, de repente, soltando um grito selvagem, atirou-se 
ao cho ao p da cama, e chorou e soluou alto. 
A Menina Oflia veio a correr. Tentou levant-la e 
impor-lhe silncio, mas foi em vo. 
P[153]
- Oh, menina Eva, menina Eva! Eu tambm queria morrer. . eu 
queria!
Havia naquele grito qualquer coisa to pungente e 
comovida, que o sangue subiu ao rosto plido e marmreo de 
Saint-Clare, e pela primeira vez, desde a morte de Eva, ele 
sentiu lgrimas nos olhos. 
- Levanta-te, minha filha - dizia Oflia com voz meiga -
, a menina Eva est no cu, entre os anjos.
- Mas eu no a posso ver - exclamou Topsy -, nunca mais 
a posso ver! - E comeou a soluar de novo. 
Houve um momento de silncio. 
- Ela dizia que gostava de mim - continuou Topsy. - 
Gostava, gostava! Ai, agora j no tenho ningum. . . 
ningum!
- Tens razo - disse Saint-Clare. E acrescentou, 
voltando-se para Oflia: - Veja se acalma esta pobre 
rapariga!
- Mais valia eu nunca ter nascido - soluava Topsy. - 
Para que foi que nasci?
A Menina Oflia levantou-a com bondade, mas com firmeza, 
e f-la sair do quarto, chorando tambm. E levou-a para os 
seus aposentos. 
- Topsy, minha filha. . . - dizia ela -, no te aflijas 
assim. . . Eu tambm posso gostar de ti, embora no seja to 
boa como essa pobre criana. . . Mas julgo que aprendi com 
ela o que  o amor de Cristo. . . Posso amar-te. . . e 
ajudar-te a ser uma boa menina e uma boa crist. 
O tom de Oflia dizia mais do que as palavras; mas ainda 
mais significativas eram as sinceras e virtuosas lgrimas que 
lhe deslizavam pela cara. 
A partir desse momento, teve na alma daquela criana 
abandonada uma influncia que nunca mais perdeu. 
- Oh, minha querida Eva - dizia Saint-Clare -, os teus 
curtos dias trouxeram tanto bem a este mundo!. . . E eu, que 
contas posso dar da minha j longa vida?
S se ouviam no quarto palavras murmuradas em voz baixa 
e passos deslizando quase em silncio. Vinham todos, um a um, 
contemplar a morta. . . depois chegou o caixo. Era o 
princpio das cerimnias fnebres. Pararam carros  porta 
trazendo pessoas estranhas. O quarto encheu-se de coroas e 
fitas brancas. 
Foi lida a Bblia e rezaram-se as oraes. e Saint-Clare 
continuava a viver! Andava de um lado para o outro, como um 
homem que tivesse chorado todas as lgrimas. Mas da a pouco 
s via uma coisa: a cabea loira dentro do caixo. . . Depois 
viu taparem-na com a mortalha. . . e fecharem o caixo. . . 
Seguiu no meio da outra gente. . . O cortejo chegou ao 
extremo dojardim, perto do banco de musgo onde Eva ia muita 
vez falar com o pai Toms, cantar e ler. Foi ali que abriram 
a pequena cova. 
P[154)
 Saint-Clare ficou perto, com o olhar perdido. Viu descer o 
caixo e ouviu as palavras solenes: Eu sou a ressurreio e a 
vida! Quem acreditar em mim, ainda que esteja morto, viver! 
E deitaram a terra e a cova foi tapada. . . E ele no podia 
acreditar que fosse Eva que ali estivesse, longe dos seus 
olhos para sempre. 
Todos se retiraram e, com o corao despedaado, 
voltaram para a casa que ela nunca mais veria. 
O quarto de Maria foi hermeticamente fechado. Ela 
estendeu-se na cama, soluando e gemendo, com todos os sinais 
de uma dor invencvel, reclamando a todo o momento a ajuda de 
todos os criados. Esses no tinham tempo para chorar. E 
porque haviam de chorar? A dor era sua, e ela estava 
firmemente convencida de que ningum no mundo sabia, queria 
ou podia senti-la com ela. 
- Saint-Clare ainda no chorou uma lgrima ao p de 
mim!dizia. - Nunca se importou comigo. . .  realmente 
extraordinria a secura do seu corao. . . E contudo, ele 
sabe como eu sofro!
Ficamos de tal forma convencidos com aquilo que vemos e 
ouvimos, que muitas pessoas da casa julgavam que a senhora 
era realmente quem mais sofria, sobretudo quando Maria teve 
espasmos, mandou chamar o mdico e declarou que tambm estava 
a morrer. . . Foi uma azfama: puseram-lhe botijas quentes, 
deram-lhe frices com flanela, enfim, foi um divertimento. 
Tom tinha no fundo do corao um mpeto que o atraa 
cada vez mais para o seu senhor. Onde quer que ele ia, triste 
e silencioso, Tom seguia-o. Quando o via sentar-se, plido e 
tranquilo no quarto de Eva, com a Bblia da filha aberta 
diante de si, sem ler uma palavra, sem ver sequer as linhas. 
. . Tom observava naqueles olhos, calmos e sem lgrimas, 
maior dor que nos gemidos e lamentos de Maria. 
A familia Saint-Clare voltou depressa para a cidade. A 
alma inquieta e atormentada de Agostinho precisava dessa 
mudana de ambiente que afasta o fio dos pensamentos. 
Abandonaram portanto a casa. . . ojardim. . e a pequena 
sepultura, e voltaram para Nova Orlees. Saint-Clare 
percorria as ruas com ar febril. Precisava do barulho, do 
tumulto, da agitao, para tentar preencher o abismo do seu 
corao. As pessoas que o viam na rua, ou que o encontravam 
no caf, s notavam a perda que sofrera pelo fumo no chapu. 
Ria e conversava, lendo os jornais, discutindo poltica ou 
interessando-se pelos negcios. Quem poderia adivinhar que 
esses sorrisos escondiam um corao mudo e sombrio como um 
tmulo?
P[155]
Captulo XXIII
REUNIO
Uma aps outra, as semanas decorriam em casa de Saint-
Clare, e a vida retomava o seu curso, a caminho do mesmo 
destino que levara o pequeno esquife. Oh, as realidades de 
cada dia, rgidas, frias, imperiosas. . . Como elas calcam 
aos ps os sentimentos do nosso corao!  preciso comer, 
beber, dormir. . . e at acordar!  preciso comprar, vender, 
perguntar e responder!. . . Numa palavra,  preciso seguir 
sombras, quando fugiram as realidades. O hbito mecnico de 
viver sobrepe-se  prpria vida!
As esperanas de Saint-Clare, os seus interesses, sem 
ele prprio ter conscincia disso, tinham-se agarrado a essa 
criana. Era para Eva que ele cuidava, que embelezava a sua 
propriedade. Todo o seu tempo, era a ela que o dedicava. Tudo 
era para Eva e por causa de Eva! No fazia nada seno para 
ela. Na sua ausncia, perdia ao mesmo tempo a aco e o 
pensamento. 
Saint-Clare nunca quisera orientar- se por princpios 
religiosos. O seu belo carcter dava-lhe uma espcie de viso 
instintiva das exigncias e do alcance do cristianismo, e 
recuava antecipadamente perante as tiranias da conscincia s 
quais se teria submetido se alguma vez tivesse sido cristo. 
 a tal inconsequncia da natureza humana, nas questes 
onde sobretudo o ideal est emjogo, que prefere nada iniciar 
do que agir s at metade. 
E, todavia, Saint-Clare transformara-se noutro homem. 
Lia com seriedade e honestamente a Bblia da sua pequena Eva. 
Tinha ideias mais ss e mais prticas acerca de todas as suas 
relaes com os escravos. Chegara ao ponto de no se 
satisfazer com u passado nem com o presente. Imediatamente 
aps o seu regresso a Nova Orlees, comeou, para conseguir a 
emancipao de Tom, as diligncias legais que devia completar 
assim que as formalidades indispensveis estivessem 
realizadas. De dia para dia, criava mais afeio quele 
escravo.  que, no mundo agora vazio para ele, nada lhe 
trazia mais a querida imagem de Eva. Queria t-lo 
constantemente junto de si. Soberbo e inabordvel para todos 
os outros, em frente de Tom pensava em voz alta! Por isso no 
era de espantar a dedicao e amizade com que Tom seguia a 
todo o momento o seu jovem senhor. 
- Tom disse-lhe ele num dia -, estou a tratar da tua 
liberdade. Faz a mala e prepara-te para voltar para Kentucky. 
Um claro de alegria iluminou o rosto do pai Toms. 
Levantou as mos ao cu e exclamou: Deus seja louvado!, com 
uma espcie de
P[156]
entusiasmo. Saint-Clare ficou desconcertado. No lhe agradava 
que Tom estivesse disposto a deix-lo.
- No eras mal tratado aqui. . . No vejo porque ests 
to contente por partires - disse ele em tom seco. 
- Oh, no, meu senhor!. . . No  isso!  por ser um 
homem livre que estou to satisfeito!
- Vejamos, Tom, no achas que s mais feliz assim do que 
se fosses livre?
- Pois no, Senhor Saint-Clare - disse Tom, com sbita 
energia. 
- Evidentemente que no.
- Com o teu trabalho nunca terias conseguido vestir-te e 
alimentar-te como na minha casa. 
- Bem sei, senhor. O senhor foi muito bom para mim. Mas 
preferia uma casa pobre e andar pobremente vestido. .  por 
mais pobre que fosse. . . do que ter coisas melhores, mas que 
pertencessem a outro. No ser natural, senhor?
- Acho que sim, Tom. . . Por isso vais-te embora, 
deixas-me, daqui a um ou dois meses - acrescentou ele com ar 
contrariado -, embora talvez no o devesses fazer. Nunca se 
sabe!
Levantou-se e deu alguns passos pelo salo. 
- Eu no me vou embora - disse Tom -, enquanto o meu 
senhor sofrer. Fico com ele enquanto precisar de mim, para 
tudo em que possa ser til. 
- Enquanto eu sofrer, Tom? - exclamou Saint-Clare 
olhando pela janela. - E quando, sendo assim, acabar o meu 
sofrimento?
- Quando o Senhor Saint-Clare for cristo!
- E tencionas realmente ficar aqui at esse dia? - 
perguntou Saint- Clare com um triste sorriso. E abandonando 
ajanela, ps a mo no ombro de Tom. - Ah, pai Toms, meu 
pobre velho, eu no quero prender-te tanto tempo. Vai, vai 
ter com a tua mulher e os teus filhos. . e diz-lhes que os 
estimo. 
- Pois eu creio que esse dia vai chegar em breve. . - 
disse Tom com emoo e os olhos cheios de lgrimas: - Deus 
precisa do meu senhor!
- Achas realmente que Deus precisa que trabalhem para 
ele?perguntou Saint-Clare a sorrir. 
- Quando trabalhamos para as suas criaturas, estamos a 
trabalhar para Deus - respondeu Tom. 
Aqui, a conversa foi interrompida pela chegada de 
visitas. Maria Saint-Clare sentia a perda da filha, at onde 
lhe era possvel sentir qualquer coisa e, como era mulher 
para tornar infelizes us outros com as suas prprias 
infelicidades, os escravos ao seu servio tinham
P[157]
 mais um motivo para lamentar ajovem senhora cujas suaves 
maneiras e splicas os tinham tanta vez protegido contra a 
tirania e o egosmo da me. Sobretudo Mammy, a pobre Mammy 
que, com a alma privada de toda a ternura familiar, se 
consolara com o afecto daquele querido ser, tinha o corao 
destroado. Chorava noite e dia. . . e o prprio excesso do 
desgosto tornavam-na menos hbil e trabalhadora, o que atraa 
uma tempestade de censuras sobre a sua cabea, agora 
indefesa. 
A Menina Oflia sentia tambm aquela perda, mas quele 
corao honesto e bom, a dor levava os frutos da outra vida, 
a vida que no acabar. Estava mais acessvel e branda. 
Embora com o mesmo zelo do dever, parecia mais calma e 
modesta. Via-se que se voltava mais vezes para o corao: 
ocupava-se mais activamente da educao de Topsy. Ensinava-
lhe as passagens da Biblia;j no estremecia  sua 
aproximao, e no tinha de esconder uma repugnncia que no 
sentia. Olhava-se atravs daquele prisma evocado com tanta 
ternura perante os seus olhos por Eva e o que via na criana 
era uma criatura imortal, que Deus lhe mandara para que a 
encaminhasse  glria e  virtude. Topsy no se tornara uma 
santa de repente, todavia a vida e a morte de Eva tinham 
produzido nela uma notvel mudana. 
Perdera aquela indiferena. . . Havia agora nela 
sensibilidade e a esperana, o desejo, o esforo do bem, 
esforo iiregular, com desistncias e interrupes, mas 
sempre renovado. 
Certo dia, Oflia mandou chamar Topsy. Ela chegou  
pressa, escondendo qualquer coisa no peito. 
- Que levas a, atrevida? Roubaste alguma coisa, aposto! 
- disse Rosa, que tinha ido cham-la. E, no mesmo instante, 
agarrou-a pelo brao. 
- Deixe-me, menina Rosa - disse Topsy, desembaraando-se 
dela -, no tem que ver com isso!
- Mais uma das tuas partidas!. . . J te conheo! Vi-te 
esconder qualquer coisa. 
Rosa segurou-a pelo brao e quis revist-la. 
Topsy, furiosa, batia com as mos e os ps e lutava 
violentamente pelo que julgava serem os seus direitos. 
O barulho da luta atraiu a Menina Oflia e Saint-Clare. 
- Ela roubou qualquer coisa! - gritou Rosa. 
- No roubei - vociferava Topsy, soluando de clera. 
- No importa! D-me o que tens a - disse Oflia, com 
voz firme. Topsy teve um movimento de hesitao, mas, aps 
nova ordem, tirou do peito um pequeno embrulho, metido dentro 
de uma das suas meias. 
Oflia desembrulhou-o. 
P[158]
 Era um livrinho que Eva dera a Topsy: tinha um versculo da 
Biblia para cada dia do ano. Numa folha de papel estava 
tambm a madeixa loira de Eva, dada no dia do seu memorvel 
adeus. 
Este espectculo causou profunda emoo a Saint-Clare. O 
livro estava embrulhado em crepe preto. 
- Porque puseste isto em volta do livro? - perguntou ele 
tirando o crepe. 
- Porque. . . porque. . . porque era da menina Eva! Oh, 
no o tire, por favor! - E, sentando-se no cho e escondendo 
a cabea no avental, comeou a soluar violentamente. 
Era cmico e pattico ao mesmo tempo. Aquela velha meia, 
aquele crepe preto, a madeixa sedosa, e o fogoso desespero de 
Topsy. Saint-Clare sorriu, um sorriso cheio de lgrimas. 
- V, no chores. Vou dar-to outra vez. . . - E juntando 
tudo, ps o pequeno embrulho nosjoelhos de Topsy, depois 
conduziu Oflia ao salo. 
- Julgo que acabar por conseguir - disse ele, apontando 
com o polegar por cima do ombro em direco  porta. - Toda a 
pessoa que  capaz de sentir um desgosto, tambm  capaz de 
atingir o bem; no devemos abandon-la. 
- Ela fez progressos - disse Oflia -, e tenho grandes 
esperanas. Mas, Agostinho - e ps a mo no brao de Saint-
Clare -, quero fazer-lhe uma pergunta: a quem pertence ela? A 
si ou a mim?
- A si. Eu dei-lha!
- Mas no legalmente. Eu quero que ela me pertena... 
para ter o direito de a levar para os estados livres, a fim 
de a libertar para que tudo o que tenho tentado fazer no 
resulte intil. 
- Ah, prima Parece-me que tem a esse respeito projectos 
bastante subversivos. . . no posso estimul-los. . . 
- No brinque. . . falemos a srio! Todos os meus 
esforos para a tornar crist sero inteis se eu no a 
livrar da situao fatal de escrava. Se quer que ela seja 
minha, faa a doao legalmente. . . por escrito e em forma. 
- Est bem! Est bem - disse Saint-Clare. - Um dia 
destes. 
Sentou-se e abriu um jornal. 
- Tem de o fazer agora - disse Oflia. 
- Que pressa!
- Agora,  o nico momento em que somos senhores de 
fazermos o que queremos. Tome. Est aqui tudo o que  
preciso. tinta, caneta, papel. Escreva.
Saint-Clare, como a maior parte dos homens, no gostava 
que o obrigassem. Estava contrariado com aquela exigncia e 
pressa de Oflia. 
P[159]
 - Meu Deus! Que se passa? - disse ele -, no lhe basta a 
minha palavra? No larga as pessoas!. . . Parece que aprendeu 
com osjudeus!
- Quero estar segura - disse a Menina Oflia. - O primo 
pode morrer. . . ficar arruinado. . . e, contra tudo o que eu 
pudesse fazer, Topsy seria vendida em leilo. 
- Pensa em tudo! Visto que estou nas mos de uma ianque, 
o melhor  submeter-me. 
Saint-Clare escreveu rapidamente o acto de doao, coisa 
fcil para quem estava dentro do assunto como ele. Assinou o 
seu nome em letras maisculas, e terminou com um pargrafo 
cheio de floreados. 
- Pronto, prima Vermont! Aqui tem. - E estendeu-lhe o 
papel. 
-  um bom rapaz, primo - disse ela a sorrir -, mas no 
 precisa uma testemunha?
- De facto!. . . Maria! - chamou ele, abrindo a porta do 
quarto da mulher -, a prima quer que lhe ds um autgrafo. 
Escreve o teu nome por debaixo disto. 
- O que ? - perguntou Maria, percorrendo o papel com os 
olhos. 
-  ridculo! Julgava a prima suficientemente piedosa para 
querer uma coisa destas. Mas - e assinou negligentemente -, 
se ela gosta daquele objecto, ns oferecemos-lho com prazer. 
- Pronto,  sua legalmente - disse Saint-Clare. Voltou 
para o salo e pegou no jornal. 
A Menina Oflia, que no desejava conversar com Maria, 
foi ter com ele da a pouco, no sem primeiro arrecadar bem a 
doao. 
Sentou-se e comeou a fazer malha. . . Depois, disse de 
repente:
- Agostinho, j pensou nos seus escravos. . . em caso de 
morte?
- No! - respondeu Saint-Clare. E continuou a leitura. 
- Nesse caso, a sua indulgncia para com eles poder 
transformar-se um dia numa grande crueldade. 
Era um raciocnio que Saint-Clare fizera muitas vezes. E 
respondeu despreocupadamente:
- Vou tratar disso um dia destes. 
- Quando?
- Mais tarde. . . 
- E se entretanto morrer?. . . 
Ele abanou o jornal e olhou-a fixamente. 
- V em mim sintomas de clera ou de febre-amarela?... 
Porque quer convencer-me com tanta insistncia a fazer as 
minhas disposies no caso de morrer?
- Mesmo vivos, j estamos mortos!
Saint-Clare largou o jornal e foi despreocupadamente at 
 porta que dava para a varanda. Queria pr termo quela 
conversa que lhe era desagradvel; mas s para si e 
maquinalmente, repetia a palavra
P[ 160]
 morte!. . . Encostou-se ao parapeito e olhou o repuxo 
prateado que se elevava e tornava a cair no lago. Depois, 
como atravs de um nevoeiro espesso e cinzento, viu vagamente 
as flores, as rvores, os vasos do ptio, e repetiu essa 
palavra misteriosa, a palavra pronunciada por todas as bocas, 
a palavra terrvel: MORTE!
-  na realidade estranho - dizia para consigo -, que 
exista essa palavra e signifique essa coisa, e nunca nos 
lembremos disso!. . . Vivemos, somos ardentes, jovens, belos, 
cheios de esperanas, de desejos, de necessidades, e no dia 
seguinte partimos. . . numa viagem sem regresso, para sempre. 
Saint-Clare caminhou pensativo ao longo da varanda, 
parecendo esquecer tudo, menos aquela ideia. . . E estava to 
absorvido que Tom foi obrigado a dizer-lhe que j tinham 
chamado duas vezes para o lanche. 
Durante o lanche, Saint-Clare ficou triste e pensativo. 
No fim, ele, Maria e Oflia passaram ao salo, sem trocarem 
uma palavra. 
Maria estendeu-se num sof, abrigada por um mosquiteiro 
de seda. Da a pouco, dormia profundamente. 
A Menina Oflia fazia malha. 
Saint-Clare sentou-se ao piano e tocou uma ria triste e 
melanc lica. 
Dir-se-ia que estava mergulhado em sonhos profundos... 
Falava sozinho e com a msica. Passado um instante, abriu uma 
gaveta e tirou um velho livro, com as folhas amarelecidas 
pelos anos. . . Folheou-o devagar. 
- Veja - disse ele para Oflia -, um dos livros que 
pertenceu  minha me;  a letra dela. Venha ver! Tirou isto 
do Requiem de Mozart, e arranjou-o para ela. 
Oflia levantou-se e foi ver. 
- Cantava isto muitas vezes - disse Saint-Clare -, 
parece que ainda a estou a ouvir. 
Tocou alguns acordes vibrantes, e comeou a cantar a 
antiga prosa em latim:
Dies irae, etc. 
Houve alguns instantes de silncio; o rosto de Saint-Clare 
apresen tava traos de fadiga, e tinha uma expresso triste e 
sonhadora. 
- No sei o que me faz esta noite pensar tanto na minha 
me. Sinto uma espcie de ternura, como se ela estivesse ao 
p de mim. Lembro-me de tudo quanto costumava dizer-me. . .  
estranho como s vezes o passado nos volta  memria com 
tanta nitidez.
Saint-Clare deu ainda alguns passos no salo. 
- Vou dar uma volta. . . Saber o que se diz por a. 
P[161]
 Pegou no chapu e saiu do salo. 
Tom seguiu-o at  porta do ptio e perguntou-lhe se 
queria que fosse com ele. 
- No, meu velho, eu no me demoro. . . 
O pai Toms sentou-se na varanda. 
Estava uma noite esplndida: Tom olhava para o repuxo, 
que rebrilhava sob os raios da lua cheia. . . escutava o 
sussurro da gua. . . e pensava na famlia e na casa. . . 
Dizia para consigo que dentro de pouco tempo seria livre. . . 
que poderia voltar a v-los. . . dizia que  fora de 
trabalho resgataria a mulher e os filhos. . . Sentia uma 
grande satisfao por ter os braos fortes e musculosos, 
imaginando que em breve esses braos lhe pertenceriam, e 
poderiam comprar a liberdade da familia. . . Pensou no seu 
jovem senhor, e rezou por ele a Deus a sua orao preferida. 
. . Depois, lembrou-se ainda da bela Evangelina, que estava 
agora entre os anjos. . . e da a pouco pareceu-lhe que 
aquele rosto radioso e aqueles cabelos de ouro saam da 
espuma prateada da fonte e vinham ter com ele. . . Adormeceu 
e sonhou que a via correr ao seu encontro, leve e saltitante 
como outrora. . com uma grinalda dejasmins nos cabelos, as 
faces coradas e os olhos brilhantes de alegria. Depois, 
enquanto a contemplava, ela ergueu- se lentamente do cho, as 
faces empalideceram, os olhos profundos ficaram com um fulgor 
divino, e um nimbo dourado cercava-lhe a cabea. . . E a 
viso desvaneceu-se. 
Tom foi acordado por fortes pancadas na porta e por um 
rudo de vozes e passos pesados. 
Correu a abrir. E entraram uns homens que traziam numa 
maca um corpo embrulhado num capote. A luz de uma lanterna 
bateu-lhe em cheio no rosto. . . Tom deu um enorme grito. . . 
um grito de espanto e desespero, que se ouviu em toda a casa. 
Os homens avanaram com o corpo at  porta do salo onde 
Oflia fazia malha. 
Saint-Clare entrara num caf para ler ojornal da tarde. 
Houve uma discusso entre dois homens, um pouco excitados 
pelo lcool. Saint-Clare e mais algumas pessoas quiseram 
separ-los. Ao tentar desarmar um deles, Agostinho recebera 
uma navalhada no peito. 
Depressa a casa se encheu de gemidos, de lgrimas, 
gritos e lamentos; os escravos desesperados arrancavam os 
cabelos, atirando-se para o cho, ou corriam, desvairados, em 
todas as direces. Maria deu gritos nervosos: Tom e Oflia 
eram os nicos que mantinham o sangue-frio. Oflia mandou 
dispor dois sofs no salo, onde estenderam o ferido, que 
sangrava. A Menina Oflia deu-lhe sais a respirar. Ele voltou 
a si. . . abriu os olhos, percorreu-os pela sala, e fixou-os 
finalmente no retrato da me. 
O mdico chegou e fez o seu exame. Depressa se 
compreendeu, pela sua expresso, que no havia esperana. Nem 
por isso ps menos
P[162]
 cuidado no tratamento da ferida, com a ajuda de Oflia e de 
Tom. Os escravos, desolados, apinhavam-se s portas, chorando 
e soluando. 
Saint-Clare abriu os olhos e olhou fixamente os pobres 
seres que Oflia e o mdico tentavam fazer sair do salo. 
- Pobre gente - disse ele, e viu-se no seu rosto a sombra de 
um remorso. Adolfo recusou-se a sair. O terror transtornara-o 
completamente; deitou-se no cho, e nada conseguiu faz-lo 
levantar-se. Os outros cederam s recomendaes da Menina 
Oflia e retiraram-se, pensando que a salvao do seu senhor 
dependia da sua obedincia e calma. 
Saint-Clare mal podia falar. . . Tinha os olhos 
fechados; mas adivinhava-se bem a amargura dos seus 
pensamentos. Passados uns instantes, ps a mo na mo de Tom, 
ajoelhado ao p dele. 
- Tom! Pobre Tom!
- Meu senhor?
- Eu morro - disse Saint-Clare pegando-lhe na mo. - 
Reza! 
As palavras que cantara naquela noite voltavam-lhe  memria. 
. . palavras de splica, dirigidas  misericrdia divina. 
Ainda entreabriu os lbios, e pronunciou alguns fragmentos do 
hino. . . 
- Est a perder a razo - disse o mdico. 
- Pelo contrrio, encontro-a finalmente - disse Saint-
Clare, com energia. - Finalmente, finalmente!
Este ltimo esforo esgotou-o. A palidez da morte 
espalhou-se no seu rosto e, com ela, como descendo das asas 
de um piedoso anjo, uma expresso de paz e de calma. 
Ficou alguns momentos imvel. 
Antes da alma se libertar, abriu ainda os olhos. Teve um 
lampejo de alegria, a alegria que se sente ao reconhecer os 
entes queridos. . . Murmurou Minha me.
Tudo estava acabado. 

Captulo XXIV
OS ABANDONADOS
Quando Saint-Clare soltou o ltimo suspiro, o terror e a 
consternao apoderaram-se de toda a casa. Ele tombara de 
repente, na fora da vida. S se ouviam soluos e gritos de 
desespero. Maria, com os nervos abatidos pela permanente 
inrcia da sua vida, era incapaz de suportar semelhante 
golpe. Durante a agonia do marido, sara de um torpor para 
cair noutro. E aquele a quem estivera unida pelos laos 
sagrados do matrimnio, abandonou-a para sempre, sem terem 
trocado uma palavra de adeus!
P[164]
 Oflia, com a fora e domnio de si prpria que a 
caracterizavam, no tinha deixado o primo um s instante. Era 
toda olhos, toda ouvidos, cuidados. . Fez tudo o que era 
preciso fazer e, do fundo do seu corao, aliava-se s ternas 
e fervorosas oraes que o pobre escravo enviava a Deus pela 
alma do seu senhor agonizante. 
As cerimnias fnebres realizaram-se com profuso de 
crepes e panejamentos pretos. . . oraes. . . rostos 
solenes. . . Depois, as ondas sombrias da vida diria 
deslizaram novamente sobre o seu leito pantanoso. . . em 
seguida surgiu a triste e eterna pergunta: que fazer?
Era no que pensava Maria, toda vestida de negro, no meio 
de escravos inquietos, sentada no cadeiro almofadado, 
escolhendo amostras de crepe e de malha de seda. 
Era tambm no que pensava a Menina Oflia, cujas ideias 
se voltavam j para a sua casa no Norte. 
Era no que pensavam tambm, cheios de pavor, aqueles 
escravos que conheciam o carcter tirnico e impiedoso da 
senhora em cujas mos tinham cado. . . Sabiam bem que a 
indulgncia com que tinham sido tratados no vinha da 
senhora, mas do senhor e que, na ausncia dele, j no havia 
obstculos protectores entre eles e as exigncias de uma 
mulher aguilhoada pela dor. 
O pai Toms, sonhando, estava na varanda. Veio ter com 
ele Adolfo, abatido e desolado desde a morte do senhor. 
Adolfo sabia bem que sempre desagradara a Maria; enquanto o 
senhor fora vivo, nunca se preocupara com isso; agora vivia 
num perptuo anseio, sem saber o que lhe iria acontecer. 
Maria tivera vrias conferncias com os seus 
procuradores. Depois de ouvir a opinio do cunhado, resolveu 
vender a casa e todos os seus escravos, conservando apenas 
aqueles que trouxera quando casara: a esses, levava-os 
consigo para casa do pai. 
- Sabes, Toms - disse Adolfo -, que vamos ser todos 
vendidos?
- Quem foi que te disse?
- Escondi-me atrs do reposteiro e ouvi a senhora a 
falar com o procurador. . . Daqui a uns dias levam-nos ao 
mercado!
- Seja feita a vontade de Deus - disse Tom cruzando os 
braos e soltando um profundo suspiro. 
- Nunca mais teremos um senhor to bom como o nosso - 
disse Adolfo, apreensivo. - Mas eu prefiro ser vendido a 
ficar com a senhora. 
Tom afastou-se, com o corao cheio de amargura. A 
esperana de liberdade, a ideia de ver a mulher e os filhos 
tinham surgido na sua alma paciente, como perante os olhos de 
um marinheiro que naufraga  vista do porto, surge a torre da 
igreja e os telhados da aldeia natal, por entre
P[165]
 as vagas sombrias, como para lhe dizerem um ltimo adeus. 
Tom apertou mais os braos de encontro ao peito. . Engoliu as 
lgrimas amargas e tentou rezar. O pobre escravo sentia agora 
um desejo de liberdade to irresistvel, que quanto mais 
repetia Senhor, que seja feita a tua vontade! maior era o seu 
desespero. 
Foi ter com a Menina Oflia, que desde a morte de Eva o 
tratava com atenciosa bondade. 
- Menina Oflia - disse-lhe ele -, o Senhor Saint-Clare 
tinha-me prometido a liberdade. e agora, se a menina quisesse 
ter a bondade de falar nisso  Senhora. . talvez a senhora 
estivesse disposta a cumprir a palavra do Senhor Saint-Clare. 
. . 
- Falarei em teu nome, Tom, o melhor que puder. Se isso 
depende da Senhora Saint-Clare, no espero conseguir grande 
coisa, mas, enfim, tentarei. 
Esta conversa passava-se enquanto Oflia fazia os seus 
preparativos para regressar ao Norte. 
Pegou na sua malha e dirigiu-se ao quarto de Maria, 
resolvida a mostrar-se o mais amvel possvel e a tratar do 
caso de Tom com toda a habilidade da sua diplomacia. 
Encontrou Maria estendida num sof, com o cotovelo sobre 
as almofadas. Jane, que tinha ido fazer compras, expunha na 
sua frente amostras de tecidos um pouco mais claros. 
- Gosto desta - disse Maria, depois de escolher -, mas 
no sei se serve para luto. 
- Ento no serve, minha senhora? - exclamou Jane, com 
-vontade -, a senhora do general Daubernon usava isto o ano 
passado, depois da morte do marido, e ficava-lhe muito bem. 
- Que acha, Oflia?
-  um assunto de modas e, nesse campo, a prima percebe 
mais do que eu. 
- O caso - disse Maria -,  que no tenho que vestir. . 
. Vou-me embora para a semana, e tenho de decidir. 
- Ah, parte j?
- Sim, o irmo de Saint-Clare escreveu-me e acha, como o 
procurador, que devo vender agora a moblia e os escravos. . 
. Quanto  casa, espero por uma ocasio mais favorvel. 
- H uma coisa - disse a Menina Oflia - de que eu lhe 
queria falar. O Agostinho prometeu a liberdade ao Tom. tinha 
at preenchido as primeiras formalidades. . . julgo que a 
prima as terminar. . . 
- Nunca o farei - disse com azedume a Senhora Saint-
Clare. O Tom  um dos nossos melhores escravos e mais caros. 
. . No! No! E depois, para que quer ele a liberdade?. . .  
muito mais feliz assim!
- Deseja ardentemente ser livre, e o Agostinho prometeu- 
lhe. . . 
P[166]
 - Meu Deus! Sim, deseja, desejam-na todos. . . essa raa de 
ambi ciosos, que querem sempre aquilo que no tm. Em 
princpio, sou contra a emancipao, seja em que caso for. 
Temos um negro  nossa guarda, e ele trabalha e porta-se como 
deve ser; quando se manda embora, torna-se preguioso, no 
quer trabalhar, embriaga-se. . . e fica insuportvel. Vi 
centenas de exemplos desses. . . No hrazo nenhuma para os 
libertar!. . . 
- Mas o Tom  to sossegado, to religioso, to capaz. . 
. 
- No precisa de mo dizer. . . Vi centenas como ele; 
enquanto for dirigido, mais nada. 
- E se, quando o vender, ele cai nas mos de um mau 
senhor?
- Palavras! Entre cem senhores, h um mau. Os senhores 
so muito melhores do que se julga. . . Eu nasci e fui criada 
no Sul. . . e nunca vi nenhum senhor que no tratasse os 
escravos convenientemente. . . Nesse aspecto, no tenho o 
menor receio. 
- Seja! - continuou Oflia, com firmeza -, mas eu sei 
que uma das ltimas vontades do seu marido era conceder a 
liberdade a Tom. Foi uma das promessas que fez junto do leito 
de morte da nossa querida Eva. . . e no creio que a prima v 
faltar a ela. . . 
A estas palavras Maria escondeu o rosto no leno, 
soluou, e aspirou com mais fora o frasco de sais. 
- So todos contra mim - disse ela -, no respeitam 
coisa nenhuma. . . Nunca pensei que a prima me fizesse 
recordar dessa forma os meus infortnios. . .  uma falta de 
considerao. . . Ningum tem considerao por mim! Sou muito 
infeliz! Tinha uma filha nica. . . e perdi-a! Tinha um 
marido que me agradava - e nem toda a gente consegue agradar-
me Perdi-o tambm, e a prima  to cruel que me traz  
memria essas recordaes, sabendo muito bem que me 
atormentam. . . Talvez esteja cheia de boas intenes, mas  
muito imprudente!
E Maria soluou at perder o flego e chamou a Mammy 
para abrir ajanela, dar-lhe o frasco de cnfora, friccionar-
lhe a testa, desapertar-lhe o vestido. . . Foi um momento de 
confuso de que a Menina Oflia aproveitou para voltar para o 
seu quarto. 
Oflia viu bem que tudo era intil. A Senhora Saint-
Clare tinha argumentos inesgotveis nos seus ataques de 
nervos: era a sua resposta quando lhe recordavam as promessas 
da filha e do marido. A Menina Oflia fez a nica coisa que 
lhe restava fazer: escreveu ao Senhor Shelby, contando a 
desgraa de Tom, e reclamando ajuda imediata. 
No dia seguinte, Tom, Adolfo, e meia-dzia de outros 
negros, foram levados ao mercado de escravos para que o 
traficante fizesse um lote com eles. 
P[167)
 Captulo XXV
O MERCADO DE ESCRAVOS
Um ou dois dias depois da conversa que narrmos entre 
Maria e a Menina oflia, Tom, Adolfo e meia-dzia de outros 
escravos que tinham pertencido a Saint-Clare foram entregues 
ao cuidado do Senhor Skeggs, que possua um entreposto na Rua 
de * * *, para serem leiloados no dia seguinte. 
Tom, como muitos outros, tinha uma mala com as suas 
coisas. 
Para passarem a noite, os escravos foram metidos numa grande 
casa onde se encontravam reunidos muitos outros homens de 
todas as idades, tamanhos e cores, e de onde partiam 
gargalhadas estrondosas. 
- Ah! Muito bem! Continuem, rapazes, continuem! - disse 
Skeggs. - A minha gente est sempre alegre!. . . Sambo, quem 
est a fazer todo este barulho?
Sambo era um enorme negro que se entregava a toda a 
espcie de palhaadas, alegrando muito os seus companheiros. 
 fcil de calcular que o pai Toms no estava com 
disposio para compartilhar daquela alegria. Ps a mala o 
mais longe possvel do grupo turbulento, sentou-se em cima 
dela e apoiou a cara de encontro  parede. 
Os que se dedicam ao comrcio de mercadoria humana 
esforam-se, com perseverana sistemtica, por manter entre 
os escravos uma alegria ruidosa:  a forma de lhes embotar os 
pensamentos e torn-los insensveis s suas desgraas. O 
objectivo do traficante, desde a hora em que comprou o negro 
nos mercados do Norte para o vender no mercado do Sul,  
torn-lo insensvel, indiferente, brutal. O traficante 
completa a sua carga na Virgnia e em Kentucky; leva-a depois 
para qualquer lugar conveniente, saudvel, muitas vezes para 
as guas, a fim de a engordar. Deixam comer os negros  
discrio e como alguns caem em tristeza, o mercador tem o 
cuidado de arranjar uma viola, e p-los a danar. E aquele 
que no quer divertir-se, aquele cujos pensamentos se voltam 
demasiado para a mulher, os filhos, a casa. . . e no 
consegue alegrar-se,  olhado como elemento perigoso e fazem-
no sofrer todos os vexames que pode inventar a m vontade de 
um senhor cruel e sem escrpulos. A despreocupao, o 
descaramento, a alegria, sobretudo quando h testemunhas,  o 
que se exige dos escravos. Espera-se desta forma encontrar um 
bom comprador, e no se receiam perdas conside rveis. 
- Que faz aqui este negro? - perguntou Sambo, dirigindo-
se a Tom quando Skeggs abandonou a casa. 
P[168]
 Sambo era preto como o bano, alto, alegre, falava com 
facilidade e fazia toda a espcie de graas e caretas. 
- Que fazes a? - perguntou, avanando para Tom, e 
dando-lhe um soco nas costas,  laia de brincadeira. . . - 
Ests a pensar, h?
- Estou a pensar que vou ser vendido em leilo! - disse 
Tom, calmamente. 
- Vendido em leilo. Ah Ah, rapazes, esta tem graa. Vej 
am se no d vontade de rir!. . . E aqui o teu companheiro, 
tambm vai ser vendido amanh? - perguntou Sambo, pondo 
familiarmente a mo no ombro de Adolfo. 
- Deixe-me, faz favor - disse Adolfo altivamente, 
recuando com nojo. 
- Ah! Ah, rapazes, aqui est um verdadeiro exemplar de 
preto-branco. branco como a neve e que cheira bem - disse ele 
avanando mais uma vez e cheirando Adolfo. - Est mesmo a 
calhar para um vendedor de tabaco!. . . Perfumava a loja e a 
mercadoria!
- J disse que me deixasses - exclamou Adolfo, furioso. 
- Como vocs so melindrosos, os pretos-brancos. J no 
se pode tocar-lhes, vejam!
E Sambo imitou grotescamente os modos de Adolfo. 
- Que ares, que elegncia! - continuou ele. - V-se que 
vem de uma boa casa. 
-  verdade. Eu tinha um senhor que os podia comprar a 
todos, se quisesse!
- Esto a ver? Devia ser um grande senhor. 
- Eu pertencia  famlia Saint-Clare - disse Adolfo, com 
ar orgulhoso. 
- No me digas. O teu dono deve ficar muito satisfeito 
por se ver livre de ti. Vai com certeza vender-te com um lote 
de porcelana partida
- disse Sambo, juntando s palavras uma careta de troa. 
Adolfo, fora de si com o insulto, atirou-se ao adversrio, 
rogando pragas e dando socos para a esquerda e para a 
direita. . . O grupo ria e aplaudia. Atrado pelo barulho, 
chegou o dono do entreposto. 
- Que vem a ser isto, rapazes? Calma, calma! - disse 
ele, brandindo um comprido chicote. 
Os escravos fugiram em todas as direces, com excepo 
de Sambo que, fiando-se nos seus privilgios de bobo oficial, 
ficou quieto, baixando a cabea cada vez que o senhor o 
ameaava. 
- No fomos ns, senhor, no fomos ns. . Ns estvamos 
muito sossegados! Foram os novos. No nos largam; esto 
sempre a meter-se com a gente. 
P[169]
 O senhor voltou-se para Tom e Adolfo, pregou-lhes alguns 
pontaps e descomposturas, sem querer saber de mais nada e, 
depois de ordenar a todos que tivessem juzo e se fossem 
deitar, retirou-se. 

Sob uma cpula esplndida, no pavimento de mrmore, 
passeavam homens de todas as nacionalidades. Em toda a volta 
do recinto circular estavam levantadas tribunas para os 
pregoeiros e agentes de leiles. Duas dessas tribunas, 
colocadas em extremidades opostas do recinto, eram ocupadas 
por senhores bem falantes que, com uma eloquncia misturada 
de francs e ingls, se esforavam por fazer subir os lances 
dos compradores; um terceiro estrado, ainda vazio, erguia-se 
no meio de um grupo que esperava o incio do leilo. Entre 
eles podiam ver-se os escravos de Saint-Clare, Tom, Adolfo, e 
os restantes; e,  espera da sua vez, diversos espectadores 
que iam comprar, ou no comprar. . . conforme quisessem, 
apinhados em volta do grupo. Olhavam, discutiam. . . como 
jogadores de corridas fariam em volta de cavalos!
- Ol, Alfredo, que te traz por c? - disse um homem 
elegante, dando uma palmada nas costas de um jovem vestido 
com o maior requinte, que observava Adolfo atravs de uma 
luneta. 
- Ah, preciso de um criado de quarto. . . Ouvi dizer que 
iam vender os escravos de Saint-Clare. Achei que um deles me 
servia. 
- Deus me livre de comprar os escravos de Saint-Clare. . 
Esto mal habituados, e so orgulhosos como o diabo!
- Ah, descanse!. . . Se eu os comprar, emendam-se num 
instante! Ficam logo a saber que eu no sou como o Saint-
Clare. . . Vou comprar aquele. Tem bom ar. 
- Aquele?  completamente doido! Vai roubar-lhe tudo 
para se vestir. . . Ver!
- Logo  primeira, fica a saber que no se pode fazer 
fino comigo. Mando-o  casa de correco uma vez ou duas, e 
perde logo o costume. Depois eu conto-lhe. Domestico- o em 
dois tempos. Vou compr-lo, est resolvido.
Entretanto, o pai Toms estava ali, pensativo, olhando 
para todos aqueles rostos em sua volta, perguntando a si 
prprio qual preferia para seu dono. Tom viu muitos homens, 
altos, baixos, gordos, magros, redondos, quadrados, de todas 
as espcies e feitios. . . Viu sobretudo homens vulgares e 
grosseiros, daqueles que juntam os seus semelhantes como quem 
junta cavacos para fazer uma fogueira, sem lhes ligar 
importncia! No viu ningum que se parecesse com Saint-
Clare.
Alguns momentos antes da venda, um homem atarracado, 
gordo e balofo, com a camisa rota aberta no peito, de calas 
sujas e usadas, abriu caminho entre a multido, dando 
cotoveladas, como quem est cheio
P[ 170]
 de pressa. Aproximou-se do grupo e entregou-se a um exame 
minucioso. 
Mal o viu, Tom sentiu por ele uma invencvel repulsa. 
Este sentimento aumentava  medida que o homem se aproximava 
dele. Embora fosse baixo, adivinhava-se nele uma fora 
atltica. Tinha a cabea redonda como uma bola, grandes olhos 
verdes-acinzentados, ensombrados por sobrancelhas amareladas 
e espessas, cabelos rijos e encarnados. Como se v, tais 
predicados no eram atraentes. Tinha a face inchada por uma 
bola de tabaco de mascar, e cuspia de vez em quando a saliva 
com fora e deciso. As mos eram de um tamanho descomunal, 
calosas, peludas, queimadas do sol, e terminadas por unhas 
suj as. 
Este homem examinou o lote de escravos com o maior -
vontade. Levantou o queixo a Tom, mandou abrir a boca para 
lhe ver os dentes, e estender os braos para lhe apalpar os 
msculos. . . Andou em volta dele, e obrigou-o a saltar em 
comprimento e em altura, para saber a fora das pernas. 
- Onde foste criado? - perguntou secamente. 
- Em Kentucky - respondeu Tom, que olhava em volta, como 
a pedir ajuda. 
- Que fazias?
- Tratava da quinta. 
- Sempre a mesma histria! - E passou adiante. 
Comeou a venda. 
Adolfo foi arrematado, por uma quantia bastante grande, 
pelo jovem que mostrara interesse em compr-lo. Os outros 
escravos de Saint-Clare passaram para as mos de diversos 
compradores. 
-  a tua vez - gritou o vendedor a Tom. - Vamos, ests 
a ouvir? 
Tom subiu para o estrado, lanando em redor olhares 
inquietos. Ouviu-se um rudo confuso, surdo, onde no se 
podiam distinguir as palavras. A voz aguda do pregoeiro, que 
gritava as suas qualidades em ingls e francs, misturava-se 
ao tumulto dos lances em ambas as lnguas. 
Finalmente, o manelo deu uma pancada, e ouviu-se ntida 
e clara a ltima silaba da palavra dlares Tom estava 
arrematado; j tinha dono. 
Desceu o estrado. O homem da cabea redonda agarrou-o 
brutalmente pelo ombro, empurrou-o para um canto, e disse-lhe 
com voz rude:
- Fica a quieto.
O novo senhor chamava-se Legree, e tinha uma plantao 
nas margens do rio Vermelho. 
P[171]
 Captulo XXVI
A TRA VESSIA
No fundo de um barco que subia o rio Vermelho estava sentado 
o pai Toms, com algemas nos pulsos e grilhetas nos ps. . . 
e no corao um frio mais pesado do que as correntes. Para 
ele, tinham-se apagado todas as luzes do cu, a Lua e as 
estrelas; e diante dos seus olhos, como as rvores, todos os 
seus sonhos fugiam para sempre: as terras de Kentucky, a 
mulher e os filhos, e a casa de Saint- Clare, com todo o seu 
esplendor e opulncia, a loira cabea de Eva, aquele olhar 
angelical, e Saint-Clare, nobre e altivo, triunfante, belo, 
negligente s vezes, mas sempre bom, e as horas de calma 
indulgente. tudo isso tinha acabado, acabado para sempre; e 
em seu lugar, que ficava?
 esse um dos grandes males da escravatura. Um negro 
simptico e atraente cai no meio de uma familia distinta, 
adquire sentimentos e o gosto por uma atmosfera de luxo; 
depois passa para outras mos grosseiras e brutais, como o 
mvel que decorou outrora um soberbo salo, sujo e aviltado, 
vai servir de balco numa taberna. . ou pior ainda! H 
contudo uma diferena: a cadeira ou a mesa no podem sentir, 
mas o homem sente. No entanto  em vo que a lei o deixa ser 
avaliado; vendido e tratado como um mvel. No  possvel 
tirar-lhe a alma, nem acabar com o mundo de recordaes, de 
esperana, de amor, de medos e desejos que ela traz em si. 
Quando Simon Legree, o novo senhor de Tom, acabou de 
comprar, aqui e alm, em Nova Orlees, oito escravos, levou-
os com algemas nos pulsos, e acorrentados aos pares, para 
bordo do navio Pirata, que estava ancorado no porto, pronto 
para subir o rio Vermelho. 
Legree embarcou-os e o navio partiu. 
Ento, mestre Legree, que j conhecemos, quis pass-los 
em revista. Parou em frente de Tom. Tinham vestido a Tom o 
melhor dos seus trajes para o leilo. Exibia uma bela camisa 
engomada e botas engraxadas. Legree dirigiu-se a ele nestes 
termos: 
- Levanta-te!
Tom levantou-se. 
- Despe isso!
E como o pai Toms, embaraado pelas algemas, no 
conseguiu despir-se to depressa como ele queria, ajudou-o, 
arrancando brutalmente o colarinho, que meteu na algibeira. 
A seguir, foi  mala de Tom, que j tivera o cuidado de 
revistar, tirou um velho par de calas e um casaco rasgado, 
que Tom s punha quando ia  cavalaria. O senhor 
desembaraou o escravo dos fatos, mostrando-lhe uma espcie 
de nicho atrs dos fardos, disse:
P[172)
 - Vai ali vestir isto.
Tom obedeceu e voltou passados uns instantes. 
- Descala as botas.
Tom descalou-se. 
- Toma! - disse Legree, atirando-lhe um par de sapatos 
velhos. - Cala isto
O pai Toms, apesar da rapidez desta mudana de traje, 
conseguira passar a sua querida Bblia de uma algibeira para 
a outra. Em boa hora, porque Legree, depois de lhe tornar a 
pr as algemas, comeou a inspeco do contedo das 
algibeiras. Retirou um leno de seda que guardou para ele, 
diversas bagatelas, tesouros recolhidos por Tom porque tinham 
feito a alegria de Eva, foram alvo de troa da parte do 
mercador, que os atirou  gua. 
Na sua precipitao, o negro esquecera o seu livro de 
cnticos metodistas; Legree apanhou-o e virou algumas folhas. 
- Com que ento, crente?. Como  o teu nome de baptismo? 
Vais  igreja, no?
- Sim, senhor - respondeu Tom, com firmeza. 
- Pois bem, vais deixar de ser. . . No quero na minha 
casa pretos que cantam, rezam, e gritam. . . Lembra-te disto, 
e toma cuidado! - E, dizendo estas palavras, bateu 
violentamente com o p, lanando a Toms um olhar feroz. - 
Agora sou eu a tua igreja, ouviste? Vais obedecer-me!
Olhou um instante a fisionomia triste do pai Toms e 
foi-se embora. Pegou na mala do escravo, que continha uma 
grande proviso de roupa limpa, e dirigiu-se para a proa do 
navio, onde da a pouco foi cercado pelos empregados de 
bordo. Ento, rindo muito dos negros que querem armar em 
senhores, vendeu tudo o que havia dentro da mala e, por fim, 
a prpria mala. E acharam todos que era uma boa partida, e 
divertiam-se muito a ver a maneira como Tom olhava para as 
suas coisas, que eram distribudas para a direita e para a 
esquerda. O leilo da mala foi considerado a maior partida do 
mundo, e provocou uma quantidade de ditos espirituosos. 
Quando tudo acabou, Simon voltou para junto da sua 
mercadoria. 
- Agora, Tom, j viste que te libertei de toda a bagagem 
intil. Tem cuidado com a tua roupa, porque to depressa no 
tens outra. Gosto que os meus negros poupem a roupa. Na minha 
casa a roupa dura um ano. Vocs, vocs todos - disse ele 
recuando um ou dois passos -, olhem bem para mim! Olhem-me 
nos olhos!. . . A direito!. . . Assim!
E batia com o p a cada palavra. 
Como se estivessem hipnotizados, todos fixaram os seus 
olhos cinzentos e brilhantes. 
P[173]
 - Agora - disse ele fechando o enorme punho, que parecia o 
manelo de um ferrador - vem este punho? Experimentem-lhe o 
peso!. . 
E deu um soco na mo de Toms. 
- Vejam estes ossos! Previno-os de que este punho  pior 
do que um martelo a atirar com os negros ao cho. Ainda no 
houve um que eu no deitasse abaixo s com um soco. 
E brandiu o punho to perto da cara de Tom, que este 
recuou, fechando os olhos. 
- No tenho vigilantes. . . O vigilante sou eu, e 
previno-os de que nada me escapa. Tm de andar muito 
direitinhos, e depressa, assim que eu mando. Comigo no h 
outra forma! No esperem a menor condescendncia, porque sou 
impiedoso. 
As pobres mulheres nem ousavam respirar; todo o grupo de 
escravos se sentou no cho, apavorado e inquieto. O senhor 
voltou as costas. . . e foi beber um copo!
-  assim que eu trato os meus negros - disse a um homem 
de aspecto distinto, que parara ao p dele durante o 
discurso. -  o meu sistema. . . Comeo logo por ser 
enrgico.  preciso que eles saibam o que os espera. 
- Na verdade! - disse o homem, que o olhava com a 
curiosidade com que um naturalista observa um fenmeno. 
- No sou como esses plantadores de dedos brancos e 
delicados, que se deixm intrujar e roubar pelos feitores. 
Veja as minhas articulaes, h? Veja o meu punho! Veja isto! 
A carne ficou dura como pedra, endureceu a bater nos pretos. 
. . Veja!
O estranho ps o dedo no lugar que o outro lhe indicou e 
disse apenas: 
-  realmente duro! - Depois acrescentou:
- A prtica tornou-lhe com certeza o corao to duro 
como o punho. 
- Posso gabar-me disso - exclamou Simon, rindo s 
gargalhadas. 
- Ningum me convence, nem com gritos, nem com gemidos. 
- Tem aqui uma boa coleco!
- Tenho! - disse Simon. - Aquele, o Tom, parece que  
uma pea rara. Paguei-o por um bom preo, para ser meu 
cocheiro ou capataz. O nico contra  no querer ser tratado 
como os negros devem ser tratados. . . mas isso passa-lhe. . 
. Aquela mulata  um pouco doente, mas foi barata. . . Pode 
durar um ou dois anos, porque eu no poupo os meus escravos. 
. . Era o que me faltava! Tiro deles o mximo, e depois 
compro outros. D menos preocupaes e menos despesa. 
- Quanto tempo duram, em geral?
- No sei dizer muito bem. Depende da sua constituio. 
Os mais fortes duram seis ou sete anos, os outros ficam 
arrumados em dois ou
P[ 174)
 trs anos. Nos primeiros tempos, eu fazia tudo para os 
conservar. Quando estavam doentes, tratava-os, dava-lhes 
roupa, cobertores, enfm, tudo o que era preciso! Agora, 
doentes ou de sade, tm todos o mesmo regime. . . No valia 
a pena. Maava-me e acabava por perder o dinheiro. Agora, 
quando um preto morre, compro outro. . . Acho que sai mais 
barato. . . e  pelo menos mais cmodo!
O estranho afastou-se e foi sentar-se ao lado de um 
viajante que escutara esta conversa com revolta mal contida. 
O navio avanava, levando a sua carga de sofrimento. 
Subia a corrente lodosa e agitada, entre as sinuosidades 
abruptas e caprichosas do rio Vermelho. 
Finalmente, parou em frente de uma pequena cidade, e 
Legree desceu com o seu rebanho.


Captulo XXVII
LUGARES SOMBRIOS
O pai Toms e os companheiros alinharam atrs de um pesado 
veculo, e avanaram a custo por uma estrada pedregosa. 
Sentado no carro ia Simon Legree. As duas mulheres, 
ainda com algemas, foram atiradas para dentro do carro, 
juntamente com as bagagens. O cortejo dirigiu-se para a 
plantao de Legree, situada a certa distncia. 
Era um caminho deserto e selvagem, que deslizava, com 
imensas curvas, pelo meio de um bosque de pinheiros: o vento 
gemia nas ramagens; a ambos os lados da estrada coberta de 
troncos de rvores, os ciprestes, erguendo-se de um solo 
hmido e viscoso, deixavam cair as suas fnebres grinaldas de 
musgo esverdeado. Aqui e alm, serpentes horrveis rastejavam 
atravs das folhas secas e dos ramos cados, que apodreciam 
na gua. 
Era realmente um caminho apavorante e triste, mesmo para 
o homem que, montado num bom cavalo e com um bom farnel na 
mochila, o seguisse para ir tratar dos seus negcios. Quanto 
mais para aqueles desgraados que, marchando com dificuldade, 
a cada passo se afastavam de tudo o que amavam e desejavam. 
Teria sido este o sentimento de quem pudesse ver a 
expresso de abatimento, a profunda e melanclica tristeza 
dos pobres escravos, ao olharem a via dolorosa que se 
desenrolava na sua frente. 
Apenas Legree parecia encantado; de vez em quando tirava 
da algibeira um frasco de aguardente. 
P[175]
 Chegaram  vista da plantao. Pertencera primeiro a um 
senhor rico e de bom gosto, que a embelezara de maneira 
singular. Legree comprara a propriedade e servia-se dela, 
como se servia de tudo, para ganhar dinheiro. A plantao 
tinha por isso o ar devastado que toma a terra assim que 
passa de mos cuidadosas para mos desmazeladas. 
Em frente da casa, aquilo que fora em tempos um canteiro 
de relva cortada, cheio de rvores frondosas, no era agora 
mais do que um monto de ervas daninhas, de mistura com 
palha, cacos de garrafas e toda a espcie de imundcies. Aqui 
e alm a erva fora arrancada e os jasmineiros e as 
madressilvas murchavam suspensos das colunas meio tombadas 
pelos puxes dos cavalos que ali eram agora amarrados sem 
cerimnia. O vasto jardim estava invadido pelas ervas bravas, 
entre as quais surgia a espaos alguma flor extica solitria 
e despreocupada. As estufas j no tinham um nico vidro; nas 
prateleiras carcomidas viam-se ainda alguns vasos com flores 
secas, esquecidas. Caules partidos, folhas mortas, indicavam 
ainda que ali existira uma planta!
O carro seguiu pela alameda, outrora coberta de saibro, 
invadida hoje por toda a espcie de ervas, entre duas 
soberbas filas de rvores-da-china, cujas formas graciosas e 
as folhas sempre verdes pareciam ser a nica coisa que o 
desleixo do dono no pudera vencer, como aqueles nobres 
espritos, to enraizados no bem, que se desenvolvem e 
desabrocham mais fortes e mais belos no meio dos revezes e da 
desgraa. 
A casa era grande e bonita, construda no estilo que se 
encontra muito naquela regio da Amrica. Estava cercada em 
toda a volta por uma varanda de dois andares, para a qual 
davam todas as portas. A parte inferior assentava num bloco 
de tijolos vermelhos. 
Esta casa tinha o mesmo ar de profunda desolao. As 
janelas estavam tapadas com tbuas, algumas tinham um batente 
s, e outras uns trapos em vez de vidros. 
Tudo isto era assustadoramente revelador. 
O cho estava coberto de palha, de bocados de madeira, 
de restos de caixotes e de barris. Trs ou quatro ces de 
aspecto feroz, acordados pelo barulho das rodas, correram, 
prontos a atacar. . . Foi precisa toda a fora dos escravos 
da casa para os impedir de despedaarem Tom e os 
companheiros. 
- Vejam o que os espera - disse Legree, fazendo festas 
aos ces, com satisfao maldosa. E voltou-se para os 
escravos: - Vejam o que os espera, se tentarem fugir. Estes 
ces foram treinados para a caa ao negro. Comiam-nos 
inteiros. . . Por isso tenham cuidado! Ento, Sambo
- disse ele a um indivduo todo esfarrapado, com um chapu j 
sem abas, que veio logo para junto dele. - Como correram as 
coisas?
- Muito bem, meu senhor. 
P[176]
- Quimbo! - disse ele para outro negro que se esforava por 
chamar a ateno -, no te esqueceste do que te recomendei?
- No senhor!
Estes dois negros eram as principais personagens da 
casa; tinham sido treinados sistematicamente por Legree. 
Tornara-os to cruis e selvagens como os ces. Conseguira-o 
 fora de trabalho e exerccios. Eram o smbolo da 
ferocidade. 
Tem-se verificado que os vigilantes negros so muito 
mais cruis do que os brancos. Tira-se deste facto uma 
concluso desagradvel para a raa negra: isto prova que a 
raa negra est mais aviltada e degradada do que a raa 
branca, e a verdade  que o escravo, sej a de que raa for,  
um tirano em potncia!
Legree, como muitos potentados de que fala a Histria, 
governava os seus estados por meio do antagonismo de foras. 
Sambo e Quimbo odiavam-se cordialmente e, na plantao, eram 
ambos odiados por todos. E este odiava aquele, e odiavam os 
dois todos os outros, e todos os outros os odiavam! Assim, 
havia uma vigilncia geral e completa, estabelecida em 
proveito de Legree. Nada lhe escapava. 
Legree perntia aos seus dois satlites uma certa 
familiaridade com ele, familiaridade essa que podia ser 
perigosa para eles; porque  menor provocao, ao menor sinal 
do senhor, cada um deles estava disposto a estrangular o 
outro. Vendo-os ao p de Legree, ficava mais que provado que 
o homem brutal  mais brutal que a fera. As suas caras 
negras, pesadas e duras, os grandes olhos que se espiavam 
mutuamente, cheios de inveja, as vozes roucas e bestiais, os 
trajes em farrapos, flutuando ao vento. . . tudo estava em 
harmonia perfeita com o aspecto geral do meio em que se 
encontravam. 
- Tu, Sambo - disse Legree -, leva estes rapazes para as 
cabanas. Aqui tens uma mulher que comprei para ti - 
acrescentou ele, mostrando a mulata. - Tinha prometido 
trazer-te uma, lembras-te?
A mulher deu um salto para trs. 
-  meu senhor, eu deixei o meu pobre marido em Nova 
Orlees.
- E depois? Agora ficas com outro. Cala-te e anda para a 
frente! 
Legree pegou no chicote. 
Tom no conseguiu ouvir mais nada. Teve de seguir Sambo 
e dirigir- se para as cabanas. 
As cabanas formavam uma espcie de rua, dispostas em 
fila, a certa distncia da casa. Tinham um aspecto lgubre, 
triste e sujo. Tom sentia- se desfalecer. Alegrara-se com a 
ideia de uma pequena cabana, muito simples com certeza, mas 
onde poderia ter tranquilidade e calma, e at uma prateleira 
para pr a sua Biblia; enfim, um retiro onde pudesse pensar, 
depois das rudes horas de trabalho. Entrou em vrias cabanas. 
Eram apenas abrigos... Como nico mobilirio, um molho de 
palha
P[177]
 cheio de imundcies, espalhada no cho de terra batida, 
calcada por milhares de ps.
- Qual destas cabanas vai ser a minha? - perguntou a 
Sambo, em tom submisso. 
- No sei. . . talvez esta. . . Parece que ainda h 
lugar para mais um. Esto todas cheias de negros, no sei 
como vamos meter ainda mais. 
Era j tarde quando o rebanho dos trabalhadores voltou 
para as suas miserveis cabanas, homens e mulheres, vestidos 
de farrapos sujos e miserveis, pouco dispostos com certeza a 
ver com bons olhos os recm-chegados. O rudo que faziam era 
bastante desagradvel: vozes guturais e roucas discutiam em 
volta dos moinhos manuais, onde era preciso moer o mau gro 
destinado  triste e magra ceia. Tinham estado nos campos 
desde o amanhecer, dobrados sobre o trabalho duro, sob a 
ameaa do chicote vigilante do guarda. Era a poca mais 
terrvel do ano. . . a tarefa era urgente. . . e pretendia 
tirar-se o mximo rendimento de cada um. 
Enquanto o grupo desfilava, Tom procurava com os olhos 
se no haveria algum rosto socivel. Os homens estavam 
sombrios, miserveis, embrutecidos; as mulheres fracas, 
tristes, desiludidas. . . Os fortes tiranizavam os fracos. 
Era o egosmo brutal e grosseiro, de onde no pode sair nada 
de bom. Tratados como animais, aqueles desgraados tinham 
descido ao nvel mais baixo que pode atingir a natureza 
humana.
O ranger da roda prolongou-se pela noite dentro. Havia 
poucos moinhos e como os grandes empurravam os pequenos, a 
vez destes s chegou muito tarde. 
- Toma! - disse Sambo avanando para a mulata e pondo na 
sua frente um saco de milho -, como diabo te chamas?
- Lucy. 
- Pois agora, Lucy, s a minha mulher: tens de moer este 
milho e fazer-me a ceia; ouviste?
- No sou sua mulher, nem quero ser - disse Lucy, com a 
sbita e ardente coragem do desespero. - V-se embora!
- Nesse caso, apanhas um pontap - disse Sambo com um 
gesto ameaador. 
- Mate-me, se quiser. . . e quanto mais cedo, melhor. . 
. Eu prefiro morrer. 
-  assim que tu martirizas as pessoas, Sambo. Eu vou 
contar ao senhor - disse Quimbo, s voltas com o moinho, de 
onde expulsara duas ou trs infelizes mulheres que esperavam 
a sua vez. 
- E eu, velho preto - respondeu Sambo -, vou dizer-lhe 
que no deixas as mulheres servirem-se do moinho. Devias 
esperar a tua vez. 
Tom estava morto de cansao e de fome. 
P[ 178
 - Tu, toma - gritou-lhe Quimbo, atirando-lhe um saco de 
milho ordinrio. - Pega nisso, preto, e trata de o poupar, 
porque esta semana no te do outro. 
O pai Toms esperou muito tempo antes de poder servir-se 
do moinho. Com pena das duas mulheres que tentavam em vo 
fazer girar a roda, comeou a moer para elas, atiou o lume, 
onde j tinham sido cozidos tantos bolos de milho, e preparou 
a sua magra ceia. Tom fizera bem pouco por aquelas mulheres; 
mas uma obra de caridade, por pequena que fosse, era novidade 
para elas, e essa caridade tocou uma corda sensvel naqueles 
coraes. Uma expresso de ternura raiou-lhes no rosto: o 
instinto feminino acordara. . . E quiseram ser elas mesmas a 
preparar-lhe a ceia. Tom sentou-se ento ao p do lume e 
pegou na Bblia. . . Precisava muito de consolo. 

Captulo XXVIII
CASSY
No foi preciso muito tempo para que Tom soubesse o que 
tinha a esperar ou recear do seu gnero de vida; em tudo o 
que fazia, mostrava- se hbil e capaz. Por princpio e por 
hbito era trabalhador e fiel. Calmo e organizado, contava,  
fora de insistncia, afastar de si, pelo menos em parte, os 
aborrecimentos normais da sua posio. Assistia a bastantes 
vexames e injustias para se sentir triste e infeliz, mas 
tomara a resoluo de suportar tudo com religiosa pacincia, 
entregando- se quele cujos julgamentos so conformes com a 
justia. Dizia para consigo que talvez houvesse para ele uma 
esperana de salvao. 
Legree reparou nas boas qualidades de Tom; colocou-o 
imediatamente entre os escravos escolhidos, mas sentia uma 
espcie de averso por ele: a antipatia natural dos maus 
pelos bons. Irritava-se por ver que a sua violncia e 
brutalidade contra os fracos e infelizes era sempre notada 
por Tom. A opinio dos outros ataca-nos sem palavras, subtil 
como uma nuvem, e a opinio de um escravo pode incomodar o 
seu senhor. Legree, por seu turno, tinha inveja dessa 
comiserao e ternura de alma pela desgraa, desconhecida dos 
escravos, e que estes adivinhavam em Tom. Ao compr-lo, 
pensara fazer dele, mais tarde, uma espcie de vigil ante, a 
quem, nas suas ausncias, confiaria os negcios. Mas, na sua 
opinio, para esse lugar, a primeira, segunda e terceira 
condies, eram a dureza. E Tom no era duro. Legree 
pretendeu endurec-lo. Aps algumas semanas, comeou a sua 
educao. 
Certa manh, quando iam partir para o campo, a ateno 
de Tom foi atrada por uma recm-chegada, cuja figura e modos 
o impressionaram. 
P[179]
Era de uma beleza notvel, com roupas limpas e decentes. 
Devia ter entre trinta e quarenta anos. O rosto daqueles que 
nunca mais se esquecem, um daqueles rostos que  primeira 
vista nos levam a adivinhar histrias romanescas, cheias de 
terrores e lgrimas. 
De onde vinha? Quem era? Tom ignorava. Seguia ao seu 
lado, direita e soberba, sob a luz esbranquiada da aurora. 
Tom vivera sempre entre gente decente, e compreendeu por 
instinto que era a essa classe da sociedade que a escrava 
devia pertencer. Como e porqu cara to baixo, era o que ele 
no percebia. A mulher no lhe dirigiu nem um olhar, nem uma 
palavra, apesar de fazer ao lado dele todo o caminho, desde a 
aldeia at aos campos. 
Tom meteu imediatamente mos ao trabalho, mas como a 
mulher no se afastara muito, pde olh-la de vez em quando  
sucapa. Reparou que a sua habilidade e destreza lhe tornavam 
a tarefa muito mais fcil do que s outras. Trabalhava bem e 
depressa, mas com desdm, como se desprezasse, quer o seu 
trabalho, quer a sua condio actual. 
Nesse dia, Tom trabalhou ao lado de Lucy, a mulata 
comprada ao mesmo tempo que ele. Via-se que a mulher sofria 
muito: tinha tremuras e parecia que ia desmaiar a cada 
momento. 
Tom ouviu-a rezar. 
Aproximou-se sem dizer uma palavra e, tirando do saco 
alguns punhados de algodo, meteu-os no saco da pobre mulher. 
- No, no faa isso! - dizia a mulher. - Vai arranjar 
complicaes. 
Nesse momento, chegou Sambo. 
Detestava aquela mulher. Brandiu o chicote e gritou com 
voz rouca:
- Apanhei-te, Lucy. . . Fazes batota! - E pregou-lhe um 
pontap; calava grossas botas de cabedal. Quanto ao pobre 
Tom, marcou-lhe a cara com uma chicotada. 
O pai Toms voltou ao seu trabalho sem dizer uma 
palavra; mas a mulher, fatigada, e comovida, desmaiou. 
- J a fao acordar! - disse brutalmente Sambo. - Tenho 
aqui uma coisa muito melhor do que a cnfora. - E tirando um 
alfinete da manga do casaco, enterrou-o na carne da 
desgraada. Ela soltou um gemido e tentou erguer-se. - De p, 
animal! E trabalha!. . . 
A mulher pareceu recobrar por instantes novas energias. 
. . Ficou com uma fora sobrenatural, e trabalhou com o ardor 
do desespero. . . 
Tom desafiou mais uma vez o perigo e meteu todo o seu 
algodo no saco da mulher. 
- No, no! No deve fazer isso - dizia ela. - No 
calcula o que eles lhe fazem. 
- Eu aguento melhor do que voc. 
P[ 180]
 Tom voltou para o seu lugar. A cena durara uns instantes. De 
repente, a estranha escrava que durante o trabalho se 
aproximara de Tom, e que ouviu as ltimas palavras, levantou 
para eles os grandes olhos negros, e fixou-o uns segundos. E 
passou tambm a Tom alguns punhados de algodo. 
- No sabe onde est - disse ela -, seno no fazia 
isso. Daqui a um ms, no ter vontade de ajudar ningum. J 
basta que trate de si. 
O vigilante reparou, e correu para ela, brandindo o 
chicote. A mulher voltou ao trabalho. Trabalhava com uma 
velocidade prodigiosa. Tom estava espantado. O trabalho 
aparecia feito como por encanto. Antes de terminar o dia, 
enchera o cesto at  borda, bem arrumado e calcado. E 
contudo, viera vrias vezes em auxlio de Tom. 
Muito depois do pr do Sol, os escravos, cansados, com o 
cesto  cabea e marchando em fila, dirigiram-se ao armazm 
onde o algodo era pesado e guardado. 
Legree conversava animadamente com os seus dois 
vigilantes. 
- Tom vai arranjar-nos sarilhos. Vi-o a meter algodo no 
cesto da Lucy. Qualquer dia, convence os negros de que so 
mal tratados, se o senhor no tiver olho nele.
Era Sambo quem falava. 
- Diabos levem o maldito negro - exclamou Legree. - 
Temos de lhe dar uma lio, no  verdade, rapazes? A melhor 
maneira de lhe fazer perder essas ideias,  obrig-lo a ser 
ele mesmo a chicotear os outros. Tragam-no c. 
- Ah! A vem a Lucy, a escrava mais velhaca e atrevida 
que eu vi na minha vida - continuou Sambo. 
- Tem cuidado, Sambo, comeo a perceber o motivo do teu 
rancor contra a Lucy. 
- Ento, o senhor sabe que ela no quis obedecer, quando 
o senhor disse que passava a ser a minha mulher?
- O chicote f-la- obedecer - disse Legree, cuspindo 
para o lado. 
- Mas o trabalho  tanto, que no vale a pena bater-lhe 
agora!. . . Ela  magra; mas estas mulheres secas so capazes 
de se deixar matar para levarem a sua avante.
- Lucy  realmente uma grande velhaca - continuou Sambo, 
uma preguiosa que no quer fazer nada. . . Foi o Tom quem 
trabalhou por ela. 
- Ah, sim?. . . Ento vai ter o prazer de a chicotear. 
Ser uma boa lio para ele, e depois, no lhe bate com tanta 
brutalidade como vocs, diabos malditos!
Os miserveis tiveram um riso verdadeiramente diablico. 
Legree acertara na classificao. 
P[181]
 - O peso deve estar certo - disse Sambo. - O Tom e a menina 
Cassy encheram-lhe o cesto. 
- Quem verifica o peso sou eu! - disse Legree com 
nfase. 
E rogando uma praga, dirigiu-se  casa das pesagens. 
Lentamente, um a um, esgotados de fadiga, chegavam os 
trabalhadores, e com hesitao receosa, apresentavam os 
cestos. 
Legree tinha uma ardsia onde estava colada uma lista de 
nomes;  frente de cada nome, registava o peso. 
O cesto de Tom tinha o peso certo; Tom lanou um olhar 
inquieto  pobre mulher a quem ajudara. 
Fraca e cambaleante, Lucy aproximou-se e apresentou o 
seu cesto. O peso estava certo; Legree viu bem, mas fingindo-
se zangado, gritou:
- Minha grande preguiosa! Outra vez peso a menos!... 
Vai para ali. J resolvo o assunto. 
- Agora vem c tu, Tom. 
Tom aproximou-se. 
- Sabes que no te comprei para fazeres um trabalho 
qualquer, j te disse. A partir de hoje, passas a ser 
vigilante. E para te habituares, pega no chicote e castiga 
aquela mulher. Sabes como ; j deves ter visto!
- Perdo, meu senhor. Peo-lhe que no me obrigue a 
fazer esse servio. Nunca o fiz. . . nunca. . . E nunca o 
farei. No posso. . . no posso!
- Tens muito que aprender, antes de eu acabar contigo - 
disse Legree, pegando no chicote e dando com ele 
violentamente em cheio na cara de Tom, umas poucas de vezes. 
- E agora? - perguntou ele quando se cansou de bater -, 
ainda me vais dizer que no podes?
- Oh, meu senhor - respondeu Tom, limpando com a mo o 
sangue que lhe escorria da cara. - Sou capaz de trabalhar de 
dia e de noite, enquanto me restar um sopro de vida; mas 
isso, acho que no  justo, e nunca o farei, nunca!
Legree pareceu ficar primeiro estupefacto, confuso, mas 
por fim explodiu. 
- O qu, miservel animal? No achas justo fazer o que 
eu mando? Por acaso um rebanho de bestas pretas como vocs 
sabe o que  justo ou no ?. . . Eu acabo j com isso!. . . 
Quemjulgas tu que s?. . . Julgas-te algum cavalheiro, um 
senhor, o senhor Tom?. . . Atreves-te a ensinar ao teu dono 
aquilo que justo ou no? Pretendes ento que esta mulher no 
deve ser chicoteada?
- Pretendo! A pobre criatura  fraca e doente. . . Seria 
uma crueldade chicote-la. . . e nunca o farei. . . Mate-me, 
se quiser, mas levantar o brao seja para quem for. . . no! 
Antes morrer!
P[ 182]
 Tom continuava a falar com a sua voz suave e branda; mas era 
fcil ver at que ponto a sua resoluo era inabalvel. 
Legree tremia de fria; os seus olhos verdes deitavam 
fascas; tinha os cabelos das suas em p. . . Mas como 
alguns animais ferozes, que brincam com as suas vtimas antes 
de as devorarem, conteve primeiro a sua violncia e troou de 
Tom, com um riso amargo:
- Enfim - disse ele -, aqui est um co devoto cado do 
cu entre ns, os pecadores. . . Um santo. . . um cavalheiro, 
que nos quer converter. Deve ser um homem com muita fora!. . 
. Aqui, miservel! Ah, queres fazer-te passar por uma pessoa 
muito religiosa?. . . Ento deves conhecer a Biblia, que diz: 
Servos, obedecei ao vosso senhor! No sou eu o teu senhor? 
No paguei duzentos dlares pela tua velha carcaa preta? No 
me pertences agora de corpo e alma?. . . 
E com a pesada bota, deu a Tom um violento pontap. 
- Responde!
Tom estava vencido pelo sofrimento fsico: a opresso 
tirnica deitara-o por terra, e todavia, esta pergunta fez 
passar pela sua alma uma torrente de alegria. Ps-se de p, 
muito direito, olhou para o cu com nobre entusiasmo e, 
enquanto do seu rosto corria sangue e lgrimas, gritou:
- No, no! A minha alma no lhe pertence. . . O senhor 
no a comprou. . . no h dinheiro que a pague. . Foi 
comprada e paga por Algum que a sabe guardar. . . Mas, que 
importa? A essa, o senhor no pode fazer mal. 
- Ah, no posso? - disse Legree, com uma ironia 
infernal. Vamos ver!. . . Sambo, Quimbo, venham c!. . . Dem 
a este co uma sova to grande que no se possa levantar um 
ms. 
Os dois negros gigantescos apoderaram-se de Tom. Via-se 
nos seus rostos o triunfo da crueldade. Eram a personificao 
da fora das trevas. A pobre mulata soltou um grito de dor; 
todos os escravos se levantaram de um salto. Quimbo e Sambo 
levaram Tom, que no resistiu.

Ia muito avanada a noite. Tom, a sangrar e a gemer, 
ficara estendido numa diviso abandonada, que fizera parte do 
armazm, no meio de ferramentas partidas, algodo estragado, 
enfim, todo o lixo da casa. 
Reinava a mais profunda escurido; na atmosfera pesada 
zumbiam mirades de mosquitos; uma sede ardente, o maior dos 
suplcios, agravava ainda mais as angstias de Tom. 
-  Senhor Deus - murmurava ele -, meu bom Deus, dai-me 
foras, dai-me foras para suportar!
Ouviu um rudo de passos atrs de si. e uma luz brilhou 
diante dos seus olhos. 
- Quem est a?. . . Oh, gua, gua, pelo amor de Deus!. 
. 
P[183]
 Cassy - era ela - pousou a lanterna no cho, encheu um copo 
com a gua que trazia numa garrafa, levantou a cabea de Tom, 
e deu-lhe de beber. Na sua febre abrasadora, bebeu uns poucos 
de copos. 
Quando acabou disse:
- Obrigado, minha senhora!
- No me chame senhora. Sou apenas, como voc, uma 
desgraada escrava. . . mais desgraada do que voc prprio 
poder ser alguma vez. . . - E a sua voz encheu-se de 
amargura. E, dirigindo-se  porta e puxando um pequeno 
colcho, onde estendera lenis embebidos em gua fresca, 
disse: - Tente deitar-se aqui, pobre alma. 
Coberto de chagas e modo com pancada, Tom teve 
dificuldade em mover-se. A gua fresca acalmou-lhe as dores. 
A mulher tratara muitas vezes as pobres vtimas da 
escravido. Tinha muita experincia. Tratou as feridas de 
Tom, que depressa ficou mais aliviado. 
Ps a cabea do doente sobre um fardo de algodo a fazer 
de travesseiro. 
- Por enquanto  tudo o que posso fazer por si - disse 
ela. Tom tentou falar, mas ela imps-lhe silncio com um 
gesto imperioso. 
- No fale, pobre homem. . . Tente dormir, se puder. 
Deixou a garrafa da gua perto dele, fez todos os arranjos 
necessrios a um doente. . . e saiu. 

Captulo XXIX
PENHORES DA TERNURA
O salo de Simon Legree era uma diviso larga e comprida, 
provida de uma grande chamin; as paredes tinham estado em 
tempos forradas com um lindo papel. Esse papel, agora hmido, 
rasgado e sem cor, pendia das paredes em farrapos. Respirava-
se ali aquele cheiro nauseabundo e desagradvel que se sente 
nas velhas casas fechadas h muito tempo. O papel estava 
coberto de manchas de vinho e de cerveja, e nalguns stios 
viam-se inscries a giz. Na chamin ardia um lume de carvo. 
O tempo no estava propriamente frio; mas, naquela enorme 
sala, fazia de noite uma humidade penetrante, e Legree 
precisava de lume para acender o charuto e aquecer a gua 
para o seu ponche. A luz avermelhada do carvo em brasa 
permitia ver o espectculo pouco agradvel de selas, escovas, 
arreios, chicotes, casacos e toda a espcie de artigos 
detoiletteespalhados numa desordem terrvel. Os fortes ces 
de que j falmos tinham ali um abrigo agradvel. 
P[184]
 Legree preparava um grogue e deitava para uma chvena a gua 
de uma chaleira amachucada, murmurando:
- Esse patife do Sambo foi quem provocou esta disputa 
entre mim e os meus novos escravos!. . . E agora Tom est 
impossibilitado de trabalhar por uma semana, quando o 
trabalho aperta!
Naquele momento, a porta abriu-se, e entrou Sambo. 
Avanou fazendo vnias e apresentando qualquer coisa 
embrulhada num papel. 
- Que trazes a, grande co?
-  um feitio. 
- Um qu?
- Uma coisa que os pretos pedem s bruxas, e que os 
impede de sentirem as pancadas quando so castigados. . . Tom 
trazia isto pendurado ao pescoo com uma fita preta. 
Legree era supersticioso, como a maior parte dos homens 
cruis e descrentes. Pegou no papel e desembrulhou-o com 
dificuldade. 
Tirou dele um dlar de prata e uma madeixa de cabelos 
loiros. Os cabelos, como se estivessem vivos, enrolaram-se 
sozinhos nos dedos de Legree. 
- Maldio! - gritou ele, numa fria, batendo com o p, 
e sacudindo a mo, como se os cabelos o queimassem. . - De 
onde saiu isto? Tirem-me esta porcaria daqui. Atirem-na ao 
fogo! Ao fogo! 
E atirou a madeixa de cabelos s chamas. 
- Para que me vieste trazer isto?
Sambo estava parado, com a boca aberta de espanto. 
- Nunca mais me tragas estas coisas do diabo! - gritou 
ele, mostrando o punho fechado a Sambo, que se foi embora 
imediatamente. A seguir, atirou o dlar pela janela. 
Sambo ficou muito contente por se ver livre daquela 
situao. Quando ele saiu, Legree pareceu um pouco 
envergonhado por aquele ataque de medo; sentou-se com uma 
elegncia de buldogue, e comeou a beber o seu grogue, sem 
dizer uma palavra. 
Que se passar com Legree? Que havia naquela madeixa de 
cabelo loiro para fazer empalidecer assim um homem 
familiarizado com todas as formas de crueldade?
Para responder a estas perguntas, temos de conduzir o 
leitor um pouco mais atrs no tempo. 
Por mais duro, rprobo e descrente que esse homem fosse 
agora, tempos houvera em que fora embalado no regao da me. 
. .  sua cabeceira ela murmurara cnticos e oraes e a sua 
fronte fora banhada pela gua do baptismo. Durante a primeira 
infncia, uma mulher de cabelos loiros conduzira-o  igreja 
para adorar e rezar. L longe, na Nova Inglaterra, essa me 
educara o filho nico com um amor incansvel, com cuidados 
permanentes. Mas, filho de um pai de corao
P[185]
 empedernido, a quem essa terna mulher dera em vo todos os 
tesouros do seu amor, seguira os seus passos amaldioados. 
Brigo, desbragado, tirnico, desprezara os conselhos da me, 
e nunca mais admitiu as suas censuras. Ainda muito jovem, 
separou-se dela para procurar fortuna alm- mar. Viera apenas 
uma vez a casa. A me, com as aspiraes de um corao que 
precisa de amar e no tem a quem amar, dedicou-se a ele e 
esforou- se, com os seus conselhos e splicas, por o 
arrancar quela vida de pecado, condenao da sua alma!
Para Legree foi uma poca de felicidade.
Os anjos chamavam-no. Quase se converteu. 
Mas o corao resistiu. Houve uma luta, em que o pecado 
saiu vencedor e voltou todas as foras dessa natureza 
violenta contra as convices da sua conscincia. Bebeu, 
praguejou, e tornou-se mais brutal do que nunca. 
Certa noite, na agonia do desespero, a me ajoelhou-se 
aos seus ps; mas ele afastou-a com o p, fazendo-a cair 
desmaiada no cho, e correu para o navio. 
A ltima vez que Legree ouviu falar da me, foi numa 
noite de orgia. Encontrava-se com outros companheiros 
embriagados; vieram entregar-lhe uma carta. Abriu-a. . . e de 
entre as folhas caiu uma madeixa de cabelo, que tambm se 
enrolou em volta dos seus dedos. 
A carta dizia que a me tinha morrido e que, ao morrer, 
lhe perdoara e o abenoara. 
O mal tem o seu fatdico e sombrio sortilgio, que 
transforma as coisas mais simples e encantadoras em fantasmas 
de horror e medo. Aquela pobre me to carinhosa, as suas 
ltimas oraes, o seu amor que perdoava, no foram para 
aquele corao diablico, cheio de pecados, mais do que uma 
sentena de condenao. Fazia-o prever, numa terrivel 
perspectiva, o juzo supremo e a indignao de Deus! Legree 
queimou a carta e a madeixa de cabelos; mas quando os viu 
contorcerem-se e crepitar nas chamas, estremeceu  ideia do 
fogo eterno. Ento, bebeu para se aturdir e expulsar para 
sempre de si aquela recordao importuna. Mas muitas vezes, a 
meio da noite, quando o silncio solene condena o esprito 
dos maus a conversarem com a prpria conscincia, via a me 
erguer-se, muito plida,  cabeceira da cama, e em redor dos 
seus dedos sentia enrolar-se a madeixa de cabelos. Ficava 
alagado em suores frios. E saltava da cama, cheio de horror.
Grossas gotas de suor perlavam-lhe agora a testa, e o 
medo fazia-lhe bater o corao vertiginosamente. . Julgou ver 
uma sombra branca que se levantava do cho e deslizava pela 
sala, e estremeceu, pensando que talvez a alma da me fosse 
aparecer na sua frente. 
P[186)
 - Ento, pelo menos sei uma coisa - disse para consigo, 
entrando no salo, onde se sentou. - Por agora  preciso 
deixar esse homem tranquilo. . . Ao tocar naquelas coisas, 
parece-me que fiquei embruxado. . . Desde esse momento, 
comecei a sentir suores frios. . . Onde teria ele ido buscar 
aquela madeixa de cabelos?. . . No pode ser a. . . Oh, no! 
Essa, queimei-a. . . tenho a certeza de que a queimei. . . 
Havia de ter que ver se os cabelos sassem sozinhos da cabea 
dos mortos! Vou mandar chamar o Sambo e o Quimbo, para 
cantarem e danarem uma daquelas danas infernais. . . Isso 
vai distrair-me destas ideias horrveis. 
Ps o chapu, dirigiu-se  varanda e tocou uma corneta 
que usava para chamar os dois aclitos. 
Legree, quando estava bem disposto, admitia de boa 
vontade aqueles dois patifes no seu salo e, depois de os ter 
aquecido com aguardente, mandava-os danar, cantar ou lutarem 
um com o outro, conforme o capricho do momento. 
Devia ser entre a uma e as duas da manh: Cassy, que 
voltava de tratar o pobre Tom, ouviu aqueles gritos e hurros, 
aquele bater de ps, de mistura com o ladrar dos ces, em 
resumo, um verdadeiro baile de demnios. 
Aproximou-se dajanela e espreitou. 
Legree e os dois vigilantes, num estado de embriaguez 
furiosa, cantavam, ululavam, deitavam as cadeiras ao cho e 
faziam uns aos outros caretas horrorosas. 
Cassy apoiou a pequena no no parapeito dajanela. . 
Podia ler-se nos seus olhos angstia, ira e desprezo, e disse 
para consigo:
- Seria verdadeiramente pecado livrar o mundo desses 
miserveis?
Legree, vencido pelo lcool, cara a dormir no meio do 
salo. Quando acordou, no quis que ningum assistisse  sua 
conversa com Toms. Queria, se no conseguisse domin-lo com 
ameaas, pelo menos adiar a vingana e esperar uma boa 
ocasio. 
A luz solene da aurora, os raios anglicos da estrela de 
alva tinham penetrado no humilde abrigo do escravo e, com os 
seus suaves raios, lanavam sobre ele majestosamente estas 
palavras: Eu sou o filho de David, a brilhante estrela da 
manh. Os avisos e conselhos de Cassy no tinham abatido a 
sua alma; pelo contrrio, fortaleceram-na como um apelo que 
viesse do alto. Ele pensava que talvez fosse o seu ltimo dia 
de vida que comeava a erguer-se no cu; e o seu corao 
batia de extrema emoo. . . Cheio de anseios. Pensava que 
talvez aquele grande mistrio com que sonhara tanta vez, 
aquele enorme trono de uma brancura luminosa, rodeado de 
arco-ris radiosos, aquela multido de anjos vestidos de 
branco, cuja voz soa como o murmrio das guas, as coroas, as 
palmas, as harpas de ouro, tudo ia enfim revelar-se aos seus
P[187]
 olhos antes de acabar o dia. Por isso, sem estremecer, ouviu 
os passos e a voz do seu carrasco. 
- Ento, meu velho - disse Legree, tocando-lhe 
desdenhosamente com o p -, como ests? No te tinha avisado 
de que te ensinava uma ou duas coisas?. . . Que te parece? 
Ficou-te de lio? Continuas to teimoso como ontem? Ests 
disposto a pregar os teus sermes a este pecador?
Tom no respondeu. 
- V, levanta-te, animal! - gritou Simon, dando-lhe 
outro pontap. 
Levantar-se era difcil para quem estava, como ele, 
modo com pancada. Tom esforou-se em vo por se levantar. . 
. Legree deu uma gargalhada brutal. 
- No ests hoje bem-disposto, Tom; talvez tenhas 
apanhado frio ontem  noite?
Todavia, o pai Toms tinha conseguido levantar-se, e 
estava de p em frente do seu senhor, com expresso calma e 
serena. 
- Ah, j te levantaste! Vejo que no apanhaste o 
bastante. . . E agora, dejoelhos, e pede-me perdo pelo que 
me disseste ontem  noite. 
Tom no esboou o mais pequeno movimento. 
- De joelhos, co! - gritou Legree, dando-lhe uma 
chicotada. 
- Senhor Legree - disse Tom -, eu no posso fazer uma 
coisa dessas. Fiz o que acheijusto; e, de futuro, farei 
sempre o mesmo. Nunca farei mal a ningum, suceda o que 
suceder!
-  porque no sabes o que vai suceder, mestre Tom. 
Julgas que foi uma grande coisa, o que apanhaste ontem? No 
foi nada, absolutamente nada!. . . Gostavas que te amarrassem 
a uma rvore e te fizessem uma fogueira  volta? Era 
agradvel, no era, Tom?
- Eu sei que o senhor  capaz de fazer coisas terrveis, 
mas. . . 
endireitou-se e ps as mos. - Mas, depois de me matar, j 
no me pode fazer mais nada. Porque depois disso s h a 
ETERNIDADE!
ETERNIDADE! S esta palavra encheu de foras e de luz a 
alma do pobre escravo. e o pecador sentiu no corao como a 
mordedura de um lacrau. Legree rangeu os dentes, mas a 
prpria raiva obrigou-o a calar-se: e Tom, livre de todo o 
sofrimento, falou com voz clara e satisfeita. 
- O senhor comprou-me, e eu serei um escravo bom e fiel; 
dou-lhe todo o trabalho de que for capaz, todo o meu tempo, a 
minha fora. . . Mas a minha alma; no a darei a um mortal. . 
. porque ela pertence a Deus. E os seus mandamentos esto 
para mim acima de tudo, acima da vida e da morte. E pode ter 
a certeza, Senhor Legreee, que eu no tenho medo nenhum da 
morte. . . e recebo-a com alegria. . . quando ela chegar!
P[188]
 Pode chicotear-me. . . deixar-me morrer de fome. . . 
queimar-me vivo. . . tudo isso far com que eu chegue mais 
cedo onde tenho que chegar!
- Por fim, acabars por ceder - disse Legree, furioso. 
- No, porque terei ajuda - respondeu Tom. 
- E quem diabo vir ajudar-te?
- Deus todo-poderoso. 
- Maldio!
E com um simples soco Legree atirou Tom por terra. 
- Tem cuidado - disse ele -, por agora deixo-te em paz, 
porque o trabalho  urgente e preciso de todos os meus 
escravos; mas eu no me esqueo. . . Registo na tua conta, e 
depois pago-me na tua velha carcaa comjuros e capital! Ficas 
avisado!
E Legree foi-se embora. 

Captulo XXX
LIBERDADE
Deixemos por algum tempo o pobre pai Toms nas mos dos seus 
carrascos e vejamos o que aconteceu a Jorge e  mulher, que 
abandonmos a meio da sua fuga. 
Nessa altura, Tom Loker gemia e agitava-se na cama limpa 
de um quaker, assistido pelos cuidados maternais da velha 
Dorcas, que o achava to paciente e tratvel como um bfalo. 
Imaginem uma mulher alta, amvel, digna e reservada. Uma 
touca de musselina escondia em parte os cabelos brancos e 
ondulados, divididos ao meio por cima de uma testa alta e 
lisa. Os seus olhos eram cinzentos e pensativos. Um leno de 
crepe liso, branco como a neve, cruzava-se castamente sobre o 
peito. O vestido de seda, escuro e sedoso, roagava 
calmamente cada vez que ela atravessava o quarto. 
- Raios partam - exclamou Tom Loker dando um grande soco 
nos cobertores. 
- Toms, peo-te que no empregues essas expresses - 
disse Dorcas, arranjando tranquilamente os cobertores. 
- Est bem, velhota, vou evitar se puder; mas faz tanto 
calor, que  capaz de me sair alguma pela boca fora, sem 
querer!
Dorcas tirou o edredo e levantou a colcha de tal 
maneira, que Toms parecia uma crislida. E enquanto se 
dedicava a estes pequenos cuidados, disse:
- Meu amigo, gostava que deixasses de praguejar e 
resmungar constantemente. . . Esse comportamento fica-te mal. 
P[ 189]
 - Ah, ah! Quero c saber do comportamento. . . raios partam!
E Toms Loker deu um pulo na cama, fazendo cair os 
cobertores e deixando a roupa na maior desordem. 
- Esse homem e essa mulher esto c? - perguntou ele de 
repente, aps um curto silncio. 
- Esto - respondeu Dorcas. 
- Era melhor que atravessassem o lago, e o mais depressa 
possvel. 
-  com certeza o que eles vo fazer - disse  parte a 
velha Dorcas, continuando a fazer malha tranquilamente. 
- Ns temos correspondentes no Sandusky, que vigiam os 
barcos por nossa conta. Agora no me importo de o dizer. At 
gostava que eles se salvassem. . . ainda que mais no fosse 
para fazer arreliar esse. . . cobarde do Marks, esse. . . 
- Cuidado, Toms!
- Est bem, velha. Quando as garrafas esto cheias de 
mais, rebentam. . E a propsito da mulher, diz-lhe que mude 
de vestido. . Em Sandusky tm os sinais dela. 
- Trataremos disso - continuou Dorcas com a sua 
serenidade habitual. 
Tom Loker, que no tornaremos a ver, ficou trs semanas 
doente em casa dos quakers. Alm de todos os seus outros 
males, foi atacado de reumatismo. Acabou por sair da cama um 
pouco triste, mas com mais senso comum. Em vez de se dedicar 
 caa dos escravos, estabeleceu-se numa regio inculta e 
aplicou os seus talentos, com mais resultado, na caa ao 
urso, aos lobos e outros habitantes da floresta. Falava 
sempre dos quakers com respeito: 
- So boas pessoas - dizia ele -, boas pessoas; quiseram 
converter-me, mas no conseguiram. Digo-lhes que para tratar 
de doentes!. . . So ptimos! E ningum faz melhores bolos e 
uma poro de outras coisas.
Os nossos fugitivos sabiam que iam ser vigiados no 
Sandusky e dividiram-se. Jim e a velha me foram  frente. 
Uma ou duas noites depois, Jorge, Elisa e o filho foram por 
sua vez conduzidos a Sandusky, e encontraram asilo e um tecto 
hospitaleiro, antes de atravessarem o lago. 
Terminara a noite; a estrela da manh, que devia brilhar 
sobre a sua liberdade, levantava-se radiosa em frente deles. 
Liberdade, palavra mgica, quem s tu? No sers mais do que 
uma palavra, uma flor de retrica? Porqu ento, homens e 
mulheres da Amrica, basta esta palavra para o corao lhes 
bater mais rapidamente? Que significava a liberdade para 
Jorge Harris? Para os vossos pais, a liberdade  o direito 
que qualquer nao tem de ser nao; para ele, era o direito 
que todo o homem tem de ser um homem, e no um animal. O 
direito de chamar  mulher que ama sua mulher, de a proteger 
contra qualquer violncia
P[ 190]
 ilegal, o direito de proteger e educar os filhos, o direito 
de ter a sua casa, a sua religio, os seus princpios, sem 
depender da vontade de ou trem. 
Eram estes os pensamentos que se agitavam e borbulhavam 
no peito de Jorge, enquanto apoiava a cabea sonhadora  mo, 
olhando a mulher, que tentava adaptar roupas de homem  sua 
figura elegante e esguia. Pareceu- lhes que sob este disfarce 
seria mais fcil escapar. 
- Porque ests to triste? - perguntou Elisa, curvando o 
joelho e pondo a mo sobre a mo do marido. - Dizem que no 
estamos a mais de vinte e quatro horas do Canad.  um dia e 
uma noite no lago. . . e depois. E depois...
-  isso - disse Jorge, puxando-a para si. -  isso 
mesmo! Vai decidir-se a minha sorte! Estar to perto da 
liberdade, t-la quase, e depois perd-la! Oh, eu no poderei 
sobreviver. 
- No tenhas medo. Deus no permitiria que vissemos to 
longe, se no quisesse salvar-nos. Sinto que Deus est 
connosco, Jorge!
- Quero acreditar-te, Elisa - disse Jorge, levantando-se 
de repente -, sim, quero acreditar-te. . . Vamos, na verdade 
- disse ele afastando-a um pouco com o brao - s um lindo 
rapaz: essa pasta de caracis fica-te maravilhosamente. Deixa 
ver o bon. um pouco mais para o lado. Nunca estiveste to 
linda. Mas so horas de chegar o carro. . Pergunto se a 
Senhora Smyth tratou de vestir o Harry. 
A porta abriu-se e uma senhora respeitvel, de meia-
idade, entrou, trazendo pela mo o Harry, disfarado de 
menina. 
- Que menina to bonita! - disse Elisa, andando em volta 
dele. 
-	Vamos chamar-lhe Hamette. No lhe fica bem este 
nome? 
O garoto estava calado e tmido. Olhava a me sob o seu novo 
traje. 
- Harry, no conheces a me? - perguntou ela, 
estendendo-lhe os braos. 
A criana agarrava-se s saias da mulher que o tinha 
trazido. 
- Consta para a - disse a Senhora Smyth - que uns 
homens assinalaram aos comandantes de todos os barcos um 
homem, uma mulher e um rapazinho. 
- Ah, sim? - disse Jorge. - Pois bem, se eu os 
encontrar, dou-lhes notcias deles. . . 
Parou um carro  porta, e a amvel famlia que albergara 
os fugitivos agrupou-se em volta deles, para as despedidas. 
Os disfarces tinham sido escolhidos a conselho de Loker. 
A Senhora Smyth, respeitvel dama do Canad, voltava nessa 
altura ao seu pas, e consentira em passar por tia de Harry; 
s ela  que tomara conta dele durante os ltimos dias; uma 
proviso de doces, biscoitos e torres de acar cimentara 
uma aliana ntima entre ela e o pequeno. 
P[191]
 O carro parou no cais. Os dois jovens atravessaram a 
prancha. Elisa dava galantemente o brao  Senhora Smyth. 
Jorge vigiava as bagagens. 
Enquanto Jorge estava na cabina do comandante, pagando a 
passagem do seu grupo, ouviu a conversa de dois homens que se 
encontravam muito perto dele. 
- Reparei em toda a gente que subiu para bordo - dizia 
um - e tenho a certeza de que no vieram. 
Quem falava assim era o contabilista de bordo; o outro 
era o nosso amigo Marks que, com a sua perseverana habitual, 
fora at ao Sandusky em perseguio da sua presa. 
- A mulher - dizia ele - mal se distingue de uma branca; 
o homem  levemente bronzeado e tem uma queimadura na mo. 
A mo que Jorge estendia para receber os bilhetes e o 
troco tremeu, mas voltou-se lentamente e lanou um olhar 
calmo e indiferente ao homem que acabava de falar, e depois 
foi ter com Elisa que o esperava no outro extremo do barco. 
A Senhora Smyth e Harry tinham-se retirado para a sala 
das senhoras, onde a beleza da criana atraiu as carcias das 
viajantes. 
A sineta deu o sinal de partida, Jorge teve a satisfao 
de ver Marks abandonar o barco e voltar para terra. Deu um 
suspiro de alvio quando as primeiras voltas da roda puseram 
entre eles uma distncia salvadora. 
Estava um dia lindo. As vagas azuis do lago Eric 
saltavam, luminosas, com raios dourados. Uma fresca brisa 
soprava da margem, e o navio soberbo ia traando um sulco por 
entre as ondas. 
Que mundo estranho encerra o corao do homem nas suas 
profundezas!. . . Quem, ao ver Jorge passear tranquilamente 
com o seu tmido companheiro na ponte do barco, poderia 
adivinhar os pensamentos que lhe assaltavam o peito? A 
felicidade que se aproximava parecia-lhe demasiado bela para 
ser verdadeira. Sentia uma certa inquietao; receava que de 
um momento para o outro lhe arrancassem a sua ltima 
esperana. 
Mas o navio continuava a sua marcha, as horas passavam 
e, finalmente, prxima e visvel, erguia-se a margem inglesa. 
. . margem que tem o nome de uma palavra mgica, e cujo 
contacto liberta de todas as algemas da escravatura, em 
qualquer lngua que seja pronunciada, seja qual for a lei que 
a proteja. . . 
Aproximavam-se da pequena cidade de Amherstberg, no 
Canad. Jorge deu o brao  mulher. . . a sua respirao 
tornou-se curta e irregular. . . passou-lhe uma nuvem nos 
olhos; apertou disfaradamente a pequena mo que tremia 
agarrada ao seu brao; a sineta tocou, e o barco parou. . 
Jorge nem sabia o que fazia. . . Juntou as bagagens e
P[ 192)
reuniu a sua gente. Desembarcaram e esperaram que todos se 
fossem embora. 
Ento, marido e mulher, com o filho nos braos, 
ajoelharam na margem e elevaram o corao para Deus. 
Quem poderia descrever o encanto daquele primeiro dia de 
liberdade?
Oh! Existe um sexto sentido, o sentido da liberdade, mil 
vezes mais alto e mais nobre do que os outros sentidos! 
Andar, falar, respirar, sem controlo e sem perigo! Quem 
poder jamais descrever esse sonho abenoado de um homem 
livre, a quem as leis asseguram o gozo dos direitos que Deus 
lhe deu? Como era sedutor para a me aquele rosto adormecido 
de um filho que a recordao de mil perigos tornara mais 
precioso!. . . Oh, para eles, na exuberncia da sua 
felicidade, no era possvel o sono. E todavia, no tinham um 
palmo de terra que lhes pertencesse; tinham gasto at ao 
ltimo dlar. . . Tinham o mesmo que a ave nos cus, a flor 
nos campos. . . e no podiam dormir, por excesso de 
felicidade!

Captulo XXXI
VITRIA
Quantos de entre ns, nesta estrada da vida, no pensmos 
muitas vezes que  mais fcil morrer do que viver?
O mrtir, perante a morte cheia de horrores, tormentos e 
angstias, encontra nos prprios terrores do seu destino um 
estmulo e um amparo; h uma espcie de nsia de viver, uma 
febre, um ardor que nos fazem atravessar corajosamente essa 
crise de dor - o sentimento da eterna glria. 
Mas viver, arrastar consigo dia a dia, o peso, a 
amargura, a vergonha e a servido. . . sentir cada nervo 
torturado, todas as fibras da sensibilidade quebradas uma 
aps outra. . . sofrer esse longo martrio do corao. Ver 
escoar-se gota a gota, o sangue, o melhor sangue da vida. Ah, 
essa  que  a bitola que mostra verdadeiramente o que existe 
no interior de um homem ou de uma mulher. 
Quando Tom se encontrou frente a frente com o seu algoz, 
quando ouviu as suas ameaas, quando julgou que tinha chegado 
a sua ltima hora, o corao bateu-lhe corajosa e alegremente 
no peito, sentiu que podia suportar a tortura e o fogo. . . 
numa palavra, tudo. . . levantando os olhos para a imagem 
abenoada de Jesus e do cu. Mas quando o carrasco partiu, 
quando a excitao presente acalmou, ento voltou-lhe o 
sentimento da dor, viu como tinha os membros feridos e 
martirizados, 
P[193]
 e compreendeu at que ponto estava abandonado, degradado, 
aviltado e sem esperana. 
Foi um dia longo e penoso. 
Muito antes de estar curado das feridas, Legree exigiu 
que ele voltasse ao trabalho no campo. Sofreu tiranias, 
vexames, injustias de toda a espcie. . . tudo quanto pode 
inventar um homem to vil como malvado. 
A paz da conscincia, a confiana em Deus que o ajudara 
at ali davam agora lugar a sombrios acessos de dvida e 
desespero. Tinha permanentemente diante dos olhos o tenebroso 
problema do seu destino. . . as almas torturadas, o mal 
triunfando, e Deus silencioso!. . . Havia semanas, meses, que 
a sua alma dolorida estava cheia de trevas e amargura. 
Pensava na carta que a Menina Oflia escrevera aos seus 
amigos de Kentucky, e pedia ardentemente a Deus que mandasse 
algum para o libertar. Todos os dias tinha a vaga esperana 
de ver chegar quem o resgatasse. . . No vinha ningum, e o 
corao ficava mais desolado e triste do que nunca!
Uma noite, ao p de uns pobres ties onde cozia a magra 
ceia, estava sentado, no maior estado de prostrao e 
abandono. Atirou alguns gravetos ao lume para o avivar e 
tirou a Bblia da algibeira; encontrou todas aquelas 
passagens notveis que haviam feito tanta vez bater o 
corao, as palavras dos patriarcas e dos profetas, dos 
poetas e dos sbios. . . As palavras sagradas tinham perdido 
o seu poder? Os olhos turvos e quase cegos no conseguiam 
compreender-lhes o sentido? J nada respondia quela 
inspirao, outrora to poderosa?
Tom suspirou profundamente. . . e tornou a meter o livro 
no bolso. Soou uma enorme gargalhada junto dele. 
Tom levantou os olhos e viu Legree. 
- Ento, velho, j te convenceste de que a religio no 
serve para nada? Eu bem sabia que acabava por te tirar essa 
ideia da cabea!
Este sarcasmo foi mais cruel para Tom do que a fome, o 
frio ou a misria.
Mas no respondeu nada. 
- s uma besta! - continuou Legree. - Quando te comprei, 
tinha boas perspectivas para ti. Ficavas aqui melhor do que o 
Sambo e o Quimbo; tinhas vida regalada; em vez de seres 
chicoteado todos os dias ou dia sim, dia no, chicoteavas os 
outros; andavas  vontade por onde quisesses e, de vez em 
quando, para aquecer, tinhas um copo de ponche ou de 
aguardente. . . Confessa, no tinha sido melhor? V, atira 
para o fogo esse pacote de asneiras, e segue a minha 
religio. 
- Deus me livre! - exclamou Tom. 
- Bem vs que Deus no te protege. . . Se te protegesse, 
no tinha permitido que eu te comprasse! A vossa religio  
uma mentira
P[194]
 pegada. Sei isso muito bem. Era muito melhor passares-te 
para o meu lado. . . Eu sou algum e tenho algum poder!
- No, senhor - disse Tom -, no. Quer Deus me ajude ou 
me abandone, eu seguirei a sua religio e acreditarei n'Ele 
at ao fim. 
- Pior para ti - disse Legree cuspindo-lhe para cima com 
desprezo, e empurrando-o com o p. - No faz mal, eu hei-de 
dominar-te, vers!
E Legree afastou-se. 
Entretanto, Cassy estabelecera um plano para vingar, 
numa hora terrvel, todas as crueldades de que fora vtima ou 
testemunha. 
Certa noite, todos dormiam na cabana de Tom. O escravo 
acordou de repente, e viu a cara de Cassy, que espreitava 
pelo buraco que servia dejanela. Fez um gesto, convidando-o a 
sair. 
Tom saiu. 
Devia ser uma ou duas horas da manh. Fazia um claro 
luar. Em redor tudo era calma e silncio. Um raio de luz caiu 
sobre o rosto de Cassy. Tom viu uma chama ardente passar nos 
seus olhos pretos e selvagens; j no era um olhar de sombrio 
desespero. 
- Venha c, pai Toms - disse ela agarrando-lhe o brao 
com a pequena mo e puxando-o com tanta fora que a mo 
parecia de ao. 
- Venha c, tenho uma novidade para lhe dar. 
- O que , menina Cassy? - perguntou Tom, espantado. 
- Quer ser livre, Tom?
- Hei-de ser, quando Deus quiser!
- Pode ser j esta noite!. . . - E novo claro brilhou 
nos olhos de Cassy. - Venha!
Tom hesitou. 
- Venha! - continuou ela em voz baixa e fixando-o com os 
seus grandes olhos -, venha! Ele est a dormir profundamente. 
. . Pus-lhe uma dose na aguardente, para dormir. . . Se 
tivesse mais, no precisava de si. . . Mas venha. . . A porta 
das traseiras est aberta. Est l um machado. Fui eu que l 
o pus. A porta do quarto dele tambm est aberta; eu vou 
ensinar-lhe o caminho. Eu prpria fazia tudo sozinha, mas no 
tenho coragem! Ande, venha!
- No, menina, nem por todo o ouro do mundo! - disse o 
pai Toms com firmeza e recuando, apesar de todos os esforos 
de Cassy para o arrastar. 
- Pense em todos estes desgraados! Damos-lhes a 
liberdade. Vamos para qualquer parte, para as savanas, para 
uma ilha. . . Qualquer outra coisa  melhor do que isto!
- No - disse Tom -, no. Do mal nunca pode vir o bem; 
antes queria que me cortassem a mo. 
- Est bem, vou fazer tudo sozinha - disse Cassy 
afastando-se. 
P[195]
 - , menina Cassy - E Tom ps-se dejoelhos diante dela. - Em 
nome do Salvador que morreu por ns, no venda assim a sua 
preciosa alma ao diabo!. . . Da s lhe pode vir mal! O 
Senhor no nos chama  vingana.  preciso sofrer e esperar a 
hora marcada por Deus!
- Esperar! - disse Cassy -, esperar! No esperei j 
tanto que tenho o corao despedaado e a razo confusa? O 
que ele me tem feito sofrer. . . a mim, e a todas estas 
pobres criaturas!. . . E a si, no est a esgotar o sangue da 
sua vida?. . . Sim, eu sou chamada. . . e  a vingana que me 
chama!. . . Chegou a vez dele! Quero o seu sangue!
- No! No! - exclamou Tom, agarrando-lhe as mos que se 
contorciam em movimentos convulsivos. - No, pobre alma 
perdida! No pode ser, no pode ser! O Senhor apenas derramou 
o seu prprio sangue, e derramou-o pelos prprios inimigos. . 
. Senhor, ajudai-nos a seguir o vosso exemplo e a amar os 
nossos inimigos!
- men! - disse Cassy, com um estranho olhar. - Amar 
semelhantes inimigos?  superior  carne e ao sangue!
- No est na nossa natureza, mas est na graa. . . e 
isso chama-se vitria!. . . Enquanto pudermos amar e rezar em 
qualquer ocasio e apesar de tudo, a vitria est ganha. 
Glria a Deus. - E com os olhos hmidos e a voz a tremer, Tom 
olhou para o cu. 
Cassy no respondeu nada, mas grossas lgrimas caam-lhe 
dos olhos baixos. 
Tom contemplou-a um momento em silncio; depois, com voz 
hesitante:
- Se pode fugir, aconselho-a a que parta, sem derramar 
sangue. . . mas de outra maneira, no!
- Quer tentar comigo, pai Toms?
- No. Houve uma altura em que era capaz de o fazer, mas 
Deus confiou-me uma tarefa junto destes desgraados. Fico 
junto deles, e com eles levarei a minha cruz at ao fim! 
Consigo no se passa o mesmo. . . est cheia de tentaes. . 
. e talvez no pudesse resistir. . . mais vale que fuja, se 
puder. Tente. Eu rezarei por si com todas as foras da minha 
alma.
- Vou tentar, pai Toms.
- men! - disse Tom. - Que Deus a ajude!

Captulo XXXII
O MRTIR
A maior das viagens tem o seu termo, a noite mais sombria 
termina com a aurora. . . A fuga incessante, inexorvel das 
horas, leva o dia do mau para a noite eterna, e a noite do 
bom para o eterno dia. Acompanhamos
P[196]
 durante bastante tempo o nosso pobre amigo no vale de 
lgrimas da escravatura. Atravessmos os campos em flor da 
indulgncia e da bondade. Assistimos s separaes que partem 
o corao, quando o homem  arrancado a tudo quanto ama. 
Aportmos com ele a essa ilha cheia de sol, onde mos 
generosas enfeitavam as cadeias com grinaldas de flores. 
Finalmente, sempre com ele, vimos os ltimos raios de 
esperana terrestre dilurem-se na sombra. Vimos como, no 
horror das trevas mais densas, o firmamento do desconhecido 
se iluminou de repente com o esplendor proftico de novas 
estrelas. 
E agora eis que a estrela da manh se ergue na montanha! 
Sentimos brisas e zfiros que no so deste mundo. Eis que em 
breve se vo abrir as portas da luz eterma. 
A fuga de Cassy irritou ao extremo o carcter j de si 
terrvel de Legree. Conforme era de esperar, a sua clera 
caiu sobre Tom, inocente e sem defesa. Quando Legree anunciou 
a fuga aos escravos, Tom levantou os olhos e as mos ao cu. 
Legree deu por isso. A ira h muito acumulada contra o 
escravo transformou-se em raiva invencvel. No tinha aquele 
homem desafiado as suas resolues inabalveis, desde o 
primeiro momento em que o comprara?
- Odeio-o! - disse Legree, sentando-se na borda da cama. 
Odeio-o e ele pertence-me. No posso fazer dele o que eu 
quiser? Quem pode impedir-me?. . . Quimbo - chamou ele -, vai 
buscar o Tom e traz-mo aqui, depressa!. . . Esse velho 
malandro est a par do caso. . . E vai despejar tudo c para 
fora, ou no seja eu quem sou!
Sambo e Quimbo, que se detestavam mutuamente, s estavam 
de acordo no seu dio a Tom. Legree dissera-lhes primeiro que 
comprara Tom para o fazer vigilante geral durante a sua 
ausncia. Foi essa a origem da sua raiva, que aumentou ainda 
mais naquelas naturezas vis, quando perceberam que o escravo 
cara em desgraa. 
Compreende-se assim a pressa que teve Quimbo em cumprir 
as ordens de Simon. 
Quando recebeu o recado, Tom teve um pressentimento na 
alma. Conhecia o carcter terrvel do homem com quem ia 
lutar; conhecia o seu poder desptico; mas sabia tambm que 
Deus lhe daria foras para desafiar a morte antes de trair os 
fracos e desgraados. 
Ps o cesto no cho, e ergueu os olhos ao alto:
- Senhor - murmurou ele -, entrego a minha alma nas 
Vossas mos.
E entregou-se sem resistncia s mos brutais de Quimbo. 
- Ah, ah! - exclamou o gigante arrastando-o -, agora 
vais ajustar contas. O senhor j o devia ter feito h mais 
tempo. Agora no andar para trs!. . . Ajudar!. . . Com 
certeza! Ah, ah! Ajudar os pretos do senhor a fugir! Vais 
ser. . . Vamos ver!
P[197]
 Nem uma s destas palavras selvagens foi escutada por Tom. 
Uma voz que vinha do alto segredava-lhe: 
- No temas aqueles que podem matar o teu corpo, mas que 
depois j no podem mais nada! - E a estas palavras, os ossos 
e os nervos do pobre escravo vibravam como se tivessem sido 
tocados pelo dedo divino! Caminhava, e as rvores, os 
arbustos, as cabanas dos escravos, e toda a natureza em 
volta, testemunha da sua degradao, passavam confusamente 
perante os seus olhos, como a paisagem que foge diante de um 
carro levado por velozes cavalos. Sentia bater o corao. . . 
J via a sua ptria celeste... sentia que se aproximava a sua 
hora!
Legree avanou para ele e, agarrando-o bruscamente pela 
gola do casaco, gritou no paroxismo da clera:
- Sabes que resolvi matar-te?
-  possvel, senhor - respondeu Tom, com a maior calma. 
- Sim. . . resolvi. . . matar-te - continuou Legree, 
martelando as palavras -, se no me contares tudo o que 
sabes. . . 
Tom ficou calado. 
- Ests a ouvir? - gritou Legree, batendo o p, com a 
fria de um leo. - Fala!
- No tenho nada a dizer, senhor - continuou Tom, 
devagar, com voz firme e decidida. 
- Atreves-te a falar-me assim, velho negro cristo? Quer 
dizer que no sabes?
Tom continuou em silncio. 
- Fala! - rugiu Legree, com voz de trovo, e batendo-lhe 
desalmadamente. - Sabes alguma coisa?
- Sei, mas no posso dizer. . . Nem que me mate!
Legree respirou com esforo; dominou a sua raiva, 
agarrou Tom pelo brao e aproximando-se, cara contra cara, 
disse-lhe com voz terrvel:
- Ouve bem. Tu julgas que, porque te deixei ficar para 
a uma vez, no estou a falar verdade. . . Mas agora tomei 
uma deciso. Calculei a despesa! Resististe-me sempre. . . 
Pois bem, vou dominar-te ou matar-te! Das duas, uma! Vou 
tirar-te o sangue das veias gota a gota, at cederes.
Tom levantou os olhos para o seu algoz, e respondeu:
- Se o meu senhor estivesse doente, a morrer, e eu 
pudesse salv-lo. . . oh, ento eu daria todo o meu sangue de 
boa vontade. Sim, se todo o sangue deste pobre corpo pudesse 
salvar a sua alma, dava-o como o Salvador deu o seu prprio 
sangue por mim! Senhor, no queira carregar com esse enorme 
pecado! Far mais mal a si do que a mim! Seja o que for que 
faa, os meus sofrimentos acabaro depressa; mas se no se 
arrepender, os seus nunca mais tero fim!
P[198]
 As palavras de Tom, no meio das violncias de Legree, eram 
como uma rajada de msica celestial no meio da tempestade. 
Esta expanso de ternura foi seguida por uns segundos de 
silncio. Legree ficou imvel, com ar espantado. Mas foi 
apenas um instante. 
Sentiu hesitao e incerteza, mas o esprito do mal 
assaltou-o com mais fora e Legree, espumando de raiva, 
tornou a bater na sua vtima. 
Nenhuma tortura lhe anrancou outras palavras seno as da 
prece e da f.
- Ele vai morrer, senhor - disse Sambo, emocionado 
involuntariamente. 
- E mais! E mais! At que ceda - urrou Legree. - Ou 
confessa, ou mato-o.
Tom abriu os olhos e fixou o seu senhor. 
- Desgraado! - disse ele -, no consegue mais do que 
isto. . . 
E desmaiou. 
- Parece que est pronto - disse Legree aproximando-se 
para o observar. - Sim, est morto! Pelo menos calou-se. . . 
J  uma vantagem. 
O pai Toms no estava morto. As oraes piedosas, e as 
estranhas palavras que pronunciara fizeram uma profunda 
impresso nos dois miserveis transformados em instrumentos 
do seu suplcio. Quando Legree se foi embora, levantaram-no e 
tentaram reanim-lo. . . 
- Parece-me que fizemos uma coisa muito m - disse Sambo 
- mas espero que a culpa seja do senhor, e no nossa!
Lavaram-lhe as feridas e arranjaram-lhe uma cama de 
desperdcios de algodo. Um deles correu a casa e pediu, como 
se fosse para ele, um copo de aguardente que lhe deu a beber. 
- Tom! Ns fizemos-te muito mal! - disse Quimbo. 
- Eu perdoo-lhes do fundo do meu corao - respondeu 
Tom, quase sem voz. 
-  Tom, explica-nos como  esse tal Jesus. O Jesus que 
ficou toda a noite ao p de ti, quem ?
Estas palavras reanimaram o esprito que desfalecia. Em 
frases breves explicou quem era esse Jesus. Contou a Sua vida 
e morte, a Sua presena em toda a parte, e o Seu poder 
salvador!
E. . . aqueles dois homens ferozes, choraram!
- Ento porque no ouvimos falar d'Ele h mais 
tempo?perguntou Sambo. - Mas agora, acredito! Tenho de 
acreditar!. . . Senhor Jesus, tem pedade de ns!
- Pobres criaturas - dizia Tom -, como eu queria sofrer 
ainda mais para os conduzir no caminho de Cristo!  Senhor, 
concedei-me ainda estas duas almas!
E Deus ouviu esta splica. 
P[199]
 Captulo XXXIII
O JOVEM SENHOR
Dois dias mais tarde, umjovem, conduzindo uma leve carruagem, 
atravessava a avenida bordada de rvores- da-china. Atirou as 
rdeas sobre o pescoo dos cavalos e perguntou onde estava o 
dono da casa. 
Esse jovem era Jorge Shelby. 
Para sabermos como se encontrava ali, temos de voltar um 
pouco atrs na nossa histria. 
A carta que a Menina Oflia escrevera  Senhora Shelby 
ficou retida um ou dois meses na estao dos correios. 
Entretanto, o pai Toms foi vendido e levado, conforme vimos, 
para as margens do rio Vermelho. 
Esta notcia afligiu muito a Senhora Shelby, mas naquele 
momento nada se podia fazer. Ela estava  cabeceira do marido 
doente, e por vezes com delrios causados pela febre. Jorge 
Shelby transformara-se num homem. Ajudava a me e tomava 
conta da administrao geral dos negcios da famlia. Oflia 
tivera o cuidado de indicar a direco do procurador de 
Saint-Clare. Escreveram- lhe a pedir informaes: a situao 
da famlia no lhes permitia fazerem mais nada. A morte do 
Senhor Shelby trouxe outras preocupaes. 
O Senhor Shelby provou a sua confiana na habilidade da 
mulher, deixando-lhe a administrao da sua fortuna: era dar-
lhe mais preocupaes. 
A Senhora Shelby, com a sua energia habitual, comeou a 
desembaraar aquela meada. Ela e Jorge preocuparam-se 
primeiro em examinar e verificar as contas, em vender e pagar 
as dvidas. A Senhora Shelby queria liquidar as dvidas, 
fosse como fosse. Foi nessa altura que chegou a resposta do 
procurador: no sabia nada. Tom tinha sido vendido em leilo 
pelo preo que convinha  Senhora Saint-Clare, e no sabia 
dizer mais nada. 
Nem Jorge nem a Senhora Shelby podiam contentar-se com 
semelhante resposta. Passados seis meses, os negcios da 
Senhora Shelby obrigaram Jorge a deslocar-se ao Sul do Ohio; 
resolveu ir tambm a Nova Orlees e saber notcias do seu 
pobre Tom. 
Aps longas e infrutferas buscas, jorge encontrou um 
homem de Nova Orlees que lhe deu todos os pormenores 
necessrios. 
Com dinheiro no bolso, partiu para o rio Vermelho, 
decidido a resgatar o seu velho amigo. 
Mandaram-no entrar. Legree estava no salo e recebeu o 
jovem estrangeiro com uma delicadeza bastante inesperada. 
- Soube que comprou em Nova Orlees um escravo chamado 
Tom - disse Jorge. - Pertencia  casa do meu pai, e venho ver 
se  possvel
P[200]
 resgat-lo. 
Legree franziu a testa e teve novo ataque de fria. 
- Sim - disse ele -, comprei com efeito um indivduo com 
esse nome. . . Fiz um pssimo negcio!  um co sem vergonha, 
um patife sempre revoltado. Incitava os meus negros a 
fugirem. Est  beira da morte, no sei se escapar. . . 
- Onde est ele? - perguntou Jorge. - Quero v-lo!
- Est naquele armazm - disse um rapazinho que segurava 
o cavalo de Jorge. 
Legree rogou uma praga e deu um pontap no rapaz. Jorge, 
sem dizer mais nada, correu para o armazm. 
Tom ficara deitado dois dias depois daquela noite fatal. 
J no sofria. . . Todos os nervos que o podiam fazer sentir 
a dor se tinham quebrado. . . Estava numa espcie de torpor 
tranquilo. Um organismo robusto e resistente no liberta to 
depressa a alma que alberga; de vez em quando, durante a 
noite, os escravos roubavam alguns instantes ao seu repouso 
para lhe levarem o consolo do afecto que ele prodigalizara a 
todos. . . Coitados! Tinham to pouco para lhe dar: a sede de 
gua de que fala o Evangelho! Mas davam-na com todo o 
corao. 
Quando Jorge entrou no velho armazm, sentiu a cabea 
andar  roda. . . Julgou que ia desmaiar. 
-  possvel?  possvel, pai Toms? Meu pobre e velho 
amigo! E ajoelhou-se no cho ao lado de Tom. 
Havia naquela voz qualquer coisa que penetrava at  
alma do moribundo. . . Voltou a cabea devagar e disse:
- Deus tornou o meu leito de morte mais suave do que o 
arminho. 
Jorge inclinou-se para o pobre escravo, e deixou cair grossas 
lgrimas que condiziam com o seu corao viril. 
- Pai Toms, meu querido amigo, acorda! Fala um pouco 
comigo. . . Olha para mim! Sou o Jorge, o teu menino. . . No 
me reconheces?
- Menino Jorge - disse Tom, abrindo os olhos e falando 
com voz quase extinta. . . E pareceu no acreditar. 
Depois, lentamente, as ideias aclararam-se no seu 
esprito. . . os olhos errantes fixaram-se e tomaram brilho. 
Todo o seu rosto se iluminou, as mos calosas juntaram-se e 
ao longo das faces deslizaram-lhe duas lgrimas. 
- Deus seja louvado! Era tudo, era tudo quanto eu 
desejava! No me esqueceram. . . Alegra a alma! Como sinto o 
corao feliz! Agora morro satisfeito! Bendito seja Deus!
- No, tu no vais morrer. No podes morrer. Eu venho 
resgatar-te e levo-te para a nossa casa! - disse Jorge, com 
mpeto. 
- Ah, Menino Jorge, chega tarde de mais! O Salvador j 
me comprou, e vai levar-me parajunto d'Ele, e eu vou. o cu  
melhor do
P[201]
que Kentucky.
- No morras, pai Toms! S de pensar no que sofreste, 
parte-se- me o corao! E ver-te deitado neste stio 
horrvel! Pobre, pobre e querido Tom!
- Oh, no, pobre no! - disse Tom solenemente. - Fui 
pobre, mas esse tempo j passou! Agora estou no limiar da 
glria. . . Oh, Menino Jorge, o cu veio ter comigo! Ganhei a 
batalha: o Senhor deu-me a vitria. . . Louvado seja o Seu 
nome!
Jorge estava cheio de respeito e de espanto pela fora 
com que estas frases interrompidas eram pronunciadas por Tom. 
. . Sentia admirao e calava-se. 
Tom pegou na mo do seu jovem senhor, e apertando-a 
entre as suas, disse:
- No conte  Clo o estado em que me encontrou. . . 
Pobre alma. . . seria para ela um golpe demasiado horrvel. . 
. Diga-lhe s que me viu a caminho da Glria, e que eu no 
podia continuar mais tempo neste mundo. Diga-lhe que Deus 
est comigo, sempre e em toda a parte, e que Ele me tornou 
tudo fcil de suportar! E os meus pobres filhos, e a mais 
pequenina. . . Oh, o meu pobre e velho corao parte-se 
quando penso neles. Diga-lhes que venham ter comigo. . . que 
me sigam! D os meus cumprimentos ao meu bom senhor e  minha 
senhora, e a todos, quando voltar! Sabe, Menino Jorge, 
parece-me que amo toda a gente, todas as criaturas que 
existem. . . Amar. . . No h mais nada no mundo! Oh, Menino 
Jorge,  to bom ser cristo!
Neste momento apareceu Legree  porta do velho armazm; 
olhou com ar aborrecido e indiferena afectada, e depois 
afastou-se. 
- O velho criminoso! - disse Jorge com indignao. -  
com prazer que penso no dia em que o domnio o levar!
- Oh, no!. . . No deve dizer isso - continuou Tom 
apertando a mo do jovem. -  uma criatura desgraada!. . Se 
ao menos ele se arrependesse, se o Senhor lhe perdoasse. . . 
Mas receio que nunca se arrependa. 
- Oxal que no - disse Jorge -, porque no quero 
encontr-lo no cu.
- Ah, Menino Jorge, faz-me sofrer! No pense assim. Ele 
no me fez mal. . . pelo contrrio, abriu-me as portas do 
reino de Deus!
Neste momento, a fora febril que a alegria de ver o seu 
jovem senhor dera ao moribundo desvaneceu-se para nunca mais 
voltar. uma sbita fraqueza venceu-o. . . fechou os olhos, e 
na face deu-se aquela misteriosa e sublime mudana que 
anuncia a aproximao de outros mundos. . . 
A respirao alterou-se, tornando- se curta e difcil; o 
peito largo elevava-se e baixava-se com dificuldade, mas o 
rosto continuava com
P[202]
 a mesma expresso serena e triunfante. 
- Quem pode, quem pode afastar-nos do amor de 
Cristo?murmurava ele, com uma voz que lutava contra a ltima 
fraqueza. . . e adormeceu com um sorriso. 
Jorge sentou-se, ficou imvel e em atitude respeitosa. . 
. E fechou aqueles olhos para sempre. . . Quando se levantou, 
Legree estava de p por detrs dele, com expresso 
carrancuda. . . 
Aquela cena de morte acalmara os mpetos do jovem. 
Contudo, a presena de Legree desagradava-lhe. Queria 
afastar-se dele e dizer-lhe o menor nmero de palavras 
possvel. 
Fixou no plantador os olhos negros e penetrantes e, 
apontando o cadver, disse:
- J tirou dele tudo o que era possvel tirar. Quanto 
quer pelo corpo? Desejo lev-lo e dar-lhe uma sepultura 
decente. 
- No vendo pretos mortos - disse Legree, com ar 
arrogante. Pode enterr-lo onde quiser e quando quiser. 
- Rapazes - disse Jorge com autoridade a dois ou trs 
negros que ali estavam a olhar para o corpo -, ajudem-me a 
met-lo no meu carro. Depois dem-me uma p!
Um dos escravos foi a correr buscar a p. Os outros dois 
ajudaram Jorge a meter o corpo no carro. 
Jorge no dirigiu a Legree uma palavra, nem um olhar. 
Legree deixou-o dar ordens sem intervir; assobiava com uma 
indiferena apenas aparente. . . e seguiu o carro at  
porta. 
Jorge estendeu o seu capote no carro, e deitou sobre ele 
o morto, recuando o banco para ter espao. Depois voltou-se, 
olhou para Legree fixamente, e atirou-lhe com forada calma:
- Ainda no lhe disse o que penso deste acto horroroso: 
no  stio nem ocasio para isso. Mas este sangue inocente 
ser vingado. Eu vou denunciar este crime. . . Irei falar com 
o magistrado e denunci-lo!
- V, v! - gritou Legree, encolhendo os ombros com 
desprezo. 
- Gostava de saber o resultado! E as testemunhas? E as 
provas? 
Jorge sentiu demasiado bem a fora deste desafio! No havia 
um nico branco na casa, e nos tribunais do Sul o testemunho 
de negros no  admitido!. . . 
- O que a vai por causa de mais um preto morto - disse 
Legree. Estas palavras foram como a fasca num barril de 
plvora. A prudncia no era uma das virtudes do jovem de 
Kentucky. Jorge voltou-se para ele, e deu-lhe uma tremenda 
chicotada na cara, fazendo-o cair por terra. Depois, 
calcando-o aos ps, louco de fria, parecia o seu glorioso 
homnimo, triunfante do drago. 
Decididamente, h pessoas que precisam de apanhar uma 
sova; atirem- nas ao cho, e ficam cheias de respeito por 
quem lhes bate. . . 
P[203)
 Legree era dessas pessoas. Levantou-se, sacudiu o p da 
roupa e seguiu com os olhos o carro que se afastava 
lentamente. . . Via-se que ficara com respeito por Jorge. E 
no abriu a boca enquanto ele no desapareceu no caminho. 
Para l dos limites da plantao, Jorge descobriu um 
pequeno montculo, seco e arenoso,  sombra de algumas 
rvores. 
Foi ali que abriu a sepultura. 
Quando tudo ficou pronto, os negros perguntaram:
- Senhor, tiramos-lhe o capote?
- No, no, enterrem-no com ele. Pobre pai Toms, agora 
 tudo quanto posso dar-te. 
Toms foi metido na cova. Os escravos taparam-na em 
silncio; alisaram a modesta campa, e cobriram-na de musgo. 
- J se podem ir embora, rapazes - disse Jorge, dando-
lhes algumas moedas. 
Mas eles no foram. 
- Se o jovem senhor nos quisesse comprar - disse um. 
- Seramos to fiis! - continuou o outro. 
- A vida aqui  dura. . . Compre- nos, por favor!
- No posso - disse Jorge, muito comovido -, no posso. 
- E tentava afast-los. 
Os pobres escravos ficaram muito tristes e afastaram-se 
em silncio. 
Jorge ajoelhou sobre a campa do seu pobre amigo. 
- Deus eterno - disse ele -, Deus eterno. Juro que a 
partir de hoje farei tudo o que puder para libertar o meu 
pas desta maldio da escravatura!

Nenhum monumento indica o lugar onde repousa o nosso 
amigo. . . E para qu? Deus sabe onde ele est, e ir busc-
lo um dia para o levar, imortal,  Sua santa glria.

A partir de ento, Legree passou a beber mais do que 
nunca, tinha sempre o crebro em brasa e praguejava com mais 
frequncia durante o dia. 
De noite, os seus pesadelos eram cada vez mais 
horrveis. Na noite a seguir  morte de Tom, dirigiu-se  
cidade prxima para beber. Voltou tarde e esgotado. 
Isso no o impediu de fechar a porta  chave e encostar-
lhe uma cadeira. Ps uma vela  cabeceira da cama e as 
pistolas ao lado. Examinou os trincos e as fechaduras 
dasjanelas, depois berrou que no temia anjos nem demnios. 
Adormeceu porque estava cansado, e dormiu profundamente. 
Mas da a pouco passou uma sombra no seu sonho, um medo vago 
de
P[204]
 qualquer coisa de terrvel. Julgou ver a mortalha da me, 
mas era Cassy quem a arrastava; tinha-a na mo e mostrava-a a 
Legree. . . Ele ouviu o barulho confuso de gritos e gemidos. 
Sabia contudo que sonhava e fazia mil esforos para acordar. 
Tinha a certeza de que andava qualquer coisa no quarto. Via 
que a porta estava aberta. Mas no conseguia mexer os ps nem 
as mos. . . Por fim, acordou completamente. . . A porta 
estava aberta; viu a mo de algum apagar a vela. 
A Lua estava encoberta pelas nuvens e pelo nevoeiro e, 
apesar disso, ele viu qualquer coisa branca que deslizava. . 
. Ouviu o roar das vestes de um fantasma. . O fantasma ficou 
imveljunto da cama. . Uma forte mo tocou-lhe trs vezes, e 
uma voz que falava muito baixo, mas num tom horrvel: Vem! 
Vem! Vem!. . . Suava de pavor, mas sem perceber como, a coisa 
desapareceu. Legree saltou da cama e correu para a porta; 
estava fechada e trancada... Legree desmaiou. 
A partir desse dia, Legree passou a beber ainda mais. J 
no bebia como antes, com prudncia e medida; bebia numa 
fria. 
Depressa se espalhou na regio a notcia de que Legree 
estava doente, depois, que estava a morrer. Era castigado 
pelos seus excessos, por aquela doena que parece projectar 
na vida presente a sombra dos castigos da outra vida. 
Ningum suportava os horrores da sua agonia: gritava, 
soluava, praguejava. 
No seu leito de morte, sombria, imvel, inexorvel, uma 
enorme figura de mulher estava de p e dizia:
- Vem!. . . Vem!. . . Vem!. . . 

Captulo XXXIV
RESULTADOS
O resto da histria conta-se depressa. 
H cinco anos que Jorge e Elisa so livres. Jorge, 
constantemente ocupado numa oficina de mecnica, ganha o 
suficiente para sustentar a familia, aumentada com mais uma 
filha. 
Harry  um lindo rapaz que j vai  escola; estuda e faz 
progressos. Estamos numa linda casinha dos arredores de 
Montreal.  de noite. O lume arde na lareira. A mesa est 
posta para o ch sobre uma toalha branca de neve. A um canto 
da sala v- se outra mesa coberta por um pano verde. H 
canetas, papel, etc. ; na parede por cima da mesa, 
prateleiras com livros. 
Este cantinho  o gabinete de Jorge. 
O amor ao progresso, que o fez aprender a ler e 
escrever, apesar das
P[206]
 fadigas e desalentos da sua infncia, entusiasma-o a 
trabalhar e aprender cada vez mais. 
- Ento, Jorge - diz Elisa -, estiveste fora todo o dia. 
Larga os livros! Conversa um pouco comigo enquanto preparo o 
ch. . . 
E a pequena Elisa, secundando os esforos da me, corre 
para o pai e tenta arrancar-lhe o livro das mos e saltar-lhe 
para o colo. 
- Minha feiticeirinha! - diz Jorge. 
E cede. . .  o melhor que um homem faz em semelhantes 
casos. 
- Agora sim - diz Elisa cortando uma fatia de po. 
Elisaj no tem um ar tojovem. Engordou um pouco. Penteia-se 
com mais austeridade. Mas parece o mais contente e feliz que 
uma mulher pode ser. 
- Harry, meu filho, como te saiu a soma hoje? - pergunta 
Jorge, pondo a mo na cabea do filho. 
- Fi-la sozinho, pai; sem a ajuda de ningum. 
Harry j no usa os compridos caracis, mas continua a 
ter os mesmos grandes olhos, as longas pestanas e aquela 
testa alta, cheia de orgulho, o orgulho triunfante com que 
responde ao pai. 
- Est bem! - diz Jorge. - Continua a trabalhar, meu 
filho. s bem mais feliz do que o teu pai quando tinha a tua 
idade. 
Alguns anos mais tarde, Jorge, a mulher e os filhos 
embarcaram para frica. Ou nos enganamos muito, ou o mundo 
ainda ouvir falar deles.
No h grande coisa a dizer do resto das nossas 
personagens. Uma palavra, contudo, para a Menina Oflia e 
para Topsy, e um captulo de adeus, que dedicaremos a Jorge 
Shelby.

A Menina Oflia levou Topsy consigo para Vermont. Foi 
grande a surpresa daquela respeitvel e decidida gente a que 
na Nova Inglaterra chamam sempre a nossa gente. A nossa gente 
pensou portanto, em princpio, que Topsy era uma aquisio 
to estranha como intil para a sua casa, completamente 
organizada. Mas os esforos da Menina Oflia para completar a 
tarefa educativa que tomara a seu cargo tinham sido coroados 
de tanto xito, que Topsy ganhou rapidamente as boas graas e 
os favores da familia e de toda a vizinhana. Quando atingiu 
a adolescncia, pediu para se baptizar e tornou-se membro da 
igreja crist da cidade. Revelou tanta inteligncia, zelo e 
actividade, e um desejo to grande de praticar o bem, que a 
mandaram como missionria para frica; e aquele esprito 
activo e engenhoso, que fizera dela uma criana to 
irrequieta, empregou-o, de maneira mais til e mais nobre, 
ensinando as crianas do seu pas. 
[207)
 Captulo XXXV 
O LIBERTADOR
Jorge Shelby no escrevera  me uma nica palavra a 
anunciar o seu regresso. No tivera coragem de contar a cena 
da morte a que assistira; tentara vrias vezes, mas a penosa 
recordao sufocava-o. Acabava sempre por rasgar o papel, 
limpava as lgrimas e saa para se distrair. 
Toda a casa se ps em movimento no dia marcado para a 
chegada do jovem senhor. 
A Senhora Shelby estava sentada no salo. Um bom lume 
expulsava a humidade dos ltimos dias de Outono. Em cima da 
mesa posta para a ceia brilhava a rica baixela e os cristais 
lapidados. 
A me Clo presidia a todos os arranjos. 
Tinha um vestido novo de algodo com um lindo avental 
branco e um soberbo turbante. A sua cara negra e reluzente 
irradiava alegria. Demorava-se em toda a espcie de mincias 
em volta da mesa, para ter o pretexto de conversar um pouco 
com a sua senhora. 
- Como ele vai ficar contente - disse ela. - Ponho o 
talher dele onde ele gosta, ao p da lareira. O Senhor Jorge 
gosta do quentinho. Mas porque  que a Sally no ps a 
chaleira melhor, aquela que o Senhor Jorge ofereceu  senhora 
pelo Natal?. . Vou busc-la. A senhora teve notcias do 
Senhor Jorge? - perguntou ela com certa inquietao. 
- Tive, Clo. Apenas umas linhas a dizer-me que conta 
chegar hoje. Mais nada. 
- E no falava no meu pobre homem? - perguntou Clo, 
voltando as chvenas. 
- No, nada, Clo. Diz que nos conta tudo quando chegar. 
-  mesmo do Senhor Jorge!. . . Gosta sempre de ser ele 
a contar tudo. Foi sempre assim. C por mim, no sei como os 
brancos conseguem escrever tanto. . .  to difcil escrever!
A Senhora Shelby sorriu. 
- J estou  espera que o meu pobre homem no conhea os 
filhos. . . E ento a piquinina! Est forte agora! E  muito 
boazinha e bonita, muito bonita! Ficou em casa a vigiar o 
bolo. . . Fiz-lhe um bolo mesmo como ele gosta. . . Tal e 
qual como o daquela manh em que se foi embora! Meu Deus, o 
que eu sofri nessa manh!
A Senhora Shelby suspirou. Tinha um peso no corao. 
Estava inquieta desde que recebera a carta do filho. . . 
Pressentia qualquer desgraa por detrs daquele 
silncio. 
- A senhora guardou as notas? - perguntou Clo, 
preocupada. 
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- Guardei, sim, Clo. 
-  porque eu quero mostrar as notas ao meu pobre homem, 
as mesmas que o fabricante me entregou. . . Clo! - disse-me 
ele - eugostava que ficasses aqui mais tempo - Obrigada, 
senhor - disse-lhe eu -, mas o meu pobre homem vai voltar e a 
senhora no me pode dispensar por mais tempo. Foi mesmo assim 
que eu disse. . .  um bom homem, o Senhor Jones.
Clo insistira em conservar as notas com que lhe 
tinham pago os ordenados, a fim de as mostrar ao marido como 
prova dos seus talentos. A Senhora Shelby acedera de boa 
vontade em fazer-lhe esse favor. 
- O meu homem ainda no conhece a Polly. . . No, 
no a conhece!. . . Foi h cinco anos que o levaram!. . . 
Ainda ela era beb. . . Nem sequer andava. Lembra-se, minha 
senhora, do medo que ele tinha quando ela queria andar. . . 
Pobre homem!
Ouviu-se o rudo de um carro. 
-  o Senhor Jorge - E Clo correu  janela. 
A Senhora Shelby correu  porta do vestbulo; 
apertou o filho nos braos. Clo, imvel, tentava com os 
olhos atravessar as trevas da noite. 
- Pobre me Clo! - disse Jorge, muito emocionado. 
Segurou a mo negra entre as suas. 
- Daria de boa vontade a minha fortuna para o 
trazer comigo; mas ele foi para um mundo melhor. 
A Senhora Shelby deixou escapar um grito de dor. 
Clo no disse nada. 
Entrou na sala de jantar. 
O dinheiro de Clo estava ainda em cima da mesa. 
- Agora - disse ela apanhando as notas e 
estendendo-as  sua senhora com a mo a tremer. . . -j no  
preciso mostrar-lhas, nem falar no assunto. . . Eu sabia que 
isto ia acontecer. . . Vendido e morto nessas velhas 
plantaes!
Clo voltou-se e saiu da sala, muito direita. . A 
Senhora Shelby seguiu-a, pegou-lhe na mo e f-la sentar-se 
numa cadeira ao seu lado. 
- Minha pobre e boa Clo!
Clo encostou a cabea ao ombro da sua senhora, e 
soluou. 
- Desculpe, minha senhora! Parte-se-me o corao. .  s 
isso!
- Compreendo, Clo - disse a Senhora Shelby, lavada 
em lgrimas. - No posso consolar-te. . . Mas Jesus pode: Ele 
acode aos aflitos e sara todas as feridas. . . 
Houve alguns instantes de silncio e todos 
choraram. Finalmente, Jorge sentou-se ao p da escrava e com 
uma eloquncia cheia de simplicidade, descreveu aquela cena 
de morte, gloriosa como uma apoteose, e repetiu as palavras 
de amor e ternura da ltima mensagem do pai Toms. 
P[209)
Passado um ms, todos os escravos da casa Shelby estavam 
reunidos no grande salo, para ouvirem uma comunicao do seu 
jovem senhor. 
Qual no foi a sua surpresa quando o viram aparecer com 
um mao de papis. Eram as suas cartas de alforria; leu-as a 
todos sucessivamente e entregou-as a cada um. Ouviram-se 
choros, soluos e vivas!
Muitos, todavia, pediram-lhe para no os mandar embora; 
acotovelavam-se em sua volta e queriam obrig-lo a receber 
novamente as cartas. 
- No precisamos de mais liberdade do que j temos; no 
queremos abandonar a nossa velha casa, nem o senhor, nem a 
senhora, nem tudo o resto. 
- Meus bons amigos - disse Jorge, assim que conseguiu um 
momento de silncio -, no precisam de me deixar, a quinta 
precisa de tantas mos como antes; mas vocs, homens e 
mulheres, so todos livres. . . Pagarei pelo vosso trabalho 
os ordenados que se combinarem. Se eu morrer ou ficar 
arruinado, vocs tero pelo menos a vantagem de no poderem 
ser vendidos. Eu fico  frente da propriedade e ensino-os a 
usar os vossos direitos de homens livres. Vai levar tempo! 
Mas espero que sejam bons e estejam dispostos a aprender. E 
agora, meus amigos, levantem os olhos para o cu, e agradeam 
a Deus o dom da liberdade.
Um velho negro, de cabelos brancos, que envelhecera na 
quinta e que estava cego, levantou-se, estendeu as mos a 
tremer e exclamou: 
- Agradeamos ao Senhor! - Todos ajoelharam. Nunca Te Deum 
mais emocionante e mais sincero se elevou aos cus.  certo 
que no tinha a acompanh-lo a msica imponente do rgo, nem 
o toque dos sinos ou o troar do canho; mas partia de 
coraes puros. 
- S mais uma palavra - disse Jorge terminando com os 
agradecimentos. - Lembram-se do nosso bom pai Toms?
Fez-lhes depois a rpida descrio da sua morte, e 
transnitiu a despedida que ele enviara a todos os habitantes 
da quinta. 
E acrescentou:
- Foi sobre a sua campa, amigos, que jurei perante Deus 
nunca mais possuir um s escravo, enquanto pudesse libert-
lo. . . e que ningum, por minha causa, correria o risco de 
ser arrancado ao seu lar e  famlia, para ir morrer, como 
ele morreu, numa plantao abandonada. . . Amigos, todas as 
vezes que sintam a alegria de serem livres, lembrem-se de que 
devem a liberdade a essa pobre e boa alma, e paguem a vossa 
dvida de ternura  mulher e aos filhos dele. . . Pensem na 
vossa liberdade cada vez que passarem pela cabana do pai 
Toms; que ela vos recorde o exemplo que ele nos deu. Sigam-
lhe as pisadas e, como ele, sejam honestos, fiis e cristos. 
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Fim
